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La Revista de la Pátria
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CONSTRUINDO CAMINHOS/
CONSTRUYENDO CAMIÑOS
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O
percurso da Oficina de Arte Cerâmica “Caminhos de Barro”:
ação
cultural universitária inovadora
Marcelo Carlos Gantos e Silvia Alicia
Martinez [1]
Campos - Brasil
El
taller “Caminos de Barro”, desarrollado en el norte
del Estado de Rio de Janeiro, es un proyecto universitario
de desarrollo humano a través del arte de la ceramica,
principalmente orientado a generar renta femenina, aprovechando
el trabajo con arcilla como vocación de la región. Sumergiéndose
en las profundidades del imaginario local, se buscó
imprimirle una identidad visual y artística al trabajo
para, junto con la mejoria de la calidad de las piezas,
crear productos diferenciados, que puedan constituir
un polo de cerámica artística en la región. Se destaca,
por último, el valor del trabajo articulado de diversos
actores sociales.
Neste
texto nos propomos relatar brevemente a experiência
da Oficina de Arte Cerâmica “Caminhos de Barro”, parte
integrante do projeto: Arte, Educação e Cidadania, desenvolvido
no Centro de Ciências do Homem da Universidade Estadual
do Norte Fluminense, ideada e coordenada pelos autores
deste artigo e localizada na Escola Estadual Leôncio
Pereira Gomes, em São Sebastião, 5º Distrito de Campos
dos Goytacazes. Este distrito tem como principal atividade
econômica a indústria cerâmica, desenvolvida especificamente
nas dúzias de olarias espalhadas na região, responsáveis
pela fabricação de telhas e tijolos que abastecem grande
parte das edificações do Estado do Rio de Janeiro. Como
contrapartida desta indústria, também encontramos na
região amplas crateras ressequidas, restos das jazidas
de barro, em processo aberto e claro de deterioração
do meio ambiente.
SITUANDO AS ORIGENS DO TRABALHO
O trabalho em evidência teve sua origem no ano de 2001
quando se procedeu à realização de uma pesquisa de cunho
histórico e cultural, cujo objetivo esteve centrado
na configuração de um mapa social e produtivo da região.
Isto foi possível através do estudo e resgate das relações
econômico-sócio-culturais que permeiam o estado de viver
da comunidade em questão. Para uma melhor compreensão
e execução da proposta, inicialmente o projeto foi dividido
em três componentes específicos e interligados que atendiam
aos objetivos gerais do projeto: histórico, sócio-cultural
e técnico–informacional.
Na primeira fase, então, se procedeu à realização de
um diagnóstico econômico e sócio-cultural do complexo
ceramista no Município de Campos a partir do estudo
aprofundado da pequena industria do distrito de São
Sebastião, espaço caracterizado por concentrar o maior
numero de empreendimentos da região. O motor da pesquisa
foi encontrar as raízes primeiras, que consolidadas,
prefaciam a história da região, suas instituições e,
no rastro dessa coreografia e do ritmo dos acontecimentos,
documentar as memórias sociais, culturais e afetivas
preservadas pela comunidade para propor ações práticas
orientadas ao desenvolvimento humano, privilegiando
a dimensão sócio-comunitária e econômica da população
do distrito.
Num segundo momento, criou-se um Sistema de Informação
Visual, concebido como uma proposta de uso da tecnologia
da imagem aplicada à pesquisa, referência documental
e preservação da memória social comunitária da região
de São Sebastião. Nele buscou-se identificar, referenciar
e interpretar o perfil sócio-econômico, o aparelhamento
industrial e as condições de habitat da comunidade ceramista
do distrito de São Sebastião. Isto foi realizado mediante
a produção sistemática de um registro documental fotográfico
e videográfico do mundo da cerâmica local, com o objetivo
de resgatar as matrizes identitárias sócio-culturais
da região, para contribuir na formulação final de um
projeto voltado ao empoderamento comunitário. Nesse
sentido, foram implementadas estratégias e ações pontuais
voltadas para a educação e a incorporação comunitária
ao processo produtivo, fomentando o melhoramento e sustentabilidade
da qualidade de vida da população regional.

Procedeu-se, então, no terceiro momento, a desenvolver
atividades de cerâmica, dança, coral, teatro (cordel)
e fotografia junto à comunidade de São Sebastião, sendo
a Escola Estadual Leôncio Pereira Gomes o espaço privilegiado,
uma vez que a comunidade ligada a ela é parte integrante
e alvo do projeto. Paralelamente, o grupo de trabalho
constituído, aprofundou no imaginário social, partindo
da obra de José Cândido de Carvalho – um dos mais ilustre
escritores da região – e, através de sua obra ficcional
O Coronel e o Lobisomen, pretendeu-se mostrar que tecida
em uma geografia real e em uma revitalização da linguagem,
José Cândido trabalha uma mimese irônica cujos suportes
reais ainda estão presentes nos espaços rurais e urbanos
por ele coreografados. À par destas atividades, criou-se
e desenvolveu-se -a partir dos registros de trabalho
de campo- um modelo de “banco de imagens” e dados valendo-se
do uso de instrumentação eletrônica (fotografia digital,
“imaging” e vídeo) associado às técnicas tradicionais
das artes visuais.
Cabe destacar que estas atividades, unidas à criação
da Oficina de Arte Cerâmica, foram financiadas pela
Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio de Janeiro
(FAPERJ), e formaram parte de um projeto maior de estudos
estratégicos da área da Cerâmica na região da baixada
campista, vinculados ao Programa de Desenvolvimento
do Pólo Cerâmica de Campos dos Goytacazes.
DETALHAMENTO DA PROPOSTA DA OFICINA: UMA HISTÓRIA
CONSTRUÍDA A “MUITAS MÃOS”
O projeto Arte-Cerâmica “Caminhos do Barro”, desde suas
origens visa contribuir para um processo de autovaloração
e evolução artística e sócio-cultural da comunidade
desfavorecida do Distrito de São Sebastião, orientando-se
principalmente às mães dos alunos, visando a geração
de renda feminina, que pudesse levar as mulheres -nitidamente
excluídas do mercado de trabalho da cerâmica e limitadas
ao âmbito doméstico do trabalho invisível- a contribuir
na economia familiar da população. Outro alvo da oficina
são as crianças da escola, muitas delas –principalmente
os meninos- destinadas historicamente ao trabalho infantil
e outras condições degradantes nas olarias.

Aproveitando uma “vocação” da região -o trabalho com
o barro- a arte cerâmica foi escolhida como estratégia
alternativa de geração de renda através da arte e/ou
artesanato, que, tendo um maior valor agregado que o
tijolo ou a telha, acaba favorecendo uma sustentabilidade
possível frente ao fenômeno do deterioro do meio ambiente
decorrente de formas irracionais de exploração dos recursos
naturais. Almeja-se, a médio prazo, o desenvolvimento
de um pólo de cerâmica artística no Norte do Estado
de Rio de Janeiro que possa constituir-se em referência
nacional.
UM POUCO DA HISTORIA DA OFICINA
Implantação: O trabalho começou a ser desenvolvido em
2001 com a contribuição de uma ceramista local, com
formação em serviço social e outras pessoas que foram
participando e se desvinculando do projeto. Adaptou-se
uma sala da escola para a construção da oficina. Equipou-se
a oficina com mobiliário adequado: construíram mesas,
armários, estantes. Posteriormente passou-se a uma fase
de divulgação da oficina, etapa longa que acabou se
realizando de porta em porta, quando a experiência de
divulgação através dos alunos da escola não funcionou.
Lentamente, a primeira geração de alunos foi constituída.
A inauguração e os primeiros trabalhos realizados na
oficina foram comemorados com muita alegria e com a
participação de muitas pessoas da comunidade. Entretanto,
as verbas para a manutenção das bolsas da ceramista
e de novos professores não foram renovadas. A oficina
continuou através do trabalho voluntário.
O MOMENTO ATUAL
Hoje pode-se afirmar que a oficina atravessa uma etapa
de consolidação: conta com uma equipe composta por cinco
professores de variadas formações – ceramistas, arquiteto,
professora de artes plásticas, duas pedagogas, um diagramador
visual, além dos dois coordenadores
vinculados à universidade. Na sua trajetória junto à
oficina, todas as pessoas que tinham começado como voluntárias,
posteriormente, conseguiram bolsas junto a agências
de fomento (FAPERJ, FENORTE/TECNORTE e UENF–Universidade
Aberta). Um aluno do Ensino Médio, com grande talento
artístico, foi nomeado ajudante instrutor da oficina
e se beneficia com uma bolsa do programa do governo
estadual Jovens Talentos.
Atende em torno de setenta alunos, provenientes da região
da baixada campista, composta por três distritos rurais
do município: Poço Gordo, Mineiros e São Sebastião.
Em sua maioria são mulheres, mas também crianças vinculadas
à escola e dois homens. Alguns destes alunos ingressaram
na oficina no ano corrente, considerados iniciantes,
e já produzem peças de qualidade. Outros acompanham
os trabalhos da oficina há um ou dois anos, seguindo
um planejamento que vai introduzindo paulatinamente
novas técnicas, ferramentas e produzindo experiências
para conseguir imprimir aos trabalhos uma identidade
regional, conseguindo produzir peças de qualidade e
encontrando no trabalho da cerâmica artística a única
fonte de renda familiar. A oficina conta, também, com
parceiros inestimáveis: por um lado, a Escola Estadual
Leôncio Pereira Gomes e sua equipe diretiva e docente,
que acordaram “expremer-se”, cedendo a sala dos professores
para a instalação da oficina, acudindo prontamente a
algumas solicitações, tendo como projeto expandir a
oficina, almejando alcançar um número maior de alunos
da escola. Por outro lado, alguns oleiros locais, que
“torcendo” e acreditando no trabalho do grupo, cedem
argilas, valioso espaço nos seus fornos e disponibilizam
os próprios funcionários para facilitar a queima das
peças.
Em relação ao “impacto” da oficina na comunidade, os
resultados são realmente surpreendentes pela qualidade
das peças criadas e pelas repercussões econômicas, sociais
e culturais sentidas. Famílias inteiras estão sobrevivendo
da arte cerâmica, pequenas oficinas foram surgindo nas
próprias casas das alunas –dentre as quais destacamos
o caso de uma aluna que abriu uma turma para atender
um grupo de deficientes da localidade- e vocações artísticas
estão sendo descobertas, surpreendendo os próprios “artistas”.
Algumas mulheres estão lentamente conseguindo “sustentar
a família”, outras “juntar algumas economias para casos
de emergência familiar”, há um caso de abandono do vício
do álcool, uma vez descoberta a veia artística e a possibilidade
de sobrevivência a partir da produção cerâmica e vários
jovens perseveram que através da arte podiam encontrar
uma forma de ajudar no orçamento familiar e se preparar
para uma futura profissão, melhorando o rendimento escolar
visando a obtenção de bolsa quando chegarem no Ensino
Médio.
ALGUNS DESAFIOS A SEREM SUPERADOS
Entretanto, são muitos os desafios que ainda temos que
superar. Um deles, muito importante e urgente, relaciona-se
a recursos para a manutenção da oficina. No momento,
apenas se conta com recursos básicos e algumas doações
dos próprios professores e membros da equipe envolvidos,
entre eles a diretora da escola. O aperfeiçoamento das
técnicas já utilizadas, a incorporação de novos materiais
como esmaltes e óxidos, o ensino de uso de torno e forno
elétrico, assim como a introdução de inovações que melhorariam
a qualidade das peças depende de verba específica para
tal fim.
Continuamos procurando uma identidade visual, artística
e de qualidade do/para os trabalhos produzidos, com
a finalidade de obter um diferencial em relação a outros
trabalhos similares, e para isso os professores trabalham
na elaboração de designs, pesquisando materiais e a
cultura local e apresentando sugestões aos alunos. Relacionado
a este objetivo, temos como meta imediata a busca de
diálogo mais intenso com os pesquisadores da área da
Engenharia da universidade, visando incorporar pesquisas
e tecnologias desenvolvidas para a melhoria da qualidade
da cerâmica, buscando, através dela, imprimir novo diferencial
ao trabalho.
Em terceiro lugar, ambiciona-se a expansão do modelo
de oficina para outras escolas e localidades. Neste
sentido, destacamos a ausência na região de curso formal
de Artes Plásticas. Uma das metas atuais visa implementar
um Curso de Formação de Professores em Cerâmica Artística,
que acreditamos poderia contribuir para a consolidação
do pólo de cerâmica, através de uma política artística
de grande impacto na população.
Por último, a comercialização das peças ainda está muito
vinculada às exposições organizadas pela universidade
e a vendas isoladas dos integrantes da oficina. Entretanto,
o trabalho está sendo direcionado para o cooperativismo
e economia solidária.

Com este breve relato do trabalho que estamos desenvolvendo
nos últimos quatro anos, queremos destacar as múltiplas
possibilidades das “parcerias” entre variados atores,
neste caso especifico, a universidade, a escola, os
empresários locais, as agências de fomento estaduais
e membros da sociedade civil. Acreditamos na queda das
barreiras que historicamente cercaram a universidade,
aprofundando os laços de solidariedade e responsabilidade
social. Ressaltamos, também, a arte como estratégia
de resistência cultural, como possibilitardora de ações
inovadoras, propulsora de “talentos” nas comunidades
marginalizadas. Talentos artísticos que, nas comunidades
em questão, não tinham tido a oportunidade de se manifestar
antes de ter andado pela trilha dos “caminhos de barro”.
(NA)
[1] Professores pesquisadores da Universidade Estadual
do Norte Fluminense, Campos dos Goytacazes, RJ.
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