Revista

L
a Revista de la Pátria Grande

EDITORIAL

Arte para tod@s

Este número da revista, que tem como tema Cultura e Arte, não por acaso, abre-se com a referência ao Relatório do Desenvolvimento Humano 2004, do Programa das Nações Unidas da ONU de 2004. Neste relatório, pela primeira vez, relaciona-se o tema do desenvolvimento com o da cultura. e aponta-se para a existência de uma forma de exclusão que discrimina as pessoas com base nas diferenças culturais. Este relatório, afirma na introdução, que pretende “defender o respeito pela diversidade e a construção de sociedades mais inclusivas, adotando políticas que reconheçam, explicitamente, as diferenças culturais- políticas multiculturais.” (p.2)

Um passo à frente, sem dúvida, que introduz uma nova perspectiva na discussão internacional, ainda muito centrada no que o documento intitula os mitos concernentes à liberdade cultural , em que esta é vista, na prática, como fator de enfraquecimento do Estado, potenciadora de conflitos e não favorecedora do desenvolvimento.

Visão esta que merece ser contrastada com o conjunto de artigos incluídos neste número, a começar pela fala do nosso entrevistado da vez, Ignacio Copani, cantautor argentino, cuja música “de resistência” busca suas raízes nos ritmos populares de sua terra, e que se declara fanático pela idéia: Pinta tua aldeia e pintarás o mundo.

Perguntado sobre como se situava diante das expressões da cultura latino-americana e das identidades múltiplas que caracterizam a nossa América Latina, Copani responde: Não necessito nem cantar em português, nem colocar um sotaque andino, nem nada: eu canto tudo o que se passa comigo. Os poderosos são os que se encarregaram de igualar-nos na desesperação. E, mais à frente, reconhece que as coincidências são muitas, porém, mais que com as raízes, com a realidade das nossas identidades... Realidade essa que nos aproxima na vivência comum de um cotidiano de opressão, mas, também, de resistência.

Da riqueza das nossas manifestações culturais, na sua diversidade, e do seu potencial libertador, dão-nos conta as experiências incluídas na seção Construindo Caminhos. São experiências distintas, junto a diferentes comunidades marginalizadas, que se utilizam da arte como instrumento não só de expressão e valorização de elementos da cultura própria dessas comunidades, mas também de transformação desses grupos, aumentando a auto-estima das pessoas envolvidas, consolidando a sua autonomia e, muitas vezes, abrindo-lhes novas perspectivas de trabalho e, consequentemente, de geração de renda. É a arte utilizada como estratégia de resistência cultural, como indutora de ações inovadoras, como propulsora de talentos nas comunidades marginalizadas, enfim, como uma possível alternativa para ajudar na solução dos seus problemas. Refletem todas as experiências um olhar diferenciado para estas comunidades, que não só respeita e valoriza as suas manifestações culturais, como também reconhece e utiliza os valores que lhes são próprios, especialmente a solidariedade, valor cada vez mais ausente dessa nossa sociedade marcada por um axacerbado e crescente individualismo.

Os três artigos de fundo, no Idéias em Rede, permitem entender melhor alguns dos pressupostos sobre os quais estas experiências se apóiam e nos ajudam a perceber a articulação existente entre arte, cultura, educação e política, sem dúvida, a tônica deste número da revista.

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