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Companhia
Étnica de Dança e Teatro
Breno Kuperman
Rio de Janeiro - Brasil
El
trabajo cotidiano de la Companhia Étnica, instalada
desde 1997 en el Morro de Andaraí, zona norte de Rio
de Janeiro, envuelve tanto el trabajo de expresión
corporal a través de la danza como la permanente conscientización
en reuniones, encuentros, debates y evaluaciones de
la situación de sus jóvenes estudiantes, de la permanente
denuncia de las condiciones de vida, de la militancia
en el arte y debates sobre las diversas expresiones
artísticas. Su objetivo es la creación y producción
de espectáculos escénicos profesionales, a partir
de temas de la vida de la población negra en diáspora
por el mundo, así como la visibilidad del artista
afro-brasileño. El rescate por el arte permite que
personas y comunidades recobren su dignidad y despierten
en sus potencialidades humanas.
Na
última década do século passado o Brasil conheceu
um crescimento de experiências sociais comunitárias.
Com diferentes bandeiras e diversos sentidos, todas
possuíam a marca de ações de cidadania, pois carregavam
esta idéia de despertar indivíduos excluídos e torná-los
cidadãos inseridos e atuando no presente histórico
do país. Estes movimentos representavam novas respostas
da sociedade civil na luta contra os absurdos contrastes
e a miséria que se tornara um estigma em nossa cultura.
Naquele momento, o combate se ampliava, misturando
programas de governo com projetos de iniciativas privadas,
surgidas e apoiadas por instituições, empresas, grupos,
indivíduos, capacitando comunidades e pessoas – dando
emprego, renda, acesso à saúde, moradia e trabalho.
Estas ações foram, na verdade, uma nova forma de manifestação
da militância social, em mutação desde o final da
ditadura e que veio incorporando novos eixos de compreensão
do processo de participação, trabalhando nas muitas
exclusões que se praticam neste continente.
Uma das marcas fortes deste período foi uma convergência
nacional quanto à necessidade de se trabalhar exclusões.
Tanto o governo através de seus programas sociais
quanto a sociedade civil através de entidades de apoio
a atividades no 3º setor, ongs e outras, tomam diversas
iniciativas para encontrar caminhos que tragam trabalho,
comida, renda, educação e perspectiva de qualidade
de vida para todos os brasileiros.
Embora seja um processo lento, sobretudo tendo em
vista a carência existente, ela parece perpassar pelo
menos a consciência de todos, sendo foco de muitos
trabalhos desde a alfabetização até o “fome zero”,
passando por diversos ações junto a comunidades. Trabalhos
que “ensinam a pescar”, isto é, buscam uma auto-sustentação
de suas iniciativas, buscam autonomia tanto no nível
produtivista quanto no cultural.
Na medida em que o próprio empresariado brasileiro
se convenceu da necessidade de educação e de participação
social, multiplicaram-se as iniciativas e os vetores
destas iniciativas.
Vemos surgir grupos com uma clara noção de auto-suficiência,
movimentos ancorados na auto-sustentação, experiências
de construção civil comunitária, plantação, exploração
de recursos naturais locais, orientados de maneira
a prever todas as etapas da experiência inclusive
retorno financeiro, quando é o caso. Vemos também
surgir uma grande quantidade de experiências comunitárias
envolvendo arte, alguma forma de arte.
Queremos narrar aqui um périplo, um caminho de busca
de cidadania organicamente ligado a Arte e Cultura
e tentar refletir sobre esta experiência. O grupo
formado chama-se Companhia Étnica de Dança e Teatro.
A comunidade mobilizada nesta experiência é a do Morro
do Andaraí, no Rio de Janeiro, uma favela antiga no
bairro do Andaraí.
HISTÓRIA DA COMPANHIA ÉTNICA DE DANÇA E TEATRO
O Morro do Andaraí é uma favela carioca típica.
A proximidade física das casas, a baixa renda de seus
moradores, as dificuldades de sobrevivência, desenvolveram
uma cultura de solidariedade e de intimidade que torna
o cotidiano da comunidade algo muito especial e pouco
divulgado. Marcados pelo preconceito da cidade
e pela opressão do tráfico de drogas, as favelas desenvolveram
uma vida comunitária intensa, original e viveram até
bem pouco tempo à margem da presença de instituições
do estado.
Este é o local que Carmem Luz escolheu, em 1996, para
levar a sua Cia. Étnica de Teatro e Dança. Um local
discriminado pela sociedade do asfalto, mas também
local muito conhecido por seu baile funk, grande aglutinador
da comunidade.

Carmem Luz é o mentor da Cia Étnica. Sua história
está associada ao teatro, ao ensino, à dança e à questão
da etnia negra no mundo e na cidade do Rio de Janeiro.
Quando decidiu procurar um espaço para aglutinar jovens
em torno de atividades técnicas de teatro, já estava
bastante madura e experimentada na idéia da arte como
uma prática de integridade e transformação.
Carmem procurou gente do Morro do Andaraí, conheceu
seu ambiente e sua organização local e partiu para
buscar um espaço aonde implantar sua companhia. Ela
encontrou ali muitos jovens ociosos e isto acelerou
seu desejo de abrir canais de atividade.
Convencida de que a experiência da arte [o arrebatamento,
o ser veículo no processo de criação, o esforço para
alcançar o que surge no processo] transforma as pessoas
e portanto a sociedade, iniciou seu trabalho no Morro
do Andaraí com um curso de técnica teatral, atraindo
jovens da comunidade através da oferta de bolsas.
Em pouco tempo juntou gente e começaram os trabalhos.
A partir do contato pessoal com a turma Carmem pode
exercer sua presença, criar um ambiente interessante
e passar seus conhecimentos. Este foi o núcleo inicial
de uma experiência que veio se transformando e se
tornou uma Companhia de dança ativa e criativa, com
inúmeras apresentações em teatros do Rio de Janeiro
e em comunidades locais.
A metodologia que Carmem imprimiu ao trabalho da Cia
Étnica vem da síntese de seus conhecimentos de educação,
filosofia, coreografia e teatro. Vem também de uma
postura ética e da busca por fazer arte, viver arte,
transmitir arte, que transformou a vida de seus participantes,
fez emergir ali pessoas centradas e atuantes, artistas
profissionais e dedicados.
A Companhia Étnica tem como objetivo a criação e a
produção de espetáculos cênicos profissionais, a partir
de temas da vida da população negra em diáspora pelo
mundo e a visibilidade do artista afro-brasileiro
no Brasil e no exterior. Desde 1997 desenvolve pesquisa
de linguagem de dança contemporânea e experimentação
teatral, com incentivo à formação de várias platéias
e o desenvolvimento social e artístico dos jovens
moradores de favelas da zona norte carioca. Com sede
no Morro do Andaraí, a Cia Étnica de dança e Teatro
conta com uma grande equipe. Cerca de 300 jovens já
passaram pelos seus projetos, entre eles o projeto
pedagógico ENCANTAR – Capacitação em Artes Cênicas,
patrocinado pela Petrobrás.
Hoje em dia a Companhia Étnica possui diferentes grupos
de dança, incluindo uma Cia. Étnica Mirim, grupos
intermediário e o grupo principal. Suas atividades
são compostas por aulas sistemáticas, alongamentos,
relaxamentos, técnicas de concentração, ensaios, exercícios,
criação, divisão do trabalho por todos, criação de
responsabilidades para cada um. O grupo realiza visita
periódica a espetáculos de arte em cartaz no Rio:
teatro,dança, cinema, música, artes plásticas. E muita
discussão a respeito de tudo: do mundo, do aqui agora,
da vida pessoal, do morro, de dança...
Alguns antigos alunos são hoje professores de turmas
e participam diretamente de criações coreográficas.
A dança praticada ali é moderna e seus espetáculos
incluem temas e gestos com referência à realidade
do dia-a-dia da comunidade.
A Cia Étnica de Dança e Teatro foi premiada em quatro
concursos de projeto de capacitação profissional de
jovens do Programa Capacitação Solidária na região
metropolitana do Rio de Janeiro. Suas propostas, espetáculos
e performances são apresentadas para diferentes platéias,
muito freqüentemente em outras favelas e também em
universidades públicas e privadas, ruas, teatros,
centros comunitários, acampamentos rurais e museus
de pequenas cidades brasileiras.

ARTE
E CIDADANIA
O trabalho cotidiano da Cia Étnica envolve tanto o
trabalho de expressão corporal através da dança quanto
a permanente conscientização de seus jovens estudantes,
em reuniões, encontros, debates e avaliações de sua
situação, de permanente denuncia das condições de
vida, de militância na arte e debates sobre suas diversas
expressões: o teatro, o cinema, as artes plásticas,
a dança. Esta formação permanente, materializada em
constantes idas a cinemas, teatros, apresentações
de outros grupos, ainda é consolidada pelo compartilhamento
das responsabilidades da Cia Étnica. A Companhia pertence
a todos, cada um é responsável por levar adiante o
grupo. Deste modo, cada um experimenta através de
ações concretas e de atitudes reais, ser parte do
todo e trabalhar para este todo. Na prática, significa
assumir responsabilidades diariamente, através de
tarefas concretas, de ações, de compromissos que vão
transformando intensamente cada um deles. Este modo
de participar reforça a paixão pela dança, coroamento
de todo esforço.
Arte e cidadania estão aí entrelaçadas de uma maneira
inextricável, criando não apenas jovens que se tornam
cidadão ativos e inseridos em seus contextos mas também
profissionais da dança, artistas num sentido profundo,
criadores de expressão. A isto se agrega ainda mais
um valor: a dança que a Companhia Étnica produz tem
suas raízes na cultura do lugar, no samba e no funk;
a criação é trabalho realizado sobre as suas percepções
do mundo, suas vivências, experiências e expressões
corporais da cultura local e portanto o resultado
de seu trabalho pode ser inteiramente reconhecido
pela comunidade e pelas demais comunidades do Rio
de Janeiro.
Trazer estes elementos para o interior da um número
de balé significa poder expressar em outra dimensão
a complexa experiência cotidiana e local, emergindo
para o público como uma floração local, de raiz, autêntica.
TRANSFORMAÇÃO
Na cultura local, no Morro do Andaraí, a maioria
dos jovens freqüenta a escola mas sem estudar direito,
nem participar do cotidiano de suas casas, vivendo
uma vida largada aonde tudo é disperso e, apesar da
alegria, há pouco espaço para projetos pessoais e
um pobre horizonte de vida.
Desde o momento em que se aproximam da experiência
da Cia. Étnica, são introduzidos a um mundo em que
devem decidir tudo, opinar sobre tudo, discutir os
menores detalhes de cada ação, participar das coisas
sem abandonar seus estudos na escola pois esta é uma
exigência da Cia. Étnica e uma ponte entre ela e a
família dos jovens.
Este processo de transformação é o ponto mais notável
do contato inicial vivido pelos jovens que participam
da Companhia Étnica, enquanto praticam uma arte que
lhes envolve corpo e mente.
As responsabilidades, a valorização de si, os ensaios,
os debates,os professores, enfim todo o processo da
Companhia, provoca um choque de transformação positiva
muitas vezes marcado por uma melhora na performance
escolar ou em maior colaboração em casa, e serve como
fio central de crescimento e profissionalização.
CRIAÇÃO
Respeitando e valorizando suas origens culturais a
Cia Étnica abre um espaço de expressão e recriação
destas origens, promovendo a valorização da cultura
local e da auto-estima de seus membros. Este talvez
seja o aspecto subjetivo mais profundo e importante
desta experiência, pois coloca os jovens em contato
direto com a arte, criação, liberdade com o corpo,
e ao mesmo tempo dá um passo a frente em nossa própria
cultura, instaurando novas formas de expressão.
Criar e se recriar. Jogar-se no jogo e transfigurar.
Esta talvez a essência deste movimento, transcendendo
o social, instaurando o espaço da arte, da performance
(com corpo e tudo), da afirmação de si (individual
e coletiva) e da integridade (espírito, postura, palavra
e pensamento no tempo de seu êxtase).
Resta dizer de essencial que a Companhia Étnica de
Teatro e Dança é uma experiência coletiva de arte
e de refinamento humano. O constante trabalho de criar
mantém o grupo num processo contínuo que engendra
mais profissionalismo e consolida a autonomia dos
indivíduos. Este grupo principal passa a ser exemplo
aos mais jovens e assim garante a circulação da postura
ética, do crescimento humano.

O
que antes era um grupamento humano disperso, jovens
meio soltos, sem foco nem direções precisas, se transformou
numa nobre academia de cultivo do corpo e da integridade
ética.
Quando vemos a qualidade do resultado da intervenção
de Carmem Luz e sua Companhia Étnica no Morro do Andaraí,
nos parece que a arte é a determinante deste processo
todo, focando não apenas no econômico ou na recuperação
social mas na expansão dos seres, incluindo seus corpos
e as capacidades nele contidas: plenitude, alegria,
intensidade, vitalidade e atenção!
Neste caso a verdadeira inclusão talvez seja a inclusão
no presente do hoje, na densidade de um fazer responsável
e nas plenitudes que a arte propicia. O resgate pela
arte faz com que pessoas e comunidades não apenas
recobrem sua dignidade, mas sejam despertadas em suas
potencialidades humanas para brilharem, para que o
sentido de vida exista pleno e vibrante em seus cotidianos.
(NA)
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