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La Revista de la Pátria
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MOSAICO
CULTURAL / MOSAICO CULTURAL
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Diários
de motocicleta
e a possibilidade de contarmos, ao nosso modo, nossas
próprias histórias
Rosália Duarte
Rio de Janeiro - Brasil

Diários
de motocicleta reflete, de forma exemplar, uma tendência
do cinema independente das últimas décadas: a consolidação
do sistema de co-produção que, atuando diretamente na
distribuição, ajuda a ampliar o estreito “funil” que
impede a difusão das cinematografias não- estadunidenses.
Enquanto a indústria de cinema dos Estados Unidos lança
um filme com centenas de cópias, investindo em publicidade
montantes de recursos superiores ao custo de um filme
brasileiro, por exemplo, uma boa parte dos filmes latino-americanos
pode chegar ao circuito de exibição com menos de dez
cópias e pouquíssimos recursos de publicidade. Uma competição
absolutamente desigual, portanto. A estrutura perversa
que transforma cultura em mercadoria quase fez desaparecer
o cinema nacional em muitos países considerados periféricos
e, nesse contexto, a co-produção é uma alternativa para
garantir diversidade ao cinema mundial, requisito absolutamente
necessário para a sobrevivência de qualquer forma de
arte.
Diários de motocicleta é um exemplo emblemático
desse tipo de parceria: dirigido pelo brasileiro Walter
Salles, escrito pelo argentino José Rivera, contou com
atores e técnicos mexicanos (Gael Garcia Bernal, o ator
principal, é mexicano) argentinos, chilenos e peruanos
em gravações realizadas nesses três últimos países.
O projeto se viabilizou por iniciativa do ator Robert
Redford (através do Instituto Sundance) e de seu amigo
e produtor, Michael Nozik. Mesmo tendo contado, em algumas
etapas, com equipes de menos de quinze pessoas, ele
é o resultado do esforço conjunto de dezenas de pessoas
em pelo menos sete países. O filme é falado em espanhol,
uma exigência plenamente justificável do seu diretor
(há quem até se ressinta da ausência do acento portenho
na fala dos personagens principais, nascidos e residentes
em Buenos Aires). Trata-se de um relato pessoal, quase
etnográfico, da América Latina dos anos 1950, feito
por dois jovens argentinos, Ernesto Guevara de la Serna
e seu amigo, Alberto Granado, que viajaram milhares
de quilômetros através por Argentina, Chile e Peru registrando
cada passagem, cada conversa e cada acontecimento em
seus diários e nas cartas escritas por Guevara a sua
mãe. A maior riqueza desse relato consiste nas referências
ao modo de vida e às práticas dos povos latino-americanos,
sua cultura, seus valores e a dificuldade de sobreviver
à profunda desigualdade que marca essas sociedades.
Ao contrário do caráter majoritariamente auto-promocional
do cinema estadunidense, que vende ao mundo o american
way of life, a perspectiva auto-crítica parece ser
uma característica do cinema latino-americano, nossa
arte mais explicitamente empenhada na denúncia das mazelas
que fazem de nossos países campeões mundiais em desigualdade,
miséria e violência. Nessa perspectiva, o cinema panamericano
tornou-se expressão mundial das culturas de seus povos,
narrando, ao nosso modo e a partir do nosso olhar, nossos
crenças, nossas verdades e a dor e a delícia de sermos
como somos. As críticas que nossos filmes fazem ao que
há de mais destrutivo e corrosivo em nossas sociedades
expõem ao mundo a face “feia” da América Latina ao mesmo
tempo em que ajudam a definir os contornos de nossas
identidades. Vale dizer que essas críticas são feitas
sempre a partir do olhar “nativo”, ou seja, daqueles
que vivenciam e experimentam cotidianamente as contradições
de seus países, numa perspectiva auto-analítica que
marca nossa maneira peculiar de contar histórias: um
realismo que expõe feridas de forma poética e cheia
de esperança (certamente não foi por acaso que o melodrama,
o realismo fantástico e as telenovelas floresceram tão
amplamente em territórios culturais latino-americanos).
É desse modo peculiar que o jovem Che narra sua viagem,
registrando a avassaladora ação dos colonizadores no
continente, a miséria e a exploração de povos cuja diversidade
e riqueza cultural tiveram (e ainda têm) um papel bastante
significativo na história cultural do continente. É
desse modo, também, que Walter Salles e José Rivera
narram a jornada iniciática de dois jovens que encontram
a si próprios na geografia do continente. (NA)
Direção: Walter Salles.
Países: USA, Alemanha, Reino Unido y Argentina.
Ano: 2004.
Género: Drama.
Interpretação: Gael García Bernal (Ernesto Guevara
de la Serna), Rodrigo de la Serna (Alberto Granado),
Mía Maestro (Chichina Ferreyra), Mercedes Morán (Celia
de la Serna), Jorge Chiarella (Dr. Bresciani), Susana
Lanteri (Tía Rosana).
Roteiro: José Rivera; basado en el libro “Notas de viaje”
de Ernesto Guevara y en el libro “Con el Che por América
Latina” de Alberto Granado.
Produção: Michael Nozik, Edgard tenembaum y Karen
Tenkhoff.
Música: Gustavo Santaolalla.
Fotografía: Eric Gautier.
Montagem: Daniel Rezende. |
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