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a Revista de la Pátria Grande


ENTREVISTA / ENTREVISTA

Ser educador/a: um desafio/un desafío permanente
SONIA KRAMER


Professora da PUC-Rio; Coordenadora do Curso de Especialização em Educação Infantil; Autora de livros, entre outros, “Por entre as pedras, arma e sonho na escola: leitura, escrita e formação de professores”; “Alfabetização, leitura e escrita: formação de professores em curso”; Histórias de Professores: leitura, escrita e pesquisa” (Ed. Ática); “Infância, educação e direitos humanos” (em co-autoria) Cortez Ed.

Profesora de la PUC- Río; Coordinadora del Curso de Especialización en Educación Infantil; Autora de libros como "Por entre las piedras, arma y sueño en la escuela: lectura, escritura y formación de profesores"; "Alfabetización, lectura y escritura: formación de profesores en curso"; "Historias de Profesores: lectura, escritura e investigación" (Ed. Ática); "Infancia, educación y derechos humanos" (en co-autoría) Cortez Ed, entre otros.



Foto João Ripper
NA
- Professora Sônia, vivemos hoje situações difíceis, tempos difíceis, um contexto cheio de problemas, crises éticas, ambientais, políticas, de toda natureza. Ao mesmo tempo, estamos vivendo um mundo de grandes transformações. Neste contexto, qual seria, então, o papel do educador?

Sonia Kramer
- Nossos tempos são mais difíceis do que outros? Talvez a consciência de que, na história, todos os tempos tenham sido muito difíceis pode ser um alento para nos sentirmos participantes desse mundo, como homens, mulheres, jovens e crianças. Provavelmente nunca tivemos tempos fáceis... Mas isso não resolve o problema de que são sim tempos difíceis e de que é preciso entender o contexto em que nos situamos. A estrutura econômica desigual da sociedade brasileira, a alta concentração de renda, a lentidão da reforma agrária, os problemas resultantes de uma história de exclusão foram recentemente agravados pelas mudanças no mundo do trabalho e pela conjuntura internacional. Perdemos uma sociedade do bem estar que nunca tivemos. Nossa população continua sem acesso a bens materiais primários, os índices de mortalidade permanecem altos, os serviços de saúde de qualidade, a garantia da habitação, condições de saneamento e de trabalho são ainda sonhos que queremos ver realizados. Também o acesso à produção cultural e a valorização da cultura produzida nas relações sociais não se concretizou. Aliado a isso, temos a ação da mídia que generaliza e dissemina as informações, mas que não favorece grande parte das vezes a compreensão de mecanismos e processos. O fato é que professores formados nas últimas décadas passaram por escolas situadas nestas condições, escolas pobres para pobres, e que historicamente tiveram dificuldade de lidar com a pobreza e com a diferença. Assim, estamos diante de uma situação em que os professores muitas vezes precisam ensinar o que não tiveram a oportunidade de aprender, embora fosse seu direito e embora tenham permanecido na escola nos anos da escolaridade obrigatória e até mais. Para que seja possível educar precisamos realmente aprender junto com as crianças, jovens e adultos com os quais trabalhamos.

São vários os paradoxos desses tempos em que vivemos. Um deles é a facilidade (aparente) de acesso à informação pelos mais diversos modos. Para mim, o papel do educador, hoje, é o de formação. Não falo só de formação profissional de professores, mas de formação no sentido de viver, transmitir, ensinar, compartilhar valores, princípios, práticas, onde as questões específicas do ser humano possam ser aprendidas. O que parece tornar nossa consciência desse tempo mais difícil é a idéia de que nós não nos reconhecemos nesse tempo. Olho para o mundo e pergunto: que mundo é esse que parece que eu não sou parte dele? Por que ele é tão diferente do que eu gostaria que fosse? E quais as condições de ser educador hoje? Quando falo educador, me refiro aos professores e profissionais de educação que atuam na gestão da escola e em outros espaços educativos. Todos têm sua ação relacionada com formação, e não só com informação e, nesse contexto, meu ponto de vista é o de que os educadores precisam catalisar práticas, disseminando valores de solidariedade, de generosidade, aceitação e compreensão do outro, de preocupação com o outro, práticas sociais e culturais que propiciem conhecimento e criação coletiva.

NA - Creio que você já está nos remetendo para a idéia de que o educador atua em vários espaços - em movimentos sociais, na escola, em instituições culturais. E parece que você destacou o papel dele na questão dos valores. Assim, perguntamos: o que seria comum e o que seria específico em relação ao papel do educador, tendo em vista a sua participação nesses diferentes espaços?

Sonia Kramer - Destaquei os valores para fazer um contraponto com a informação. Mas não só valores. Outro aspecto importante é o conhecimento. Tradicionalmente o educador é visto como alguém que atua dentro da escola. Como militante de movimentos sociais em defesa da educação infantil e de políticas de infância, mantenho os pés no chão da escola e de outros projetos e aprendi a identificar nesses espaços a atuação do educador, tanto em ações de caráter institucional e de natureza cultural, realizadas em museus, cinemas, teatros, bibliotecas, quanto em trabalhos de caráter social, de iniciativa comunitária, em creches, pré-vestibulares, etc. Em todos, identifico como central o papel do educador, trabalhando junto com e aprendendo com.

Olhemos para essa questão, primeiro do ponto de vista de espaços públicos, e, em seguida, no que se refere a iniciativas da sociedade. A função do educador dentro de espaços como bibliotecas, museus, cinemas, teatros, grupos de música ou dança, etc., é potencializar as ações de forma a efetivamente beneficiar a população - crianças, jovens e adultos. Exemplifico com a situação da biblioteca, um verdadeiro desrespeito à democratização do saber e da cultura: hoje no Brasil, de acordo com a legislação, toda biblioteca deve dispor de um bibliotecário, formado em nível superior. Num país sem bibliotecas, essa exigência, além de amarrar a expansão, faz com que as escolas, não podendo ter bibliotecas, mantenham salas de leituras. Aqui, a atuação dos educadores é essencial para formar leitores, organizar salas, rodas ou círculos de leitura, etc.

Mas é também fundamental a atuação dos educadores nos movimentos sociais, em atividades de iniciativa da população. A origem de tais iniciativas é o fato do Estado, historicamente, ter sido omisso em uma série de situações. A população sofre situações de violência, por conta do tráfico de drogas e, sem serviços básicos de educação e saúde precisa se virar para desenvolver um trabalho que não foi desenvolvido pelo Estado. Então a sociedade se organiza(ou) para ter aquilo que, apesar de ser seu por direito, lhe é (foi) sonegado. Nesses espaços, é visível a inserção de educadores aprendendo com a população, mas também, com certeza, levando instrumentos teóricos e práticos para apoiar e multiplicar essas iniciativas.

Foto João Ripper

NA - É o educador como um agente cultural e social?

Sonia Kramer - O educador tem um papel específico em relação à formação científica e cultural, mesmo que não esteja na escola, um papel ligado à formação e à garantia de um direito básico, a escola e o conhecimento. Digamos que uma comunidade tomou a iniciativa e estruturou uma creche comunitária; nela o educador se insere para apoiar, orientar, discutir, para montar e também organizar aquele espaço. É uma inserção contraditória: o educador dá subsídios pedagógicos para que a ação funcione de modo coerente com os valores e objetivos daquele grupo, e ao mesmo tempo, trabalha sabendo que é direito daquela população ter a creche pública, mobilizando para que esse direito se torne fato, favorece o acesso da população às informações e mecanismos necessários para encaminhar as ações, instrumentaliza para que as soluções sejam encontradas enquanto o Estado não está ali, mas sabendo dos direitos da população de reivindicar, bater na porta do prefeito para ter aquele serviço público que deveria ser oferecido pelo Estado. Vejo a especificidade do papel do educador, nessa dupla perspectiva. Por outro lado, fora da escola, o educador tem papel importante na formação cultural e científica, valorizando as várias formas de saber e favorecendo o acesso ao conhecimento e à cultura (ainda que não tenhamos tanta clareza do que isso inclui), trabalhar com diferentes culturas que estão em interação. Para fazer isso, o educador precisa considerar o conhecimento produzido na pesquisa em educação, produzido na universidade, para que também esse conhecimento se torne acessível à maioria da população.

Foto Vicente Rosenblatt - Olhares do Morro

NA - O que você gostaria de destacar, de chamar a atenção, no caso da ação do professor, do educador na escola?

Sonia Kramer - Na escola, a função básica seria a do professor, mas a escola, cada vez mais, amplia o seu papel e passa a assumir – na sociedade contemporânea – além do ensino tarefas que, tradicionalmente, deveriam ser assumidas pela família, pela comunidade, diante das novas formas de sociabilidade. O mundo parece tão difícil pela desumanização progressiva e pelo isolamento, pelo individualismo, que a escola precisaria se preparar para assumir esse papel ampliado. Porque se nós olhamos para a realidade brasileira, vemos uma população empobrecida, desemprego, aumento de gravidez entre jovens, aumento de mulheres jovens chefes de família, quando pensamos no que seria o papel tradicional da família e da que escola (cuidando especificamente do ensino ou do conhecimento), parece que falamos de uma escola hipotética. A população de rua, excluída e que vive situações de violência, está na escola. Também os professores sofrem esse empobrecimento, principalmente professores do ensino fundamental. Em países como os nossos, como pode um professor ou uma professora, sofrendo as conseqüências de suas condições precárias de vida e de trabalho, exercer esse papel ampliado? Não adianta dizer que a família deveria fazer coisas que ela não tem condições de fazer ou não faz; precisamos assumir que é papel da escola e, ao mesmo tempo, assumir que há limites para exercer esse papel. Isso nos torna mais realistas: o otimismo é necessário para nos ajudar a olhar para a situação que é difícil e deslocá-la para esse lugar de realismo. As pessoas que trabalham na escola são tão jovens, muitas são adolescentes, e têm elas próprias dificuldades de agir com e para a população que chega na escola. Quando penso no conhecimento produzido sobre esses problemas e nas possibilidades que este espaço oferece para o trabalho educativo, reconheço na escola uma instituição privilegiada; minha posição é otimista e isso me desloca do pessimismo para as contradições da situação real. Porque a realidade não é nem tão dura, cristalizada, parada quanto o que as dificuldades fazem supor, nem tão flexível, maleável como nossos desejos e sonhos de uma sociedade justa gostariam que fosse. E é nesse balanço, nessa dinâmica, nessa dialética entre o desejado e o possível que podemos encontrar formas interessantes de intervir, de agir, de agir necessariamente de maneira coletiva, buscando condições de efetivar a mudança. Vejo a escola como esse lugar privilegiado para viver e exercer a utopia.

Outro aspecto a considerar é o de que hoje temos uma concepção da criança como sujeito do conhecimento, sujeito da ação, criativa. No entanto, às vezes, parece que para essa criança ser olhada como sujeito, o adulto acha que ele tem que desocupar o seu lugar de adulto. Esta questão afeta a escola, está no centro das relações instituídas na escola. Nessa sociedade fragmentada e com tantas informações circulando, há situações que os adultos vivem pela primeira vez junto com as crianças. E isso é inédito na história humana porque o que caracterizava um adulto é sua experiência mais consolidada, refletida, podendo orientar, expor, aconselhar. Hoje, devido às tecnologias, à mídia, em função das novas demandas do mundo do trabalho, ou das inovações, o adulto vive situações pela primeira vez junto com as crianças. Lembremos do atentado terrorista de 11 de setembro de 2001: como o adulto pode responder a algo que nem entendia? Muitos exemplos podem ser citados: situações relativas à guerra, à violência em geral, situações relativas ao rompimento de valores, à quebra de costumes. Isso é desconcertante para os adultos. Nesse contexto, o papel de autoridade do professor em particular e do educador em geral funciona como exemplo que acentua ou atenua essa situação, tanto na escola quanto em outras instituições.

Hoje o que seduz é ser jovem; a experiência é desvalorizada e velho se tornou adjetivo pejorativo. Também na escola o professor precisa assumir seu lugar de educador, lugar de adulto, da autoridade, da experiência, lugar de onde são praticados valores, ocupadas posições. Com freqüência expomos as crianças duplamente: exigimos demais delas, quando não têm condições de dar respostas para determinadas situações e deixamos de reconhecer ações ou respostas das crianças nas situações em que elas podem e têm respostas a dar. A escola faz isso o tempo todo. O fato de que ser educador significa ser adulto, e que isso implica em assumir um papel ativo de autoridade, é pouco discutido nas escolas. Quantas vezes, hoje, as escolas públicas ou privadas, só porque ouviram dizer que há uma situação de violência no bairro vizinho, chama as famílias e devolve as crianças para casa? Manda que venham buscar as crianças! Para mim essa atitude é de uma violência maior do que a violência no bairro vizinho, porque os adultos estão abrindo mão de sua responsabilidade, como se não tivessem nada a ver, cedendo a uma postura de medo de algo que eles sabem o que é. E essa posição vai se disseminando, consolidando uma visão de que o adulto não tem o que dizer ou o que fazer. Aqui, minha hipótese é a de que a guerra funciona como exemplo que dissemina condutas e quebra todos os valores, todos os acordos, porque nela valeria tudo. O exemplo se espalha também entre nós, educadores, e as pessoas perdem a distinção entre o que podem ou não fazer, perdem o bom senso – este bem tão raro no mundo de hoje – e desistem do diálogo. Abrir mão desse lugar de ter autoridade e ceder o lugar de adulto é abrir mão da autoria possível, da palavra, do lugar de dizer o que penso da condição humana.

Assim, vejo dentre as funções do educador a de fomentar práticas e valores que possam ajudar a fazer desse mundo, onde não mais nos reconhecemos, o nosso mundo.

NA - Sônia, você falou que o conhecimento está em todo o lugar. Nesse caso, em relação a esse conhecimento tão disseminado, qual seria o papel do educador?

Sonia Kramer - Diferencio informação e conhecimento. É papel da escola trabalhar na perspectiva de produção do conhecimento, não só reprodução, mas também de acesso ao conhecimento porque é dever da escola devolver a todos (a todas as classes sociais) o que historicamente foi por todos produzido. O papel da escola, a sua especificidade, é garantir o acesso de todos ao conhecimento sistematizado, estruturado, ainda que seja para daqui a minutos esse conhecimento se reorganizar ou ser superado por uma nova descoberta. A questão que cabe colocar é: quem tem estado incluído nesse “todos”? É preciso democratizar o conhecimento, nesse contexto da desigualdade. E como garantir a construção ou aquisição do conhecimento sem que os professores tenham seu direito de acesso a esse conhecimento garantido? Por isso a idéia da formação é interessante. A formação inclui todos os atores do processo.

Cabe lembrar do papel dessa ação em relação à alienação que nos é imposta. Tantas são as possibilidades de produtos de shampoo no supermercado e eu não conheço o funcionamento dos meus cabelos e da ação do shampoo. Eu não sei sobre o meu corpo, ao consumir informações sobre o meu corpo, eu não sei sobre o meu bairro, ou sobre o meu país, consumindo visitas apenas ou consumindo imagens sobre eles. Sem o conhecimento, eu não aprendo a história; mas a história não se deu aos frangalhos. Tantas vidas foram perdidas e vividas em função de projetos ou situações ao longo da história e isso não pode ser reduzido a consumo de informações!

Na escola, o conhecimento circula entre pessoas mais ou menos experientes e os professores são mediadores dessa interação. A grande interação na escola não é entre professores e alunos; é entre todos e os conhecimentos. Além dessa interação, onde o professor é mediador, há nesse processo de construção do conhecimento, interações variadas entre os pares crianças e crianças, jovens e crianças e aqui, também, o adulto não pode abrir mão do seu papel. Uma consulta na Internet de determinada informação não equivale à mediação em relação ao conhecimento. Consultar a Internet é ótimo, é importante; mas, como mediador, o professor inicia, interage, desafia, provoca, promove, escuta, discute, problematiza e organiza essa busca num mundo tão fragmentado e desestruturado. Conhecimento se adquire ou produz sempre no coletivo e a escola é uma instituição privilegiada para fazer isso: ela é o único lugar aonde as mesmas pessoas vão todos os dias, durante tantas horas, um lugar de fazer amigos, um lugar de conhecer pessoas, um lugar de namorar. Essa mediação é necessária em outros espaços culturais; o educador aí é alguém que inicia as crianças e jovens no museu, teatro, cinema, biblioteca, espaços cruciais nessa formação humana, porque nós aprendemos “com”: com o cinema, com a literatura, com museu, com o teatro, os clubes ou grupos de música, dança, etc. Quando falamos desses espaços, muitas pessoas entendem que é preciso levar isso para dentro da escola. Ao contrário, penso que esses diferentes espaços precisam existir fora da escola, por iniciativa do Estado ou da sociedade - e os educadores precisam estar neles; a escola se beneficia dessa formação cultural e sua função mediadora em relação ao conhecimento se amplia.

Foto João Ripper

NA - Diante de toda essa sua reflexão, que desafios estão colocados para a formação do educador, do professor?

Sonia Kramer - Não há uma receita, mas três elementos são importantes: a história das pessoas, trabalho coletivo e mediação. As práticas e as experiências do professor precisam ser resgatadas num processo de formação que crie um ambiente de escuta, tanto na formação inicial como na formação em serviço. Com o trabalho coletivo, o papel mediador dos formadores toma uma dimensão compartilhada. É parte do processo de formação a consciência do que eu penso sobre a escola, do que passei nela e do que a(s) escola(s) que tive me ensinou(aram) sobre o que é escola. Porque aprendemos mais com o que se transformou naquilo que somos, do que com os discursos que ouvimos, especialmente se as práticas negaram os discursos. As histórias vividas por professores e professoras, as escolas que freqüentaram ensinaram a gostar ou não de ler, de estudar, de ir ao teatro, transmitiu sentimentos em relação à matemática, à ciência, à história. Formação continuada significa trazer a minha história de professora e as práticas que pude ter, que situações presenciei, como foram ensinadas, transmitidas, o que as professoras pensam disso, porque não necessariamente as pessoas gostam da maneira como agem. Enfatizo este aspecto porque secretarias de educação e ministérios, com o desejo de promover políticas públicas de formação de professores ou para implementar alguma proposta pedagógica visando a mudança, com freqüência agem como se detivessem a boa palavra, desconsiderando as práticas e o conhecimento dos professores, como se as práticas dos professores pudessem ser jogadas fora e no momento seguinte (depois da “formação”), tudo começasse de novo! No momento da formação, entramos na história do outro: aquela professora já tem uma história; quando ela vem para a formação, faço uma entrada na vida dela e ela na minha. Há um belo fragmento escrito pelo filósofo Walter Benjamin, onde tratando do diálogo, ele diz que dar conselhos, na modernidade, parece algo de antiquado. Dar conselhos, ele diz, é dar uma sugestão sobre a continuidade de uma história que está sendo narrada; você só pode dar esse conselho se quem ouve sabe narrar a sua história, ou seja, se o outro conta para você a sua história. Cria-se um ambiente de escuta, onde é possível para o outro te escutar e é possível para você compreender como o conhecimento ou o instrumento teórico-prático - que você pretende trazer - se liga, como entra naquela história que já estava sendo vivida e que vai continuar, independente do formador.

Saber das histórias das pessoas e do grupo que vai se formar professor ou dos professores que trabalham na escola é uma boa estratégia para o trabalho coletivo. Como é que eu posso fazer um trabalho coletivo, sem cumplicidade, sem alianças e sem sentir a dor do outro? Sem saber de onde aquelas pessoas vieram? Essa prática ajuda a enfrentar os problemas da escola, a conhecer os caminhos que foram percorridos. Pensar esse conhecimento da história é um passo necessário para exercer o trabalho coletivo e continuar a história coletivamente. Sem falar que as pessoas gostam de contar suas histórias neste mundo onde ninguém tem tempo para ouvir o outro. Por isso, também, que a escola é esse espaço tão interessante de fazer amigos, de fazer grupos.

História e trabalho coletivo se relacionam para que seja possível pensar em um projeto. Tudo o que estamos falando aqui tem a ver com algo que projetamos. Se não fosse isso, nós não estávamos mencionando um contexto que parece difícil, se não estivéssemos preocupados em como projetar um mundo diferente. Mas há ainda um terceiro elemento no processo de formação, e que diz respeito à mediação e conhecimento. O formador é professor de professores; o que vale para os outros deveria valer para ele. E como posso ser mediador das práticas que estão sendo vividas e/ou relatadas e desencadear a busca de conhecimento teórico e prático para materializar o projeto? A meu ver, é sendo professor; ser professor é desencadear o trabalho coletivo, recuperar as histórias, trabalhar com o conhecimento, ser mediador entre as pessoas e o conhecimento. Maria Helena Chauí diz que a mais importante relação da escola é entre os alunos e o conhecimento, não entre professores e alunos. E traz o seguinte exemplo: o professor de natação pode ensinar os alunos a nadar, estando dentro ou fora da água, mas os alunos, para aprenderem a nadar, têm necessariamente, de estar dentro da água. A água, ela diz, é o conhecimento. Mas se o professor também estiver na água, tudo fica mais divertido.

O professor é formador, mediador entre professores ou futuros professores e o conhecimento. Os professores precisam, para construir sua autonomia (o trabalho coletivo não existe sem autonomia) buscar esse conhecimento nos espaços culturais e científicos, também nos espaços virtuais; precisam ser iniciados. Mediar significa assumir o papel de quem dá o livro, e lê junto, vai junto ao cinema, ao teatro, ao museu, ouve música, dança, inicia, indica caminhos, valoriza e potencializa os caminhos culturais que já são conhecidos e praticados pelo grupo. Formação tem a ver com esses três elementos: história, trabalho coletivo e mediação, para que o formador, como professor de professores, favoreça o acesso, aquisição, construção do conhecimento.

Foto Vicente Rosenblatt - Olhares do Morro

Para formar professores e profissionais da educação, suas histórias pessoais e profissionais e as histórias das propostas que desenvolvem e das equipes em que estão inseridos é importante. Entendo que só é possível mudar – e o processo de formação é um processo de mudança – quando o passado é levado em conta, quando se resgata a história vivida, colocando-se o presente numa situação crítica e preparando para um futuro diferente daquele que se suporia o mesmo, diferentemente de projetos que querem jogar fora a experiência passada, reciclá-la, deixar as histórias irem pelo ralo, como se fosse possível colocar os professores em ponto morto e sempre recomeçar do nada. Ou seja, como se eles e elas não fossem sujeitos da história.

Além disso, é preciso que as instâncias de formação coloquem a ênfase no potencial formador da leitura e da escrita, favorecendo que professores e futuros professores leiam e escrevam. Que leiam não para conhecer estilos ou correntes literárias, mas para usufruir, desfrutar, saber sentir o gosto da aventura, deslumbrar-se com a poesia, para aprender valores, para conhecer a si e aos outros. Que leiam e não tremam de medo diante da página em branco, que saibam expressar-se, marcando o papel, como se marca a história. Todos, quem? Crianças, jovens e adultos, estejam na condição de alunos ou de professores.

Ao lado do reconhecimento da cultura popular nas suas várias formas de expressão, um quadro de Goya, uma música de Vinicius de Moraes, um conto de Machado de Assis são o centro de uma formação onde o principal não é conhecer Goya, Vinícius ou Machado, mas apreciando a produção deles, produzirmos a nós mesmos. E, nesse processo, me lembro das palavras de Paulo Freire ”a leitura do mundo precede a leitura da palavra”, só que [atenção!] tenho uma forma cuidadosa e muito pessoal de compreender esta idéia: não esqueço de que a leitura do mundo, do contexto, é fundamental, ela vem antes e dá o contorno da leitura da palavra, do texto. Mas a leitura do texto é também fundamental: sem ela a leitura do mundo se torna incompleta, um vazio, pois seria um antes sem um depois... Seria o reconhecimento de um direito apenas anunciado, quando o quero praticado, concretizado, exercido.

NA - Ser professor, às vezes, é uma profissão que envolve viver situações adversas do ponto de vista da remuneração ou das condições de trabalho de um modo geral. O que você gostaria de dizer sobre isso?

Sonia Kramer - Gostaria de falar sobre isso talvez usando aquele jogo que fiz, não sei se deu certo, de otimismo e pessimismo, de olhar para a realidade e piscar, quer dizer, não olhar fixo, mas tentar vê-la e compreendê-la com seus matizes e movimentos. Temos a tendência de ver a nossa escola como pior do que as outras, com piores condições. Diversas pesquisas têm apontado para o fato de que hoje, mesmo nos países desenvolvidos, os problemas são análogos: trata-se da dificuldade da escola de lidar com a pobreza e a diversidade. Há, entretanto, uma questão específica: no caso brasileiro, o professor da escola fundamental e o da educação infantil têm uma carreira diferente da carreira do professor universitário; nossos professores ganham segundo o nível de escolaridade em que atuam e não pelo nível de escolaridade que alcançaram na sua formação. A desigualdade econômica e social acaba se refletindo na situação desigual dos professores e isso interfere nos processos de formação, especificamente, nos processos de formação continuada, onde professores de diferentes níveis e atuação interagem. Muitas políticas municipais têm projetos e planos de carreira que consideram se o professor tem o curso de graduação, a especialização, o mestrado e o doutorado, e isso vai revertendo em salários.

Por outro lado, muitas vezes os professores cristalizam o lugar que ocupam, de reclamações constantes. Vejamos um exemplo: durante décadas reclamávamos que não era possível ensinar a ler e a escrever porque não havia livros nas escolas. Hoje, no Brasil, graças a diversas políticas públicas do governo federal e de municípios, temos os livros e, em inúmeras escolas públicas, centenas de livros ficam guardados nos armários. Condições de trabalho englobam a presença dos livros e das práticas e isso nos leva, de novo, ao tema da formação. Mudanças são sempre conquistadas; a melhoria da qualidade da escola, que é parte da conquista de uma sociedade justa, sem desigualdade, é favorecida pela mudança das condições concretas de trabalho.

NA - Você gostaria de acrescentar mais alguma coisa?

Sonia Kramer - Nossa luta é conquistar políticas públicas que, de um lado, implementem uma escola que não segregue, uma escola o mais rica, plural, alegre possível, que assegure o acesso de todos ao conhecimento e que valorize e assegure ações onde a ciência, a cultura, nas suas mais variadas expressões, se voltem para a humanização e a melhoria da qualidade de vida da maioria da população; de outro lado, que garantam espaços, fora da escola, de democratização da cultura. Esse é o desafio que temos enfrentado e em função dele trabalhamos nas escolas, em projetos comunitários, nos movimentos sociais, escrevemos trabalhos, produzimos livros ou revistas. (NA)
NA - Profesora Sônia, hoy vivimos situaciones difíciles, tiempos difíciles, un contexto lleno de problemas, de crisis éticas, ambientales, políticas, de toda naturaleza. Al mismo tiempo, vivimos en un mundo de grandes transformaciones. Dentro de este contexto, ¿cuál sería, entonces, el papel del educador?

Sonia Kramer - ¿Son nuestros tiempos más difíciles que los otros? Tal vez la conciencia de que, en la historia, todos los tiempos fueron muy difíciles nos haga sentir participantes de ese mundo, como hombres, mujeres, jóvenes y niños. Probablemente nunca hayamos tenido tiempos fáciles... Pero eso no resuelve el problema de que son, sí, tiempos difíciles y de que es necesario entender el contexto en el que nos situamos. La estructura económica desigual de la sociedad brasileña, la alta concentración de renta, la lentitud de la reforma agraria, los problemas resultantes de una historia de exclusión, fueron recientemente agravados por los cambios en el mundo del trabajo y por la coyuntura internacional. Perdimos la sociedad del bienestar que nunca tuvimos. Nuestra población continúa sin tener acceso a bienes materiales primarios; los índices de mortalidad permanecen altos; los servicios de salud con calidad, la garantía a la vivienda, a las condiciones de saneamiento y de trabajo son todavía sueños que queremos ver realizados. Tampoco el acceso a la producción cultural y a la valoración de la cultura producida en las relaciones sociales se ha concretado. A esto, le sumamos la acción de los medios de comunicación que generalizan y diseminan las informaciones, sin permitir, la mayoría de las veces, la comprensión de mecanismos y procesos. El hecho es que los profesores recibidos en las últimas décadas, han pasado por escuelas que se encuentran en estas condiciones, escuelas pobres para pobres, y que históricamente tuvieron dificultades para lidiar con la pobreza y con la diferencia. De esta manera, nos encontramos frente a una situación en la que los profesores muchas veces necesitan enseñar lo que no tuvieron oportunidad de aprender, aunque hayan tenido ese derecho y aunque hayan permanecido en la escuela durante los años de la escolaridad obligatoria, e inclusive más. Para que educar sea posible, necesitamos realmente aprender junto a los chicos, a los jóvenes y a los adultos con los que trabajamos.

Son varias las paradojas de estos tiempos en los que vivimos. Una de ellas es la facilidad (aparente) para acceder a la información de las más diversas maneras. Para mí, el papel del educador, hoy, es el de la formación. No hablo sólo de formación profesional de profesores, sino de formación en el sentido de vivir, transmitir, enseñar, compartir valores, principios, prácticas, a través de los cuales sea posible aprender cuestiones específicas del ser humano. Lo que nos hace creer que este tiempo es más difícil que otros es el hecho de que no nos reconozcamos en él. Miro al mundo y me pregunto: ¿Qué mundo es éste, al que no pertenezco? ¿Por qué es tan diferente de lo que a mí me gustaría? ¿Cuáles son las condiciones, hoy, para ser educador? Cuando digo educador, me refiero a los profesores y profesionales de educación que actúan en la gestión de la escuela y en otros espacios educativos. En todos ellos la actuación está relacionada a la formación, y no sólo a la información y desde este punto de vista, me parece que los educadores necesitan catalizar prácticas diseminando valores de solidaridad, de generosidad, de aceptación y comprensión del otro, de preocupación hacia el otro; prácticas sociales y culturales que propicien conocimiento y creación colectiva.

Foto João Ripper
NA
- Creo que Ud. nos está remitiendo a la idea de que el educador actúa en varios espacios (en movimientos sociales, en la escuela, en instituciones culturales). Me parece, también, que está destacando el papel del profesor en relación a los valores. Entonces, ¿qué sería común y específico del papel del educador, teniendo en cuenta su participación en esos diferentes espacios?

Sonia Kramer - Destaqué los valores para contraponerlos a la información. Pero no se trata sólo de valores. Otro aspecto importante es el conocimiento. Tradicionalmente el educador es visto como alguien que actúa dentro de la escuela. Como militante de movimientos sociales en defensa de la educación infantil y de políticas de infancia, mantengo los pies en la tierra tanto en relación a la escuela como en relación a otros proyectos y aprendí a identificar en esos espacios la actuación del educador en acciones de carácter institucional y de naturaleza cultural realizados en museos, cines, teatros, bibliotecas y también en trabajos de carácter social, de iniciativa comunitaria, en guarderías, cursos preparatorios para el ingreso a la facultad, etc. En todos ellos, identifico como central el papel del educador, trabajando "junto a" y aprendiendo "con". Primero veamos este asunto desde el punto de vista de los espacios públicos y, segundo, desde el punto de vista de las iniciativas de la sociedad. La función del educador dentro de espacios como bibliotecas, museos, cines, teatros, grupos de música o baile, etc., es potenciar las acciones de manera que la población (chicos, jóvenes, adultos) se beneficie de forma efectiva. Pongo el ejemplo de la biblioteca, una verdadera falta de respeto a la democratización del saber y de la cultura: hoy en Brasil, de acuerdo con la legislación, toda biblioteca debe disponer de un bibliotecario con formación de nivel superior. En un país sin bibliotecas, esa exigencia, además de restringir la expansión, hace que las escuelas, al no poder tener bibliotecas, mantengan salas de lectura. En este punto, la actuación de los educadores es esencial para la formación de lectores, para la organización de salas, rondas o círculos de lectura, etc. Pero la actuación de los educadores es también fundamental en los movimientos sociales y en actividades de iniciativa de la población. El origen de tales iniciativas es la omisión histórica del Estado en una serie de situaciones. La población sufre situaciones de violencia a causa del tráfico de drogas y sin servicios básicos de educación y salud, precisa encontrar la manera de desarrollar los trabajos que no fueron desarrollados por el Estado. Entonces la sociedad se organiza (se organizó) para tener aquello que, a pesar de ser suyo por derecho, le es (fue) negado. En esos espacios, es visible la inserción de educadores que aprenden con la población, y que con seguridad, también llevan instrumentos teóricos y prácticos para dar apoyo y multiplicar esas iniciativas.

Foto João Ripper

NA - ¿El educador es un agente cultural y social?

Sonia Kramer - El educador tiene un papel específico en relación a la formación científica y cultural, aun cuando no esté en la escuela, un papel vinculado a la formación y a la garantía de un derecho básico, el de la escuela y el conocimiento. Imaginemos a una comunidad que toma la iniciativa y estructura una guardería comunitaria; el educador se introduce en ella para dar apoyo, orientar, discutir, para montar y también organizar aquel espacio. Es una inserción contradictoria: el educador da subsidios pedagógicos para que la acción funcione de modo coherente con los valores y objetivos de aquel grupo, y al mismo tiempo, trabaja sabiendo que es derecho de aquella población tener una guardería pública. Y entonces se moviliza para que ese derecho sea una realidad favoreciendo el acceso de la población a las informaciones y a los mecanismos necesarios para que sean encaminadas las acciones; dando instrumentos para que se encuentren soluciones durante la omisión del Estado, pero sabiendo los derechos que la población debe reivindicar, llamando a la puerta del intendente para que haya aquel servicio público que debería ser ofrecido por el Estado. Veo la especificidad del papel del educador en esta doble perspectiva. Por otro lado, fuera de la escuela, el educador también tiene un papel importante en la formación cultural y científica al valorar las diversas formas del saber y al favorecer el acceso al conocimiento y a la cultura (aunque no tengamos tanta claridad de lo que esto implique), y al trabajar con las diferentes culturas que interactúan. Para esto, el educador tiene que tener en cuenta el conocimiento producido en las investigaciones en educación, en la universidad, para que también ese conocimiento se vuelva accesible a la mayoría de la población.

NA - ¿Qué destacaría en relación a la actuación del profesor, del educador en la escuela?

Sonia Kramer - En la escuela la función básica sería la del profesor, pero la escuela -frente a las nuevas formas de sociabilidad- está cada vez ampliando más su papel y asumiendo -en la sociedad contemporánea- además de la enseñanza, actividades que, tradicionalmente, eran asumidas por la familia, por la comunidad. El mundo parece tan difícil a causa de la deshumanización progresiva, del aislamiento y a causa del individualismo, que la escuela precisa prepararse para asumir ese papel ampliado. Porque si nos fijamos en la realidad de Brasil, vamos a ver una población empobrecida, desempleo, aumento de embarazos entre las jóvenes, aumento de mujeres jóvenes jefes de familia, y si pensamos cuál es tradicionalmente el papel de la familia y de la escuela (ocuparse específicamente de la enseñanza o del conocimiento), pareciera que estamos hablando de una escuela hipotética. La gente que vive en la calle, excluida, y que vive situaciones de violencia, está en la escuela. También los profesores sufren ese empobrecimiento, principalmente los maestros de la enseñanza primaria. En países como los nuestros, ¿cómo puede un profesor o una profesora, que sufre las consecuencias de sus condiciones precarias de vida y de trabajo, ejercer ese papel ampliado? De nada vale decir que la familia debería hacer cosas para las cuales no tiene recursos o que no las hace. Tenemos que asumir que ése es el papel de la escuela y, al mismo tiempo, tenemos que asumir que hay límites para que se ejerza ese papel. Eso nos hace más realistas: el optimismo es necesario para que podamos ver la situación difícil y para que la podamos trasladar al plano de lo real. Las personas que trabajan en la escuela son muy jóvenes, muchas son adolescentes y ellas mismas tienen dificultades de actuar con y para la población que llega a la escuela. Cuando pienso en el conocimiento producido sobre estos problemas y en las posibilidades que este espacio le ofrece al trabajo educativo, reconozco en la escuela una institución privilegiada; mi visión es optimista y esto me lleva del pesimismo a las contradicciones de la situación real. Porque la realidad no es tan dura, ni está tan cristalizada, tan quieta como nos lo hacen suponer las dificultades, ni es tan flexible y tan maleable como nuestros deseos y sueños de una sociedad justa querrían que fuese. Es en este balance, en esta dinámica, en esta dialéctica entre lo deseado y lo posible en donde podemos encontrar formas interesantes de intervenir, de actuar, de actuar necesariamente de manera colectiva, para buscar las condiciones que permitan efectivizar el cambio. Veo a la escuela como ese lugar de privilegio en el que se puede vivir y ejercer la utopía.

Otro aspecto a ser considerado es la concepción que tenemos hoy de los chicos como sujetos del conocimiento, sujetos de la acción, creativos. Sin embargo, a veces parece que para que ese chico sea visto como sujeto, el adulto tiene que desocupar su lugar de adulto. Este tema afecta a la escuela, está en el centro de las relaciones instituidas en la escuela. En esta sociedad fragmentada, con tantas informaciones circulando, se producen situaciones que los adultos viven por primera vez junto a los chicos. Y esto es inédito en la historia humana porque lo que caracterizaba al adulto era su experiencia más consolidada, fruto de la reflexión que era orientadora, expositora, consejera. Hoy, debido a las tecnologías, a los medios de comunicación y en función de las nuevas demandas del mundo del trabajo, el de las innovaciones, el adulto vive situaciones, por primera vez, junto a los chicos. Recordemos el atentado terrorista del 11 de septiembre de 2001: ¿cómo puede el adulto responder a algo que no entiende? Se podrían citar muchos ejemplos: situaciones relativas a la guerra, a la violencia en general, situaciones relativas a la ruptura de valores y de costumbres. Esto es desconcertante para los adultos. En este contexto, el papel de la autoridad del profesor en particular y del educador en general, funciona como ejemplo que acentúa o atenúa esta situación, tanto en la escuela como en otras instituciones.

Hoy, lo que seduce es ser joven; la experiencia se ha desvalorizado y "viejo" se convirtió en un adjetivo peyorativo. También en la escuela el profesor necesita asumir su lugar de educador, su lugar de adulto, de autoridad, de experiencia, lugar desde el cual se practican valores y se ocupan posiciones. Con frecuencia los niños son objeto de una doble exposición: les exigimos demasiado cuando en realidad no están en condiciones de responder a determinadas situaciones y dejamos de reconocer sus acciones o respuestas en las situaciones en que ellos pueden y tienen respuestas para dar. La escuela hace esto todo el tiempo. El hecho de que ser educador signifique ser adulto y que esto implique asumir un papel activo de autoridad, es poco discutido en las escuelas. ¿Cuántas veces, hoy, las escuelas públicas o privadas, por el simple hecho de haber oído decir que existe una situación de violencia en el barrio vecino, llaman a las familias y les piden que se lleven a los chicos de vuelta a casa? ¡Qué vengan a buscar a los chicos! Para mí esta actitud es más violenta que la situación violenta vivida en el barrio vecino, porque los adultos están renunciando a sus responsabilidades como si no tuvieran nada que ver y ceden a una postura de miedo de algo que ellos saben lo que es. Y esa actitud se va diseminando y consolida la visión del adulto que no tiene nada qué decir ni qué hacer. Mi hipótesis, aquí, es que la guerra funciona como ejemplo de diseminación de conductas y de quiebra de todos los valores, todos los acuerdos, porque en ella todo vale. El ejemplo se expande también entre nosotros, educadores, y las personas ya no consiguen distinguir entre lo que pueden o no hacer, pierden el sentido común - tan escaso en el mundo de hoy - y desisten del diálogo. Renunciar al lugar de autoridad y ceder el lugar de adulto es renunciar a la autoría posible, a la palabra, al lugar de decir lo que pienso de la condición humana. Así, veo, entre las funciones del educador, la de fomentar las prácticas y los valores que pueden ayudar a hacer de este mundo, en el que ya no nos reconocemos, nuestro mundo...

Foto Joao Ripper

NA - Sônia, usted dijo que el conocimiento está en todas partes. En ese caso y en relación a ese conocimiento que está tan diseminado, ¿cuál sería el papel del educador?

Sonia Kramer - Sonia Kramer - Yo distingo información de conocimiento. El papel de la escuela es el de trabajar en la perspectiva de la producción del conocimiento y no sólo en la de la reproducción, sino también en la perspectiva del acceso al conocimiento porque es deber de la escuela devolverle a todos (a todas las clases sociales) lo que históricamente fue producido por todos. El papel de la escuela, y su especificidad, es garantizar el acceso de todos al conocimiento sistematizado, estructurado, aunque al cabo de unos minutos ese conocimiento sea reorganizado o sea superado por un nuevo descubrimiento. El tema que cabe aclarar es: ¿quiénes han sido incluidos en ese "todos"? Teniendo en cuenta este contexto de desigualdad, se hace necesario democratizar el conocimiento. ¿Pero cómo garantizar la construcción o adquisición del conocimiento si los propios profesores no tienen garantizado su derecho de acceso a ese conocimiento? Por eso es interesante la idea de la formación. La formación incluye a todos los agentes del proceso.

Cabe recordar el papel de esa actuación en relación a la alienación que se nos impone. Son muchas las posibilidades de productos de shampoo en el supermercado pero nosotros no conocemos ni el funcionamiento de nuestro pelo ni el de la acción del shampoo. No es por las informaciones que consumimos sobre nuestro cuerpo que sabemos algo sobre él. No es por el sólo hecho de consumir meras visitas o imágenes sobre nuestro barrio o sobre nuestro país que sabemos algo sobre ellos. Sin el conocimiento no aprendemos la historia y ésta no se da de forma aleatoria. ¡Tantas vidas se perdieron y se vivieron en función de proyectos o situaciones a lo largo de la historia! ¡Y eso no puede reducirse a un consumo de informaciones!

En la escuela, el conocimiento circula entre personas con más o menos experiencia y los profesores son los mediadores en esa interacción. La gran interacción en la escuela no se da entre profesores y alumnos, sino entre todos y los conocimientos. Además de esta interacción en la que el profesor es mediador, existen en este proceso de construcción del conocimiento, interacciones variadas entre los pares chicos con chicos, jóvenes con chicos, y aquí tampoco el adulto puede renunciar a su papel. Una consulta en la internet sobre determinada información no equivale a la mediación en relación al conocimiento. Consultar la internet es muy bueno, es importante, pero como mediador, es el profesor el que inicia, interactúa, desafía, provoca, promueve, escucha, discute, problematiza y organiza esa búsqueda en un mundo fragmentado y desestructurado. El conocimiento se adquiere o se produce siempre de forma colectiva y la escuela es una institución que tiene el privilegio de hacer eso: la escuela es el único lugar al que las mismas personas van todos los días, durante tantas horas; un lugar para hacerse de amigos; un lugar para conocer personas, en lugar de flirtear. Esa mediación es necesaria en otros espacios culturales; el educador es quien inicia a los chicos y jóvenes en relación al museo, al teatro, al cine, a la biblioteca, espacios éstos, cruciales para esa formación humana, porque aprendemos “con”: con el cine, con la literatura, con el museo, con el teatro, con los clubes o grupos de música, baile, etc. Cuando hablamos de estos espacios, muchas personas entienden que se hace necesario llevarlos al interior de la escuela. Por el contrario, creo que estos diferentes espacios precisan existir fuera de la escuela, por iniciativa del Estado o de la sociedad, y los educadores tienen que estar en ellos. La escuela se beneficia con esa formación cultural y su función mediadora en relación al conocimiento se amplía.

NA - Teniendo en cuenta esta reflexión suya, ¿cuáles serían los desafíos para la formación del educador, del profesor?

Sonia Kramer - No hay una receta, pero hay tres elementos que son importantes: la historia de las personas, el trabajo colectivo y la mediación. Las prácticas y las experiencias del profesor precisan ser rescatadas a través de un proceso de formación que cree un ambiente de escucha, tanto en la formación inicial como en la formación en servicio. Con el trabajo colectivo, el papel mediador de los formadores adopta una dimensión compartida. Es parte del proceso de formación la conciencia sobre lo que pienso de la escuela, sobre lo que pasé en ella y sobre lo que la(s) escuela(s) que tuve me enseñó(-aron) acerca de lo que es una escuela. Porque aprendemos más con lo que se transformó en aquello que somos, que con los discursos que oímos, especialmente si las prácticas negaron los discursos. Las historias vividas por profesores y profesoras, las escuelas que frecuentaron, les enseñaron o no el gusto por la lectura, por el estudio, por ir al teatro; les transmitieron sentimientos en relación a la matemática, la ciencia, la historia. La formación continua implica traer mi historia de profesora, las prácticas que pude haber tenido, las situaciones que presencié, el modo como éstas fueron enseñadas, transmitidas y lo que piensan sobre eso las profesoras, porque no necesariamente a las personas les gusta la manera como actúan. Enfatizo este aspecto porque secretarias de educación y ministerios, con el deseo de promover políticas públicas de formación de profesores o para implementar alguna propuesta pedagógica con vistas al cambio, con frecuencia actúan como si tuvieran toda la razón, sin considerar las prácticas y el conocimiento de los profesores, como si las prácticas de los profesores pudiesen ser desechadas e inmediatamente después (después de la "formación"), ¡todo comenzase de nuevo! En el momento de la formación, entramos en la historia del otro: toda profesora ya tiene una historia; cada vez que ella busca formarse, yo entro en la vida de ella y ella en la mía. Existe un fragmento muy bello escrito por el filósofo Walter Benjamin, en el que al referirse al diálogo, dice que dar consejos, en la modernidad, parece algo anticuado. Dice que dar consejos es hacer una sugerencia sobre la continuidad de una historia que está siendo narrada; uno sólo puede dar ese consejo si quien escucha sabe narrar su propia historia, es decir, si el otro cuenta su propia historia. Se crea un ambiente de escucha, en el que al otro le es posible escuchar y a uno le es posible comprender cómo el conocimiento o el instrumento teórico-práctico -que uno pretende traer- se conecta, cómo entra en aquella historia que ya estaba siendo vivida y que va a continuar, independientemente del formador.

Foto João Ripper

Saber las historias de las personas y del grupo que se va a recibir de profesor o de los profesores que trabajan en la escuela es una buena estrategia para el trabajo colectivo. ¿De qué manera sería posible hacer un trabajo colectivo, sin complicidad, sin alianzas y sin sentir el dolor del otro? ¿De qué manera, sin saber de dónde vinieron aquellas personas? Esa práctica ayuda a enfrentar los problemas de la escuela, a conocer los caminos que fueron recorridos. Pensar ese conocimiento de la historia es un paso necesario para ejercer el trabajo colectivo y continuar la historia colectivamente, sin mencionar que a las personas les gusta contar sus historias en un mundo en el que nadie tiene tiempo para oír al otro. Por eso es también que la escuela es un espacio interesante para hacer amigos, para formar grupos.

La historia y el trabajo colectivo se relacionan para que sea posible pensar en un proyecto. Todo lo que estamos hablando aquí tiene que ver con algo que proyectamos. Si no fuera así, si no estuviésemos preocupados en cómo proyectar un mundo diferente, no estaríamos mencionando un contexto que parece difícil. Pero hay todavía un tercer elemento en el proceso de formación que se refiere a la mediación y al conocimiento. El formador es profesor de profesores; lo que vale para los otros debería valer para él.

¿Cómo puedo ser mediador de las prácticas que están siendo vividas y relatadas y desencadenar la búsqueda del conocimiento teórico y práctico para materializar el proyecto? A mi modo de ver, siendo profesor; ser profesor es desencadenar el trabajo colectivo, recuperar las historias, trabajar con el conocimiento, ser mediador entre las personas y el conocimiento. María Helena Chauí dice que la relación más importante de la escuela es entre los alumnos y el conocimiento, no entre profesores y alumnos. Y menciona el siguiente ejemplo: el profesor de natación puede enseñarle a los alumnos a nadar estando dentro o fuera del agua, pero para que los alumnos aprendan a nadar, tienen que estar, necesariamente, dentro del agua. El agua, como ella dice, es el conocimiento. Pero si el profesor se metiera también en el agua, todo sería más divertido.

El profesor es formador, mediador entre los profesores o futuros profesores y el conocimiento. Los profesores necesitan, para construir su autonomía (el trabajo colectivo no existe sin autonomía) buscar ese conocimiento en los espacios culturales y científicos, también en los espacios virtuales; necesitan ser iniciados. Mediar significa asumir el papel de ofrecer un libro y leerlo “con”; es ir al cine, al teatro, al museo junto “con”; es oír música, bailar, iniciar, indicar caminos, valorar y potenciar los caminos culturales que ya son conocidos y ya son practicados por el grupo. La formación tiene que ver con esos tres elementos: la historia, el trabajo colectivo y la mediación, para que el formador, como profesor de profesores, favorezca el acceso, la adquisición, la construcción del conocimiento.

Para formar profesores y profesionales de la educación, las historias personales y profesionales y las historias de las propuestas que éstos desarrollan y de los equipos en los que están insertos son importantes. Yo entiendo que solamente es posible cambiar -y el proceso de formación es un proceso de cambio- cuando el pasado es tomado en cuenta, cuando se rescata la historia vivida, cuando se coloca al presente en una situación crítica y se lo prepara para un futuro diferente de aquél que se suponía igual, en contraposición a proyectos que desechan la experiencia pasada para reciclarla o para dejar que las historias se escurran por las alcantarillas, como si fuera posible colocar a los profesores en punto muerto y recomenzar siempre de la nada. O sea, como si ellos y ellas no fuesen sujetos de la historia.

Además, es necesario que las instancias de formación pongan el énfasis en el potencial formador de la lectura y la escritura, con el objetivo de favorecer que los profesores y futuros profesores lean y escriban. Que lean no para conocer estilos o corrientes literarias, sino para sacar provecho de ellos, para disfrutarlos, para saborear el gusto de una aventura, para deslumbrarse con la poesía, para aprender valores, para conocerse a sí mismo y a los otros. Que lean y no tiemblen de miedo frente a una página en blanco, que sepan expresarse, escribiendo el papel, como se escribe la historia. ¿Todos, quiénes? Los chicos, los jóvenes y adultos, ya sea en el papel de alumnos o profesores.

Al lado del reconocimiento de la cultura popular en sus varias formas de expresión, un cuadro de Goya, una música de Vinícius de Moraes, un cuento de Machado de Assis son el centro de una formación en la que lo principal no es conocer a Goya, a Vinícus o a Assis, sino producirnos a nosotros mismos a través de la apreciación de las producciones de aquéllos. Y en este proceso, me acuerdo de las palabras de Paulo Freire "la lectura del mundo precede a la lectura de la palabra", pero [¡atención!] tengo una forma muy cuidadosa y personal de comprender esta idea: no me olvido de que la lectura del mundo, del contexto, es fundamental, ella viene antes y delinea el contorno de la lectura de la palabra, del texto. Pero la lectura del texto también es fundamental: sin ella la lectura del mundo se vuelve incompleta, vacía, ya que sería un antes sin un después... Sería el reconocimiento de un derecho apenas anunciado, cuando lo queremos practicado, concretado, ejercido.

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NA - El trabajo de profesor a veces se halla inmerso en situaciones adversas desde el punto de vista de la remuneración o, de un modo general, de las condiciones de trabajo. ¿Qué diría Ud. sobre esto?

Sonia Kramer - Me gustaría hablar sobre eso retomando aquel juego de palabras que usé antes, de optimismo y pesimismo, de mirar la realidad y pestañear, es decir, no mirar de manera fija, sino intentar ver esa realidad y comprenderla con sus matices y movimientos. Tenemos la tendencia de ver a nuestra escuela como si fuera peor que las otras y estuviera en peores condiciones. Diversas investigaciones han apuntado el hecho de que hoy, aun en los países desarrollados, los problemas son análogos: se trata de la dificultad que tiene la escuela de lidiar con la pobreza y la diversidad. Hay, sin embargo, un tema específico: en el caso de Brasil, el profesor de escuela primaria y de educación infantil tiene una carrera diferente a la del profesor universitario; nuestros profesores ganan según el nivel de escolaridad en el que actúan y no por el nivel de escolaridad que alcanzaron por su formación. La desigualdad económica y social acaba reflejándose en la situación desigual de los profesores y eso interfiere en los procesos de formación, específicamente, en los procesos de formación continua, en donde profesores de diferentes niveles y actuación, interactúan. Muchas políticas municipales tienen proyectos y planes de carrera que consideran si el profesor tiene el curso de graduación, la especialización, la maestría y el doctorado, y eso se revierte en sueldos.

Por otro lado, muchas veces los profesores cristalizan el lugar que ocupan de reclamos constantes. Veamos un ejemplo: durante décadas nos quejamos de que no era posible enseñar a leer y escribir porque no había libros en las escuelas. Hoy, en Brasil, gracias a diversas políticas públicas del gobierno federal y de municipios, tenemos los libros y, en innúmeras escuelas públicas, centenas de libros quedan guardados en los armarios. Las condiciones de trabajo engloban la presencia de los libros y de las prácticas y eso nos lleva, de nuevo, al tema de la formación. Los cambios siempre se conquistan; la mejora en la calidad de la escuela - parte de la conquista - y una sociedad justa sin desigualdades, serán favorecidos por el cambio en las condiciones concretas de trabajo.

NA - ¿Le gustaría agregar algo más?

Sonia Kramer - Nuestra lucha consiste en conquistar políticas públicas que, de un lado, implementen una escuela que no segregue, una escuela lo más rica, plural, alegre posible, que le asegure a todos el acceso al conocimiento y que valore y asegure acciones en las que la ciencia, la cultura, en sus más variadas expresiones, se vuelquen hacia la humanización y la mejora de calidad de vida de la mayoría de la población; por otro lado, que garantice espacios de democratización de la cultura, fuera de la escuela. Éste es el desafío que hemos venido enfrentando y es en función de él que trabajamos en las escuelas, en proyectos comunitarios, en los movimientos sociales; allí escribimos trabajos, producimos libros o revistas. (NA)

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