Revista

L
a Revista de la Pátria Grande


IDÉIAS EM REDE / IDEAS EN RED

Arte-Educação, experiências e reflexões na perspectiva intercultural
Wilson Cardoso Junior e Ana Julia Pinto Pacheco
Rio de Janeiro – Brasil


Foto acervo do autor
A partir de dos experiencias desarrolladas en la ciudad de Rio de Janeiro, Brasil, con jóvenes participantes de proyectos sociales o que viven en situación de riesgo social, se reflexiona sobre nuevas acciones en arte-educación, abordando el arte de una forma amplia y sensible a cuestiones multiculturales, teniendo como mira una educación ciudadana y cuestiona el arte comprometido en demasía con las estructuras de poder y autoridad.


Em vários postos de gasolina do município do Rio de Janeiro, jovens entre 16 e 17 anos estagiando como frentistas, além de calibrarem pneus e limparem vidros dos carros oferecem aos clientes exemplares da sua produção artística. O material distribuído é resultado do curso de Arte-Educação, que integra o projeto social do qual esses jovens participam, e são em sua maioria impressos dobrados, tipo folder, versando sobre temas como o Dia Internacional de Luta contra o Racismo (21 de março), o Dia Internacional da Mulher (8 de março), o Dia Internacional do Meio Ambiente (05 de junho), o Dia Nacional da Consciência Negra (20 de novembro), o Mês da Juventude (julho), entre outros. Nos encontros são produzidas matrizes individuais articulando imagens (colagens e/ou desenhos) e textos (redações e pesquisas na internet) através de processo educativo em oficinas de criação que integram artes visuais, informática e história.

Esses jovens, em situação de risco social agudo, sendo alguns inclusive menores infratores e que estão ali para cumprir uma penalidade, não se limitam a entregar seus prospectos. Eles estão aptos a discutir o tema do trabalho assim como a sua participação no processo através do qual sua criação foi encaminhada. Este processo se inicia com um levantamento do clima mental do grupo em relação ao tema, depois é apresentado ao mesmo um apanhado crítico desse primeiro momento e em seguida os educandos vão pesquisar na internet a fim de saberem a razão pela qual se elegeu determinado dia para se comemorar tal data. Entretanto, o que de fato norteia as pesquisas são as problematizações surgidas no momento anterior - por exemplo, a divisão de trabalho entre os indígenas significa que existe machismo entre eles?

Foto arquivo Colégio Teresiano

ARTE: PROCESSO DE CRIAÇÃO/CONSTRUÇÃO

A arte não se apresenta nesse processo apenas como definidora do formato final do produto e das imagens que ilustram o mesmo. A arte não se resume ao objeto que é produzido, aqui, ela é entendida também como um fazer, todo o processo de criação/construção faz parte da experiência artística, uma experiência que conjuga várias implicações sociais, políticas, culturais entre outras. Assim, o processo da arte na educação é pensado para contribuir efetivamente na formação cidadã desses jovens oriundos de diferentes comunidades pobres da cidade e que se encontram semanalmente em localidade neutra para conviverem, trocarem experiências e aprenderem. É a arte sendo pensada interdisciplinarmente, multiculturalmente, politicamente e contemporaneamente, sendo apreendida como uma linguagem por meio do desenvolvimento da técnica, da crítica, da criação e da discussão/interação com o público sobre o produto e o processo que o criou. A interação com o público contribui com o propósito maior de fazer com que haja internalização dos significados construídos e vivenciados coletivamente, pois, ao ser ativo/a na circulação de sua produção artística no mundo o/a jovem é estimulado/a a ser agente e autônomo sobre sua criação e capaz de compartilhá-la e discuti-la.

Em algumas ocasiões o formato final do produto variou em função do tema. Foi este, por exemplo, o caso do trabalho sobre o Dia do Ïndio em que, após o estudo sobre as artes, as culturas e a situação atual dos Povos Indígenas Brasileiros, foi gerado uma caixa de fósforos decorada com desenhos baseados no grafismo indígena, trazendo em seu interior um texto de produção coletiva. O principal simbolismo presente no formato final do trabalho estava na referência ao assassinato do índio pataxó Galdino Jesus dos Santos, por cinco jovens, na cidade de Brasília, em abril do ano de 1997. Em outros trabalhos, a maneira de se introduzir uma reflexão crítica e discutir com o grupo não foi por escrito, mas sim através de imagens. Foi o caso do trabalho sobre o racismo iniciado a partir de um curativo Band-aid “cor-da-pele” colado sobre um fundo preto. O debate do tema trouxe então várias significações presentes e ausentes nessa imagem, o que, por sua vez, suscitou um grande número de opiniões que convergiram para uma percepção do racismo principalmente em relação ao negro e que relacionaram discriminação racial com discriminação social.

Em outra experiência com jovens participantes de projetos sociais, o trabalho focou o tema da independência do Brasil. Na ocasião, dois grupos, pertencentes a projetos sociais diferentes, de diversas localidades da cidade do Rio de Janeiro, que não se conheciam anteriormente, se encontraram para criar uma nova bandeira para o país. No encontro foram apresentadas as leituras visuais de duas pinturas consagradas na história da arte ocidental e ocidentalizada: “O grito do Ipiranga”, de Pedro Américo, artista brasileiro do século XIX, pintado em 1888; e “O Grito”, do artista norueguês Edward Munch, pintada em 1893. Além delas, foram apresentadas as várias bandeiras que o Brasil já teve ao longo da sua história e uma leitura formal e semântica da bandeira atual. A seguir, foram formados vários grupos misturando jovens dos dois projetos sociais. Cada grupo produziu seu projeto de bandeira e depois de apresentados a todos os participantes, alguns foram eleitos como os mais representativos do processo vivenciado. A partir de então, os/as jovens se deruçaram sobre a tarefa de produzir uma síntese, um novo projeto, o projeto final e único de bandeira que fosse representativo de todos e capaz de ser realizado pelos mesmos com os recursos e limitações existentes. Feito isso, deu-se então a última etapa da produção da bandeira pensando-se os materiais e os procedimentos técnicos necessários para tanto.

Foto arquivo Colégio Teresiano

A bandeira foi exposta nos jardins do Museu da República, durante o mês de setembro de 2003, participando da exposição “Bandeiras” realizada por esta instituição com a participação de vários artistas plásticos e ONGs. Da mesma forma como aconteceu com a experiência relatada anteriormente, os/as jovens e seus educadores/as lá estavam durante a exposição para conversarem com o público e discutirem a respeito do produto e do processo vivenciado por eles e elas. Segundo os/as educadores/as responsáveis por esta prática, o saldo educativo de maior relevância deste processo foi exatamente a maneira de caminhar, o cuidado em caminhar junto, convivendo com as diferenças, não deixando ninguém para trás e ir construindo o caminho enquanto se caminhava.

É a partir dessas duas experiências relatadas resumidamente acima que pretendo, dentro dos limites deste artigo, apresentar a reflexão sobre as novas ações em arte-educação de acordo com as preocupações recentes do debate sobre o ensino de arte que têm buscado dar especial atenção as questões do multiculturalismo e das especificidades culturais de cada país ou região. (Osinski , 2001:114-115).


A ARTE NA EDUCAÇÃO


A presença da arte na educação na perspectiva da interculturalidade que reconhece, em primeiro lugar, a diversidade cultural não com um entrave, mas sim um referencial de suma importância, ou seja, um campo de atuação rico que fornece elementos preciosos para o trabalho eficaz com pessoas concretas e não seres numéricos ou entidades abstratas. No entanto, o enfoque atual para uma educação multicultural na realidade brasileira leva em conta aspectos como a religião, idade, gênero, ocupação, classe social etc., e não apenas o viés étnico que é o enfoque de origem da mesma nas sociedades norte-americana e européia. Recentemente, os portadores de necessidades especiais, compreendidos como pertencentes a culturas particulares, têm sido incluídos nessa perspectiva.

Foto arquivo Colégio Teresiano

A adoção do enfoque intercultural implica não apenas no reconhecimento das diferenças. É preciso ter cuidado com o chamado multiculturalismo aditivo que simplesmente adiciona informações sobre outras culturas sem afetar a supremacia dos códigos da cultura dominante. Significa um ir além buscando a reciprocidade entre culturas no intento mesmo de se “estabelecer a inter-relação entre os códigos culturais de diferentes grupos culturais” (Richter, 2002:86). Para tanto, as diferentes tendências contemporâneas para o ensino de arte concordam que os arte-educadores precisam se inteirar do contexto na produção artística considerando o universo cultural dos grupos e das localidades com e em que atuam. Enfim, reconhecer a heterogeneidade existente em qualquer grupo humano. Só assim poderá conhecer e compreender os códigos visuais e estéticos presentes, e a/s própria/s noção/ões de arte que norteia/m os grupos determinados com que se trabalha. E mais, é preciso ainda levar em conta a preciosa recomendação de Barbosa de se “reforçar a herança artística e estética dos alunos com base em seu meio ambiente” sem, no entanto, engessá-los em sua própria cultura “sem possibilitar a decodificação de outras culturas”. (1991:24).

Compartilho das preocupações de Richter (2002: s/p) em relação a um tipo de enfoque do multiculturalismo na arte que exclui de suas ações todas as chamadas artes “menores” como a arte popular, o folclore e o artesanato, excluindo com elas toda a possibilidade de um trabalho multicultural em arte por não permitir, dessa forma, a compreensão e a imersão em outros códigos culturais que, consequentemente, ampliaria o conceito de Arte do educando. Para tanto é condição básica combater os conceitos de “belas artes” e “arte erudita” que se apóiam numa visão etnocêntrica da arte.

No ensino de arte ainda são predominantes as práticas apoiadas na visão modernista e até mesmo acadêmica que mantêm em comum a diferenciação entre artes maiores e artes menores, arte erudita e arte popular e/ou primitiva. Ou seja, utilizando expressão de Peter McLaren, esta visão ainda está por demais comprometida com “as estruturas de poder e autoridade, associadas à cultura acadêmica alta”. Nesse sentido, as experiências da Arte Contemporânea assumem grande relevância pois nela os/as artistas vêm manifestando interesse e preocupação com as questões multiculturais, e muitos trabalham com procedimentos artísticos que visam questionar as visões monolíticas e hegemônicas da Arte.

A defesa da imprescindibilidade da arte em propostas educativas contemporâneas que almejem a formação cidadã ampla prevendo ações para a participação na construção da identidade sócio-cultural de jovens, mormente aqueles provenientes das camadas populares, deve estar atenta para a incorporação de preocupações e procedimentos artísticos típicos da arte da pós-modernidade. E no caso específico dos/as jovens participantes das experiências relatadas, não se cumpre realizar apenas a função da arte como aprimoramento da consciência humana, como propôs Herbert Read. Mas antes, talvez, despertar a estima essencial para o aprendizado de acordo com a perspectiva de André Malraux: “Gostaria de pensar que o sentido da palavra arte seja tentar dar consciência aos homens da grandeza que ignoram neles”. Afinal, se quisermos saber quem somos, precisamos também compreender e vivenciar a arte de diferentes tempos, espaços e culturas. (NA)



BARBOSA, Ana Mae. Tópicos Utópicos. Belo Horizonte, C/Arte, 1998.

OSINSKI, Dulce. Arte, História e ensino – uma trajetória. São Paulo, Ed. Cortez, 2001.

RICHTER, Ivone. Multiculturalidade no Ensino de Arte e sua Influência na Leitura dos Códigos Estéticos.Disponível em www.sesc.uol.com.br/sesc/hotsites/arte/text_4.htm#Iivone

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