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La Revista de la Pátria
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IDÉIAS
EM REDE / IDEAS EN RED
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Educação
hoje: entre desafios e tensões
Adélia Mª Nehme Simão e Koff
Rio de Janeiro - Brasil
Membro
da equipe Novamerica
Professora da Universidade Estácio de Sá,
Doutoranda da PUC-Rio
nehme@centroin.com.br

La educación enfrenta, en la actualidad, muchos desafíos
y dilemas, entre los cuales: modernidad x postmodernidad,
universalismo x relativismo cultural, educación y cultura(s)...
Reflexionar acerca de estos temas puede ayudar a responder
a los interrogantes acerca del papel de la escuela,
de la legitimidad del conocimiento escolar, de las acciones
de los sujetos de la educación y de las prácticas educativas,
así como a superar visiones culturalmente reduccionistas
y/o acriticamente universalistas.
Muitos
são os desafios e as tensões que a educação enfrenta
no momento presente. Enunciarei algumas delas que me
parecem especialmente significativas: modernidade x
pós modernidade, universalismo x relativismo cultural,
educação e cultura(s) ... É importante termos presente,
desde o início, que estas questões estão intimamente
relacionadas nas sociedades em que vivemos. Sou consciente
da abrangência e complexidade que apresentam, assim
como das inúmeras possibilidades de caminhos a serem
trilhados para abordá-las, contudo, ouso apresentar,
mesmo que em poucas linhas, uma aproximação, certamente
provisória e limitada.
Considero ainda que tais temas (creio que posso chamá-los
assim) são importantes, no sentido de que podem orientar
ou fazer parte das discussões em torno de perguntas
que me parecem fundamentais quando se trata de pensar,
por exemplo, a escola hoje e sua relação com a construção
de uma sociedade mais justa e solidária: que educação?
Que escola? Que conhecimento? Que valores? Que sujeitos?
Que práticas educativas?
MODERNIDADE X PÓS-MODERNIDADE: UMA TENSÃO, UM PONTO
DE PARTIDA
Modernidade e pós-modernidade são expressões polissêmicas,
ou seja, existem diferentes possibilidades de leituras
e/ou interpretações do que seja uma e outra. Em outras
palavras, há diversas maneiras de caracterizá-las, entendê-las,
mas principalmente há diversas posições/entendimentos
quanto à possibilidade das categorias que definem uma
e outra oferecerem chaves para leituras de mundo de
intervenção na realidade. Compreender o significado
desta tensão é importante, já que posso considerá-la
“pano de fundo” ou, até mesmo, ponto de partida das
demais tensões e relações que pretendo abordar neste
texto.
A tensão modernidade x pós-modernidade expressa uma
crise provocada, como destaca Gómez (2001), pelo desmoronamento
de certas crenças e concepções que parecem estar na
base de algumas catástrofes ocorridas no século XX.
Crise que, portanto, coloca na berlinda alguns referenciais
próprios do pensamento moderno, como por exemplo: a
idéia de progresso linear e indefinido, a concepção
hegemônica de desenvolvimento humano, a idéia de que
somos seres que possuem um passado determinado e um
futuro previsível e, conseqüentemente, a possibilidade
de grandes relatos ou narrativas que podem “explicar”
nossa evolução histórica, a aposta na razão como instrumento
que permite ao ser humano organizar a atividade científica
e técnica, governar as pessoas e administrar as coisas,
ou seja, a crença na produtividade racionalista, além
da crença na concepção positivista, na tendência etnocêntrica
e colonial, em um modelo de verdade, bondade e beleza
próprios do Ocidente como modelo superior e na existência
de uma forma particular de civilização.
Vale ressaltar que tenho consciência de que não estou
esgotando, nem mesmo fazendo uma lista mais densa dos
referenciais que caracterizariam a modernidade. Não
vou também me referir aos avanços (e é certo que eles
existem) que a humanidade experimentou e experimenta,
a partir dos resultados desse modo de entender, dar
significado e “produzir” a vida. Mas posso sublinhar,
contudo, que, centrados, envoltos, orientados (talvez
haja algum outro termo mais adequado) por esses mesmos
referenciais, os diferentes grupos humanos “produziram”
muita hostilidade, fizeram guerras e extermínios, provocaram
desastres, destruição, fome, racismo, desigualdades,
etc., etc...
E é nesse contexto que creio há espaço para o surgimento
do pensamento pós-moderno. Talvez, não como um pensamento
que substitui o anterior, mas como uma outra possibilidade
de ver e agir no mundo. É por isso que me refiro à existência
de uma tensão modernidade x pós modernidade.

Em outras palavras, estou querendo afirmar que não vejo
o pensamento pós-moderno como superação, nem como ruptura,
nem mesmo como melhor ou mais adequado para dar novos
rumos à humanidade - basta olharmos a nossa volta e
perceber que ainda não encontramos alternativas mais
expressivas no sentido da construção de um mundo melhor.
Entretanto, percebo que a chamada pós-modernidade aponta
algumas questões e/ou referenciais e/ou condições que
podem ajudar na busca dessas alternativas. Nesta perspectiva,
parece-me que é oportuno sistematizar aqui essas questões
e/ou referenciais e/ou condições.
Para Santos (2004), o conceito de pós-moderno ou pós-modernidade
designa não só um novo paradigma epistemólógico, mas
também um novo paradigma social e político que permitiria
“pensar para além das alternativas teóricas e práticas
do capitalismo produzidas pela modernidade ocidental.”
(p.3)
Todavia, este mesmo autor nos chama a atenção para o
fato de que o pós-modernismo – ao recusar a modernidade
ocidental, seus modos de racionalidade, seus valores
e suas grandes narrativas – acaba “pondo em xeque”,
pelo menos nesta versão, o pensamento crítico e a idéia
de transformação social emancipadora, dimensões tão
caras à própria modernidade e, paradoxalmente, celebrando
a sociedade que esta mesma modernidade havia conformado.
Neste sentido, Santos (2004), ao contrário do que ele
chamou de pós-modernismo de celebração, propõe o pós-modernismo
de oposição e afirma:
“condensei a sua formulação na idéia de que vivemos
em sociedades de braços com problemas modernos – decorrentes
da não realização prática dos valores da liberdade,
da igualdade e da solidariedade – para os quais não
dispomos de soluções modernas, daí a necessidade de
reinventar a emancipação social”. (p.5)

Neste ponto, creio que é preciso voltar à idéia da tensão
modernidade x pós-modernidade para afirmar a possibilidade
de se perceber os limites e possibilidades de cada uma
dessas versões. O que é preciso superar e romper e o
que é possível incorporar de uma e de outra para melhor
entender a realidade e encontrar formas de agir na perspectiva
de sua reconstrução.
Finalmente, vale dizer que entendo que a modernidade,
com todos os princípios que a orientaram/orientam, enfrentou
e enfrenta sérios problemas, gerou e pode ainda gerar
novas catástrofes. Parece, portanto, que ela delineou
um modelo de análise e ação que não deu e não dá conta
de um mundo tão complexo e plural. Entretanto, me parece
que o pensamento moderno (porque tinha/tem ou pretende
ter uma proposta de caminho) deu e dá, por exemplo,
aos educadores (só para falar do lugar que ocupo) a
possibilidade de ter metas, projetos, utopias, de lutar
pela transformação, de acreditar que cada um – individual
e coletivamente – pode ser sujeito da construção de
sua própria história, pode caminhar no sentido de sua
emancipação. (Será que isto também é só discurso?)
Por sua vez, a pós-modernidade parece que não nos
dá uma saída. Creio que também não é este o seu propósito.
Ao contrário, acredito que sua proposta é prioritariamente:
pôr em questão e evidência as mazelas do mundo, desconstruir
certezas, desregulamentar o regulamentado, questionar
a ordem, os comportamentos e rever os princípios, crenças
e valores vigentes e, por isso, é capaz de provocar
também “mal-estar”.
Todavia, reconheço que a pós-modernidade nos chama a
atenção, entre outras dimensões, para a questão da diferença,
da diversidade de identidades culturais, para a importância
da solidariedade e do diálogo intercultural e isso me
parece não só oportuno, como uma possibilidade na construção
de ações transformadoras.
Por outro lado, é preciso não cair na própria armadilha,
quer dizer, afirmar de modo tão radical a diferença
e acabar legitimando práticas fundamentalistas e/ou
racistas tão comuns na história da humanidade.
A RELAÇÃO EDUCAÇÃO E CULTURA(S): UMA EXIGÊNCIA
A partir das reflexões esboçadas no momento anterior,
a questão da centralidade da cultura, colocada pela
pós-modernidade, me remete para o debate em torno das
relações entre educação e cultura, tão importante na
sociedade atual.
“Essa consciência vem se afirmando, em primeiro
lugar, pela dramaticidade de eventos e situações – violência
escolar, preconceito e discriminação nas relações educativas,
fracasso escolar , entre outras – que desafiam cotidianamente
educadores e responsáveis pelos sistemas de ensino.
No plano internacional esta problemática aflora com
força em distintos contextos sócio-políticos, evidenciando
a dificuldade da cultura escolar e da cultura da escola
de lidar com as diferenças, na pluralidade das suas
manifestações e dimensões. Entre nós também esta problemática
tem se agudizado e colocado em evidência, de uma maneira
muitas vezes forte e agressiva, que educadores e instituições
educacionais não podem deixar de se debruçar analítica
e criticamente sobre ela e, ao mesmo tempo, oferecer
elementos para que as práticas pedagógicas possam ser
repensadas incorporando-se, de maneira reflexiva e sistemática,
seu tratamento no dia-a-dia das escolas.” (Candau,
2001, p.1)
Cabe aqui, sublinhar que, como Candau (2000), entendo
que é preciso ultrapassar uma visão reducionista de
cultura, que dá ênfase às suas dimensões artística e
intelectual, e privilegiar uma perspectiva que vê a
cultura “como estruturante profundo do cotidiano
de todo grupo social e se expressa em modos de agir,
relacionar-se, interpretar e atribuir sentido, celebrar,
etc.” (p.61)
Entretanto, não se trata de supervalorizar a cultura,
a ponto de mascarar os conflitos decorrentes da estrutura
de classe e dos diversos componentes estruturais que
são determinantes da sociedade hoje em dia. A idéia
é, portanto, reafirmar a dimensão cultural (tanto no
nível individual, como coletivo) como configuradora
do humano, sem deixar de considerar significativas as
suas demais dimensões (social, econômica, política,
ideológica), bem como as possíveis inter-relações entre
estas dimensões e a própria dimensão cultural.
No meu ponto de vista, trazer a cultura para o centro
do debate educativo, favorece a abertura de espaços
para que as vozes, freqüentemente silenciadas, possam
se fazer ouvir e, desse modo, conquistar sua cidadania.
Neste ponto, um desafio: pensar e “viver” práticas educativas
que incorporem a reflexão e a ação acerca das possibilidades
desse diálogo multi/intercultural acontecer no interior
da escola, um espaço privilegiado, eu creio, para esta
integração. Em outras palavras: como promover uma Educação
que incorpore o “outro”, que é plural, tem diferentes
rostos marcados, sim, por uma multiplicidade de dimensões
- social, política, cultural -, sem abrir mão de um
projeto emancipador que promova a construção de uma
sociedade mais justa, solidária e, por que não, mais
feliz?

A TENSÃO UNIVERSALISMO X RELATIVISMO CULTURAL
Esta é uma tensão que me parece chave no contexto dessas
minhas reflexões. E explico: trata-se de uma tensão
que é própria e configuradora da tensão modernidade
x pós-modernidade e que afeta, de modo direto, as relações
entre educação e cultura(s), principalmente, quando
se deseja “trabalhar” com uma concepção de cultura que
é plural e historicamente construída.
Nesse sentido, acredito que é uma tensão fundamental,
quando se trata de reinventar a prática educativa e,
de modo especial, a escola e os seus currículos, cuja
incorporação da diversidade ou das diferenças ou da
pluralidade dos grupos culturais, na perspectiva da
construção de uma educação multi/intercultural crítica
é, a um só tempo, ponto de partida e meta. Meta, na
medida em que também acredito que não é possível pensar
a igualdade, a justiça social sem incorporar a diferença
e a luta contra a desigualdade, os preconceitos e a
discriminação.
Reconhecendo a escola como um lugar de circulação de
saberes e culturas, entendo que é relevante abrir espaço
para os conhecimentos e valores - legados da humanidade
- ditos universais, mas assumir em relação a eles um
posicionamento crítico, pois quase sempre estão centrados
na cultura ocidental e européia.
Por outro lado, é necessário criar oportunidades para
fazer circular e por em diálogo os diferentes conhecimentos
produzidos pelos diversos grupo. Em outras palavras,
valorizar as várias culturas de referência, sem, contudo,
cair em um relativismo cultural radical, evitando-se
assim o isolamento, a guetificação.
Entendo assim que, quando se pensa e se faz educação,
escola ou currículos (só para falar novamente do lugar
que ocupo e do objeto de minhas preocupações), incorporar
a tensão universalismo x relativismo cultural significa
superar um posicionamento dicotômico, quer dizer, superar
a idéia de que só existe um conhecimento válido – ou
o cientifico (entendido como superior porque comprovado
e formulado segundo os cânones racionalistas) ou aqueles
construídos por diferentes grupos em função de seu contexto
social e cultural, onde a ciência seria apenas um conhecimento
entre outros. (Japiassu, 2001).
Significa, portanto, romper com um posicionamento radical
e adotar uma postura crítica em relação a um e outro,
reconhecendo que tanto o conhecimento cientifico, como
aquele oriundo das práticas sociais/culturais são construídos,
podem variar segundo o seu contexto social, histórico
e cultural e devem ser postos em diálogo, sempre na
perspectiva da construção de uma sociedade mais justa,
solidária e democrática.

A TÍTULO DE CONCLUSÃO
É certo que não esgotei aqui todas as possibilidades
de entendimento desses temas, nem era esse o meu objetivo.
O que desejo é provocar a reflexão, o debate e, por
que não, a formulação ou a explicitação de outras tensões.
Trabalhar sobre e entender o significado dessas tensões
“ilumina” e pode nos ajudar a caminhar no sentido de
buscar algumas respostas e alternativas para a construção
de novos projetos educativos, na perspectiva de uma
educação transformadora.
Acredito que ser educador/a, ser professor/a (para
ser mais específica) hoje implica lidar cotidianamente
com a complexidade que marca o mundo social, político,
cultural... E, nesse sentido, envolve lidar com diferentes
e diversas tensões. Pensá-las de modo articulado
e em conjunto. Mais do que isso, envolve enfrentar -
no dia-a-dia de sua atuação e práticas - os desafios
que elas acabam por gerar e, neste caso, vislumbrar,
pensar e agir no sentido de “viver” outras práticas
educativas mais “antenadas” com o nosso tempo. (NA)
CANDAU, Vera Maria. Cotidiano Escolar e Cultura(s):
encontros e desencontros. In: CANDAU, Vera Maria (org.)
Reinventar a Escola. Rio de Janeiro, Editora Vozes,
2000.
CANDAU, Vera Maria. Ressignificando a Didática na Perspectiva
Multicultural. Projeto de Pesquisa. Rio de Janeiro,
Puc-Rio, 2001.
CANDAU, Vera Maria. Universidade, Diversidade Cultural
e Formação de Professores. Relatório da Pesquisa. Rio
de Janeiro, Puc-Rio, 2003.
GÓMEZ, Pérez A. I. A Cultura Escolar na Sociedade Neoliberal.
Porto Alegre, RS, ARTMED Editora, 2001.
JAPIASSU, Hilton. Nem tudo é relativo: a questão da
verdade. São Paulo, Editora Letras & Letras, 2001.
SANTOS, Boaventura de Souza. Do Pós-Moderno ao Pós-Colonial.
E para além de um e de outro. Texto da Conferência de
Abertura do VIII Congresso Luso-Afro-Brasileiro de Ciências
Sociais. Coimbra, Portugal, 2004. .
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