Revista

L
a Revista de la Pátria Grande


CONSTRUINDO CAMINHOS/ CONSTRUYENDO CAMIÑOS

O olhar solidário das favelas
João Ripper

Rio de Janeiro
- Brasil


Foto Francisco Valdean Alves dos Santos
El proyecto de la Escola de Fotógrafos Populares, que funciona en la Casa de Cultura da Maré, parte de la idea de que democratizar la fotografía permite una mirada más humana sobre la sociedad. Vinculado a ese proyecto, se encuentra el centro de documentación, investigación y formación de fotógrafos y documentaristas populares Imagens do Povo. Se entiende que la fotografía es un instrumento de arte, información y formación puesto a servicio del rescate de la dignidad de las clases populares y de la ampliación de los derechos humanos, en una sociedad que tiene una justicia con ojos de intereses dominantes.


A Escola de Fotógrafos Populares, a agência e o banco de imagens, Imagens do Povo são experiências do Observatório de Favelas e funcionam na casa de Cultura da Maré. A escola pretende formar jovens moradores de favelas cariocas no ofício da fotografia e abrir-lhes caminho no mercado de trabalho. Mais do que isso: a escola busca realizar um trabalho de registro das comunidades populares a partir do olhar dos próprios moradores, além de difundir outras possibilidades de percepção dos espaços populares, distinta do olhar tradicional marcado pelo sensacionalismo, pobreza e violência.

Para entendermos a importância desses projetos que funcionam em conjunto com diversos outros projetos do Observatório de Favelas e do CEASM (Centro de Estudos e Ações Solidárias da Maré), é importante pensarmos alguns conceitos como:

Foto Rondinele Conceição Barbalho

Os moradores das áreas populares vivem precariamente e são submetidos à dominação econômica e cultural dos moradores de classes média e alta. Essa forma de exploração da população que vive nas favelas e periferias começou a se intensificar nos anos 40, por ocasião do surgimento das primeiras favelas e vem se intensificando. Uma das formas de exploração é o conceito de cidade partida. A cidade onde é formal e lógica a inclusão e a cidade da exclusão. A pobreza nas grandes cidades, genericamente falando, não vem apenas dos salários baixos e dos empregos precários. A pobreza é resultante do reduzido acesso aos bens e serviços urbanos, tais como habitação, educação, saúde, segurança, entre outros. Falamos, portanto, de direitos à cidade que não foram respeitados e contemplados para todos os seus habitantes.

Segundo Diógenes Pinheiro, doutor em Ciências Sociais pela Unicamp - Universidade de Campinas -, bolsista da Faperj - Fundação de Amparo à Pesquisa Carlos Chagas e professor no pré-vestibular popular dos Morros do Chapéu Mangueira e Babilônia, em Copacabana, Zona Sul do Rio, o uso corrente e cada vez mais difundido deste termo só pode ser compreendido se localizado na conjuntura política brasileira após o período autoritário, quando a tentativa de construção de uma sociedade democrática passava pela valorização da participação popular, pelo acesso e expansão do mundo dos direitos. “Atualmente, a permanência do termo cidadania em quase todos os projetos que se voltam para a compreensão das favelas indica, a nosso ver, duas dimensões complementares: de um lado, sua ausência visível, mesmo após quase 20 anos do restabelecimento da democracia no Brasil, o que mostra que a democratização política e social seguiu a tradição brasileira de beneficiar prioritariamente a sua elite, incluindo aí as camadas médias, mas que não chegou às camadas populares. De outro lado, porém, esta ausência é cada vez mais tematizada, já que limita as liberdades básicas desta elite, que se vê coagida pela presença envolvente das favelas e, principalmente, da violência, que hoje escapa dos limites das comunidades populares e chega ao asfalto.”

Foto Marcos Diniz da Silva

Assim, nesses discursos, diz ele: a cidadania aparece, ou reaparece, como algo a ser doado “por uma elite iluminista, que vai à favela com seus projetos emancipatórios prontos, mas que não vê o morador de espaços populares como um parceiro social, mas sim como alguém a ser trazido para o mundo da civilização, da cidade e seus valores, sendo, assim, um projeto de cidadania que não reconhece nas estratégias e nos estilos de vida desenvolvidos nas favelas nada de positivo”.

Para Diógenes, “há uma desqualificação moral do outro, daquele que é diferente, no sentido de não repartir necessariamente os valores burgueses dominantes, traduzindo-se numa visão sobre os pobres em geral e os favelados em especial que enfatiza dois lados: a carência, onde são vistos como "coitadinhos", logo inferiores; ou o "potencialmente criminoso", que acha que o morador da favela tem mais tendência a ingressar no crime.”

De sua parte, o poder público se apresenta de forma diferenciada diante do cidadão morador nas favelas e do cidadão morador na “cidade formal”. Essa forma diferenciada e discriminatória aparece até nos projetos urbanísticos, ecológicos e sociais. Não se limpam praças de favelas com o mesmo empenho que são limpas as praças da Zona Sul e a polícia age de forma totalmente diferente nos bairros nobres e nas favelas.

Foto Roberto Santana

Há, na verdade, diversos graus de cidadania experimentados por quem ocupa posições assimétricas no território da cidade. Mas é importante destacar que, muitas vezes, a favela representa um projeto de cidade mais humano. Tomemos como exemplo a alta sociabilidade vista nas comunidades populares, onde quase todos os vizinhos se falam, onde há mais solidariedade nos momentos de dificuldade. Os colegas economistas costumam se referir a essas comunidades como de "baixa-renda". Pergunto: por que insistir em defini-las sempre pelo negativo, pelo que não têm, por que não se referir a elas como comunidades de alta sociabilidade? A favela tem muito a dizer à cidade, basta ter abertura intelectual e afetiva para perceber isso – conclui.

Talvez por isso, moradores das favelas cariocas teimam em não fazer parte de uma ‘Cidade Partida’ e comungam inúmeras vezes os mesmos espaços da classe média formal. Para Diógenes, isso ocorre, por exemplo, nas festas. “Há uma vocação para felicidade nesta cidade, que é única” – diz. A praia, a sensualidade, a beleza estão presentes e são pontos de encontro entre o morro e o asfalto. Os jovens, nas suas múltiplas tribos, são também um canal forte de ligação entre realidades e grupos diversos.

Hoje, as comunidades populares são palco de inúmeros movimentos, diversas intervenções, seja de grupos locais, do Estado ou de ONGS, todos voltados para atender suas principais demandas. No entanto, o professor Diógenes considera que muitos projetos urbanos desconhecem que as comunidades querem ter atendidas as demandas de primeira, segunda e terceira ordem. Como necessidades de primeira ordem ele cita habitação, água, luz saneamento, seguidas de saúde, educação e direitos. Finalmente, vêm as questões de gênero, racial, de identidades. “Só um projeto articulado pode promover mudanças efetivas.”

Foto Bira Zeferino de Carvalho

Dentro desse espírito o projeto da escola Popular de Fotógrafos funciona com 4 horas de aulas diariamente; fotografia de segunda a quinta e inglês as sextas-feiras. Diferente de vários outros cursos de fotografia a escola substituiu o laboratório tradicional pelo ensino do Photoshop e suas formas de tratamento de imagem e pelo ensino do manuseio de programas de gerenciamento de banco de imagens.

Os fotógrafos que se formam e optam pelo documental podem colocar a edição de seus trabalhos na agência Imagens do Povo. A Escola de Fotógrafos Populares pretende trabalhar para que a fotografia seja um instrumento de arte, informação e de formação colocado a serviço do resgate da dignidade das classes populares e da ampliação dos direitos humanos.

A Escola tem 22 alunos que quase nunca faltam as aulas. Às vezes, por exemplo, vêm de uma comunidade distante, a pé, mas não faltam.

Este projeto parte da idéia de que democratizar a fotografia é derramar um olhar humano sobre a sociedade. Neste sentido, o que se pretende é trabalhar para que a fotografia seja um instrumento de arte, informação e de formação colocado a serviço do resgate da dignidade das classes populares e da ampliação dos direitos humanos. Isso será feito através da produção e da difusão de imagens da realidade brasileira, especialmente das populações mais pobres que vivem nas periferias das grandes cidades, a partir do olhar dos próprios moradores destes espaços.

O sensacionalismo, a pobreza e a violência que caracterizam o olhar tradicional sobre as comunidades populares estão longe de dar conta da riqueza da experiência cotidiana vivida nesses espaços. Cabe, portanto, enfatizar também os sentimentos, os sonhos, o trabalho, o lazer, a diversão, a dor e a alegria. Enfim, a capacidade que as classes populares demonstram, cotidianamente, de resistir e persistir, de fazer da vida uma arte marcada por culturas e práticas diversas, mas que têm em comum a dignidade e a solidariedade.

Foto Marcos Diniz da Silva

O Imagens do Povo é um centro de documentação, pesquisa e formação de fotógrafos e documentaristas populares criado pelo Observatório de Favelas para registrar a realidade vivida nas periferias e favelas cariocas, fazer um acervo de imagens sobre os diferentes espaços populares da Cidade do Rio de Janeiro e colocar a fotografia a serviço dos direitos humanos. Tudo isso através de um jornalismo parcial e comprometido, nascido do convívio com as comunidades documentadas, aprendendo com elas a essência de suas vidas.

O Imagens do Povo é uma ampliação e desdobramento do trabalho já iniciado no site Imagens Humanas (www.imagenshumanas.com), que possui imagens das pessoas que moram em comunidades das periferias e favelas; da luta pela sobrevivência dos Sem-Terra; da vida dos povos da mata; do sofrimento dos trabalhadores escravos; das crianças que crescem nas ruas. Este material constitui um acervo único, estimado hoje em 140.000 fotografias, cujo conjunto de imagens está sempre à disposição dos movimentos sociais, para ser utilizado em processos jurídicos, denúncias, exposições nacionais e internacionais, palestras em escolas e universidades, bibliotecas virtuais populares, vestibulares comunitários e ilustrando publicações de associações de favelas, sindicatos, entidades de defesa dos direitos humanos e defesa ambiental.

Foto Bira Zeferino de Carvalho

O papel da Agência é auxiliar na transformação da realidade social através do trabalho de formação de fotógrafos que entendem a documentação jornalística como um elemento transformador, onde a produção e difusão de imagens ajudem os moradores de favelas e periferias em sua luta por educação, paz, trabalho, moradia e emprego; que ajude os trabalhadores rurais em processos de desapropriação de terras; os índios na demarcação de terras indígenas; que denuncie o trabalho escravo e infantil nas fazendas da Amazônia, nas carvoarias, nos canaviais, nas plantações de sisal, nas pedreiras espalhadas em várias partes do Brasil.

A meta que este projeto pretende alcançar é a produção de um acervo, a difusão de imagens e a formação de documentaristas populares, o que envolve a realização de três produtos articulados:

Curso de Formação de documentaristas populares, a ser oferecido na Casa de Cultura da Maré, ele será voltado para a formação em documentação fotográfica, edição, escaneamento e arquivamento digital. Seu objetivo é o de resgatar a história das comunidades populares e dos processos vividos cotidianamente pelos moradores de diferentes comunidades populares do Rio de Janeiro. Em especial, ele oferecerá um instrumento de renda para um conjunto de jovens oriundos de favelas cariocas, além de estimular a afirmação de sua identidade positiva e dos moradores destes espaços. A escola desenvolve um curso intensivo de quatro meses, em sua primeira etapa. Ele visa formar um profissional completo.

Foto Diana Araujo

A escola conta com um público semestral de 22 alunos, com aulas diárias de 4 horas. O curso conta com as seguintes disciplinas: História da Fotografia; Linguagem Fotográfica; Direito de Imagem da Pessoa Humana; Direitos Autorais; Fotografia como instrumento de Transformação Social; Técnica Básica de Fotografia; Aprofundamento de Técnica e Linguagem; Fotografia Simulada; Prática Fotográfica; Laboratório; Informática básica; Informática Aplicada à Fotografia; Digitalização de Imagens; Tratamento de Imagens no Computador – Photoshop; Arquivamento Digital; Programas de Busca e Venda de Material Fotográfico.
(NA)



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