Revista

L
a Revista de la Pátria Grande

EDITORIAL

Família/Famílias

Família/Famílias é o sugestivo título deste número da revista que se propõe a contribuir para a reflexão em torno desta instituição - a família - para muitos em crise, e até para alguns em vias de extinção. Sem dúvida o modelo de família típica de uns 50 ou 60 anos atrás, ou melhor, aquilo que idealizávamos como tal, não é mais capaz de abarcar as diferentes configurações familiares com que hoje nos defrontamos. Como lembra uma de nossas articulistas, a simples necessidade que sentimos de acrescentar ao substantivo família toda uma série de adjetivos, tais como nuclear, separada, recasada, monoparental e por aí vai, é indicativa de que a realidade familiar é cada vez mais diversa e que o termo família assume no contexto atual um caráter polissêmico. Nem mesmo a consangüinidade é mais considerada como elemento essencial para caracterizá-la como tal. Por isso, o termo "famílias" no plural.

Face à constatação acima, pode-se afirmar a "morte da família" ou que a família, enquanto instituição social, se tornou dispensável? Muito pelo contrário, nossos articulist@s são tod@s unânimes em ressaltar o papel absolutamente estratégico que a família é chamada a assumir no mundo de hoje, como espaço de formação das crianças e jovens, como espaço de convivência onde predomina a intimidade, a afetividade, onde se aprende (ou se pode aprender) a reciprocidade e a solidariedade. Nossas famílias concretas, no entanto, estão desafiadas, mais do que nunca e de muitas maneiras, pelas condições precárias de existência de uma significativa maioria (em especial, nos nossos países latino-americanos), pela ideologia do mercado, pelo modo de vida dominante nos grandes centros urbanos, pela mídia, como nos mostram os vários artigos que compõem este número. Como diz a nossa entrevistada da vez, a própria complexidade das novas configurações familiares, se não as torna necessariamente mais problemáticas, demanda dos seus membros muito mais flexibilidade, muito mais criatividade no enfrentamento das dificuldades com que, inevitavelmente, se defrontam no desempenho das suas funções.

É com um pé nessa realidade complexa, que assumimos a afirmação de uma das nossas articulistas, ao concluir o seu texto. Diz ela: constituir família hoje ainda é uma realidade, mas ser - e permanecer - família é que se constitui num enorme desafio. É a equacionar este desafio que somos todos chamados. E a revista nos traz algumas dicas... Reconhecer que o amor é ainda a base de cada nova comunidade familiar, mas de que este precisa ser alimentado para adubar os relacionamentos; abrir a família a novas redes de solidariedade, como o fazem, talvez prioritariamente, as famílias das classes populares; recuperar, através da releitura do texto bíblico, o projeto original que animou a criação da família, pensada como o lugar por excelência de reconhecimento inter-pessoal ...

Que este número da revista nos ajude a tomar consciência de que ninguém ocupa o lugar da família, tenha ela a configuração que tiver, mas que é preciso cuidá-la e de muitos modos.

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