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a Revista de la Pátria Grande


IDÉIAS EM REDE / IDEAS EN RED

Responsabilidade social e Comunicação social no Brasil
Nádia Rebouças
Rio de Janeiro - Brasil
Diretora Geral da Rebouças & Associados
reboucas@reboucaseassociados.com.br
www.reboucaseassociados.com.br


Foto Rodolpho Oliva
Tradicionalmente se reconoce al mercado como productor de competición, explotador de mano de obra y antiético. Pero algunos cambios vienen siendo realizados. En la práctica parece haber un movimiento de transformación que descubrió la existencia del “otro” y que favorece el crecimiento del movimiento de la responsabilidad social empresarial. Se debe apostar en la capacidad de crear mercados éticos y en la maduración de la sociedad civil.



Reconhecemos o mercado, tradicionalmente, como produtor de competição, explorador de mão-de-obra e antiético por concepção. Mas algo vem mudando. Essas mudanças são pequenas frentes há anos de dominação pelo "Deus Mercado" (conceito de Frei Beto), que tem cometido atrocidades, especialmente em países da América Latina, Ásia e África. Perceber esses sinais de mudança é essencial para que possamos fortalecer nossas esperanças tão desgastadas, especialmente após a globalização, que intensificou as crueldades econômicas para os países "devedores" e mostrou o poder do mercado. As empresas multinacionais não têm fronteiras, e rapidamente construíram verdadeiros conglomerados virtuais que têm bandeiras, valores e crenças, e que dominaram mercados pelo mundo.

O marketing deixou de ser local, multiplicando o potencial de construir marcas mundiais com a maximização de investimentos, já que um único filme publicitário ocupa os meios de comunicação de vários países no mundo.

E a tecnologia também se encarregou de acabar com inúmeras funções em todo tipo de empresas. Num primeiro momento, pareceu que tudo estava perdido: o processo de globalização massacraria as identidades, acabaria com os empregos, escravizaria toda uma massa de empregados menos qualificados com a estratégia da terceirização, especialmente no Terceiro Mundo. No meio dos anos 90, ficamos surpresos, calados. Mas a realidade é dinâmica e fortaleceram-se outras multinacionais: as ONG´s.


"MERCADOS"
PARA CIDADANIA


Não há um "Deus Mercado". Aceitá-lo como Deus é percebê-lo como indestrutível. Muitas vezes, ele é ameaçado pelos "artistas do invisível" (Allan Kaplan) que mexem e remexem no tecido social. Existe movimento. Muitos de nós, com muito conhecimento sobre como criar mercados, estamos criando hoje "mercados" para cidadania.

As empresas começam a perceber que não têm só consumidores, mas interlocutores. Em 99 se consolida no Brasil o movimento do Terceiro Setor que, na prática, reúne empresas que "acordam" para sua Responsabilidade Social. Inicia-se um difícil diálogo com as ONG's, que desde a década de 70 criaram um novo modelo de organização. Muitas empresas criam suas Fundações, Institutos e desenvolvem ações sociais, algumas por conscientização, outras por obrigações legais e pressões sociais que as levam a um processo de mudança em suas atitudes frente ao meio ambiente e ao social.

Foto João Ripper

O setor privado começa (e a realidade que conheço é a do Brasil) a investir em sua força de trabalho e a perceber que além dos muros existe uma comunidade, uma cidade. Começa a perceber que seus funcionários têm vida e problemas sociais fora dos muros da empresa, e já investem em educação de forma estruturada.

Não quer dizer que vencemos a corrupção, certamente não, mas há leis ambientais, audiências públicas, há a imprensa e, especialmente, há a Internet, o que favorece a discussão da Responsabilidade Ambiental e Social no Brasil, o debate do "crescimento econômico" versus o "desenvolvimento sustentável".

É cada vez mais difícil uma empresa faltar com suas responsabilidades ambientais e sociais e passar despercebida entre seus consumidores. É claro que muitas entram no discurso por modismo de gestão, mas esse também é um bom sinal.

As empresas não são blocos de paralelepípedos, são formadas por pessoas, que também são consumidores. O despertar da consciência cria um funcionário diferente, que pergunta e se posiciona e, da mesma maneira, cresce o número de consumidores conscientes. O ato de consumir é pensado, escolhido e decidido através do que se conhece e julga da empresa, através da percepção do que está por trás do produto.

Observamos também que cresce a consciência do que chamamos de "Menos". Para que e por que temos que ter tanto, consumir tanto? Violentamos e consumimos rios, lagos e mares, florestas, riquezas minerais, oxigênio e gente. A palavra consumidor significa aquele que gasta, esgota, destrói, ilude, extingue. Não precisamos de mais consumidores. Para que todo o mundo pudesse consumir como os Estados Unidos, precisaríamos de quatro planetas Terra. Alguém sabe onde estão os outros três?


UM NOVO CAMINHO

E como avançamos? Avançamos com a formulação de novas leis, especialmente de Meio Ambiente, e com o uso estratégico de comunicação para transformação.

Foto João Ripper

De 1993 até 1997 realizou-se no Brasil a Campanha da Ação da Cidadania, concebida por Betinho, fundador do IBASE (Instituto Brasileiro de Análises Sociais e Econômicas). Betinho foi inovador porque acreditou na comunicação e lançou um produto no mercado: a solidariedade. A campanha ficou conhecida como Campanha da Fome, e teve um desdobramento no programa Fome Zero, do Governo Lula. A ação da Cidadania foi uma campanha da sociedade civil que mobilizou profissionais de marketing, comunicação, artistas, veículos de comunicação numa ação integrada e inovadora, dando início aos processos de mudança no uso da comunicação. As técnicas de comunicação estratégica antes amplamente utilizadas para vender produtos como sabonetes, refrigerantes ou políticos ganharam um novo uso: convocar a população para ações da sociedade civil. Passamos a vender idéias e causas. Surgiram organizações da sociedade civil com marcas fortes como Greenpeace, WWF e Oxfam, com suas campanhas de advocacy. As empresas brasileiras tiveram uma nova experiência com a Ação da Cidadania: começaram a apoiar a campanha, e aí nasceram instituições de estudo e divulgação da Responsabilidade Social. O sociólogo Herbert de Souza, o Betinho, trouxe para o Brasil o Balanço Social. Já que se publicava o balanço financeiro das empresas, porque não publicar o balanço social? Em 98, nasceu o Instituto Ethos de Empresas e Responsabilidade Social, logo a seguir o GIFE - Grupo de Institutos, Fundações e Empresas, e também o Akatu, que trabalha para o desenvolvimento do consumo consciente. Inaugurou também o COEP - Comitê para Cidadania das Empresas Públicas - conscientizando a responsabilidade pública das empresas estatais que começavam a ser privatizadas.

Hoje, no Brasil, as empresas investem em produtos sociais e muitas desenvolvem com ONG´s tecnologias sociais: metodologias criadas e testadas para investimento no capital social.

A mídia (TV, rádio e mídias exteriores) vem apoiando as campanhas de ONG´s em vários Estados. Os programas de TV e as revistas estão sendo impactados pela pressão social que exige maior compromisso e Responsabilidade Social com o que entra em nossos lares. Aqui e ali surgem iniciativas inovadoras como a IV Cúpula de Mídia, que se realizou no Brasil há um ano e foi uma forma de reunir produtores de cultura e gerar discussões sobre a mídia para crianças, com importantes desdobramentos.

Na prática, parece haver um movimento de transformação que tangibiliza a existência do "outro" e que favorece o crescimento do movimento de Responsabilidade Social empresarial e a participação das ONG´s na criação de tecnologias sociais que podem ser implantadas como políticas públicas.

As áreas de marketing e comunicação das empresas passam a ser influenciadas pelos resultados de pesquisa que mostram um novo tipo de cliente, com novos valores. A linguagem da publicidade começa a mudar. Nasce o conceito de marketing social. No começo, uma estratégia para divulgação das "boas ações" das empresas. Aos poucos ele vai ganhando novos sentidos, as grandes e mais comprometidas empresas amadurecem, passando a estudar a realidade social e percebem que a Responsabilidade Social começa dentro da empresa. É dentro das empresas que também está a desnutrição, o racismo, a violência contra a mulher, a falta de oportunidades para portadores de deficiência, entre tantas outras questões sociais. Os departamentos de Recursos Humanos percebem que o tema da Responsabilidade Social passa por eles e não só pelos departamentos de marketing e comunicação. Começa-se também a perceber que as ferramentas de marketing e comunicação podem levar a sociedade à reflexão criando um novo diálogo social. Quando o tema Responsabilidade Social, há mais ou menos 3 anos, chega às lideranças empresariais, inicia-se a verdadeira preocupação das empresas em agregar o valor social e ambiental às suas estratégias de negócios. Fica de lado o assistencialismo e tem início um movimento mais sério, mais estruturado e planejado.

Atualmente, uma rede de ONG's, Diálogos Contra o Racismo, em parceria com o IBASE, faz no Brasil uma grande campanha - "Onde você guarda seu racismo?". A campanha do racismo, de 40 ONG´s, por todo o Brasil, teve o apoio voluntário de profissionais de comunicação e da mídia. Outra campanha original foi desenvolvida pelo Instituto Patrícia Galvão, que criou spots de TV falando diretamente aos homens sobre a violência contra as mulheres. As TV's se vêem no processo, e abrem espaços para campanhas da sociedade civil. As ferramentas, do marketing e da comunicação, que não têm ideologia, mostram sua eficiência para aplicação nos movimentos de transformação. A capacidade de acreditar no diálogo social tem gerado avanços, surpreendendo o poderio do mercado e do controle das mídias. As ONG's estão descobrindo o importante papel da comunicação estratégica. A ação estruturada de muitas ONG's, agregando aos seus projetos a comunicação estratégica leva à conquista de um mercado para a cidadania. Temos capacitado cooperativas populares em gestão, marketing e comunicação, para que o velho emprego, que desaparece, vire empreendedorismo.

Instituto Patrícia Galvão

Há resistências, preconceitos, mas que não apagam a existência de empresas acordando para o social, e ONG´s despertando para a necessidade de investir na mobilização social. São novas pontes que se constroem para uma atuação mais sistêmica sobre os problemas sociais. Existem muitos trabalhando pela transformação. Há um continente que pode despertar. Um continente que insiste em não criar diálogo entre vizinhos. Outra vez um problema de comunicação. Comunicação é uma arma positiva e intensiva para construir valores e crenças que levam grupos sociais à reflexão. Podemos desenvolver mercados de solidariedade, da paz. Comunicação para o desenvolvimento humano.

No Brasil, estamos tentando formar redes e aprender mais sobre o uso da comunicação. A América Latina pode aumentar suas trocas, não só para denúncias e diagnósticos, mas para conhecer o que a comunicação está desenvolvendo em cada um dos nossos países, tendo como objetivo efetivas mudanças sociais.

Há que acreditar na capacidade de criar mercados éticos e em apostar no amadurecimento da sociedade civil e não dar qualquer chance, nenhuma chance, para a velha política desse continente. "Construir uma grande ferrovia que possibilite que nossos jovens se conheçam e namorem por toda América Latina". Apostar no diálogo social da rádio América. Fiz meu um dos sonhos do filósofo Bernardo Toro, e por isso, convido outros profissionais da América Latina - interessados no tema da comunicação para o desenvolvimento humano - a aumentarem sua interação, olhando para as oportunidades de transformação. (NA)

Aderi Costa


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