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A
liberdade do mercado e o papel do Estado
Mario
Luis Grangeia
Rio de Janeiro - Brasil
Jornalista.
Cursando Especialização em
Sociologia
Política e Cultura
da PUC-Rio.

La discusión acerca de la actuación del Estado en
el desarrollo económico es recurrente en Brasil, en
parte porque la profunda interferencia del Estado
en su constitución es una fuerte característica de
su capitalismo. Ya en la etapa vivida desde 1980 es
marcante la acción del mercado, que coloca en jaque
el papel de los gobiernos como formuladores de la
política económica y que redefine el papel del Estado
en el mapa de los negocios. En este nuevo siglo, el
Estado vive una nueva etapa, con poderes aún más limitados
sobre la economia.
Em jantar com os presidentes da Argentina,
Néstor Kirchner, e da Venezuela, Hugo Chavez, no início
de maio em Brasília, o presidente Luiz Inácio Lula
da Silva discutiu sua idéia de permitir que o Banco
Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES)
financie empresas dos países-membros do Mercosul -
Argentina, Uruguai e Paraguai - e associados ao bloco,
como a Venezuela[1]. Mais do que um item do projeto
de integração sul-americana do governo Lula, a possibilidade
de o banco oficial conceder créditos aos vizinhos
está inserida no debate sobre a atual capacidade de
o Estado exercer um papel proeminente na ordem econômica
- nesse caso, em particular, no fomento de empresas
estrangeiras.
No Brasil, a discussão sobre a atuação do Estado no
desenvolvimento econômico é recorrente. Até porque
a característica mais marcante do capitalismo brasileiro
é a profunda interferência do Estado na sua constituição,
como mostraram autores como Sonia Regina de Mendonça.
Em sua análise da relação entre o Estado e a economia
no período 1930-1980[2], ela defendia que "em face
do emperramento dos mecanismos econômicos que têm
sustentado o crescimento nos últimos anos, desenha-se
uma nova etapa em que passam a preponderar os fatores
externos ao sistema".
Essa "nova etapa" vislumbrada ontem - e testemunhada
hoje - é marcada pela ampla ação do mercado. Como
observa o francês Ignacio Ramonet[3], o mercado substitui
o paradigma da máquina, do relógio: "Num relógio,
nenhuma peça é demais e todos os elementos, todas
as peças são solidárias. A esta metáfora mecânica,
herdada do século XVIII (uma sociedade é um 'relógio
social', e cada indivíduo exerce uma função útil ao
funcionamento do todo) sucede a metáfora econômica
e financeira. Tudo agora deve se regular pelos critérios
do 'mestre mercado', última panacéia. Na primeira
fila dos novos valores: o lucro, os benefícios, a
rentabilidade, a concorrência, a competitividade."
A ascensão do mercado colocou em xeque o papel
dos governos como formuladores de uma política econômica.
Não só no Brasil, mas por todo o globo, é possível
identificar sinais de uma revisão do lugar do Estado
no mapa dos negócios.
É o caso das privatizações promovidas pelos governos
brasileiros desde 1991. Na defesa dos leilões de empresas
como a Companhia Siderúrgica Nacional (CSN), a Embratel
e a mineradora Vale do Rio Doce, os governos enfatizaram
a necessidade de solucionar os problemas de natureza
fiscal e modernizar o Estado. Para tanto, esses leilões
permitiriam a redução do endividamento do setor público,
bem como a concentração do Estado naquelas áreas onde
sua presença é essencial, como saúde, educação e habitação.
O AVANÇO DO NEOLIBERALISMO
A decisão de transferir para a iniciativa privada
empresas geridas pelo Estado não deixa de ser, em
certa medida, um eco da crítica feita pelo austríaco
Friedrich Hayek após a II Guerra Mundial. Em seu ensaio
O caminho da servidão, escrito em 1944, o economista
e cientista político rechaçava com veemência qualquer
limitação dos mecanismos de mercado pelo Estado. Segundo
Perry Anderson[4], o intervencionismo estatal, para
Hayek, constituía uma ameaça letal à liberdade, não
só econômica, mas também política. "Apesar de suas
boas intenções, a social-democracia moderada inglesa
conduz ao mesmo desastre que o nazismo alemão - uma
servidão moderada", diagnosticava Hayek. A orientação
ideológica do austríaco foi compartilhada nos anos
seguintes por adversários tanto do Estado de bem-estar
europeu, como do New Deal norte-americano. Essa reação
teórica e política ao Estado intervencionista e de
bem-estar se tornaria conhecida como neoliberalismo.
Na década de 70, a América Latina testemunharia a
primeira experiência neoliberal sistemática do mundo,
no Chile. "O Chile de Pinochet começou seus programas
de maneira dura: desregulação, desemprego massivo,
repressão sindical, redistribuição de renda em favor
dos ricos, privatização de bens públicos. Tudo isso
foi começado no Chile, quase um decênio antes de Thatcher,
na Inglaterra"[5].
Com a escalada da dívida pública de quase todos os
países ocidentais nos primeiros anos da década de
1990, o neoliberalismo teve um alento no mundo capitalista
avançado. Anderson crê que "uma de suas razões fundamentais
[do alento] foi claramente a vitória do neoliberalismo
em outra área do mundo, ou seja, a queda do comunismo
na Europa Oriental e na União Soviética, de 89 a 91,
exatamente no momento em que os limites do neoliberalismo
no próprio Ocidente tornavam-se cada vez mais óbvios.
Pois a vitória do Ocidente na guerra fria, com o colapso
de seu adversário comunista, não foi o triunfo de
qualquer capitalismo, mas o do tipo específico liderado
e simbolizado por Reagan e Thatcher nos anos 80"[6].
O avanço do neoliberalismo no Brasil não resultou
em um Estado mais moderno, como se propôs. Na opinião
de José Luís Fiori, o balanço ao fim dos anos 90 é
"extremamente negativo e frustrante"[7]. Isso porque
não houve a modernização das instituições políticas
prometida pela coalizão neoliberal, tampouco se eliminou
o clientelismo praticado pelas forças conservadoras
na gestão pública do país.
A EXPROPRIAÇÃO DO ESTADO
O Estado nessa virada de século difere muito daquele
que havia nas outras décadas. O que se assiste hoje,
segundo o sociólogo Zigmunt Bauman, seria uma expropriação
do Estado. Impor proibições de importação ou exportação,
barreiras alfandegárias ou estimulação estatal keynesiana
da demanda interna foram medidas tomadas pelos Estados
soberanos em diversas épocas. Na sua condição atual,
porém, o Estado ortodoxo abandonou ou teve arrancada
de suas mãos a função de manter o "equilíbrio dinâmico"[8].
Tal equilíbrio fora descrito por Cornelius Castoriadis
como uma "igualdade aproximada entre os ritmos de
crescimento do consumo e de elevação da produtividade".
"Qualquer controle desse 'equilíbrio dinâmico' está
hoje além do alcance e mesmo das ambições da imensa
maioria dos Estados de outro modo soberanos (estritamente
no sentido de policiamento da ordem). A própria distinção
entre o mercado interno e o global ou, mais genericamente,
entre o 'interior' e o 'exterior' do Estado, é extremamente
difícil de manter senão no sentido mais estreito,
de 'policiamento do território e da população", assinala
Bauman.
A limitada margem de manobra dos Estados nacionais
na atual fase do capitalismo pode ser constatada nos
programas de desenvolvimento de nações da África subsaariana,
do Leste asiático e da América Latina. Para David
Held e Anthony McGrew, esses programas "parecem ter
adquirido um molde uniforme - liberalização do mercado,
cortes nos gastos sociais, regulação mínima dos fluxos
de capital privado, desregulamentação do mercado de
trabalho - e ser regidos antes pela necessidade política
do que por uma intervenção sancionada pelo povo"[9].

Há quatro anos, alguns líderes da oposição brasileira
defenderam a manutenção do ministro da Fazenda do
governo Cardoso, em caso de vitória da oposição em
2002, a fim de "acalmar" os agentes do mercado financeiro
internacional. A oposição venceu, o ministro mudou,
mas a política econômica vigente se assemelha à do
governo anterior. O mesmo ocorreu na Argentina,
onde o ministro Domingo Cavallo voltou ao comando
da economia após a derrota nas urnas, reposto no poder
por um colégio eleitoral formado por credores do país,
um pequeno grupo de agentes financeiros privados,
nacionais e internacionais[10].
Há uma realidade e uma lição bem complicadas por trás
disso, segundo Fiori. "A desregulação financeira e
a abertura comercial das economias, junto com as demais
reformas neoliberais, fragilizaram os Estados, e criaram
uma camisa-de-força que dificulta uma mudança de rumo,
a qual é possível. Nesse sentido, o que o exemplo
argentino ensina, de fato, é que sem uma mudança radical
de prioridades e de política econômica os novos governos
eleitos pela oposição ao projeto neoliberal irão sendo
corroídos, ao perder a confiança dos investidores
externos, graças aos efeitos da própria política econômica
que não foi alterada, e ao perder sua governabilidade
interna, à medida que vão sendo obrigados a fazer
sucessivos e inúteis ajustamentos fiscais. No limite,
ninguém sabe o que ocorrerá com a economia e a democracia
desses países se este círculo vicioso não for rompido
e este quadro de desintegração não for revertido."
(NA)
[1]
ALENCAR, Kennedy. Lula quer que BNDES financie vizinhos.
In: Folha de S. Paulo. 13/05/05. p. B3.
[2] MENDONÇA, Sonia Regina de. Estado e economia no
Brasil: opções de desenvolvimento. Rio de Janeiro: Graal,
1986. p. 122.
[3] RAMONET, Ignacio. Géopolitique du chaos. Paris:
Gallimard, 1999. p.101. [tradução livre]
[4] ANDERSON, Perry. Balanço do neoliberalismo. In:
SADER, E. & GENTILI, P. (orgs.) Pós-neoliberalismo:
as políticas sociais e o Estado democrático. Rio de
Janeiro: Paz e Terra, 1996. p.9.
[5] Op. cit. p. 19.
[6] Op. cit. p. 17-18.
[7] FIORI, José Luís. 60 lições dos 90: uma década de
neoliberalismo. Rio de Janeiro: Record, 2001. p. 213.
[8] BAUMAN, Zigmunt. Globalização: as conseqüências
humanas. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1999. p. 73.
[9] HELD, David; McGREW, Anthony. Prós e contras da
globalização. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2001.
[10] FIORI, José Luís. Op. cit. p. 234. |