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a Revista de la Pátria Grande


IDÉIAS EM REDE / IDEAS EN RED

PNUD analisa democracia na América Latina
Claudio Marques, jornalista
Rio de Janeiro – Brasil


Arte gráfica sobre foto João Ripper
A partir de una extensa investigación en 18 países de América Latina y mediante la combinación de indicadores cuantitativos, entrevistas, encuestas y un diálogo con un amplio número de importantes líderes y formadores de opinión del continente, el programa de las Naciones Unidas para el Desarrollo (PNUD) publicó el informe “La democracia en América Latina: Hacia una democracia de ciudadanas y ciudadanos”. Este Informe ofrece un análisis comprehensivo del estado de la democracia en América Latina, intentando superar el diagnóstico de los problemas existentes, y proponiendo nuevos enfoques para abordar los desafíos que actualmente ponen en riesgo muchos de los avances democráticos logrados en los últimos veinticinco años.



O Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD) lançou em 21 de abril o relatório Democracia na América Latina, a mais importante iniciativa da entidade no continente em muitos anos. O objetivo do documento e de encontros realizados posteriormente é fornecer uma oportunidade para a América Latina analisar os seus profundos desafios políticos. Ele destaca os principais avanços da democracia como regime político na América Latina e identifica a desigualdade e a pobreza como suas principais deficiências. Propõe, além disso, a urgência de uma política geradora de poder democrático, cujo objetivo seja a cidadania integral.

O relatório é composto por três seções. Na primeira, assenta-se a base conceitual usada no estudo e se contextualiza o desenvolvimento da democracia numa região com altos níveis de pobreza e desigualdade. A segunda seção analisa os dados obtidos por meio dos diversos instrumentos empíricos empregados. Por fim, a terceira seção busca ampliar a agenda pública sobre o desenvolvimento da democracia, centrada na crise da política, nas reformas estatais e estruturais da economia, e no impacto da globalização na região.

O relatório foi baseado em um extenso trabalho de pesquisa. Foram entrevistados cerca de 19 mil latino-americanos em pesquisas de opinião conduzidas em 18 países da região: Argentina, Bolívia, Brasil, Colômbia, Costa Rica, Chile, Equador, El Salvador, Guatemala, Honduras, México, Nicarágua, Panamá, Paraguai, Peru, República Dominicana, Uruguai e Venezuela. Todos cumprem hoje os requisitos fundamentais do regime democrático, mas apenas três vivem em democracia há mais de 25 anos. O estudo assume e ressalta, como elementos importantes para a análise, as nítidas diferenças entre os países da região, mas também propõe que, em matéria de democracia, há problemas regionais comuns e diversidade nacional nas respostas.

Arte gráfica sobre foto João Ripper

Também é parte do relatório um resumo dos pontos de vista da elite política latino-americana embasado em entrevistas individuais com 231 líderes regionais, de sindicalistas a empresários, de acadêmicos a jornalistas e políticos, inclusive ex-presidentes, como o brasileiro Fernando Henrique Cardoso. A esse material de pesquisa juntam-se ainda ensaios encomendados a alguns dos mais respeitados analistas políticos da região.

Como é praxe em relatórios do PNUD, houve uma preocupação de ajudar a alicerçar a discussão sobre a democracia na América Latina com uma ampla compilação de dados estatísticos, sobre legislação e indicadores sócio-econômicos sobre a região. Esse compêndio está anexado ao relatório na forma de um CD-ROM.

Além dos resultados das perguntas elaboradas ao longo da pesquisa de opinião pública sobre a democracia, o relatório apresenta dois novos indicadores sintéticos. Um deles, o Índice de Apoio à Democracia (IAD) foi consolidado a partir dos dados da pesquisa. O outro, o IDE (Índice de Democracia Eleitoral), sintetiza as condições objetivas em que se deram os pleitos eleitorais nos 18 países estudados desde que o regime democrático foi consolidado na região.

Segundo Mark Malloch Brown, administrador do PNUD Internacional, o documento oferece uma análise abrangente do estado da democracia na América Latina, mas não se limita a isso. Além de elaborar um diagnóstico dos problemas, propõe novos enfoques para enfrentar os desafios que põem em risco os avanços conquistados pela região nos últimos 25 anos.

Foto João Ripper

Para o PNUD, a governabilidade democrática é um elemento essencial do desenvolvimento humano porque, por meio da política, e não apenas da economia, é possível gerar condições mais eqüitativas e aumentar as opções das pessoas. Na medida em que a democracia torna possível o diálogo que inclui os diferentes grupos sociais, e que as instituições públicas sejam fortalecidas e mais eficientes, será possível atingir os Objetivos de Desenvolvimento do Milênio, sobretudo quanto à redução da pobreza. Nesse sentido, a democracia é o modelo capaz de abrir espaços de participação política e social, principalmente aos que mais sofrem: os pobres e as minorias étnicas e culturais.


CIDADANIA INTEGRAL

O conceito de cidadania integral abarca a cidadania política, a cidadania civil e a cidadania social. Ou seja, o cidadão de hoje deve ter acesso aos seus direitos cívicos, sociais, econômicos e culturais, e todos eles formam um conjunto indivisível e articulado.

Para medir os avanços em cidadania política usou-se o Índice de Democracia Eleitoral (IDE), que, ainda que meça apenas um aspecto do sistema político, corresponde à dimensão ou condição mínima para que se possa falar de democracia. Os dados mostram que na região existem hoje democracias eleitorais. Ainda que se tenha avançado quanto ao funcionamento eleitoral e tenha havido conquistas em termos institucionais, persistem sérias deficiências com respeito ao controle da ação estatal que os cidadãos poderiam exercer. A participação eleitoral é irregular, com níveis muito baixos em alguns países, e existem barreiras de entrada para novos atores na competição eleitoral. Os partidos políticos enfrentam um momento de alta desconfiança como agentes de representação, o que constitui um desafio-chave para o desenvolvimento democrático. Desse modo, a representação de amplos grupos populacionais é em geral baixa, e o comparecimento às urnas é irregular.

Foto João Ripper

Com relação à cidadania civil, registram-se conquistas importantes em matéria de legislação, mas é preocupante a reduzida capacidade dos Estados para garantir esses direitos na prática. Embora tenha melhorado a situação dos direitos humanos em comparação com o período não democrático, e tenham sido ratificadas convenções internacionais relativas aos direitos civis e estabelecidas normas nacionais nesse sentido, os dados mostram debilidades, fato que deveria constituir um sinal de alerta. O progresso com relação ao respeito ao direito à vida, à integridade física e à segurança, e à não-discriminação, tem sido irregular e, sob certos aspectos, insuficiente.

As tendências identificadas com relação à cidadania social também são preocupantes e constituem o principal desafio das democracias latino-americanas. O desenvolvimento democrático depende de que se amplie de forma decidida a cidadania social, sobretudo a partir da luta contra a pobreza e a desigualdade e a criação em emprego de boa qualidade. Apenas com a redução da desigualdade é que se poderá diminuir a pobreza sustentavelmente e melhorar as possibilidades de crescimento econômico.


ALGUNS NÚMEROS

A região avançou em pontos como direito ao voto, eleições limpas, livres e amplas. Pela primeira vez, a democracia é a forma de governo preponderante na América Latina. O regime democrático, porém, não foi capaz de acelerar a expansão econômica da região, e a desigualdade de renda, que já era a maior do mundo, aumentou ainda mais.

Em 15 dos 18 países estudados, mais de 25% da população vive abaixo da linha de pobreza, e em 7 deles mais da metade da população vive nessas condições; ainda que em 11 dos países considerados a pobreza tenha diminuído e em 15 tenha aumentado o PIB per capita entre 1991 e 2002. Cabe destacar alguns avanços em termos de saúde (a desnutrição infantil diminuiu em 13 dos 18 países, e também reduziu-se a mortalidade infantil e aumentou a expectativa de vida) e educação (a taxa de analfabetismo baixou em todos os países e aumentou o nível de escolarização, mas a qualidade da educação em geral é baixa).

O Índice de Democracia Eleitoral (IDE) leva em conta quatro variáveis: direito ao voto, realização de eleições livres e limpas, e grau de acesso a cargos públicos por meio de eleição. O indicador varia de 0 a 1 - quanto mais alto, maior o grau de democracia eleitoral. A média da região passou de 0,28 em 1977 para 0,69 em 1985, atingiu 0,86 em 1990 e chegou a 0,93 em 2002. Em todos os 18 países estudos, por exemplo, o direito ao voto é universal (embora em alguns casos haja restrições aos militares e a eleitores que moram no exterior).

Foto João Ripper

Os pesquisadores também elaboraram dez perguntas para tentar aferir o grau de convicção democrática da população. A partir da análise das respostas, o relatório concluiu que os democratas, embora sejam em maior proporção na América Latina (43%), não são a maioria: há 30,5% de ambivalentes e 26,5% de não-democratas.

Os democratas são os que mostraram uma atitude permanentemente positiva em relação à democracia nos três aspectos apurados: apoio às instituições representativas, apoio à democracia como sistema de governo e apoio a limitações ao poder do presidente. Os ambivalentes apóiam instituições como o Congresso e os partidos, mas são favoráveis à centralização do poder no presidente, que é considerado acima das leis. Os não-democratas, por fim, mostram-se contrários aos preceitos democráticos nos três aspectos pesquisados e são os que mais concordam com frases como “não importa se um governo é autoritário, desde que ele resolva os problemas”.

Apesar dos avanços institucionais na América Latina nos últimos anos, a maioria dos cidadãos da região aceitaria um regime autoritário se ele resolvesse os problemas econômicos de seu país (54,7%), avalia que desenvolvimento é mais importante que democracia (56,3%) e concorda que o presidente pode ignorar as leis (58,1%).

A questão é que a política, como se constata em diversas partes do relatório, tem importantes limites e está em crise. Essa crise expressa-se no divórcio entre os problemas cuja solução é exigida pelos cidadãos e a capacidade da política para enfrentá-los. Os resultados da pesquisa de opinião pública e as opiniões de diversos líderes políticos registradas no Informe coincidem tanto sobre a necessidade de reconhecer que a região vive um momento de inflexão e crise quanto em valorizar o sentido da política, ou seja, sua capacidade de criar opções para promover novos projetos coletivos viáveis.

A pesquisa apontou também que, para 64,7% dos entrevistados, os governantes não cumprem o que prometem porque mentem para ganhar as eleições. Eles também se queixam de que não podem contar com um tratamento equânime perante a lei, da corrupção, da ineficiência do Judiciário, da falta de profissionalismo combinada com o abuso da força pela polícia, e da incapacidade dos governos em prover serviços sociais básicos. Os indicadores mostram que todos os países da região têm níveis de desigualdade de renda maiores do que a média mundial, e que em 15 dos 18 países estudados mais de 25% da população vive abaixo da linha da pobreza.

Completa o quadro a crise dos principais partidos políticos na maior parte dos países da região (apenas 27,2% dos latino-americanos dizem ter um partido e votar sempre nele), criando instabilidade e abrindo caminho para o surgimento de lideranças personalistas.

“O coração do problema é que, se a democracia se estendeu amplamente na América Latina, suas raízes não são profundas”, escreve Mark Brown no prólogo do relatório. A proteção aos direitos humanos, a independência e eficiência do Poder Judiciário ainda precisam ser fortalecidas.

O documento destaca que a parcela que vive em piores condições socioeconômicas é também a que está mais distante do pleno exercício da cidadania. Nesse sentido, o relatório salienta que é preciso que negros e indígenas tenham mais acesso às cadeiras do Parlamento.

O relatório conclui pela necessidade de continuar a fortalecer a democracia como regime e espaço de expansão de uma cidadania integral, ponderando com ênfase especial sobre a participação da sociedade civil. É necessário aprofundar tanto a governabilidade democrática, entendida como o fortalecimento institucional do regime, quanto, sobretudo, a cultura política que pressupõe construir espaços de participação eqüitativa principalmente dos mais desfavorecidos nas sociedades latino-americanas.

Uma proposta central é a construção de uma nova legitimidade do Estado, pois a democracia requer um poder estatal que assegure a universalidade dos direitos. A discussão sobre o futuro da democracia também não pode ignorar as opções econômicas. A economia é chave porque dela depende o desdobramento da cidadania social. Por fim, o relatório propõe o debate sobre o impacto da globalização na soberania interior dos Estados e as melhores estratégias para fortalecer as nações latino-americanas no espaço da aldeia global. (NA)



SAIBA MAIS
O site www.pnud.org.br/publicacoes disponibiliza para download publicações variadas do PNUD, inclusive “La Democracia em América Latina” e textos relacionados.


O Quadro Político Partidário, Mobilização Social e Democracia
Documento apresentado ao Conselho Permanente da CNBB, em 26 de Outubro de 2004

A rapidez da apuração pela urna eletrônica já permite afirmar que o cenário político-partidário mudou. Os números colocam o PT e o PSDB como grandes vitoriosos, continuando o PMDB ainda com maior número de prefeituras no país, embora tenha perdido votos. O PFL foi, entre os grandes partidos, o que mais perdeu força.[1]

No que se refere ao PT, a análise dos resultados suscita a discussão sobre a identidade que lhe atribui o eleitorado: é o Partido que está à frente do Governo Federal, ou o PT histórico? O Partido perdeu sua relativa unidade ideológica ao permitir o ingresso de candidatos oportunistas, que só buscam beneficiar-se do fato do PT ser governo. Por outro lado, os resultados em Fortaleza e Vitória reafirmam a força do PT de luta. As vitórias em Belo Horizonte, Aracaju e Recife, capitais onde o partido empreendeu a inversão de prioridades na gestão pública, devem ser contabilizadas como êxito municipal.[2] Grande, também, o número de conquistas em municípios do interior de Minas. Ampliam-se, portanto, as diferenças internas ao PT, que cresceu ao abrir mão de sua coerência ideológica e envolver-se num amplo espectro de alianças.

As vitórias do PSDB indicam que ele está se tornando a referência de oposição em nível nacional. Prometendo dar continuidade aos melhores projetos municipais do PT, confundiu o eleitorado e, usando o marketing, ganhou uma imagem moderna. Tanto ou mais pragmaticamente que o PT, o PSDB bancou candidatos pouco condizentes com seu programa partidário.

Se, por hipótese, há 15 anos atrás alguém dissesse que Lula seria o sucessor de Fernando Henrique, e que o PT e o PSDB se tornariam os dois maiores partidos brasileiros, estaria prevendo uma profunda mudança política. Hoje sabemos que não houve tal mudança e que essa nova composição partidária reproduz o antigo padrão eleitoral, no qual a oposição tende a tomar o lugar das forças governistas sem necessariamente alterar os rumos da política. Com efeito tanto o PT quanto o PSDB assumiram a atitude pragmática de não se oporem às condições de governabilidade impostas pelos grandes credores, e isso limita bastante seu leque de opções. Em suma, as mudanças no quadro político são bem menos profundas do que poderiam parecer.

Merece destaque, a mobilização da sociedade pelo Movimento de Combate à Corrupção Eleitoral. Foram criados comitês em 23 unidades da Federação Brasileira. O envolvimento dos operadores do Direito, principalmente os promotores e procuradores eleitorais, foi decisivo nessa mobilização. Nunca houve tantas denúncias e processos de cassação do registro das candidaturas. Na medida em que cresce a consciência de que “voto não tem preço, tem conseqüência, num processo de aprimoramento de nossa cultura política, tornando-se mais visível a corrupção eleitoral e maior o clamor social por sua punição: hoje já contamos mais de 150 cassações por prática de crimes eleitorais. Não por acaso a Lei 9840/99 tem sofrido tentativas de modificação no Senado Federal e no TSE, no sentido de dificultar a rapidez do processo judicial, que é sua principal inovação.

Terminado o 2º turno das eleições municipais, começarão a ser montadas as estratégias para 2006. Já se percebe dentro do governo duas estratégias políticas: a populista e a de mobilização social. A primeira propõe a criação de uma base eleitoral entre os mais pobres e despolitizados, por meio de programas de assistência social. Esta fórmula tem dados vitórias eleitorais ao populismo, que pretende representar as diferentes classes sociais como se elas não tivessem interesses divergentes. Há quem veja o governo Lula implementando a política neoliberal, enquanto oferece certos benefícios aos mais pobres e pede que os setores populares organizados tenham paciência até que estejam dadas as condições para o crescimento sustentável. Conta para isso com a ajuda de sindicatos próximos ao governo e ao PT.

Essa receita populista é alvo da crítica neoliberal, porque lhe parece um desperdício implementar programas de transferência de renda em larga escala. Na sua perspectiva, o governo promove uma “gastança” injustificada que favorece a preguiça de quem prefere receber ajuda do governo a buscar um emprego honesto. É alvo de críticas também da esquerda, para qual a transferência de renda deveria resultar de uma política econômica que, colocando a dívida social acima da financeira, adote uma política estatal de pleno emprego na cidade e no campo (Reforma Agrária) e universalize o atendimento dos serviços públicos pelo menos em saúde e educação. Essa proposta, inspirada no projeto original do PT de mobilização social, postula uma estratégia política para 2006, visando dotar os setores populares de instrumentos que aumentem e organizem a sua força, de modo a alterar a atual hegemonia dos setores economicamente privilegiados. Um desses instrumentos são as formas de Democracia Deliberativa.


[1] O PT foi o partido mais votado do país (16,3 milhões de votos, 17,2%) e os partidos da base governista elegeram o maior número de prefeitos, aumentando a polarização entre o PT e o PSDB, o segundo partido mais votado do país (15,7 milhões de votos, 16,5%). Em seguida, vieram o PMDB (14,2 milhões de votos, 15%) e o PFL (11,2 milhões de votos, 11,9%).
[2] Os resultados de Porto Alegre e Ipatinga, porém, parecem ir no sentido inverso. O medo de que o “continuísmo pode levar ao autoritarismo”, pode pegar justamente onde o PT mais exemplarmente implantou políticas democratizantes como o “Orçamento Participativo”.


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