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L
a Revista de la Pátria Grande


IDÉIAS EM REDE / IDEAS EN RED

Novo paradigma exige outros olhares
Eduardo Baptista
Rio de Janeiro - Brasil
Cientista Político Mestre pela Sorbonne
Professor universitário, especialista em
planejamento e avaliação
ebaptista@innovatio.com.br



Foto Ricardo Funari
La construcción del nuevo paradigma de la globalización post industrial también está presente en las relaciones internacionales. La multipolaridad creciente de las relaciones internacionales y la diversificación de las sociedades comerciales hacen que el poder del mundo unipolar comandado por Estados Unidos sea menos absoluto, señala el valor del fortalecimiento de la governanza global y contribuye para perfeccionar la democracia en todo el mundo. La reunión de la cúpula brasiliense contribuyó con la construcción de ese nuevo paradigma.



Passada a efervescência dos eventos e assentada a poeira da Cúpula América do Sul - Países Árabes realizada no início de maio passado em Brasília, é hora de olhar a floresta para não se perder o sentido das coisas, apenas contando as árvores. No debate presente na mídia, em geral a discussão sobre as árvores, infelizmente, predominou. As tensões entre governo, mercado, aliança política, interesse comercial, concepção de funcionamento de sociedade, participação social - nem boas, nem ruins, são dados da contraditória realidade atual, que fragmenta, que integra - foram reduzidas a palavras descontextualizadas.

Afinal, a Conferência não era comercial e acabou sendo usada politicamente? Em discussões sobre negócios e conquista de novos mercados, definir democracia deve preceder qualquer acordo? O mundo dos negócios prescinde dos Estados. A diplomacia foi tragada pelos interesses econômicos. Afirmações e questões como essas refletem as dificuldades de compreensão da nova ordem/desordem mundial que vai sendo construída: frágil, instável e desconhecida.

A construção do novo paradigma da globalização pós-industrial também está presente nas relações internacionais e continuar funcionando com a cabeça no enfrentamento entre Ocidente e Oriente, para não lembrar do velho dilema Leste-Oeste, no eixo Sul-Sul dos não alinhados ou ainda, nas velhas relações de dominação Centro-Periferia, é ignorar - por ingenuidade ou miopia ideológica - que as estratégias de presença e conquista de mercado, de participação política e de difusão de idéias, como a democracia que tanto nos é cara, passa hoje por outros, e novos caminhos.

Caminhos mais complexos, que situações conjunturais ou comportamentos estridentes de relevância secundária de algum de nossos vizinhos, que deslizes da nossa diplomacia ou que pedras jogadas pela inclusão ou exclusão de palavras em documentos oficiais, podem ter ofuscado. A propósito, não me vem à memória, em mais de 20 anos de acompanhamento de encontros intergovernamentais comerciais e políticos de países europeus e norte-americanos com asiáticos ou africanos, de um debate intenso em torno à democracia. Curioso, que a polêmica esteja tão pouco presente nas apetitosas relações comerciais dos Estados Unidos com a China, não mais democrática que a Arábia Saudita ou seus vizinhos.

A reunião de cúpula brasiliense colocou mais uma pedra na geografia desenhada pelo novo paradigma. Uma pedra pequena mais importante para a multipolaridade do mundo globalizado. A multipolaridade das relações internacionais será crescente assim como a diversificação das parcerias comerciais para quem não quer ser apenas uma espécie de "terceirizado mundial" ou ficar à margem do caminho. Ela não elimina nem ameaça o poder do mundo unipolar comandado pelos Estados Unidos neste século, mas o torna menos absoluto, sinaliza para a importância de consultas e negociações, para o valor do fortalecimento da governança global, em última instância para o aperfeiçoamento da democracia em todo o mundo. Sinaliza também para a possibilidade simbólica e logística de encontros entre países e regiões do mundo para a negociação de interesses específicos, sem a necessária intermediação de europeus e norte-americanos. A continuidade da iniciativa é um indicativo da avaliação positiva. Cabe também uma reflexão sobre a capacidade de convocação dos países sul-americanos e de sua cultura plural. Onde mais, nos dias atuais, além da América do Sul se poderia imaginar a realização de uma conferência com os países árabes fora do Oriente Médio?

Foto Ricardo Stuckert / PR - TYBA

Para a América do Sul especificamente, a Cúpula significou a continuidade de um processo lento, assimétrico e conflitivo de formação da identidade regional e dos interesses convergentes entre países que durante séculos conviveram como ilhas dentro de um continente. Um processo onde o papel propulsor do Brasil é importante e arriscado, pois não se podem reproduzir imperialismos regionais tão fortemente condenados por todos.

Os caminhos sinuosos percorridos até agora para a eleição do futuro diretor geral da OMC apontam claramente para as dificuldades da construção de uma plataforma política regional, deixando à mostra que a diplomacia brasileira, apesar da longa tradição de competência também falha. Nesse sentido, a dinâmica de uma presença internacional, que responda ao novo paradigma, iniciada no governo passado, aprofundada, ampliada e dinamizada pelo atual, não pode ser feita apenas pela multiplicação de iniciativas, necessita de um movimento constante de consulta a seus vizinhos e de um monitoramento eficiente. Da mesma forma, não pode ser ignorada a importância política e estratégica da presença das organizações da sociedade nessa construção.

E finalmente, o comércio e os investimentos que eram temas importantes da agenda e dos trabalhos ficaram eclipsados pelas árvores abatidas no caminho. É verdade que 65% das importações mundiais são puxadas pelos países europeus e norte-americanos - um mercado que nenhum exportador vai descuidar, e os resultados das exportações brasileiras têm demonstrado que todos estão na corrida - agora abandonar a outra fatia é coisa que negociante faz? Pelo relatado na mídia, parece que houve pouco negócio, os documentos oficiais não deram conta do resultado, nenhum grande acordo foi anunciado, excetuando a criação da PetroSul pelos governos da Argentina, Brasil e Venezuela, mas... alguém acredita que o milhar de empresários e executivos que circulou naquela semana por Brasília, Rio de Janeiro, São Paulo, Belo Horizonte e outros centros da região estavam apenas fazendo turismo? Como negociar com os árabes pede persuasão com tempo, alguma discrição e muita conversação, possivelmente os resultados só aparecerão na próxima Cúpula, no Marrocos. Os números que circularam entre os organizadores eram de 15 bilhões de reais por ano, em 2007. Ou 10% das futuras exportações brasileiras.

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