Revista

L
a Revista de la Pátria Grande


EM DEBATE / EN DEBATE

Gestão educacional: o que dizem as pesquisas
Alicia Bonamino
Departamento de Educação
PUC-Rio - Brasil



Investigaciones en educación realizadas en los contextos europeo y norteamericano y en diferentes países de América Latina destacan cuatro dimensiones relacionadas directamente a las actividades de gestores educacionales y dirigentes escolares que aparecen asociadas al aumento del aprendizaje de los alumnos y a una distribuición social del conhecimento escolar mais igualitária. Esas dimensiones se refieren a los recursos escolares, a la organización y gestión de la escuela, al clima académico y al clima disciplinar de la institución escolar.

Foto João Ripper

A teoria em si não transforma o mundo. Pode contribuir para sua transformação, mas para isso tem de sair de si mesma, e, em primeiro lugar, tem que ser assimilada pelos que vão ocasionar, com seus atos reais, efetivos, tal transformação Entre a teoria e a atividade prática transformadora se insere um trabalho de educação das consciências, de organização dos meios materiais e planos concretos de ação; tudo isso como passagem indispensável para desenvolver ações reais, efetivas. (Vázquez, 1968)


O tema proposto para este artigo remeteu-me imediatamente à década de 80, quando, no campo educacional brasileiro, travava-se intenso debate em torno das relações entre vontade política e competência técnica na educação escolar.

A lógica interna a este debate confrontava, de um lado, aqueles que defendiam a competência profissional como mediação do compromisso político e, do outro lado, os que afirmavam a primazia deste compromisso, subordinando a competência técnica à vontade política.

Pode-se dizer que uma das conclusões convergentes mais importantes deste debate apontou a competência técnica como a tradução prática da opção política por uma educação escolar universalizada no acesso e na permanência de todos os alunos em uma escola de qualidade. Dito de outra forma, indicou que a vontade política na educação escolar se cumpre também, embora não somente, pela mediação da competência técnica de seus dirigentes, seus coordenadores pedagógicos e seus docentes.

Uma das problemáticas centrais que decorre desta conclusão é como realizar e como fazer progredir esta vontade política. É nesse sentido que a questão da competência técnica ou profissional emerge como tema principal seja do debate, seja das pesquisas em educação, seja deste artigo que pretende lançar luz sobre alguns dos problemas atuais enfrentados pelos responsáveis pela gestão educativa em seus diferentes âmbitos e níveis de atuação.

No plano da gestão escolar, a aceitação da relação entre vontade política e competência profissional postulada na década de 80 incorpora a necessidade dos diretores de escolas e dos gestores de sistemas educacionais pautarem seu compromisso político no domínio teórico e prático dos princípios e conhecimentos que regem a educação escolar.

Foto arquivo Maria das Graças Nascimento

Em razão de que para este domínio vêm contribuindo, na atualidade, as evidências produzidas pelas pesquisas em educação nos contextos europeu e norte-americano e em diferentes países da América Latina é destas pesquisas que nos ocuparemos brevemente neste artigo.

Em geral, trata-se de estudos que se caracterizam por investigar as práticas educativas e as condições da sala de aula e da escola que contribuem tanto para o aumento do aprendizado médio dos alunos quanto para a diminuição do impacto da origem social do aluno sobre seu aprendizado na escola. E o que eles vêm evidenciando são as variadas exigências profissionais que se colocam à vontade política dos gestores da educação, dos dirigentes escolares, dos professores e das equipes pedagógicas.

Nos limites deste artigo, me referirei sumariamente às conclusões de parte destas pesquisas sobre quatro dimensões que aparecem associadas ao aumento da aprendizagem dos alunos e a uma distribuição social do conhecimento escolar mais igualitária e que envolvem diretamente gestores educacionais e dirigentes escolares. Essas dimensões dizem respeito: aos recursos escolares; à organização e gestão da escola; ao clima acadêmico e ao clima disciplinar da escola.[1]

A importância dos recursos escolares para a aprendizagem dos alunos está associada tanto à existência e conservação dos equipamentos e do prédio escolar quanto à disponibilidade de recursos financeiros e pedagógicos na escola. Mais especificamente em relação a esta dimensão, as pesquisas vêm evidenciando que a existência e as condições de conservação dos equipamentos escolares, tais como televisão, vídeo, aparelho de som, máquina fotocopiadora, máquina de datilografia, impressora, são fatores que, em países como o Brasil, onde a oferta de recursos básicos é bastante desigual entre as escolas, ainda estão associados a melhores resultados escolares dos alunos. Do lado oposto, a carência de pessoal e de recursos nas escolas, ou seja, a inexistência de professores, o alto índice de faltas por parte dos professores, a carência de pessoal administrativo, a insuficiência de recursos financeiros são fatores que contribuem para que os alunos em geral, e principalmente para que os alunos pobres, tenham baixos resultados escolares.

Foto João Ripper

Por sua vez, as pesquisas destacam a importância da organização da escola para o desempenho escolar dos alunos. As características desta organização aparecem associadas ao estilo de gestão escolar, à cultura escolar, ao poder e à autoridade do corpo docente, à organização formal do trabalho escolar, à organização curricular e às atividades acadêmicas dos estudantes. Mais especificamente, estas características dizem respeito tanto ao grau de satisfação, eficiência, comprometimento e esforço dos professores e ao comprometimento e ao desempenho dos alunos quanto às interações que acontecem na escola e a como as mesmas influenciam os alunos, os professores e, conseqüentemente, a relação destes com aqueles, além de levar em conta a importância do envolvimento dos pais na escola e no aprendizado dos filhos. Nessa perspectiva, uma das questões recorrentemente enfatizada pelas pesquisas é que quando a escola tem uma direção que atua no sentido de propiciar a colaboração entre professores, implementando um estilo participativo de gestão, os alunos apresentam melhores resultados.

Também essas pesquisas ressaltam a importância do clima acadêmico da escola. Isto significa que, a despeito das escolas terem de lidar freqüentemente com uma série de demandas sociais mais amplas, quando a organização e o trabalho escolar se colocam a serviço do ensino e da aprendizagem, há melhoras no desempenho dos alunos. Mais especificamente, as pesquisas citam a valorização de resultados escolares dos alunos e as altas expectativas em relação aos alunos por parte dos professores, dos coordenadores e da direção da escola como fatores relevantes para a aprendizagem escolar. Apontam, também, que a ênfase do professor em passar e corrigir dever de casa, seu interesse e dedicação ao ensino e o seu nível de exigência têm efeito positivo sobre o desempenho médio das escolas. Além do mais, o clima acadêmico se associa ao clima disciplinar da escola, reforçando os efeitos do primeiro sobre a aprendizagem dos alunos. O clima disciplinar diz respeito às regras de conduta em vigor na escola, do ponto de vista do professor, do aluno e da comunidade em que a escola está inserida. Nessa perspectiva, os resultados das pesquisas revelam que todos os alunos, e mais especialmente os alunos pobres, têm maiores chances de aprendizagem quando estudam em escolas em que não há roubos, depredações ou situações de violência física ou verbal.

Foto João Ripper

Em síntese, o que estas pesquisas permitem perceber são os obstáculos que se opõem a uma gestão educacional comprometida com a aprendizagem dos alunos, independentemente de sua origem social. E mais, em conjunto, elas revelam que não cabe falar numa subordinação da vontade política à competência profissional nem da precedência desta em relação aquela, mas que é por intermédio da competência profissional dos dirigentes escolares e dos gestores educacionais que se realiza a vontade política que tem como horizonte uma educação escolar de qualidade para todas nossas crianças, jovens e adultos. (NA)




[1] Estas pesquisas se caracterizam por implementarem controle pelo nível socioeconômico do corpo discente da escola, em razão da alta correlação entre boas condições escolares e alto nível socioeconômico da escola. Consideram as variáveis relacionadas com a composição social da escola como variáveis de controle.

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