Revista

L
a Revista de la Pátria Grande


CONSTRUINDO CAMINHOS/ CONSTRUYENDO CAMIÑOS

Ensinar e aprender: uma aventura cotidiana
Marília C. Dias, Maria Christina C. Egger e Nadia A. F. Freire
Equipe do Colégio Teresiano Rio de Janeiro - Brasil


Foto arquivo Colégio Teresiano
Mediante una metodología de investigación-acción que incentivó a los profesores a reflexionar sobre su práctica, la experiencia de reformulación curricular llevada a cabo en el Colégio Teresiano (Brasil) a partir de 2002, posibilitó la construcción de nuevas redes a partir de saberes y desafíos cotidianos, provocando un esperado cambio en la cultura escolar. Las dificultades y angustias encontradas inicialmente, poco a poco fueron siendo superadas por el fortalecimiento del trabajo en equipo, que estimuló la cooperación y ayuda mútua.



O desafio de ensinar e de aprender nos dias atuais tem sido motivo de discussão em diversos fóruns. Professores, especialistas, pais e alunos evidenciam a inadequação do modelo escolar vigente em descompasso com as novas demandas do contexto social plural e complexo.

A sociedade contemporânea está marcada pela corrida pelo tempo, pela mobilidade para deslocar-se e pela busca de meios para construir novas rotinas ajustadas ao estilo de vida, pressiona para à flexibilidade das instituições e para a reorganização de seus propósitos e funcionamento. Esta é a sociedade de informação em que circulam idéias oriundas de diversos padrões culturais. Buscar, filtrar e transformar informação em conhecimento traz angústia e estresse aos sujeitos sociais que convivem com processos de mudança também na organização familiar. As configurações familiares apresentam-se como diversas, dinâmicas e complexas nas relações entre seus membros. Crianças, jovens e adultos expressam seus sentimentos, impressões e atitudes de forma múltipla, singular, pouco convencional.

É nesse novo cenário de tempos difíceis, de mudança, de pluralidade, de confrontos e de diálogo, de novas subjetividades que situamos a escola e discutimos sua organização, as propostas curriculares e enfoque sociais, visando dar sentido à formação de novos sujeitos sociais e de construção de uma sociedade mais justa e democrática.

Candau (2000) considera os desafios da escola, chamada a se reinventar, redefinindo seu papel em relação ao conhecimento como lócus do conhecimento reflexivo e plural; à articulação entre igualdade e diferença representativa de contribuições de diferentes grupos sociais, gêneros e etnias; e à cidadania. A mesma autora destaca o papel da formação para a cidadania como uma prática social cotidiana, que perpassa os diferentes âmbitos da vida, articula o cotidiano, o conjuntural e o estrutural, assim como o local e o global, numa perspectiva de ampliação de horizontes.

Analisando a relação da escola com a busca de novas configurações, este trabalho apresenta uma experiência de reformulação curricular do ensino fundamental, nas turmas de 5ª e de 6ª séries, realizada no Colégio Teresiano, Colégio de Aplicação da PUC-RIO, que vem sendo desenvolvida a partir de 2002. É uma proposta de currículo integrado e interdisciplinar, considerando a articulação entre projetos de investigação e disciplinarização. A implantação dessa proposta nomeada Teresiano em Ação: Uma Aventura Cotidiana desenvolveu-se na perspectiva da pesquisa-ação junto aos professores dessas séries, em que a reflexão sobre a prática possibilitou construir novas redes, aliando os saberes docentes aos desafios cotidianos de uma proposta que reformula modos de pensar e fazer a prática pedagógica.

Foto arquivo Colégio Teresiano

PRESSUPOSTOS PEDAGÓGICOS

Reformular a prática educativa pressupõe refletir e reestruturar concepções e crenças que possam fundamentar um novo modo de pensar e agir. Assim, os princípios que alicerçam a proposta curricular em questão estão assentados numa determinada visão de conhecimento, de aprendizagem, de ensino, de educador/educadores.

Considera-se o conhecimento como uma construção histórica, complexa, dinâmica, em contínuo processo de reelaboração e ressignificação. A aprendizagem como num processo ativo, que possibilita a inserção social, proporciona elaboração e reelaborações de significados sobre um objeto ou sobre a realidade, a partir de experiências pessoais e interações com o contexto sócio-cultural. O ensino como uma atualização permanente, diversificado em diferentes linguagens para favorecer a compreensão crítica e a contribuição de conhecimentos, trabalhando no plano cognitivo, afetivo e sócio-cultural. Os educadores como agentes sociais, profis­sionais atuantes no contexto social, competentes, atualizados, comprometidos com os processos de crescimento pessoal e social. Imbuídos na construção de práticas pedagógicas que conduzam os alunos a ultrapassarem do estágio da informação para o conhecimento, desenvolvendo vínculos interpessoais significativos, éticos, estéticos, transcendentes e utópicos.

Esta concepção de educação, onde se procura desenvolver uma pedagogia crítica e libertadora, não é algo novo. Uma referência ineludível é o pensamento de Paulo Freire. O que inaugura esta prática pedagógica como inovadora, é o fato de aceitarmos o desafio da “desinstalação, de desfazer certezas, conviver com o provisório, re-significar determinadas opções, aceitar os riscos inerentes a toda mudança”. Uma vez que o currículo, concebido como “fio condutor do trabalho que será desenvolvido, de forma flexível, não linear, a partir de questões levantadas pelos alunos e/ou pelas condições contextuais que emergirem das situações do cotidiano”. A proposta curricular acima mencionada percorre um caminho próprio que “articula a educação com outros processos sociais de relação teoria-prática, construção de processos de formação de sujeitos autônomos, competentes e solidários, atuantes no plano individual e coletivo e utilizando metodologias ativas, participativas, personalizadoras e multidimensionais, articuladoras às dimensões afetiva, lúdica, cultural, social , econômica, política da educação” (Candau, 2000).

Foto Alexandre Firmini

Nesse sentido, o currículo integrado, na visão de Santomé (1998), constitui-se num processo de aquisição dos conteúdos culturais e de elaboração, produção e transformação dos conhecimentos, caracterizando-se como “aprender a aprender”. Inspira-se nos projetos de trabalho de Hernandez (1998) na perspectiva das relações entre saberes, compreendendo as relações entre as informações e transformando-as em conhecimentos. A relação entre conteúdos de diferentes áreas de conhecimento possibilita resolver problemas e dar significatividade à aprendizagem. Situa a interdisciplinaridade na perspectiva da prática educacional, envolvendo conhecimentos, sentimentos e atitudes. Ander-Egg (1999) destaca aspectos relevantes para a construção dessa prática, quais sejam: operacional, através do trabalho em equipe; conceitual, caracterizado no paradigma da complexidade; e na linguagem interdisciplinar e sistêmica que integra princípios epistemológicos.

A estrutura curricular articulada com os projetos de investigação e as diferentes disciplinas, estabelece constante diálogo e redes entre os conhecimentos de cada componente curricular. Parte do princípio que conhecer a realidade atual se faz através de uma investigação a partir do levantamento de temas-geradores a serem trabalhados ao longo do semestre, subsidiados pelas diferentes ciências para sua elucidação.

Para fins de organização didática, os projetos de investigação estão montados em sintonia com as etapas do método científico assim consideradas: exploração, coleta e de dados, análise e construção de sínteses parciais e conclusões, numa visão não-linear, em que estas etapas ocorrem simultaneamente e retornam a questões iniciais, a fim de garantir sentido e relevância para o conhecimento. Situa a pesquisa escolar como uma metodologia de acesso ao conhecimento socialmente construído, que gera significados e possibilita o pensamento crítico.

O papel do professor nessa perspectiva, é concebido por Freire (2004) como um pesquisador que não dissocia pesquisa de ensino e a incorpora numa relação recíproca na relação professor-aluno. Nesse sentido, o referido autor esclarece: “pesquiso para constatar, constatando, intervenho, intervindo educo e me educo”.

Esse processo de desconstrução e reconstrução da prática educativa está proposto e desenvolvido na formação em serviço, inspirado na pesquisa-ação de Carr y Kemmis (1983) que “consiste em uma espiral autoreflexiva de buscas: de planejar, atuar, observar e refletir, e logo replanificar com base na solução de problemas educativos, integrando a prática docente e a investigação e aplicando resultados na prática educativa”.


IMPLEMENTAÇÃO DA PROPOSTA

A implementação do currículo integrado no segmento do ensino fundamental de 5ª a 8ª série remete à discussões da equipe docente, da equipe de orientação/coordenação e de direção quanto à necessidade de instituir um horário regular, sistemático e remunerado de reunião de professores dessas séries, com o objetivo de ampliar o conhecimento da realidade dos alunos, das características da série e de intercambiar experiências entre professores de diversos componentes curriculares sobre as abordagens do ensino. Assim, no ano de 2000, as reuniões pedagógicas foram instituidas quinzenalmente com duas horas de duração e fortaleceram o processo de formação em serviço. No ano seguinte, 2001, realizaram-se iniciativas pontuais com projetos entre disciplinas, e em 2002 foi implantada uma proposta pedagógica focalizando um currículo renovado e contextualizado sob forma de projetos de investigação por série. Portanto, em 2003 iniciou-se “Teresiano em Ação: Uma Aventura Cotidiana” com reuniões pedagógicas semanais, com mudanças na organização do currículo, na distribuição do tempo (trabalho pessoal + aulas específicas) e do espaço (uso intenso e sistemático dos ambientes escolares) e trabalho com professores, alunos, pais e funcionários. A proposta curricular foi implantada,inicialmente, nas turmas de 5ª e 6ª séries do ensino fundamental, num processo de construção coletiva e participativa. Hoje estende-se até a 8ª série. O desafio centrou-se em eleger temas-geradores dos projetos de investigação, aliados a estratégias de pesquisa e que estabelecessem pontes entre os conhecimentos escolares das disciplinas.

Inicialmente, os projetos de investigação foram planejados bimestralmente e os temas escolhidos pelos professores. As atividades de investigação eram planejadas semanalmente, integrando linguagens diferentes (música, jogos, visita a campo, esportes, entrevistas, expressões artísticas, dramatização). Os alunos recebiam as atividades semanais e podiam escolher por onde começar e seguir a investigação, oferecendo um caráter de livre escolha. Recorriam aos professores e as fontes de pesquisa para atender às propostas apresentadas.

Na avaliação feita ao longo de dois bimestres algumas dificuldades foram observadas: grande quantidade de atividades propostas aos alunos, ritmo dos alunos requeria orientações mais direcionadas dos professores, temas abrangentes e complexos e propostas extensas para investigar o tema, incipiente conhecimento da metodologia de pesquisa pelos professores e alunos. No segundo bimestre, as atividades foram reduzidas quanto à quantidade e diminuídas as ofertas de atividades de livre escolha - os alunos recebiam dois ao invés de cinco atividades semanais para decidir por onde começar a trabalhar. Durante esse semestre e início do seguinte algumas reuniões pedagógicas contaram com a assessoria de profissionais especializados em currículo integrado e na reformulação da proposta pedagógica, que auxiliaram a discutir a relação teoria e prática e apontar sinais de crescimento do grupo e de conquistas a realizar.

Foto arquivo Colégio Teresiano

Observou-se nos primeiros meses de implementação da nova proposta curricular momentos de desestabilização entre os professores, frente à necessidade de revisão e reconstrução das práticas pedagógicas e do cotidiano escolar. A incorporação da mudança de paradigma, caracterizado na articulação entre a concepção de um currículo integrado por projetos e o paradigma da disciplinarização que prevê uma organização prévia e estabelecida de conteúdos escolares. Na fala dos professores as angústias, resistências e preocupações eram expressas em frases como: “a qualidade vai cair”, “agora o aluno não vai precisar aprender conteúdo”, “estudei para ser professora de línguas, não para dar aula de qualquer coisa”.

As calorosas discussões do corpo docente expressavam as diferentes forças, de preservação de modelos instituídos e o medo do novo, manifestações de resistência à mudança, assim como as buscas de novas configurações curriculares. Evidenciavam assim, o currículo como um campo de lutas de poder e de reconhecimento mútuo.

Gradativamente, as dificuldades foram sendo superadas por meio do fortalecimento das equipes de série, da equipe técnica junto aos professores, estimulando a ajuda mútua, a cooperação, trocas entre os pares aliando a experiência docente com novos conhecimentos oriundos da teoria de currículo. Tais mudanças necessárias à implantação desse modelo requeriram processos de reflexão constante sobre a prática e busca de novos rumos, a partir da experiência docente e do estudo de novos paradigmas.

Percorrido esse caminho, verificamos mudanças significativas no grupo de professores, nos alunos e pais nas diversas interrelações presentes na dinâmica institucional, que através da pesquisa-ação possibilitou resignificar as práticas, a compreensão acerca do currículo integrado, favorecer as construções coletivas, fortalecer a busca de conhecimentos, constituindo uma cultura reflexiva sobre a prática .

A reestruturação no currículo formal também gerou reorganização e dinamicidade na organização institucional, indispensável à mudança da cultura escolar.
(NA)


CANDAU, Vera. Reinventar a escola. In; Construir Ecossistemas Educativos- Reinventar a escola. Petrópolis: Editora Vozes. 2000.
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SANTOMÉ. Jurjo Torres. Globalização e interdisciplinaridade- O currículo integrado. Porto Alegre: Artmed, 1998..

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