 |

La Revista de la Pátria
Grande |
|
|
|
|
CONSTRUINDO CAMINHOS/
CONSTRUYENDO CAMIÑOS
|
O
olhar solidário das favelas
João Ripper
Rio de Janeiro
- Brasil
El
proyecto de la Escola de Fotógrafos Populares, que funciona
en la Casa de Cultura da Maré, parte de la idea de que
democratizar la fotografía permite una mirada más humana
sobre la sociedad. Vinculado a ese proyecto, se encuentra
el centro de documentación, investigación y formación
de fotógrafos y documentaristas populares Imagens do
Povo. Se entiende que la fotografía es un instrumento
de arte, información y formación puesto a servicio del
rescate de la dignidad de las clases populares y de
la ampliación de los derechos humanos, en una sociedad
que tiene una justicia con ojos de intereses dominantes.
A
Escola de Fotógrafos Populares, a agência e o banco
de imagens, Imagens do Povo são experiências do Observatório
de Favelas e funcionam na casa de Cultura da Maré. A
escola pretende formar jovens moradores de favelas cariocas
no ofício da fotografia e abrir-lhes caminho no mercado
de trabalho. Mais do que isso: a escola busca realizar
um trabalho de registro das comunidades populares a
partir do olhar dos próprios moradores, além de difundir
outras possibilidades de percepção dos espaços populares,
distinta do olhar tradicional marcado pelo sensacionalismo,
pobreza e violência.
Para entendermos a importância desses projetos que funcionam
em conjunto com diversos outros projetos do Observatório
de Favelas e do CEASM (Centro de Estudos e Ações Solidárias
da Maré), é importante pensarmos alguns conceitos como:

Os moradores das áreas populares vivem precariamente
e são submetidos à dominação econômica e cultural dos
moradores de classes média e alta. Essa forma de exploração
da população que vive nas favelas e periferias começou
a se intensificar nos anos 40, por ocasião do surgimento
das primeiras favelas e vem se intensificando. Uma das
formas de exploração é o conceito de cidade partida.
A cidade onde é formal e lógica a inclusão e a cidade
da exclusão. A pobreza nas grandes cidades, genericamente
falando, não vem apenas dos salários baixos e dos empregos
precários. A pobreza é resultante do reduzido acesso
aos bens e serviços urbanos, tais como habitação, educação,
saúde, segurança, entre outros. Falamos, portanto, de
direitos à cidade que não foram respeitados e contemplados
para todos os seus habitantes.
Segundo Diógenes Pinheiro, doutor em Ciências Sociais
pela Unicamp - Universidade de Campinas -, bolsista
da Faperj - Fundação de Amparo à Pesquisa Carlos Chagas
e professor no pré-vestibular popular dos Morros do
Chapéu Mangueira e Babilônia, em Copacabana, Zona Sul
do Rio, o uso corrente e cada vez mais difundido deste
termo só pode ser compreendido se localizado na conjuntura
política brasileira após o período autoritário, quando
a tentativa de construção de uma sociedade democrática
passava pela valorização da participação popular, pelo
acesso e expansão do mundo dos direitos. “Atualmente,
a permanência do termo cidadania em quase todos os projetos
que se voltam para a compreensão das favelas indica,
a nosso ver, duas dimensões complementares: de um lado,
sua ausência visível, mesmo após quase 20 anos do restabelecimento
da democracia no Brasil, o que mostra que a democratização
política e social seguiu a tradição brasileira de beneficiar
prioritariamente a sua elite, incluindo aí as camadas
médias, mas que não chegou às camadas populares. De
outro lado, porém, esta ausência é cada vez mais tematizada,
já que limita as liberdades básicas desta elite, que
se vê coagida pela presença envolvente das favelas e,
principalmente, da violência, que hoje escapa dos limites
das comunidades populares e chega ao asfalto.”

Assim, nesses discursos, diz ele: a cidadania aparece,
ou reaparece, como algo a ser doado “por uma elite iluminista,
que vai à favela com seus projetos emancipatórios prontos,
mas que não vê o morador de espaços populares como um
parceiro social, mas sim como alguém a ser trazido para
o mundo da civilização, da cidade e seus valores, sendo,
assim, um projeto de cidadania que não reconhece nas
estratégias e nos estilos de vida desenvolvidos nas
favelas nada de positivo”.
Para Diógenes, “há uma desqualificação moral do outro,
daquele que é diferente, no sentido de não repartir
necessariamente os valores burgueses dominantes, traduzindo-se
numa visão sobre os pobres em geral e os favelados em
especial que enfatiza dois lados: a carência, onde são
vistos como "coitadinhos", logo inferiores; ou o "potencialmente
criminoso", que acha que o morador da favela tem mais
tendência a ingressar no crime.”
De sua parte, o poder público se apresenta de forma
diferenciada diante do cidadão morador nas favelas e
do cidadão morador na “cidade formal”. Essa forma diferenciada
e discriminatória aparece até nos projetos urbanísticos,
ecológicos e sociais. Não se limpam praças de favelas
com o mesmo empenho que são limpas as praças da Zona
Sul e a polícia age de forma totalmente diferente nos
bairros nobres e nas favelas.

Há, na verdade, diversos graus de cidadania experimentados
por quem ocupa posições assimétricas no território da
cidade. Mas é importante destacar que, muitas vezes,
a favela representa um projeto de cidade mais humano.
Tomemos como exemplo a alta sociabilidade vista
nas comunidades populares, onde quase todos os vizinhos
se falam, onde há mais solidariedade nos momentos de
dificuldade. Os colegas economistas costumam se referir
a essas comunidades como de "baixa-renda". Pergunto:
por que insistir em defini-las sempre pelo negativo,
pelo que não têm, por que não se referir a elas como
comunidades de alta sociabilidade? A favela tem muito
a dizer à cidade, basta ter abertura intelectual e afetiva
para perceber isso – conclui.
Talvez por isso, moradores das favelas cariocas teimam
em não fazer parte de uma ‘Cidade Partida’ e comungam
inúmeras vezes os mesmos espaços da classe média formal.
Para Diógenes, isso ocorre, por exemplo, nas festas.
“Há uma vocação para felicidade nesta cidade, que é
única” – diz. A praia, a sensualidade, a beleza estão
presentes e são pontos de encontro entre o morro e o
asfalto. Os jovens, nas suas múltiplas tribos, são também
um canal forte de ligação entre realidades e grupos
diversos.
Hoje, as comunidades populares são palco de inúmeros
movimentos, diversas intervenções, seja de grupos locais,
do Estado ou de ONGS, todos voltados para atender suas
principais demandas. No entanto, o professor Diógenes
considera que muitos projetos urbanos desconhecem que
as comunidades querem ter atendidas as demandas de primeira,
segunda e terceira ordem. Como necessidades de primeira
ordem ele cita habitação, água, luz saneamento, seguidas
de saúde, educação e direitos. Finalmente, vêm as questões
de gênero, racial, de identidades. “Só um projeto articulado
pode promover mudanças efetivas.”

Dentro desse espírito o projeto da escola Popular de
Fotógrafos funciona com 4 horas de aulas diariamente;
fotografia de segunda a quinta e inglês as sextas-feiras.
Diferente de vários outros cursos de fotografia a escola
substituiu o laboratório tradicional pelo ensino do
Photoshop e suas formas de tratamento de imagem e pelo
ensino do manuseio de programas de gerenciamento de
banco de imagens.
Os fotógrafos que se formam e optam pelo documental
podem colocar a edição de seus trabalhos na agência
Imagens do Povo. A Escola de Fotógrafos Populares pretende
trabalhar para que a fotografia seja um instrumento
de arte, informação e de formação colocado a serviço
do resgate da dignidade das classes populares e da ampliação
dos direitos humanos.
A Escola tem 22 alunos que quase nunca faltam as aulas.
Às vezes, por exemplo, vêm de uma comunidade distante,
a pé, mas não faltam.
Este projeto parte da idéia de que democratizar a fotografia
é derramar um olhar humano sobre a sociedade. Neste
sentido, o que se pretende é trabalhar para que a fotografia
seja um instrumento de arte, informação e de formação
colocado a serviço do resgate da dignidade das classes
populares e da ampliação dos direitos humanos. Isso
será feito através da produção e da difusão de imagens
da realidade brasileira, especialmente das populações
mais pobres que vivem nas periferias das grandes cidades,
a partir do olhar dos próprios moradores destes espaços.
O
sensacionalismo, a pobreza e a violência que caracterizam
o olhar tradicional sobre as comunidades populares estão
longe de dar conta da riqueza da experiência cotidiana
vivida nesses espaços. Cabe, portanto, enfatizar também
os sentimentos, os sonhos, o trabalho, o lazer, a diversão,
a dor e a alegria. Enfim, a capacidade que as classes
populares demonstram, cotidianamente, de resistir e
persistir, de fazer da vida uma arte marcada por culturas
e práticas diversas, mas que têm em comum a dignidade
e a solidariedade.

O Imagens do Povo é um centro de documentação, pesquisa
e formação de fotógrafos e documentaristas populares
criado pelo Observatório de Favelas para registrar a
realidade vivida nas periferias e favelas cariocas,
fazer um acervo de imagens sobre os diferentes espaços
populares da Cidade do Rio de Janeiro e colocar a fotografia
a serviço dos direitos humanos. Tudo isso através de
um jornalismo parcial e comprometido, nascido do convívio
com as comunidades documentadas, aprendendo com elas
a essência de suas vidas.
O Imagens do Povo é uma ampliação e desdobramento do
trabalho já iniciado no site Imagens Humanas (www.imagenshumanas.com),
que possui imagens das pessoas que moram em comunidades
das periferias e favelas; da luta pela sobrevivência
dos Sem-Terra; da vida dos povos da mata; do sofrimento
dos trabalhadores escravos; das crianças que crescem
nas ruas. Este material constitui um acervo único, estimado
hoje em 140.000 fotografias, cujo conjunto de imagens
está sempre à disposição dos movimentos sociais, para
ser utilizado em processos jurídicos, denúncias, exposições
nacionais e internacionais, palestras em escolas e universidades,
bibliotecas virtuais populares, vestibulares comunitários
e ilustrando publicações de associações de favelas,
sindicatos, entidades de defesa dos direitos humanos
e defesa ambiental.

O papel da Agência é auxiliar na transformação da
realidade social através do trabalho de formação de
fotógrafos que entendem a documentação jornalística
como um elemento transformador, onde a produção
e difusão de imagens ajudem os moradores de favelas
e periferias em sua luta por educação, paz, trabalho,
moradia e emprego; que ajude os trabalhadores rurais
em processos de desapropriação de terras; os índios
na demarcação de terras indígenas; que denuncie o trabalho
escravo e infantil nas fazendas da Amazônia, nas carvoarias,
nos canaviais, nas plantações de sisal, nas pedreiras
espalhadas em várias partes do Brasil.
A meta que este projeto pretende alcançar é a produção
de um acervo, a difusão de imagens e a formação de documentaristas
populares, o que envolve a realização de três produtos
articulados:
Curso de Formação de documentaristas populares, a ser
oferecido na Casa de Cultura da Maré, ele será voltado
para a formação em documentação fotográfica, edição,
escaneamento e arquivamento digital. Seu objetivo é
o de resgatar a história das comunidades populares e
dos processos vividos cotidianamente pelos moradores
de diferentes comunidades populares do Rio de Janeiro.
Em especial, ele oferecerá um instrumento de renda para
um conjunto de jovens oriundos de favelas cariocas,
além de estimular a afirmação de sua identidade positiva
e dos moradores destes espaços. A escola desenvolve
um curso intensivo de quatro meses, em sua primeira
etapa. Ele visa formar um profissional completo.

A escola conta com um público semestral de 22 alunos,
com aulas diárias de 4 horas. O curso conta com as seguintes
disciplinas: História da Fotografia; Linguagem Fotográfica;
Direito de Imagem da Pessoa Humana; Direitos Autorais;
Fotografia como instrumento de Transformação Social;
Técnica Básica de Fotografia; Aprofundamento de Técnica
e Linguagem; Fotografia Simulada; Prática Fotográfica;
Laboratório; Informática básica; Informática Aplicada
à Fotografia; Digitalização de Imagens; Tratamento de
Imagens no Computador – Photoshop; Arquivamento Digital;
Programas de Busca e Venda de Material Fotográfico.
(NA)
|
|
|
NOVAMERICA
Rua Dezenove de Fevereiro, 160 - Botafogo
22280-030 - Rio
de Janeiro - RJ
Brasil
Tel. (fax): (55) (21) 2542-6244
e-mail: novamerica@novamerica.org.br
|
CENTRO
NOVAMERICA DE EDUCAÇÃO POPULAR
Praça Santos Dumont, 14 - Centro
25880-000 - Sapucaia
- RJ
Brasil
Tel. (fax): (55) (24) 2271-2004
e-mail: centronovamerica@uol.com.br
|
2003/2010
Novamerica - www.novamerica.org.br - Todos os direitos resevados.
|