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Entre
o mundo do lar e o mundo do trabalho
Reflexões
sobre a posição da mulher na família
Zaia Brandão
SOCED/PUC-Rio
Rio de Janeiro - Brasil

A lo largo del último siglo la situación de las mujeres
cambió enormemente. Hoy son mayoría en las universidades
brasileñas, han accedido a las carreras de mayor prestígio
y, aunque en gran minoría, están presentes en la política
y ocupan cargos de jefatura en las más diferentes
áreas. A pesar de esos avances, y aunque el trabajo
femenino contribuye cada vez más para la provisión
familiar, el aumento de la participación del hombre
en las tareas domésticas todavia es insignificante.
Esto lleva a que las mujeres que transitan de la esfera
doméstica para la pública no vivencien este proceso
como un lucro social. La sobrecarga que normalmente
implica el trabajo remunerado y las responsabilidades
domésticas no compartidas por los otros miembros de
la familia, hacen ver distante el horizonte de independencia
y de realización personal por el trabajo.
Neste
início do século XXI, algumas certezas parecem se
firmar sobre a questão da família: são múltiplos os
arranjos familiares aceitos socialmente, a família
conjugal (marido, esposa e filhos) não é mais a única
aceita, o trânsito da mulher entre o mundo privado
(família) e o público (trabalho) vem crescendo. Entretanto,
o peso das responsabilidades e tarefas cotidianas
da vida familiar ainda recai marcadamente sobre as
mulheres.
Os relatos de minha mãe, nascida na primeira década
do século XX em uma família numerosa de classe média
da cidade do Rio de Janeiro, portanto há um século
atrás, pode servir de referência para o argumento
acima.
Eram 17 filhos vivos, dos quais apenas 5 eram homens.
Aqui já aparece uma característica diferencial das
famílias de classe média, de ontem em relação às de
hoje. As famílias numerosas eram bastante comuns[2].
O que me parece importante ressaltar é o orgulho com
que minha mãe dizia: "meu pai, mesmo tendo tantos
filhos, nunca deixou nenhuma das filhas trabalhar
fora de casa". Com este depoimento, ela queria
também enfatizar o seu contido desacordo ao meu projeto
de ter uma profissão e ser independente. As moças
de classe média da minha geração começavam a inovar
estudando mais, chegando às universidades e ganhando
o seu próprio dinheiro. A reação da família de minha
mãe ao meu projeto neste sentido eram comentários
preocupados como "essa menina acaba não casando"
; seguramente, no imaginário dos setores médios
conservadores[3] da época, não casar representava
uma ameaça ao meu "futuro de mulher".
"Nunca deixar uma filha trabalhar fora" significava
entretanto "muito trabalho doméstico[4] dentro de
casa", o que era encarado não só como natural, mas
como um destino "privilegiado" da mulher. Um dos resultados,
deste imaginário sobre o "destino doméstico da mulher",
entre os setores médios do início do século passado,
foi uma educação que secundarizava a profissionalização
da mulher e, desta forma, garantia a dominação masculina
no espaço familiar, no mundo do trabalho, da política
e, nas sociedades de uma maneira geral. As mulheres
da família da minha mãe não estudaram além da 4a série
primária, todas se casaram e assumiram a ocupação
de "prendas domésticas"[5] ou "do lar". A família
conjugal (pai, mãe e filhos), era para a classe média
daquelas gerações, a regra. Um século após, apesar
das enormes diferenças e ampliações dos arranjos familiares
- famílias recompostas, monoparentais, conjugais,
consensuais, etc. - o mais espantoso é que à mulher,
ainda hoje, seja atribuída quase que exclusivamente
a responsabilidade dos cuidados dos filhos e do "lar".

No decorrer deste último século, são extraordinários
os avanços das mulheres: elas não só chegaram às universidades,
como já se tornaram maioria entre os universitários,
como indica o Censo do Ensino Superior (INEP/MEC:
2003). As avaliações internacionais reiteram hoje,
que o desempenho escolar superior das meninas não
é uma especificidade da realidade francesa[6], mas
um fenômeno mundial. As mulheres romperam as barreiras
das carreiras de maior prestígio (medicina, engenharia,
direito...), entraram maciçamente no mercado de trabalho,
disputando ombro a ombro com o poder masculino ocupações
de todos os tipos: manuais e intelectuais, nos setores
primário (agricultura), secundário (indústrias) e
terciário (serviços). Embora em gritante minoria,
elas estão na política e ocupam cargos de chefia nas
mais diferentes áreas.
Todas essas conquistas, entretanto, têm sido conseguidas,
na maioria das vezes, ao custo da dupla jornada feminina,
dos salários desiguais em funções equivalentes e dos
efeitos perversos da desvalorização das carreiras
tradicionalmente femininas (magistério, enfermagem,
nutricionista) ou da gradativa desvalorização dos
empregos, nas carreiras que se feminilizaram como
é o caso da medicina, por exemplo.
O QUE DIZEM AS PESQUISAS
Em uma pesquisa desenvolvida em 2000 pelo SOCED/PUC-Rio
(Grupo de Pesquisas em Sociologia da Educação) sobre
elites acadêmicas, o corpo docente de uma das mais
importantes universidades brasileiras era constituído
de 63% de homens e 37% de mulheres. No entanto, enquanto
76% dos professores do sexo masculino eram doutores,
apenas 37% das professoras da mesma universidade eram
doutoras. Ou seja, em que pesem os avanços da escolaridade
feminina no Brasil, as mulheres, mesmo na carreira
acadêmica, encontram-se em desvantagem em relação
aos seus colegas do gênero masculino, pois a relação
titulação/gênero é claramente favorável aos homens.
É interessante ressaltar que mesmos nos setores mais
intelectualizados, onde em princípio circulam representações
mais igualitárias sobre a questão de gênero, os professores/pesquisadores
obtêm o doutorado mais cedo do que os seus pares femininos,
pois as práticas sociais no interior das famílias
destes grupos continuam aceitando como natural a "dupla
jornada das mulheres" e a priorização da carreira
do homem entre os casais. Recaem sobre as mulheres
quase que integralmente as tarefas domésticas, obrigando-as
a postergar seus investimentos profissionais.

Em uma pesquisa em andamento do mesmo grupo, que investigou
jovens das 8as séries de nove escolas de prestígio
da cidade do Rio de Janeiro, focalizando portanto
setores das camadas médias superiores e das elites
(econômicas, culturais, profissionais, etc.), o mesmo
cenário se apresentou. Entre as famílias destes jovens,
que representam as elites escolares, a posição da
mulher não escapa ao esteriótipo de principal responsável
pelos cuidados dos filhos e das tarefas domésticas.
Embora um dos questionários do survey da pesquisa
tenha sido encaminhado aos pais (pai e mãe), quase
80% deles foi respondido pelas mães e um bom número
delas, embora com nível superior, não exercem ocupações
remuneradas.
Em outra recente pesquisa desenvolvida no Brasil -
Gênero, trabalho e família[7] - foram assinaladas
importantes transformações nas características da
vida familiar, do trabalho e das relações de gênero.
Em que pese os avanços na direção de representações
e práticas mais igualitárias, no que toca ao acesso
ao trabalho e à realização profissional da mulher
- indicando o trânsito das mulheres do âmbito doméstico
para o público - os pesquisadores identificaram um
movimento muito mais lento no sentido inverso. Ou
seja, embora o trabalho feminino contribua cada vez
mais para a provisão da vida familiar, o aumento da
participação do homem nas tarefas domésticas é ainda
insignificante: "o padrão de divisão sexual do trabalho
doméstico e as atribuições dos homens e das mulheres
relacionadas com o trabalho de reprodução cotidiana
da vida social permanecem como um dos aspectos menos
permeáveis às mudanças que marcam o período contemporâneo"
(ibid p. 69).
A referida pesquisa procurou identificar representações
sobre os papéis masculinos e femininos no trabalho
e na família. Através de um survey em uma amostra
de cerca de 2000 indivíduos[8] apresentava afirmações
relativas aos papéis femininos e masculinos. À afirmação
"trabalhar é bom, mas o que a maioria das mulheres
realmente quer é ter um lar, filhos", por exemplo,
obteve a concordância de 70% dos homens e de 68,7%
das mulheres. Interessante e surpreendente, no primeiro
momento, foi a constatação de que as mulheres sem
cônjuge fossem as que, proporcionalmente, mais concordaram
com a afirmação. Já à afirmação "o trabalho do homem
é ganhar dinheiro, o trabalho da mulher é cuidar da
casa" embora não encontrasse tanta adesão entre as
mulheres (47% concordaram e 45% discordaram) teve
entre as mulheres provedoras (ou seja, aquelas que
são as principais responsáveis pelo orçamento familiar)
o maior percentual de concordância. Segundo a interpretação
das pesquisadoras, a divisão tradicional dos papéis
femininos e masculinos na família faz parte de uma
máxima cultural tão imperativa, que mesmo aquelas
que transitam da esfera doméstica para a pública não
tendem a vivenciar este processo como um ganho social.
A sobrecarga que normalmente implica o trabalho remunerado
e as responsabilidades domésticas não partilhadas
pelos outros membros da família sonegam da mulher
o horizonte da independência e da realização pessoal
pelo trabalho.
Quanto tempo ainda levaremos para garantir às mulheres
uma posição mais justa no mundo familiar? (NA)
[1] BOURDIEU, Pierre (1998) La domination masculine.
Paris: Seuil, p. 49.
[2] Hoje nos setores médios, na mesma cidade do Rio
de Janeiro, têm em média dois filhos e, no máximo, três;
ao mesmo tempo que, crescem entre as novas gerações
as famílias com um único filho. Em recente pesquisa
do SOCED, que investigou através de um survey nove escolas
de prestígio do Rio de Janeiro, identificamos entre
os alunos das 8as séries, 18% jovens na condição de
filhos únicos.
[3] A família de minha mãe era uma típica família tijucana,
A Tijuca era um bairro considerado conservador nos anos
50/60, em contraste, por exemplo, com Copacabana, onde
morávamos. Copacabana distinguia-se pelos padrões da
"modernidade" nos comportamentos, moda e estilo de vida.
[4] Doméstico - da casa, do lar; criado; domesticar
significa amansar, domar, amestrar, ou seja, tornar
dócil. Cf. Larrousse Cultural, São Paulo: Editora Nova
Cultural Ltda, 1992.
[5] Prendas domésticas - designação das atividades das
mulheres que, não exercendo funções remuneradas, se
ocupam do lar. Prenda, é algo oferecido a alguém, presente,
dádiva, mimo. Ainda, habilidade, aptidão. É importante
ressaltar o sentido da natural aptidão da mulher para
as tarefas domésticas. Cf. no mesmo dicionário.
[6] O livro de Baudelot, C e Establet, R. (1991) Allez
les filles!.Paris: Seuil, causou enorme impacto no início
da década passada. Baseado em dados estatísticos oficiais
indicou a superioridade do desempenho feminino no Sistema
Escolar Francês.
[7] SCALON, Celi e ARAUJO, Clara (2005). Gênero, familia
e trabalho no Brasil. Rio de Janeiro: Editora FGV.
[8] Homens e mulheres de diferentes faixas etárias e
situações na provisão das família. |