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a Revista de la Pátria Grande


EM DEBATE / EN DEBATE

Profissão: professor/a
Menga Lüdke Rio de Janeiro - Brasil



La figura del profesor continúa ocupando un espacio central en la sociedad como mediador, heredero, intérprete y crítico de su cultura junto a los iniciantes. Uno de los mayores problemas a ser superados en la formación docente universitaria es la relación teoría-práctica, debiendo explorar más el lado práctico o técnico del futuro profesor. Otro requisito para la formación docente, es la urgente conscientización del profesor sobre el papel de las organizaciones colectivas junto a los órganos de gobierno. Al contrario de lo que sucede con otros profesionales, el profesorado viene siendo historicamente regido y controlado por poderes externos a él.

Foto João Ripper

O tema proposto representa um desafio irrecusável. Vou tentar enfrentá-lo a partir de minha experiência de vida e de trabalho como professora e pesquisadora. Como tenho pesquisado sobre questões ligadas à profissão docente, é sobre elas que vou basear minha contribuição para o debate.

PROFISSÃO: UM CONCEITO CONTRADITÓRIO

Logo de início, é preciso lembrar que o próprio conceito de profissão não representa uma unanimidade de concepções entre seus estudiosos, especialmente no campo da sociologia. Ele tem uma longa história, evoluindo das corporações medievais, nas quais a aprendizagem dos ofícios se fazia pela longa convivência entre o aprendiz e seu mestre, até as profissões liberais da época atual, cuja preparação exige longos e aprofundados estudos, realizados em instituições especializadas, em geral situadas no nível da educação superior.

As controvérsias entre os estudiosos, a propósito do conceito de profissão, giram em torno dos elementos que entram na sua composição, não havendo um acordo pleno entre eles sobre quais desses elementos são mesmo essenciais, imprescindíveis para que se considere determinada ocupação como uma verdadeira profissão. Consegue-se estabelecer um certo consenso apenas ao redor de dois componentes de uma profissão: uma prestação de serviço ao público, pelo qual se recebe uma remuneração e que exige uma preparação especifica, já que se trata de um serviço também especifico, reservado, portanto, àqueles que se prepararam para ele. Há vários outros traços, na composição de uma profissão, que são intensamente discutidos, como mostra a literatura pertinente, mas que não mencionarei aqui, embora sua discussão seja muito interessante.

Basta a indicação dos traços mencionados para se visualizar a situação vulnerável na qual se encontra a “profissão docente”, que prefiro deixar entre aspas, para assegurar que minhas próprias dúvidas a respeito não me permitam emitir uma opinião definitiva sobre o assunto. No caso do Brasil, além dos problemas gerais, há a questão específica dos vários caminhos aceitos para a preparação do professor, em instituições de nível médio (Escolas Normais) ou de nível superior (universidades, instituições isoladas, Curso Normal Superior, Instituto Superior de Educação) e ainda um enorme contingente de professores sem a devida qualificação, mesmo mínima (250 mil, segundo dados do MEC).

Essas dúvidas não me impedem, entretanto, de reconhecer a importância da profissão docente, com ou sem aspas, e do processo de profissionalização do professor. Um sinal, entre muitos outros, é suficiente para ressaltar de modo claro a importância dessa ocupação, no conjunto das profissões hoje existentes: todas elas, ou melhor, todos os seus profissionais dependem do magistério no momento de sua iniciação às primeiras letras. Embora se possa admitir casos raros de crianças que tenham essa iniciação no ambiente doméstico e ainda que devamos reconhecer a importância do papel dos meios tecnológicos hoje a serviço do processo de aprendizagem, ainda assim, a figura do professor continua ocupando um espaço central nesse processo. É ele que recebe da sociedade o mandato de mediador, herdeiro, intérprete e crítico de sua cultura junto aos iniciantes, como expressa de modo muito feliz um autor canadense, cujo artigo será brevemente publicado no Brasil (GAUTHIER e MELLOUKI, 2004). O professor continua, a meu ver, exercendo essas funções fundamentais e para tanto é preciso que receba uma preparação à altura.

A FORMAÇÃO DE PROFESSORES

A preparação para o exercício de qualquer profissão e para o desenvolvimento profissional de seus integrantes se desenrola em duas dimensões básicas: uma relativa aos próprios indivíduos que dela participam, outra externa a eles, relativa ao meio social onde se inserem, que vou denominar contextual. Entre esses dois pólos se desenvolve a profissão e cada indivíduo vai compondo sua identidade profissional, num jogo que envolve suas próprias características pessoais e as influências do grupo social com o qual convive, com suas expectativas e demandas sobre cada um dos participantes, e as reações destes, num processo relacional muito bem analisado por Dubar (1997). Além desse contexto, que cerca de imediato o trabalho do profissional, há uma dimensão contextual bem mais ampla, composta por toda a sociedade organizada e pelo Estado que a representa, com suas legislações, normas e regulamentações, cuja incidência recai em cheio sobre o exercício de todas as profissões, ainda que haja notáveis diferenças nos graus da influência que exercem sobre cada uma delas.

Foto João Ripper

Veremos logo como isso afeta especialmente a profissão do educador. Antes quero analisar brevemente as questões envolvidas na preparação do profissional da educação, em sua dimensão que chamei de individual, para responder ao desafio lançado pelo tema proposto. É importante que a formação desse profissional comece por assegurar um bom domínio da área especial à qual irá consagrar seu trabalho docente. Em sua tese de doutorado, Cecília Borges analisa o depoimento de professores da educação básica (5ª a 8ª séries), sobre a importância dos conhecimentos, ou melhor, dos saberes que compõem o arsenal com o qual trabalham em suas escolas (Borges, 2002). Embora indiquem o domínio dos conhecimentos específicos de sua área como essencial, esses professores logo indicam também, como indispensáveis, os conhecimentos relativos ao processo de trabalho docente, ao currículo a ser desenvolvido, à própria estruturação da instituição escolar, ao chamado “domínio de turma”, à legislação vigente, enfim, a todo um conjunto de saberes dos quais o professor precisa dispor nos momentos mais inesperados, ou no cotidiano regular da sala de aula e da escola.

O que fica patente no depoimento dos informantes, e mesmo para eles é surpreendente, pois nunca tinham se dado conta antes de serem questionados pela entrevistadora, é que boa parte dos conhecimentos, que consideram imprescindíveis ao seu trabalho docente, foram adquiridos justamente ao longo desse trabalho, no convívio com colegas e com os próprios alunos. Trago esse testemunho para lembrar a importância da consideração de todos os tipos de saberes na preparação de professores, não só quando se trata da formação pré-serviço, que gosto de chamar “apenas inicial”, para não atribuir a ela expectativas de formação que só poderão ser satisfeitas ao longo da experiência profissional, como bem analisa Tardif (1991 e 2000). O processo de socialização profissional, que se inicia, ao longo da preparação pré-serviço, só pode se completar após a entrada do profissional iniciante em sua vida de trabalho regular, por vezes feita de maneira dolorosa, como analisa a dissertação de Freitas (2000). O professor, ou melhor, a professora, recém formada pela universidade, chega à escola de educação básica e, muitas vezes, se vê designada para uma turma de alunos “difíceis”, repetentes, com problemas de aprendizagem e atraso na trajetória escolar. Seu desempenho, provavelmente, também vai ter problemas e seu “rendimento”, em termos de aprovações, será sofrível. Ela não recebeu preparação prévia específica para lidar com essa situação e nem sequer foi alertada para o desafio dessa fase do processo de socialização profissional, que encontraria ao começar a lecionar.

Não posso me alongar na discussão dessas questões tão vitais na formação do educador, trazidas especialmente para introduzir o debate sobre um aspecto que considero particularmente importante nessa formação. Trata-se da preparação do lado prático, ou técnico, do futuro professor, deixado um tanto à deriva, quando essa preparação passou a ser atribuída primordialmente à universidade. Não há dúvidas sobre a legitimidade dessa atribuição. É a universidade que pode oferecer as melhores condições para que o futuro educador entre em contato com a produção de conhecimentos, em suas diferentes áreas e possa ser introduzido na formação para as atividades de pesquisa, indispensável na preparação de todo profissional, de modo especial o educador. Ela será responsável pela introdução de seus alunos, futuros integrantes de todas as profissões, na compreensão e no interesse pela prática da pesquisa. No caso do professor, a prática da pesquisa (ou pelo menos a sua possibilidade) representa uma garantia de acesso à construção do conhecimento, distanciando-o do estigma de mero repetidor de conhecimentos produzidos por outros. Ela representa também a segurança de que o professor semeará proficuamente a idéia inicial de pesquisa entre todos os seus alunos.

Foto João Ripper

LIÇÕES DA EXPERIÊNCIA

Voltando ao aspecto que chamei de prático, ou técnico, acho que podemos extrair lições da experiência vivida pela velha e boa Escola Normal, que sabia lidar muito bem com esse lado da formação de futuros professores. Talvez porque ela tratasse exclusivamente da preparação de professores de um dos níveis de ensino, o primário, conseguia executar sua tarefa com bastante êxito, como atestam várias pesquisas, entre as quais a de Shaffel (1999), que focaliza professoras primárias formadas nas décadas de 30,40,50 e 60. Todas as entrevistadas deram testemunho de terem recebido uma formação, segundo elas, bastante satisfatória, para enfrentarem os inúmeros obstáculos que todas narraram terem encontrado (e vencido!) em suas carreiras profissionais. É certo que muitos fatores mudaram ao longo dos anos desde então. A Escola Normal não é mais a mesma, nem sua clientela, nem os alunos para os quais ela preparava professores. Não é possível aprofundar aqui a discussão desde ponto bastante complexo. Quero, porém, deixar assinalada minha impressão de que nele pode residir uma chave para o enfrentamento de um problema muito mal equacionado na formação de professores pela universidade e que, de maneira muito sumária, poderíamos resumir como o das relações entre teoria e prática.

Tratando agora do lado contextual do processo de profissionalização dos professores, reconheço que há urgência no tratamento dessa importante questão junto aos professores, tanto em sua formação pré-serviço, como naquela que se continua ao longo de sua trajetória docente. É fundamental que eles conheçam todas as implicações desse processo e possam, assim, reinvindicar as condições indispensáveis para seu melhor encaminhamento. A conscientização como profissional vai alertar o professor, e o futuro professor, sobre o papel das organizações coletivas junto aos órgãos governamentais, que estabelecem as leis, normas e regulamentações que regem a carreira e as condições de trabalho do grupo ocupacional docente. É Nóvoa (1991), dentre outros autores, que esclarece muito bem como esse grupo vem sendo, ao longo da história, regido e controlado por um poder externo a ele, contrariamente ao que ocorre com outros grupos profissionais.

Foto João Ripper

Em conclusão, gostaria de ressaltar a importância da conscientização profissional do educador, dentro de uma perspectiva que reconhece o valor do seu papel na sociedade atual. Ele continua o grande iniciador de todos os futuros profissionais, sendo responsável pela passagem da herança sociocultural, à qual todas as crianças têm direito, como membros da sociedade. Embora haja muitos fatores hoje concorrendo, é o professor que vai orquestrando esse processo, fundamental para uma participação equalitária de todos os cidadãos, iniciando-se com força. (NA)


BORGES, C. M.. O professor de educação básica de 5ª a 8ª série e seus saberes profissionais. 2002. Tese (Doutorado em Educação) – Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro.

DUBAR, C.. A socialização: construção das identidades sociais e profissionais. Porto: Porto Editora, 1997.

FREITAS, M. N. de C. A socialização profissional de professores iniciantes. 2000. Dissertação (Mestrado em Educação) – Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro.

GAUTHIER, C e MELLOUKI, M L'enseignant et son mandat: médiateur, héritier, interprète, critique. Aprovado para publicação na revista Educação e Sociedade nº 87.

NÓVOA, A. Profissão professor. Porto: Porto Editora, 1991. TARDIF, M. et al. Os professores face ao saber: esboço de uma problemática do saber docente. Teoria &Educação, n.4, 1991.

TARDIF, M. Saberes profissionais dos professores e conhecimentos universitários. Revista Brasileira de Educação, Rio de Janeiro, n.13, p.5-24, jan./fev./mar./abr. 2000.

SHAFFEL, S. L. O Instituto de educação do Rio de Janeiro e a construção de uma identidade profissional( 1930-1960). 1999. Tese ( Doutorado em Educação) – Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro.


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