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L
a Revista de la Pátria Grande


ENTREVISTA / ENTREVISTA

A Democracia na América Latina
La Democracia en América Latina


João Ricardo Dornelles
Professor e Coordenador do Curso de Pós-graduação do Departamento de Direito da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro/PUC-Rio;
Coordenador do Núcleo de Direitos Humanos da PUC-Rio;
Membro da Rede Brasileira de Educação para os Direitos Humanos;
Diretor da Associação Nacional de Direitos Humanos, Ensino e Pesquisa.


Profesor y Coordinador del Curso de Post-graduación del Departamento de Derecho de la Pontificia Universidad Católica de Río de Janeiro / PUC - Río;
Coordinador del Núcleo de Derechos Humanos de la PUC - Río;
Miembro de la Red Brasileña de Educación para los Derechos Humanos;
Director de la Asociación Nacional de Derechos Humanos, Enseñanza e Investigación
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NA - Como você caracterizaria a democracia na América Latina, hoje?

João Ricardo Dornelles
- Para responder a essa questão e talvez às demais questões, seria importante estabelecer uma premissa. No contexto atual existe um reducionismo em relação à democracia.

Podemos até falar que, em relação à democracia, aos direitos humanos e ao desenvolvimento, o modelo hegemônico neoliberal tem tratado dessas questões de forma restritiva. O que eu quero dizer com isso? Que a democracia é entendida somente na sua dimensão representativa, como a expressão das “regras do jogo” institucional: eleições periódicas, enfim, tudo regulado pela lei.

Do ponto de vista dos direitos humanos, a concepção hegemônica os reduz ao seu caráter declaratório, principalmente, aos direitos individuais, civis e políticos. Já o desenvolvimento é entendido somente na sua dimensão econômica, como crescimento econômico, sem considerar o desenvolvimento humano, o desenvolvimento social, o desenvolvimento ambiental.

Esse reducionismo traz como conseqüência uma série de problemas. Há uma mistificação em relação a esses temas, principalmente no que se refere à questão da democracia. Foi construído um modelo único que é adotado como “a receita” do modelo hegemônico contemporâneo, para então ser adotado em diversas partes do mundo, inclusive no Iraque: “vamos tentar implantar a democracia”, é o que dizem lá as forças hegemônicas, capitaneadas pelos Estados Unidos. Em primeiro lugar, que modelo de democracia é esse que está sendo implantado de fora para dentro? E, em segundo lugar, é um modelo que está exatamente dentro desse receituário hegemônico.

Eu costumo dizer o seguinte: da mesma forma que existe o receituário neoliberal do Fundo Monetário Internacional, do Banco Mundial, da Organização Mundial do Comércio em relação à economia, há também o receituário de cunho político, ou seja, “vocês devem seguir esses padrões aqui”. E tudo isso, para responder à primeira questão relacionada à democracia na América Latina, também está colocado nesse contexto.

É lógico que parte da América Latina viveu um longo período, cerca de 20 anos, sob regimes de exceção, de regimes militares, principalmente, no cone sul - Brasil, Argentina, Uruguai, Chile, Paraguai, Bolívia. Além da América Central, também com guerras civis. Por isso, a questão da democracia tem significado muito importante, mesmo de um ponto de vista restritivo, quer dizer, da democracia representativa institucional.

Eu acredito que a questão da democracia, hoje na América Latina, enfrenta graves problemas, embora tenham ocorrido algumas conquistas sociais em relação a isso. São problemas ligados ao fato de centrar o seu enfoque somente nesse aspecto representativo, o que acaba facilitando uma série de características tradicionais das políticas latino-americanas ligadas ao caudilhismo, ao clientelismo, aos currais eleitorais, ao assistencialismo. Não estou dizendo que não tenham ocorrido avanços. O que eu quero dizer é que, em última instância, existe uma luta política e ideológica para definir o que é democracia.


Foto João Ripper

NA
- E, no Brasil, isso seria diferente?

João Ricardo Dornelles - Eu acho que não seria diferente. Por exemplo: nas últimas eleições brasileiras, que aconteceram neste ano de 2004 para prefeitos e vereadores, nós vimos em alguns locais, como Campos, no Estado do Rio, por exemplo, a reprodução das práticas mais atrasadas, mais conservadoras.

Percebemos que, no fundo, existe uma luta que é político-ideológica entre dois grandes campos. Um campo que podemos dizer que seria, exatamente, um campo republicano – não do ponto de vista republicano norte-americano -, da República, da coisa pública, quer dizer, do entendimento da questão política como a questão laica, como a questão que segue algumas regras aceitas pelo conjunto da sociedade, quer dizer, as chamadas regras do jogo e que coloca o espaço público como um espaço da política, da polis, da cidadania, dos direitos. Então, constatamos, por um lado, segmentos (de diferentes partidos inclusive) que seguem essa concepção.

Por outro lado, também tem crescido muito no Brasil, e em outras partes do mundo, uma prática arcaica, conservadora, antidemocrática - utilizando o aparato da democracia representativa –, ligada a uma confusão entre os interesses privados e o interesse público; criando uma identidade entre política e religião, por exemplo. Quer dizer, ligadas ao surgimento dos fundamentalismos, não somente aos que conhecemos hoje, mas - no caso ocidental - ligadas às práticas políticas relacionadas com a questão da religiosidade. É um fenômeno que está ocorrendo no Brasil de hoje, reforçando as políticas assistencialistas, clientelistas, o curral eleitoral.

Isso é facilitado, não somente no contexto neoliberal, mas também por um histórico brasileiro de exclusão social, ou seja, em áreas extremamente carentes, com segmentos vulneráveis, com classes empobrecidas, muitas vezes, se torna mais fácil a manipulação política e a mistificação.

No entanto, temos avanços que se dão a partir da democratização, a partir da Constituição de 1988, a partir dos processos de garantia de direitos, de reconhecimento dos direitos humanos, de eleições diretas de quatro em quatro anos para Presidente da República, Governadores e também do plano municipal. Ou seja, todo um calendário eleitoral ligado à noção de democracia representativa. Mas, por outro lado, a manutenção de oligarquias políticas atrasadas, arcaicas em diversas partes do Brasil - não somente no norte e nordeste, como se falava normalmente, mas em todas as regiões do Brasil - convivendo com práticas que seriam mais cidadãs, mais republicanas, no sentido da garantia dos direitos humanos, da ampliação dos espaços democráticos.

É muito importante garantir essas conquistas da democracia representativa, embora elas sejam limitadas. No Brasil nós conseguimos estabelecer essa conquista e devemos garantir a sua consolidação, incluindo outras práticas democráticas que valeriam à pena como: plebiscito, ‘referendum’, quer dizer, práticas participativas, práticas de democracia direta, práticas que são mais avançadas do ponto de vista da cidadania.

NA - Que outros sinais podem ser apresentados e que estariam freando ou fazendo avançar a democracia no continente latino-americano?

João Ricardo Dornelles - Há duas questões que são complicadas em relação ao Brasil e aos demais países da América Latina no processo de democratização, principalmente nos anos 80 e 90. A primeira delas é que a democratização, ou seja, o fim dos regimes militares se deu em uma conjuntura mundial de ofensiva do modelo neoliberal. Isso criou uma grande frustração nas sociedades latino-americanas, onde a herança social de cidadania e de inclusão social é muito débil. São sociedades com amplos setores excluídos historicamente - desde o processo colonial à formação do Estado Nacional. Quer dizer, existem amplos contingentes que são excluídos, empobrecidos, vulneráveis e não recebem os benefícios políticos, econômicos e sociais de uma sociedade moderna. Isso é histórico. Temos essa tradição histórica de exclusão.

A democratização criou expectativas muito grandes nos anos 80 e 90: “que bom que temos agora a oportunidade de escolher governantes, que são nossos representantes - deputados, governadores, presidentes”. E, ao mesmo tempo, pensamos: “isso vai resolver todos os problemas”. Só que não resolveu, ou resolveu em parte somente. Por motivos variados, por tradição histórica da sociedade, mas também pela coincidência da democratização ter se dado junto com o processo da ofensiva neoliberal, que tem na sua essência a característica excludente.

A chamada globalização neoliberal se expressa num modelo social, econômico, existencial, produtivo em que a noção de afastamento do Estado das políticas públicas, principalmente, as de natureza social faz parte das suas características: a flexibilização do mercado de trabalho, a fragilização das formas associativas da sociedade civil, principalmente dos trabalhadores, a debilitação dos sindicatos, a privatização, não somente da economia, mas das relações humanas, das relações sociais, a mercantilização das relações humanas. Uma realidade nova que coincide com a democratização das nossas sociedades e, ao invés de incluir, de integrar, de propor políticas públicas integradoras e de ampliação da cidadania - principalmente a cidadania social, ao contrário, limita essa cidadania.

Por um lado as sociedades latino-americanas se democratizaram - ocorrem eleições, o que é muito bom -, mas por outro lado, os limites da não solução da histórica injustiça social levam ao agravamento de uma série de problemas: o desmonte do Estado em diversos aspectos, principalmente, no aspecto social. As propostas, as mais terríveis como: flexibilizar ou acabar com a justiça do trabalho, a flexibilização das leis trabalhistas. E isso, cada vez mais, vai aumentando a exclusão de segmentos para fora da sociedade moderna, criando uma situação de indigência, uma situação de vulnerabilidade generalizada. Aqui está a raiz da violência e dos conflitos das nossas sociedades.

Eu acho que esses sinais não servem apenas para a América Latina, mas para o mundo inteiro. Mesmo nas sociedades centrais passa a existir a exclusão social ampliada. Para se ter uma idéia, nos Estados Unidos, em 15 anos – entre o início do governo Reagan e 1995 - a miséria absoluta aumentou de cerca de seis milhões de habitantes para 40 milhões. Um aumento tremendo de miseráveis absolutos em todo o mundo, nas Américas, na Europa Ocidental, na Europa Oriental, por conta da introdução do modelo neoliberal. Na Europa Ocidental o Estado de bem-estar social, em grande parte, foi desmontado pelo neoliberalismo. No Brasil, as políticas sociais, que vinham com certeza, isso passa a ser uma contradição em relação à questão da democracia, porque a democracia não é só votar, participar das eleições. A democracia está também vinculada diretamente às conquista sociais e de direitos, à ampliação da noção de cidadania.

Foto João Ripper

NA - Há alguma coisa que você gostaria de destacar em termos de avanços, experiências?

João Ricardo Dornelles - Há sim. Não somente no Brasil, mas em outras partes da América Latina. No caso brasileiro, nesses anos todos de retrocesso, podemos apontar alguns avanços que se refletem em experiências tanto de governos, quanto da sociedade civil organizada e, às vezes, em articulação de um com o outro. Eu poderia citar diversos exemplos, mas eu vou citar apenas um deles que talvez tenha sido o mais significativo e que ganhou uma dimensão global.

Trata-se da experiência de 16 anos, em Porto Alegre, de governos do Partido dos Trabalhadores, em aliança com alguns outros segmentos progressistas, segmentos de esquerda e segmentos democráticos, implantando uma série de reformas muito importantes, reformas revolucionárias na questão política: o Orçamento Participativo, por exemplo. Muitas vezes, as pessoas confundem o seu significado e alcance. Não é somente juntar conselhos para discutir a questão do orçamento, mas também é uma nova prática democrática, que não se restringe a atuação o Estado. Expressa uma prática participativa direta de segmentos sociais na discussão, decisão e definição de prioridades - não somente orçamentárias. Expressa a atuação coletiva dentro da gestão pública, portanto, da Administração Pública.

A experiência do Orçamento Participativo de Porto Alegre serviu de modelo para diversas outras experiências no mundo todo. Inclusive a realização dos Fóruns Sociais Mundiais em Porto Alegre, em parte, é resultado das experiência inovadora dos governos do PT e do Orçamento Participativo, como forma de gestão democrática direta.

Eu lamento por essas forças políticas terem perdido as eleições, em 2004. Embora, o Prefeito eleito tenha se comprometido a manter a proposta do Orçamento Participativo. Vamos ver na prática como vai acontecer, pois a experiência que foi vivida por 16 anos não se restringe a uma discussão orçamentária. Trata-se da formação de novos poderes democráticos através da participação direta da sociedade civil, principalmente dos segmentos populares.

Existem outras experiências no Brasil, que foram realizadas em outros espaços, locais, regiões, Estados e não somente pelo Partido dos Trabalhadores. Algumas experiências foram muito significativas no Paraná, com o próprio governo do Estado, ampliando a questão dos direitos humanos no campo da educação – Educação para os Direitos Humanos, vinculado com uma rede de organizações não governamentais.

Outras experiências ligadas ao próprio movimento social também contribuíram, como o Movimento dos Trabalhadores Sem Terra, e são práticas, experiências novas na ampliação da cidadania e que com todas as suas dificuldades e limitações, no caso brasileiro, confluíram para a chegada do Lula ao governo, abrindo novas expectativas. Algumas frustradas, mas eu acredito que seja o reflexo de um governo de transição. Por isso tem contradições. Contradições internas, que vêm do arco de alianças que foi feito para sustentar o governo.

Mas, mesmo assim, eu considero que é uma conquista, com todas as dificuldades, com todos os problemas que possam existir. O grande dilema que temos hoje é o seguinte: como um governo de esquerda, num ambiente global hostil, que é o ambiente neoliberal, pode – seja no Brasil, em outros países da América Latina, ou em outras partes do mundo - adotar políticas que realmente possam avançar no sentido da ampliação democrática, da ampliação dos direitos econômicos, sociais, culturais, da cidadania, do bem-estar social. No Uruguai, o governo de esquerda de Tabaré Vasquez também vai ter dificuldades. Essas dificuldades estão colocadas com dados objetivos impostos pela hegemonia neoliberal. O grande desafio é como romper com esta hegemonia neoliberal. Enfim, existe avanço, mas dificuldades também.

NA - E o que mais poderíamos fazer para avançar?

João Ricardo Dornelles - Existem os movimentos sociais. Uma resistência ao modelo hegemônico. Um novo ativismo, no plano local, nacional e global. Eu considero que, embora o ambiente seja hostil, nunca nesses últimos 20 anos, o modelo hegemônico, que é o modelo neoliberal, esteve tão deslegitimado. O que eu quero dizer com isso? Este modelo está sendo questionado em diversas partes do mundo pela expansão da miséria, da exploração, da exclusão, da opressão. O modelo neoliberal é excludente, cria grandes conflitos sociais. Um modelo centrado no mercado, que transforma tudo e todos – relações, sentimentos, a existência – em mercadoria, em valor de troca. Um modelo que desumaniza, que cria e amplia a violência, que desestrutura as redes de solidariedade social.

Foto João Ripper

Nenhum modelo opressor dura muito tempo sem o nascimento da sua crítica e de movimentos de resistência. O modelo hegemônico começou a se deslegitimar desde meados dos anos 90 quando começou a surgir a resistência que se transformou no conjunto de movimentos contra-hegemônicos. A resistência começou a se desenvolver em Chiapas, nas greves na França em 94, posteriormente com a Rodada do Milênio em Seattle, com as primeiras grandes manifestações contra o neoliberalismo e depois com o surgimento dos Fóruns Sociais Mundiais. Mas, por outro lado, ainda não se construiu alternativas a este modelo. Os movimentos contra-hegemônicos são diversificados, heterogêneos e plurais. O desafio é construir uma linguagem e uma prática comum, a unidade na diversidade, para ser possível a construção de uma alternativa viável ao modelo hegemônico. E que alternativa seria esta? O socialismo?

Não sei. Não importa eu falar que o nome é socialismo, mas, na minha opinião, a intenção não é voltar para o passado. Posso até continuar me considerando socialista, mas é um outro socialismo, não é um socialismo que foi vivido com as experiências do século 20. Essas experiências são históricas, são importantes, mas essas experiências são do século 20, da conjuntura, do contexto, do quadro político nacional e internacional do século 20, do tipo de economia capitalista existente no século 20. Foi um socialismo – se é que foi socialismo mesmo - que se reduziu a formas burocráticas, que mostrou a sua debilidade. Por este motivo foi derrotado pelo capitalismo neoliberal.

O modelo neoliberal está tão deslegitimado atualmente que obriga até mesmo os gestores a maquiarem o próprio discurso, a mudarem a própria retórica. Os documentos do Banco Mundial passam e o Fórum Econômico de Davos passa a afirmar: “a questão social também é importante”.

No final do século 20 e agora no século 21, o capitalismo é um outro capitalismo, é um capitalismo “pós fordista”, é um capitalismo que desestrutura as redes de proteção do “Welfare State”, vinculadas ao trabalho coletivo, é “financeirizado” de forma absoluta, é o capitalismo na sua essência mais pura. Por isso, temos que pensar formas alternativas a esse modelo. Eu acho que um grande espaço desses movimentos de resistência é o Fórum Social Mundial. Também existem as experiências que estão sendo, com muitas dificuldades, tentadas no Brasil com o governo Lula. São experiências limitadas pelas injunções da conjuntura internacional e pela quantidade de problemas que foram herdadas do passado.

Existe alternativa, não tenho a menor dúvida, mas a alternativa está sendo construída, e existem muitas dificuldades nessa construção. Primeiro, pela multiplicidade de atores que se colocam no campo contra-hegemônico: movimentos sociais urbanos, movimentos de mulheres, de ambientalistas, de sindicatos, de trabalhadores sem-terra, de jovens, de idosos, de aposentados, movimentos de desempregados, os piqueteros na Argentina, movimentos ligados à orientação sexual, movimentos culturais etc., etc., etc. Enfim, uma pluralidade de grupos, movimentos, segmentos organizados no mundo inteiro, que têm reivindicações próprias e contradições diretas com esse modelo existente. São movimentos oprimidos, explorados, que sofrem preconceitos, que não têm espaço dentro desse modelo. Então, são movimentos que constituem esse arco enorme de grupos que se contrapõem a esse modelo. São contra as guerras e vislumbram uma realidade mais generosa para a humanidade como diz o próprio lema do Fórum Social Mundial: “Por um outro mundo possível”. Mas ainda não se tem idéia do que é esse outro mundo possível. Sabemos o que não queremos, mas ainda não construímos um projeto que unifique democraticamente o que todos estes movimentos contra-hegemônicos imaginam como um outro mundo possível.

Assim, quem é socialista, marxista talvez imagine uma coisa. O ambientalista vai imaginar outras coisas. Somos todos diferentes. Nesse sentido, vamos ter que construir, e não só construir o que é isso, mas construir o caminho para esse outro modelo.

Esse caminho é construído com a práxis. E aí voltando ao velho Marx, a práxis possibilita a construção dessas alternativas. Resumindo: vivemos com um modelo que se deslegitima, mas que ainda é forte e, ao mesmo tempo, encontra resistência. Entretanto, é uma resistência que ainda não construiu a alternativa ao modelo hegemônico. É um momento histórico em que a hegemonia neoliberal permanece, exatamente, porque ainda não há alternativa. Há a manifestação, o questionamento, a resistência, mas ela ainda não apresenta um modelo que se contraponha na sua totalidade ao modelo neoliberal. Agora, com certeza, alguma saída a humanidade irá apresentar.

NA - Você gostaria ainda de acrescentar algo a respeito dos limites e possibilidades da democracia representativa?

João Ricardo Dornelles - Vale a pena ressaltar que as possibilidades da democracia representativa são uma conquista humana: ter eleições, ter a possibilidade de mobilizar a sociedade civil, os segmentos sociais e, principalmente, os segmentos populares num calendário eleitoral determinado e existir um espaço de representação política que, de certa maneira, não somente representa, mas pode ser um espaço de repercussão do que ocorre na sociedade. Isso é importante. Agora, os limites dizem respeito quando democracia se restringe apenas a isso. Por exemplo, o período do Fujimori, no Peru. Fujimori tinha todo um aparato democrático institucional – eleições, etc. Só que aquilo ali, em última instância, era uma ditadura disfarçada. Porque, ao mesmo tempo que tinha esse aparato, o Estado era extremamente repressivo em relação a diversos setores da sociedade - os setores mais empobrecidos, os setores indígenas, os camponeses, os trabalhadores urbanos, os moradores da periferia de Lima.

Democracia - e aí podemos recorrer à opinião de alguns autores, como Claude Lefort. Para ele a democracia não se restringiria à sua dimensão representativa. A democracia seria uma expressão radical de uma vivência sociocultural, estaria impregnada no tecido da sociedade.

O próprio Boaventura de Souza Santos diz que devemos trabalhar com um conceito de “demodiversidade”. O modelo neoliberal trabalha com um conceito único, de uma verdade única, um modelo único de democracia, que é a democracia representativa, institucional, liberal. Trata-se de um formato histórico, mas existem outros modelos. O Bonventura quer dizer que existem outras experiências que incorporam a questão da democracia participativa, da democracia direta: os conselhos, as formas de organização da sociedade, que são constantes, que são permanentes, que são vividas no cotidiano, que não seguem um calendário de quatro em quatro anos.

Foto João Ripper

Quer dizer, que “checa” a sociedade e os poderes existentes, e que constantemente participa de forma ativa e de forma propositiva, que atua intervindo em relação às políticas públicas que são adotadas. Existem instrumentos que a sociedade pode inventar, pode constantemente estar construindo, ao lado de alguns que já existem. O plebiscito é um deles, o ‘referendum’ é outro, as possibilidades de ‘checar’, no decorrer dos mandatos representativos de deputados, senadores, governadores, prefeitos, vereadores, do Presidente da República, a atuação desses governos e dos representantes. É lógico, que já existem algumas possibilidades presentes nas leis, na Constituição, mas a possibilidade de se ‘checar’ se os governos estão satisfazendo as expectativas criadas, se estão adotando as políticas que garantem o bem-estar social, a expansão dos direitos e as liberdades públicas, a ampliação das práticas democráticas e a ampliação da cidadania.

Eu acredito que esses limites existem e podem ser ultrapassados e os governos sociais têm proposto isso. As propostas dos governos sociais, em geral, têm sido exatamente essas: ampliar, alargar, ou seja, a democracia ser entendida como uma cultura democrática, não somente como uma eleição. A democracia internalizada em todos nós, nos grupos sociais, nos segmentos, nas instituições. A democracia como uma prática sociocultural que penetra na sociedade. Não adianta uma sociedade que tem uma cultura autoritária, fascista e, ao mesmo tempo, tem instituições democráticas. Instituições democráticas são importantes, mas elas se complementam com a noção de democracia radical e é quando ela se amplia no espaço social, penetra nos poros da sociedade.

NA - Em um contexto democrático, o que você teria para falar sobre participação cidadã?

João Ricardo Dornelles - Existem diferentes manifestações participativas, a própria noção de democracia participativa seria um bom exemplo. Acho que uma das grandes contribuições que os movimentos sociais têm dado é exatamente essa participação organizada que se manifesta através de iniciativas, propostas concretas de intervenção constante na realidade.

Podemos apontar diversos exemplos. A questão ambiental está constantemente mobilizando a população em relação à ocupação do espaço público e as cidades, ao desmatamento de encostas, à questão do saneamento básico. Isso é uma expressão da democracia participativa e não é só a manifestação como protesto – que é uma legítima expressão de participação cidadã -, mas também a participação organizada, intervindo nas políticas públicas com propostas concretas, alternativas adequadas, possibilitando, em conjunto com o Estado, a sua implantação.

Existem outros exemplos. Pode ser em relação à questão das mulheres, questões que os movimentos feministas colocam, questões da educação formal ou das diferentes manifestações de educação, os problemas cotidianos da comunidade. A grande questão, quando eu falo de democracia participativa ou de participação cidadã, é que não basta existir toda essa pluralidade de movimentação e de participação.

Por que eu quero ressaltar isso? Porque corre-se muitas vezes o risco da pulverização e da fragmentação corporativa dessas manifestações. As donas de casa preocupadas com os problemas delas, se reunindo, protestando, fazendo propostas e pouco se importando com os problemas que elas acham não ser delas. Os problemas da cidadania interessam a todos. Também o movimento feminista não tendo nada em comum com o movimento dos índios, com os grupos afro-descendentes, com os operários, com os sem-terra, com a juventude das favelas. Nesse caso, a questão é a seguinte: existem sem dúvida os movimentos mais localizados levantando bandeiras próprias, mas a articulação desses movimentos, através de propostas mais amplas, é que vai fazer avançar no sentido de uma democracia participativa ou uma ampla participação cidadã.

Com certeza, a retórica do modelo hegemônico neoliberal aceita esses movimentos, desde que pulverizados, fragmentados, não articulando propostas conjuntas, e, se possível, delegando às práticas institucionais representativas a capacidade de decisão e realização das políticas. Para a ordem neoliberal não é interessante que o movimento das mulheres se junte com o movimento de índios, operários, homossexuais, ambientalistas, jovens, estudantes, favelados, desempregados. Nem que os movimentos sociais dos países centrais se juntem com os movimentos sociais dos países periféricos e semi-periféricos.

Uma coisa interessante que eu assisti no 1º e 2º Fórum Social Mundial de Porto Alegre foram movimentos sociais e organizações não governamentais norte-americanos colocando o seguinte: nós, da Califórnia, estamos aproveitando que estamos em Porto Alegre para sentarmos com o pessoal de Boston, com o pessoal de Nova Iorque. Outros diziam também: estamos tendo a oportunidade de conhecer, conversar, trocar idéias com outros companheiros do nosso próprio país. Assim, é possível juntar não só diferentes regiões, mas também temas diferentes. E, ao contrário, o modelo neoliberal estimula a fragmentação.

Tudo bem, você pode discutir na sua rua para que haja saneamento básico, mas se você não se articula com o bairro, não se articula com a cidade, não se articula com o Brasil, não se articula com o mundo ... se você não se articula com outros setores, com outras lutas, você tem uma luta fragmentada. Pode até ter sucesso na sua luta. Mas não muda a realidade do mundo. Ele continuará sendo capitalista, neoliberal, opressor, explorador, excludente, autoritário, antidemocrático.

A noção de solidariedade tem que ser recuperada, quer dizer, de solidariedade, de envolvimento coletivo.

NA - Fale um pouco sobre a relação entre Direitos Humanos e Democracia?

João Ricardo Dornelles - Não é possível entender a questão dos direitos humanos desvinculada da democracia, ou seja, alguns autores até colocam a democracia como um dos direitos humanos. Eu coloco a democracia como um ambiente sociocultural, sociopolítico, em que a questão dos direitos humanos pode ser melhor tratada, melhor trabalhada, pode ser ampliada.

Ou seja, num modelo de sociedade em que a política se expressa não somente nas instituições democráticas, mas onde há debates políticos, há consciência social e política. Em uma sociedade com ampla participação social e com uma cultura democrática arraigada, com certeza, a garantia dos direitos humanos será mais efetiva.

NA - Você gostaria de acrescentar alguma coisa?

João Ricardo Dornelles - Basicamente, relembrar que trabalhar a questão da democracia, hoje, no Brasil, na América Latina, no mundo é exatamente levantar as bandeiras das conquistas que já ocorreram no passado - conquistas sociais, conquistas democráticas, como também recuperar conquistas que foram se perdendo no decorrer dos anos 80, 90, no período neoliberal, principalmente no campo dos direitos econômicos, sociais e culturais.

Foto João Ripper

Acrescentar que isso se dá a partir da necessidade da construção de alternativas contra-hegemônicas, contra o modelo neoliberal hegemônico e, sem dúvida nenhuma, nesse campo daí a questão dos direitos humanos pode ser um instrumento importante. A noção dos direitos humanos como uma alavanca emancipadora, libertadora, que pode fazer avançar na construção de uma alternativa ao modelo hegemônico neoliberal e na busca da construção de um mundo novo, quer dizer, uma outra sociedade possível. (NA)

Foto João Ripper

NA
- ¿Cómo caracterizaría usted a la democracia en América Latina en la actualidad?

João Ricardo Dornelles - Para responder a esa pregunta, y tal vez a las demás, sería importante establecer una premisa. En el contexto actual existe un reduccionismo con relación a la democracia. Es posible decir lo mismo con relación a los derechos humanos y al desarrollo: el modelo hegemónico neoliberal ha tratado estos temas de forma restrictiva. ¿Qué quiero decir con eso? Que la democracia es entendida solamente en su dimensión representativa, como expresión de las «reglas de juego» institucional: elecciones periódicas, en fin, todo lo regulado por la ley.

Desde el punto de vista de los derechos humanos, la concepción hegemónica los reduce a su carácter declaratorio, principalmente a los derechos individuales, civiles y políticos. En lo que respecta al desarrollo, es entendido solamente en su dimensión económica, sin considerar el desarrollo humano, social y ambiental.

Ese reduccionismo trae como consecuencia una serie de problemas. Existe una mistificación con relación a esos temas, principalmente en lo que se refiere a la cuestión de la democracia. Se construyó un modelo único que es adoptado como si fuera «la receta» del modelo hegemónico contemporáneo, para ser adoptado en diversas partes del mundo, inclusive en Irak: «vamos a tratar de implantar la democracia allí», es lo que dicen las fuerzas hegemónicas capitaneadas por Estados Unidos. En primer lugar, ¿qué modelo de democracia es ese que está siendo implantado de afuera hacia adentro? Y en segundo lugar, se trata de un modelo que está exactamente dentro de ese recetario hegemónico.

Acostumbro decir lo siguiente: de la misma forma en que existe el recetario neoliberal del Fondo Monetario Internacional, del Banco Mundial, de la Organización Mundial del Comercio con relación a la economía, existe también un recetario de cuño político, o sea, «ustedes deben seguir este modelo». Y todo eso, para responder a la primera pregunta relacionada con la democracia en América Latina, también está planteado en ese contexto.

Parte de América Latina vivió un largo período, cerca de 20 años, bajo regímenes de excepción, regímenes militares, principalmente en el cono sur: Brasil, Argentina, Chile, Paraguay, Bolivia, además de América Central, envuelta en guerras civiles. Por eso, la cuestión de la democracia tiene un significado muy importante, aun desde un punto de vista restrictivo, es decir, de la democracia representativa institucional.

Creo que la cuestión de la democracia hoy, en América Latina, enfrenta graves problemas a pesar de que se hayan producido algunas conquistas sociales en ese sentido. Son problemas relativos al hecho de centrar el enfoque solamente en ese aspecto representativo lo que acaba facilitando una serie de características tradicionales de la política latinoamericana vinculadas al caudillismo, el clientelismo, los feudos electorales y el asistencialismo. No estoy diciendo que no se hayan producido avances. Lo que quiero decir es que, en última instancia, existe una lucha política e ideológica para definir qué es la democracia.

NA - Y en Brasil, ¿eso es diferente?

João Ricardo Dornelles - Creo que no es diferente. Por ejemplo, en las últimas elecciones brasileñas para intendentes y autoridades municipales, que fueron este año (2004), fue posible ver en algunos lugares -como la ciudad de Campos, en el Estado de Río, por ejemplo- la reproducción de las prácticas más atrasadas, más conservadoras.

Notamos que en el fondo existe una lucha que es político-ideológica entre dos grandes campos. Un campo que podemos decir que sería, exactamente, republicano, no desde el punto de vista republicano norteamericano sino de la República, de la cosa pública, es decir, de la comprensión de la cuestión política como la cuestión laica, como la cuestión que sigue algunas reglas aceptadas por el conjunto de la sociedad, las llamadas reglas de juego, y que considera al espacio público como un espacio de la política, de la polis, de la ciudadanía, de los derechos. Entonces, constatamos, por un lado, la existencia de segmentos (incluso de diferentes partidos) que siguen esa concepción. Por otro lado, también ha crecido mucho en Brasil, y en otras partes del mundo, una práctica arcaica, conservadora, antidemocrática -que utiliza el aparato de la democracia representativa- vinculada a una confusión entre los intereses privados y el interés público, creando, por ejemplo, una identidad entre política y religión. Es decir, relacionada con el surgimiento de los fundamentalismos, no sólo los que conocemos hoy, sino – en el caso de occidente- con la cuestión de la religiosidad. Es un fenómeno que se está produciendo en el Brasil actual, reforzando las políticas asistencialistas, clientelistas y el feudo electoral.

Eso es facilitado no solamente por el contexto neoliberal sino también por la historia de Brasil en materia de exclusión social. En áreas extremadamente carentes, con segmentos vulnerables, con clases empobrecidas, muchas veces la manipulación política y la mistificación se hacen más fáciles.

Aún así tenemos avances políticos que se dan a partir de la democratización, a partir de la Constitución de 1988; a partir de procesos de garantía de derechos, de reconocimiento de los derechos humanos, de elecciones directas cada cuatro años para Presidente de la República, Gobernadores y también en el plano municipal. O sea, todo un calendario electoral unido a la noción de la democracia representativa. Por otro lado, observamos el mantenimiento de oligarquías políticas atrasadas, arcaicas, en diversas partes de Brasil –no sólo en el norte y nordeste, como se solía decir, sino en diversas partes del país- conviviendo con prácticas que serían más ciudadanas, más republicanas en el sentido de la garantía de los derechos humanos y de la ampliación de los espacios democráticos.

Foto João Ripper

Es muy importante garantizar esas conquistas de la democracia representativa, aunque sean limitadas. En Brasil, logramos obtener esa conquista y debemos garantizar su consolidación, incluyendo otras prácticas democráticas que valdrían la pena, como el plebiscito y el referéndum, es decir, prácticas participativas, prácticas de democracia directa, prácticas que son más avanzadas desde el punto de vista de la ciudadanía.

NA - ¿Qué otras señales pueden ser mencionadas que estarían frenando o haciendo avanzar a la democracia en el continente latinoamericano?

João Ricardo Dornelles - Hay dos asuntos que son complicados con respecto a Brasil y a los demás países de América Latina en lo que se refiere al proceso de democratización, principalmente en los años 80 y 90. El primero de ellos es que la democratización, o sea, el fin de los regímenes militares, se dio en una coyuntura mundial de ofensiva del modelo neoliberal. Eso creó una gran frustración en las sociedades latinoamericanas, donde la herencia social de ciudadanía e inclusión social es muy débil. Se trata de sociedades con amplios sectores excluidos históricamente, desde el proceso colonial hasta la formación del Estado Nacional. Es decir, hay amplios contingentes que son excluidos, empobrecidos, vulnerables y no reciben los beneficios políticos, económicos y sociales de una sociedad moderna. Eso es histórico. Tenemos esa tradición histórica de exclusión.

La democratización creó expectativas muy grandes en los años 80 y 90: “qué bueno que tenemos ahora la oportunidad de elegir a nuestros gobernantes, que son nuestros representantes: diputados, gobernadores, presidentes”. Y al mismo tiempo pensamos: “eso va a resolver todos los problemas”. Sólo que no los resolvió, o los resolvió sólo en parte. Eso se debe a varios motivos, entre ellos, la tradición histórica de la sociedad, pero también se debe a que la democratización coincidió con el proceso de ofensiva neoliberal que tiene en su esencia la característica excluyente.

La llamada globalización neoliberal se expresa en un modelo social, económico, existencial y productivo en el que la noción de alejamiento del Estado de las políticas públicas, principalmente de las de naturaleza social, forma parte de sus características: la flexibilización del mercado de trabajo; la fragilización de las formas asociativas de la sociedad civil, principalmente de los trabajadores; el debilitamiento de los sindicatos; la privatización no sólo de la economía sino también de las relaciones humanas, la mercantilización de las relaciones humanas. Una realidad nueva que coincide con la democratización de nuestras sociedades y, en vez de incluir, de integrar, de proponer políticas públicas integradoras y de ampliación de ciudadanía - especialmente de ciudadanía social -, limita esa ciudadanía.

Por un lado, las sociedades latinoamericanas se democratizaron – hubo elecciones, lo que es muy bueno. Por el otro, los límites de la falta de solución de la injusticia social histórica llevan al agravamiento de una serie de problemas: el desmantelamiento del Estado en diversos aspectos, principalmente en el aspecto social; las propuestas más terribles: flexibilizar o terminar con la justicia laboral, la flexibilización de las leyes laborales. Eso va aumentando cada vez más la exclusión de segmentos de la sociedad moderna, creando una situación de indigencia, de vulnerabilidad generalizada. Ahí está la raíz de la violencia y de los conflictos de nuestras sociedades.

Creo que esas señales no sirven sólo para América Latina sino para todo el mundo. Aun en las sociedades de los países centrales comienza a existir una exclusión social ampliada. Para tener una idea, en los Estados Unidos, en 15 años -entre el inicio del gobierno de Reagan y 1995 - la miseria absoluta aumentó de cerca de seis millones de habitantes a 40 millones. Un aumento tremendo del número de miserables absolutos en todo el mundo, en América, en Europa Occidental, en Europa Oriental por causa de la introducción del modelo neoliberal. En Europa Occidental, el Estado de bienestar social fue, en gran parte, desmontado por el neoliberalismo. Ciertamente, eso pasa a ser una contradicción con respecto a la democracia porque la democracia no es sólo votar, participar de las elecciones. La democracia también está vinculada directamente a las conquistas sociales y de derechos, a la ampliación de la noción de ciudadanía.

NA - ¿Hay algunas cosas que le gustaría destacar en términos de avances, experiencias?

João Ricardo Dornelles - Sí. No solamente en Brasil, sino en otras partes de América Latina. En el caso de Brasil, en todos estos años de retroceso, podemos señalar algunos avances que se reflejan en experiencias, tanto de gobiernos como de la sociedad civil organizada y, a veces, en la articulación de ambos. Podría dar diversos ejemplos, pero voy a citar sólo uno de ellos que tal vez haya sido el más significativo y que ganó una dimensión global.

Se trata de la experiencia de 16 años, en Porto Alegre, de gobiernos del Partido de los Trabajadores en alianza con otros segmentos progresistas, segmentos de izquierda y democráticos, que implantó una serie de reformas muy importantes, reformas revolucionarias en términos políticos: el Presupuesto Participativo, por ejemplo. Muchas veces la gente confunde su significado y alcance. No se trata sólo de juntar consejos para discutir el tema del presupuesto sino de una nueva práctica democrática que no se restringe a la actuación del Estado. Expresa una práctica participativa directa de grupos sociales en la discusión, decisión y definición de prioridades, no sólo presupuestarias. Expresa la actuación colectiva dentro de la gestión pública y, por lo tanto, de la Administración Pública.

La experiencia del Presupuesto (Municipal) Participativo en Porto Alegre sirvió de modelo para otras diversas experiencias en todo el mundo. Incluso la realización del Foro Social Mundial en Porto Alegre, en parte, es resultado de la experiencia innovadora de los gobiernos del PT y del Presupuesto Participativo como forma de gestión democrática directa.

Lamento que esas fuerzas políticas hayan perdido las elecciones en 2004, a pesar de que el intendente electo, José Fogaça, se haya comprometido a mantener la propuesta del Presupuesto Participativo. Vamos a ver lo que sucede en la práctica ya que la experiencia vivida durante 16 años no se restringe a una discusión presupuestaria. Se trata de la formación de nuevos poderes democráticos a través de la participación directa de la sociedad civil, principalmente de los sectores populares.

Foto João Ripper

Existen otras experiencias en Brasil que fueron realizadas en otros espacios, lugares, regiones, Estados y no sólo por el Partido de los Trabajadores. Algunas experiencias fueron muy significativas en Paraná, con el propio gobierno del Estado ampliando la cuestión de los derechos humanos al campo de la educación -Educación para los Derechos Humanos- vinculado a una red de organizaciones no gubernamentales.

Otras experiencias relacionadas al movimiento social también contribuyeron, como el Movimiento de los Trabajadores Sin Tierra (MST), y son prácticas, experiencias nuevas de ampliación de ciudadanía que, con todas las dificultades y limitaciones, en el caso de Brasil confluyeron para la llegada de Lula al gobierno, abriendo nuevas expectativas. Algunas de ellas se vieron frustradas, pero creo que es el reflejo de un gobierno de transición. Por eso tiene contradicciones, contradicciones internas que vienen del arco de alianzas que fue construido para dar sustento al gobierno.

De todas maneras, considero que es una gran conquista, con todas las dificultades, con todos los problemas que puedan existir. El gran dilema que tenemos hoy es el siguiente: cómo un gobierno de izquierda – en Brasil u otros países de América Latina o en otras partes del mundo - puede adoptar políticas que realmente representen avances en el sentido de la ampliación de la democracia, de los derechos económicos, sociales, culturales, de ciudadanía y bienestar social en un ambiente global hostil, que es el ambiente neoliberal. En Uruguay, el gobierno de izquierda de Tabaré Vázquez también va a tener dificultades. Esas dificultades tienen que ver con datos objetivos impuestos por la hegemonía neoliberal. El gran desafío es cómo romper con esa hegemonía neoliberal. En fin, hay un avance, pero también hay dificultades.

NA - ¿Qué mas podríamos hacer para avanzar?

João Ricardo Dornelles - Existen también los movimientos sociales. Una resistencia al modelo hegemónico, un nuevo activismo en el plano local, nacional y global. Considero que, a pesar de que el ambiente sea hostil, nunca en los últimos 20 años el modelo hegemónico, que es el modelo neoliberal, estuvo tan deslegitimado. ¿Qué quiero decir con eso? Este modelo está siendo cuestionado en diversas partes del mundo por la expansión de la miseria, de la explotación, de la exclusión, de la opresión. El modelo neoliberal es excluyente, crea grandes conflictos sociales. Un modelo centrado en el mercado que transforma todo y a todos – relaciones, sentimientos, la existencia – en mercadería, en valor de cambio. Un modelo que deshumaniza, que crea y amplía la violencia, que desestructura las redes de solidaridad social.

Ningún modelo opresor dura mucho tiempo sin que nazca una crítica y movimientos de resistencia. El modelo hegemónico empezó a deslegitimarse a mediados de los 90, cuando comenzó a surgir la resistencia que se transformó en un conjunto de movimientos contrahegemónicos. La resistencia empezó a desarrollarse en Chiapas; en las huelgas de Francia, en el 94; siguió con la Rueda del Milenio, en Seattle; con las primeras grandes manifestaciones contra el neoliberalismo y después con los Foros Sociales Mundiales. Pero por otro lado todavía no se construyeron alternativas a este modelo. Los movimientos contrahegemónicos son diversificados, heterogéneos, plurales. El desafío es construir un lenguaje y una práctica común, la unidad en la diversidad, para posibilitar la construcción de una alternativa viable al modelo hegemónico. ¿Y qué alternativa sería esta? ¿El socialismo?

No sé. No importa que diga que el nombre es socialismo pero, en mi opinión, la intención no es volver al pasado. Puedo hasta continuar considerándome socialista pero se trata de otro socialismo, no es un socialismo vivido con las experiencias del siglo XX. Esas experiencias son históricas, son importantes, pero son experiencias del siglo XX, de la coyuntura, del contexto, del cuadro político nacional e internacional del siglo XX, del tipo de economía capitalista existente durante el siglo XX. Fue un socialismo –si es que fue realmente un socialismo- que se redujo a formas burocráticas, que mostró su debilidad. Por ese motivo fue derrotado por el capitalismo neoliberal.

El modelo neoliberal está tan deslegitimado actualmente que obliga hasta a sus propios gestores a maquillar el discurso, a cambiar la propia retórica. Los documentos del Banco Mundial y el Foro Económico de Davos pasan a afirmar: “la cuestión social también es importante”.

Al final del siglo XX y ahora, en el siglo XXI, el capitalismo es otro capitalismo, es un capitalismo “posfordista”, es un capitalismo que desestructura las redes de protección del “Welfare State” vinculadas al trabajo colectivo, es “financierizado” de forma absoluta, es capitalismo en su esencia más pura. Por eso, tenemos que pensar formas alternativas a ese modelo. Creo que uno de los grandes espacios para esos movimientos de resistencia es el Foro Social Mundial. También hay experiencias que, con grandes dificultades, están intentándose en Brasil con el gobierno de Lula. Son experiencias limitadas por los vaivenes de la coyuntura internacional y por la cantidad de problemas que heredamos.

Existe una alternativa, no tengo la menor duda, pero la alternativa está siendo construida y hay muchas dificultades para lograr esa construcción. Primero, por la multiplicidad de actores que están en el campo contrahegemónico: movimientos sociales urbanos, movimientos de mujeres, de ambientalistas, de sindicatos, de trabajadores sin tierra, de jóvenes, de ancianos, de jubilados, movimientos de desempleados, los piqueteros en Argentina, movimientos vinculados a la orientación sexual, movimientos culturales, etc. En fin, una pluralidad de grupos, movimientos, segmentos organizados en todo el mundo que tienen reivindicaciones propias y contradicciones directas con el modelo existente. Son movimientos oprimidos, explotados, que sufren prejuicios, que no tienen espacio dentro de ese modelo. Entonces, son movimientos que constituyen ese enorme arco de grupos que se contraponen al modelo. Están contra las guerras y vislumbran una realidad más generosa para la humanidad. Como dice el propio lema del Foro Social Mundial: «Otro mundo es posible”. Pero todavía no se tiene una idea de qué es ese otro mundo posible. Sabemos lo que no queremos pero todavía no construimos un proyecto que unifique democráticamente lo que todos esos movimientos contrahegemónicos imaginan como otro mundo posible.

Así, el que es socialista, marxista talvez, imagine una cosa. El ambientalista va a imaginar otras cosas. Somos todos diferentes. Por eso vamos a tener que construir, y no sólo construir lo que queremos alcanzar sino también el camino para llegar a ese otro modelo.

Foto João Ripper

Ese camino es construido con la praxis. Y, volviendo al viejo Marx, la praxis posibilita la construcción de esas alternativas. Resumiendo: vivimos con un modelo que se deslegitima pero que todavía es fuerte y, al mismo tiempo, encuentra resistencia. Sin embargo, es una resistencia que todavía no construyó una alternativa al modelo hegemónico. Es un momento histórico en el que la hegemonía neoliberal permanece justamente porque todavía no hay una alternativa. Existe la manifestación, el cuestionamiento, la resistencia, pero todavía no se presenta un modelo que se contraponga totalmente al modelo neoliberal. Ahora, con seguridad, la humanidad va a encontrar alguna salida.

NA - ¿Le gustaría agregar algo al respecto de los límites y posibilidades de la democracia representativa?

João Ricardo Dornelles - Vale la pena destacar que las posibilidades de la democracia representativa son una conquista humana: tener elecciones, tener la posibilidad de movilizar a la sociedad civil, los segmentos sociales y, sobre todo a los segmentos populares en un calendario electoral determinado y el hecho de que exista un espacio de representación política que, en cierta forma, no sólo representa sino que puede ser también un espacio de repercusión de lo que ocurre en la sociedad. Eso es importante. Ahora, los límites aparecen cuando la democracia se restringe solamente a eso. Por ejemplo, el período de Fujimori, en Perú. Fujimori tenía todo un aparato democrático institucional – elecciones, etc. Sólo que aquello, en última instancia, era una dictadura disfrazada porque al mismo tiempo que tenía ese aparato, el Estado era extremadamente represivo con relación a diversos sectores de la sociedad: los sectores más empobrecidos, los indígenas, los campesinos, los trabajadores urbanos, los habitantes de los suburbios de Lima.

Democracia… Ahí podemos recurrir a la opinión de algunos autores, como Claude Lefort. Para este autor, la democracia no se restringe a su dimensión representativa. La democracia es una expresión radical de una vivencia sociocultural, está impregnada en el tejido social.

Boaventura de Souza Santos dice que debemos trabajar con un concepto de “demodiversidad”. El modelo neoliberal trabaja con un concepto único, de una verdad única, un único modelo de democracia que es la democracia representativa, institucional, liberal. Se trata de un formato histórico, pero existen otros formatos. Boaventura quiere decir que existen otras experiencias que incorporan la cuestión de la democracia participativa, de la democracia directa: los consejos, las formas de organización de la sociedad que son constantes, que no siguen un calendario cada cuatro años. Quiere decir que “testan”[1] a la sociedad y a los poderes existentes y que participan constantemente de forma activa y propositiva, que actúan interviniendo con relación a las políticas públicas que son adoptadas. Existen instrumentos que la sociedad puede inventar, puede construir constantemente al lado de otros que ya existen. El plebiscito es uno de ellos, el referéndum es otro. Son posibilidades de poner a prueba la actuación de los representantes durante los mandatos, a los diputados, senadores, gobernadores, intendentes, autoridades municipales, al Presidente de la República.

Claro que ya existen algunas posibilidades presentes en la ley, en la Constitución para verificar si los gobiernos están cumpliendo con las expectativas creadas, si están adoptando las políticas que garantizan el bienestar social, la expansión de los derechos y las libertades públicas, la ampliación de las prácticas democráticas y la ciudadanía.

Creo que esos límites existen y pueden ser superados y los gobiernos sociales se lo han propuesto. Las propuestas de los gobiernos sociales, en general, han sido exactamente esas: ampliar, ensanchar, o sea, la idea de entender la democracia como una cultura democrática, no sólo como una elección. La democracia internalizada en todos nosotros, en los grupos sociales, en los segmentos, en las instituciones. La democracia como una práctica sociocultural que penetra en la sociedad. No sirve de nada que una cultura autoritaria, fascista, tenga al mismo tiempo instituciones democráticas. Las instituciones democráticas son importantes pero cuando se complementan con la noción de democracia radical, la democracia se amplía en el espacio social, penetra en los poros de la sociedad.

NA - En un contexto democrático, ¿qué tendría para decir sobre la participación ciudadana?

João Ricardo Dornelles - Existen diferentes manifestaciones participativas, la propia noción de democracia participativa sería un buen ejemplo. Pienso que una de las grandes contribuciones que los movimientos sociales han aportado es exactamente esa participación organizada que se manifiesta a través de iniciativas, propuestas concretas de intervención constante en la realidad.

Podemos mencionar diversos ejemplos. La cuestión ambiental está constantemente movilizando a la población con relación a la ocupación del espacio público y las ciudades, a la tala de bosques, a la cuestión del saneamiento básico. Eso es una expresión de democracia participativa y no sólo la participación como protesta, que es una legítima expresión de participación ciudadana, sino también la participación organizada, interviniendo en las políticas públicas con propuestas concretas y alternativas adecuadas, posibilitando su implantación en conjunto con el Estado.

Hay otros ejemplos. Pueden estar relacionados a la cuestión de las mujeres, cuestiones planteadas por los movimientos feministas, cuestiones referentes a la educación formal o a las diversas manifestaciones de la educación, los problemas cotidianos de la comunidad. El problema, cuando hablo de democracia participativa o de participación ciudadana es que no basta con que exista toda esa pluralidad de movimientos y de participación.

¿Por qué quiero destacar eso? Porque muchas veces se corre el riesgo de que se produzca una pulverización y fragmentación corporativa de esas manifestaciones. Las amas de casa preocupadas con sus problemas, reuniéndose, protestando, haciendo propuestas y preocupándose poco con los problemas que no les parecen propios. Los problemas de la ciudadanía interesan a todos. El movimiento feminista tampoco tiene nada que ver con el movimiento de los indios, con los grupos de descendientes de africanos, con los obreros, con los sin tierra, con la juventud de los barrios pobres. En ese caso, la cuestión es la siguiente: existen, sin duda, movimientos más localizados levantando banderas propias, pero es la articulación de esos movimientos a través de propuestas más amplias la que va a producir avances hacia una democracia participativa o una amplia participación ciudadana.

Foto João Ripper

Claro que la retórica del modelo hegemónico neoliberal acepta esos movimientos, siempre que estén pulverizados, fragmentados, sin articular ninguna propuesta conjunta y, si fuera posible, delegando en las prácticas institucionales representativas la capacidad de decisión y realización de las políticas. Para el orden neoliberal no es interesante que el movimiento de las mujeres se junte con el de los indios, obreros, homosexuales, ambientalistas, jóvenes, pobres, desempleados. Ni que los movimientos sociales de los países centrales se junten a los movimientos sociales de los países periféricos y semiperiféricos.

Una cosa interesante que observé en el 1º y 2º Foro Social Mundial de Porto Alegre fueron los movimientos sociales y las organizaciones no gubernamentales norteamericanas planteando lo siguiente: nosotros, de California, estamos aprovechando que estamos en Porto Alegre para sentarnos con la gente de Boston, de Nueva York. Otros decían también: estamos teniendo la oportunidad de conocer, conversar, intercambiar ideas con otros compañeros de nuestro propio país. Así, es posible no sólo juntar regiones diferentes sino también temas diferentes. Y, al contrario, el modelo neoliberal estimula la fragmentación.

Es posible discutir en su calle para que haya saneamiento básico, pero si usted no se articula con el barrio, no se articula con la ciudad, no se articula con Brasil, no se articula con el mundo... si no se articula con otros sectores, con otras luchas, usted tiene una lucha fragmentada. Puede hasta tener éxito en su lucha, pero no cambia la realidad del mundo. El mundo continuará siendo capitalista, opresor, explotador, excluyente, autoritario, antidemocrático.

La noción de solidaridad debe ser recuperada, es decir, compromiso colectivo.

NA - Hable un poco sobre la relación entre derechos humanos y democracia.

João Ricardo Dornelles - No es posible entender la cuestión de los derechos humanos desvinculada de la democracia; algunos autores hasta sostienen que la democracia es uno de los derechos humanos. Yo planteo que la democracia es un ambiente sociocultural, sociopolítico en el que la cuestión de los derechos humanos puede ser mejor tratada, mejor trabajada, puede ser ampliada. O sea, un modelo de sociedad en el que la política se exprese no sólo en instituciones democráticas sino donde también haya debates políticos, haya una conciencia social y política. En una sociedad con una amplia participación social y con una cultura democrática arraigada, seguramente la garantía de los derechos humanos será más efectiva.

NA - ¿Le gustaría agregar algo más?

João Ricardo Dornelles - Básicamente, recordar que trabajar la cuestión de la democracia hoy en Brasil, en América Latina y en el mundo es exactamente levantar las banderas de las conquistas que ya se produjeron en el pasado, conquistas sociales y democráticas, así como también recuperar conquistas que se fueron perdiendo durante los años 80, 90, en el período neoliberal, principalmente en el campo de los derechos económicos, sociales y culturales.

Agregar que eso se da a partir de la necesidad de construir alternativas contrahegemónicas, contra el modelo liberal hegemónico y, sin duda alguna, en ese campo la cuestión de los derechos humanos puede ser un instrumento importante. La noción de los derechos humanos como una palanca emancipadora, libertadora, que puede lograr avances en la construcción de una alternativa al modelo neoliberal y en la búsqueda de la construcción de un mundo nuevo, es decir, otra sociedad es posible. (NA)


[1] N. de T.: testar en el sentido de someter algo a un control o prueba (Real Academia Española).

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