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L
a Revista de la Pátria Grande


IDÉIAS EM REDE / IDEAS EN RED

Entre o mundo do lar e o mundo do trabalho
Reflexões sobre a posição da mulher na família
Zaia Brandão
SOCED/PUC-Rio
Rio de Janeiro - Brasil



Foto Agência Tyba/Rogério Reis
A lo largo del último siglo la situación de las mujeres cambió enormemente. Hoy son mayoría en las universidades brasileñas, han accedido a las carreras de mayor prestígio y, aunque en gran minoría, están presentes en la política y ocupan cargos de jefatura en las más diferentes áreas. A pesar de esos avances, y aunque el trabajo femenino contribuye cada vez más para la provisión familiar, el aumento de la participación del hombre en las tareas domésticas todavia es insignificante. Esto lleva a que las mujeres que transitan de la esfera doméstica para la pública no vivencien este proceso como un lucro social. La sobrecarga que normalmente implica el trabajo remunerado y las responsabilidades domésticas no compartidas por los otros miembros de la familia, hacen ver distante el horizonte de independencia y de realización personal por el trabajo.



Neste início do século XXI, algumas certezas parecem se firmar sobre a questão da família: são múltiplos os arranjos familiares aceitos socialmente, a família conjugal (marido, esposa e filhos) não é mais a única aceita, o trânsito da mulher entre o mundo privado (família) e o público (trabalho) vem crescendo. Entretanto, o peso das responsabilidades e tarefas cotidianas da vida familiar ainda recai marcadamente sobre as mulheres.

Os relatos de minha mãe, nascida na primeira década do século XX em uma família numerosa de classe média da cidade do Rio de Janeiro, portanto há um século atrás, pode servir de referência para o argumento acima.

Eram 17 filhos vivos, dos quais apenas 5 eram homens. Aqui já aparece uma característica diferencial das famílias de classe média, de ontem em relação às de hoje. As famílias numerosas eram bastante comuns[2]. O que me parece importante ressaltar é o orgulho com que minha mãe dizia: "meu pai, mesmo tendo tantos filhos, nunca deixou nenhuma das filhas trabalhar fora de casa". Com este depoimento, ela queria também enfatizar o seu contido desacordo ao meu projeto de ter uma profissão e ser independente. As moças de classe média da minha geração começavam a inovar estudando mais, chegando às universidades e ganhando o seu próprio dinheiro. A reação da família de minha mãe ao meu projeto neste sentido eram comentários preocupados como "essa menina acaba não casando" ; seguramente, no imaginário dos setores médios conservadores[3] da época, não casar representava uma ameaça ao meu "futuro de mulher".

"Nunca deixar uma filha trabalhar fora" significava entretanto "muito trabalho doméstico[4] dentro de casa", o que era encarado não só como natural, mas como um destino "privilegiado" da mulher. Um dos resultados, deste imaginário sobre o "destino doméstico da mulher", entre os setores médios do início do século passado, foi uma educação que secundarizava a profissionalização da mulher e, desta forma, garantia a dominação masculina no espaço familiar, no mundo do trabalho, da política e, nas sociedades de uma maneira geral. As mulheres da família da minha mãe não estudaram além da 4a série primária, todas se casaram e assumiram a ocupação de "prendas domésticas"[5] ou "do lar". A família conjugal (pai, mãe e filhos), era para a classe média daquelas gerações, a regra. Um século após, apesar das enormes diferenças e ampliações dos arranjos familiares - famílias recompostas, monoparentais, conjugais, consensuais, etc. - o mais espantoso é que à mulher, ainda hoje, seja atribuída quase que exclusivamente a responsabilidade dos cuidados dos filhos e do "lar".

Foto João Ripper

No decorrer deste último século, são extraordinários os avanços das mulheres: elas não só chegaram às universidades, como já se tornaram maioria entre os universitários, como indica o Censo do Ensino Superior (INEP/MEC: 2003). As avaliações internacionais reiteram hoje, que o desempenho escolar superior das meninas não é uma especificidade da realidade francesa[6], mas um fenômeno mundial. As mulheres romperam as barreiras das carreiras de maior prestígio (medicina, engenharia, direito...), entraram maciçamente no mercado de trabalho, disputando ombro a ombro com o poder masculino ocupações de todos os tipos: manuais e intelectuais, nos setores primário (agricultura), secundário (indústrias) e terciário (serviços). Embora em gritante minoria, elas estão na política e ocupam cargos de chefia nas mais diferentes áreas.

Todas essas conquistas, entretanto, têm sido conseguidas, na maioria das vezes, ao custo da dupla jornada feminina, dos salários desiguais em funções equivalentes e dos efeitos perversos da desvalorização das carreiras tradicionalmente femininas (magistério, enfermagem, nutricionista) ou da gradativa desvalorização dos empregos, nas carreiras que se feminilizaram como é o caso da medicina, por exemplo.


O QUE DIZEM AS PESQUISAS

Em uma pesquisa desenvolvida em 2000 pelo SOCED/PUC-Rio (Grupo de Pesquisas em Sociologia da Educação) sobre elites acadêmicas, o corpo docente de uma das mais importantes universidades brasileiras era constituído de 63% de homens e 37% de mulheres. No entanto, enquanto 76% dos professores do sexo masculino eram doutores, apenas 37% das professoras da mesma universidade eram doutoras. Ou seja, em que pesem os avanços da escolaridade feminina no Brasil, as mulheres, mesmo na carreira acadêmica, encontram-se em desvantagem em relação aos seus colegas do gênero masculino, pois a relação titulação/gênero é claramente favorável aos homens. É interessante ressaltar que mesmos nos setores mais intelectualizados, onde em princípio circulam representações mais igualitárias sobre a questão de gênero, os professores/pesquisadores obtêm o doutorado mais cedo do que os seus pares femininos, pois as práticas sociais no interior das famílias destes grupos continuam aceitando como natural a "dupla jornada das mulheres" e a priorização da carreira do homem entre os casais. Recaem sobre as mulheres quase que integralmente as tarefas domésticas, obrigando-as a postergar seus investimentos profissionais.

Foto Agência Tyba/Renata Mello

Em uma pesquisa em andamento do mesmo grupo, que investigou jovens das 8as séries de nove escolas de prestígio da cidade do Rio de Janeiro, focalizando portanto setores das camadas médias superiores e das elites (econômicas, culturais, profissionais, etc.), o mesmo cenário se apresentou. Entre as famílias destes jovens, que representam as elites escolares, a posição da mulher não escapa ao esteriótipo de principal responsável pelos cuidados dos filhos e das tarefas domésticas. Embora um dos questionários do survey da pesquisa tenha sido encaminhado aos pais (pai e mãe), quase 80% deles foi respondido pelas mães e um bom número delas, embora com nível superior, não exercem ocupações remuneradas.

Em outra recente pesquisa desenvolvida no Brasil - Gênero, trabalho e família[7] - foram assinaladas importantes transformações nas características da vida familiar, do trabalho e das relações de gênero. Em que pese os avanços na direção de representações e práticas mais igualitárias, no que toca ao acesso ao trabalho e à realização profissional da mulher - indicando o trânsito das mulheres do âmbito doméstico para o público - os pesquisadores identificaram um movimento muito mais lento no sentido inverso. Ou seja, embora o trabalho feminino contribua cada vez mais para a provisão da vida familiar, o aumento da participação do homem nas tarefas domésticas é ainda insignificante: "o padrão de divisão sexual do trabalho doméstico e as atribuições dos homens e das mulheres relacionadas com o trabalho de reprodução cotidiana da vida social permanecem como um dos aspectos menos permeáveis às mudanças que marcam o período contemporâneo" (ibid p. 69).

A referida pesquisa procurou identificar representações sobre os papéis masculinos e femininos no trabalho e na família. Através de um survey em uma amostra de cerca de 2000 indivíduos[8] apresentava afirmações relativas aos papéis femininos e masculinos. À afirmação "trabalhar é bom, mas o que a maioria das mulheres realmente quer é ter um lar, filhos", por exemplo, obteve a concordância de 70% dos homens e de 68,7% das mulheres. Interessante e surpreendente, no primeiro momento, foi a constatação de que as mulheres sem cônjuge fossem as que, proporcionalmente, mais concordaram com a afirmação. Já à afirmação "o trabalho do homem é ganhar dinheiro, o trabalho da mulher é cuidar da casa" embora não encontrasse tanta adesão entre as mulheres (47% concordaram e 45% discordaram) teve entre as mulheres provedoras (ou seja, aquelas que são as principais responsáveis pelo orçamento familiar) o maior percentual de concordância. Segundo a interpretação das pesquisadoras, a divisão tradicional dos papéis femininos e masculinos na família faz parte de uma máxima cultural tão imperativa, que mesmo aquelas que transitam da esfera doméstica para a pública não tendem a vivenciar este processo como um ganho social. A sobrecarga que normalmente implica o trabalho remunerado e as responsabilidades domésticas não partilhadas pelos outros membros da família sonegam da mulher o horizonte da independência e da realização pessoal pelo trabalho.

Quanto tempo ainda levaremos para garantir às mulheres uma posição mais justa no mundo familiar? (NA)

Foto Agência Tyba/Ricardo Funari


[1] BOURDIEU, Pierre (1998) La domination masculine. Paris: Seuil, p. 49.
[2] Hoje nos setores médios, na mesma cidade do Rio de Janeiro, têm em média dois filhos e, no máximo, três; ao mesmo tempo que, crescem entre as novas gerações as famílias com um único filho. Em recente pesquisa do SOCED, que investigou através de um survey nove escolas de prestígio do Rio de Janeiro, identificamos entre os alunos das 8as séries, 18% jovens na condição de filhos únicos.
[3] A família de minha mãe era uma típica família tijucana, A Tijuca era um bairro considerado conservador nos anos 50/60, em contraste, por exemplo, com Copacabana, onde morávamos. Copacabana distinguia-se pelos padrões da "modernidade" nos comportamentos, moda e estilo de vida.
[4] Doméstico - da casa, do lar; criado; domesticar significa amansar, domar, amestrar, ou seja, tornar dócil. Cf. Larrousse Cultural, São Paulo: Editora Nova Cultural Ltda, 1992.
[5] Prendas domésticas - designação das atividades das mulheres que, não exercendo funções remuneradas, se ocupam do lar. Prenda, é algo oferecido a alguém, presente, dádiva, mimo. Ainda, habilidade, aptidão. É importante ressaltar o sentido da natural aptidão da mulher para as tarefas domésticas. Cf. no mesmo dicionário.
[6] O livro de Baudelot, C e Establet, R. (1991) Allez les filles!.Paris: Seuil, causou enorme impacto no início da década passada. Baseado em dados estatísticos oficiais indicou a superioridade do desempenho feminino no Sistema Escolar Francês.
[7] SCALON, Celi e ARAUJO, Clara (2005). Gênero, familia e trabalho no Brasil. Rio de Janeiro: Editora FGV.
[8] Homens e mulheres de diferentes faixas etárias e situações na provisão das família.

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