
NA - O que caracterizaria uma família, hoje?
Podemos pensar na caracterização da família hoje
do ponto de vista jurídico e do ponto de vista
psicológico.
Do ponto de vista jurídico, a Constituição de
1988 e o Novo Código Civil de 2002 reconhecem
como entidade familiar a comunidade formada por
qualquer dos pais e seus dependentes. Assim como
reconhecem como família a união estável estabelecida
entre os cônjuges. Isto já é um grande progresso
em relação à Constituição anterior onde família
era definida como família legítima, constituída
a partir do casamento pelos pais e seus dependentes.
Acho que já foi um grande ganho para a sociedade
e para a saúde emocional dos membros da família,
o fato de a Constituição de 1988 reconhecer que
o grupo familiar, hoje, é plural e que, além da
família nuclear típica, ou seja, o pai e a mãe
de um primeiro casamento com seus filhos, temos
diferentes configurações familiares.
Do ponto de vista psicológico, podemos dizer que
família é uma unidade onde predominam sobretudo
os laços afetivos. Onde predominam a intimidade,
a convivência, a solidariedade, a reciprocidade
e a afetividade. Na maioria dos grupos familiares,
com certeza, a consangüinidade está presente.
Contudo, hoje, não se considera a consangüinidade
o elemento essencial para caracterizar a família,
tal como estava definido na Constituição anterior.
Então, o que é que temos hoje? Diferentes configurações
familiares: a típica tradicional família nuclear,
as famílias separadas, famílias recasadas, famílias
monoparentais, famílias adotivas, famílias homoparentais.
Já temos, aqui no Rio de Janeiro, na 1ª.
Vara de Família, casos de adoções por homossexuais,
e mesmo famílias homoparentais constituídas de
outras formas que não pela via da adoção. Temos,
portanto, hoje, uma pluralidade de configurações
familiares.
NA - Diante dessa pluralidade de configurações
familiares, o que mudou e o que não mudou?
Apesar de todas estas diferentes configurações,
observamos hoje, atendendo as famílias na clínica
e desenvolvendo pesquisas sobre a dinâmica familiar,
que ainda estão presentes, mesmo nos novos arranjos
familiares, alguns valores tradicionais e que
eles coexistem com alguns valores modernos.
Podemos dizer que na família contemporânea temos
a presença tanto dos valores tradicionais como
dos valores modernos. Pode parecer que tudo está
moderno demais, mas quando realizamos pesquisas
com os jovens, com os casais, com as famílias,
observamos como determinados valores tradicionais
ainda são importantes e ainda são preservados
na família contemporânea.
NA - Você poderia dar
exemplos de alguns desses valores?
Na contemporaneidade, há uma ambivalência em relação
ao casamento e à família. Ao mesmo tempo, por
exemplo, em que a monogamia e a fidelidade aparecem
como valores importantes, o narcisismo e o individualismo
permeiam as relações amorosas. Ao mesmo tempo
em que há um apelo ao novo e ao que é descartável,
há uma valorização do compromisso, do engajamento
e da manutenção das relações e do casamento.
No momento, estamos desenvolvendo uma pesquisa
sobre o lugar do casamento no projeto de vida
dos jovens solteiros. E o que estamos querendo,
de fato, é avaliar a influência do casamento dos
pais no projeto de casamento dos filhos.
Queremos conhecer a percepção que os filhos tiveram
do casamento dos seus pais, não importando a realidade,
e sim o que eles perceberam como realidade. E
mais, queremos saber que influência isso pode
ter no projeto de casamento dos filhos. Que lugar
o casamento ocupa no projeto de vida deles? A
pesquisa ainda está em andamento. Tivemos uma
primeira etapa, onde avaliamos a percepção do
casamento dos pais pelos filhos e agora estamos
numa segunda etapa, entrevistando alguns desses
filhos, ou seja, os que avaliaram o casamento
dos pais como muito satisfatório e os que avaliaram
como muito insatisfatório. Aqueles que acharam
o casamento dos pais mais ou menos satisfatório
não estamos entrevistando. Estamos ouvindo os
extremos, para ver se o fato de terem percebido
o casamento dos pais como muito satisfatório ou
muito insatisfatório influencia o projeto de casamento
desses jovens.
E o que estamos constatando nestas entrevistas,
em termos dos valores, é que a fidelidade é muito
valorizada pelos jovens, e que, em alguns casos,
o casamento institucionalizado também. Ao mesmo
tempo em que estão presentes estes valores tradicionais,
são ressaltados também, como muito importantes,
valores modernos, como por exemplo, a igualdade
entre os sexos, a mulher tendo os mesmos direitos
do homem, o homem já assumindo um pouco mais algumas
tarefas domésticas, embora isso ainda seja responsabilidade
das mulheres. Na verdade, o homem assume essas
tarefas, mas numa posição de estar prestando um
serviço, digamos assim, às mulheres. É a isto
o que estou chamando da coexistência de valores
tradicionais e valores modernos na família contemporânea.
Ainda uma questão. Podemos dizer que essas novas
configurações familiares engendram também novas
relações que precisam ser muito mais flexíveis,
muito mais criativas. Porque você imagina um menino
de uma família recasada, que tem pais, madrasta,
padrasto, oito avós, irmãos, meio-irmãos, irmãos
por afinidade, ele deverá ter muito mais flexibilidade,
muito mais criatividade, e os pais e os outros
membros da família também para lidar com toda
essa complexidade. Essas novas configurações familiares
não são mais problemáticas, elas são mais complexas.
E essa complexidade traz uma conseqüência, ela
demanda uma flexibilidade maior, uma criatividade
maior.
NA - Quais as implicações
para a formação das crianças e dos jovens o fato
de existir diferentes configurações familiares?
Quer dizer, como é que isto afeta a formação,
o desenvolvimento da criança e do jovem?
Eu diria que essas novas configurações familiares,
em si, não sinalizam um problema, não são menos
saudáveis do ponto de vista emocional do que,
por exemplo, a família nuclear, do que as configurações
mais tradicionais de família. Não considero que
os novos arranjos familiares possam ter conseqüências
negativas para a formação da criança e do jovem.

O importante, em qualquer família, seja ela nuclear,
separada, recasada, monoparental ou adotiva, é
que haja um clima que permita o desenvolvimento
dos filhos. A família precisa ser um lugar
onde os filhos possam crescer em segurança, ou
seja, onde eles possam ter na figura dos adultos
- dos pais ou de outros responsáveis - modelos
de identificação saudáveis. É fundamental
o modo como os adultos desempenham as suas funções
parentais frente à criança, sejam eles pais biológicos
ou não. É a função simbólica de ser pai e ser
mãe que é, sobretudo, importante para o desenvolvimento
da criança. Então, ter pais casados de um primeiro
casamento numa família nuclear não é garantia
de saúde emocional. O importante é que os pais
possam ter maturidade emocional e possam assumir
as funções parentais.
Mais ou menos promoção de saúde emocional na família
vai depender sobretudo do desempenho dos papéis
de cada membro no grupo familiar. E o que é isto?
Trata-se de as funções familiares poderem ter
uma demarcação clara, não rígida, mas clara. Que
as funções de pai e de mãe possam ser exercidas
na família, que os filhos possam ser crianças
e jovens, e crescerem seguros porque há adultos
na família exercendo suas funções, sobretudo assumindo
o lugar de autoridade.
Eu acredito que a grande dificuldade atual da
família é a crise de autoridade. Temos também,
no mundo atual, uma crise de valores que produz
uma conseqüência na constituição dos modelos que
os pais são para os filhos. Ou seja, temos também
uma crise de modelos. Talvez até pudéssemos dizer
que isso tem alguma relação com a difusão da psicologia
e da psicanálise, digamos assim, com uma interpretação
equivocada de que não se pode proibir, não se
pode reprimir. E, então, os pais começaram a confundir
autoridade com autoritarismo. E para não serem
autoritários, eles foram deixando de ser autoridade.
E as crianças e os adolescentes precisam de autoridade.
Os pais, muitas vezes, acham que, para ser uma
família democrática, eles precisam ser uma família
de iguais. Mas família democrática não é família
de iguais, como sociedade democrática não é sociedade
de iguais. A sociedade democrática é hierarquizada.
A família é uma instituição hierarquizada, onde
os pais têm deveres e direitos que são distintos
dos deveres e direitos das crianças e dos jovens.
Creio que essa confusão entre autoridade e autoritarismo
criou uma crise de modelos e uma crise de valores
na família. Todavia, é muito importante que os
pais ou responsáveis exerçam essa autoridade no
grupo familiar porque os filhos necessitam dela.
Muitas vezes, recebo no consultório famílias onde
não é possível discriminar o subgrupo parental
do subgrupo filial. Eles parecem um grupo de adolescentes,
são todos iguais, os pais e os filhos. Isso também
tem a ver com a questão da valorização do ser
jovem. E os pais, um pouco buscando esse valor,
se igualam, muitas vezes, aos filhos e deixam
de exercer o papel de autoridade, que é tão importante
para o desenvolvimento dos filhos.
NA - E quando há outros
membros da família como os avós, os tios ... fale
um pouco sobre a presença deles na família?
Acredito que o papel dos tios, dos avós e de outros
agregados, como os padrinhos, as madrinhas, são
papéis muito importantes em termos da transmissão
dos valores, em termo das trocas afetivas. Como
acabei de dizer, é importante que os papéis parentais
possam ser assumidos pelos pais ou pelos responsáveis
na família, mas na ausência deles, em algum momento,
por qualquer razão, um filho mais velho pode assumir
esse lugar de autoridade. Um avô, um tio, uma
tia, a madrinha podem assumir esse lugar de cuidado,
de prover as necessidades materiais e afetivas
dos que ainda estão crescendo. Assim, a extensão
da família, a incorporação dos avós, dos tios,
dos primos, dos agregados, é muito importante
para o desenvolvimento da criança. Além disso,
a observação, o contato que a criança tem com
o modo como os adultos tratam os idosos, como
os pais tratam os avós, vai constituir-se num
modelo, digamos assim, que a criança incorpora.
Pois, no futuro, os seus pais serão os avós e
elas serão os adultos e terão os seus filhos.
Essa transmissão transgeracional é muito importante
na formação das crianças e dos adolescentes. A
transmissão dos valores familiares, das crenças,
dos rituais é um fator relevante na construção
da história familiar e na promoção da saúde emocional
na família.
NA - Suas reflexões me
levaram a pensar em uma outra questão. Muitas
vezes, ouvimos observações relacionadas ao fato
de que a família hoje não teria o mesmo peso,
o mesmo significado que teve no passado para a
formação da criança e dos jovens, uma vez que
eles estão mais em contato, hoje do que no passado,
com o mundo, isto é, com os seus pares, com a
mídia, a sociedade de uma maneira geral. E então,
a família perdeu mesmo espaço, ou não?
Eu acho que em qualquer cultura, em qualquer sociedade
a família terá sempre um peso muito grande no
desenvolvimento dos filhos, no desenvolvimento
das crianças e dos adolescentes. Mesmo com esse
cenário. Entretanto, o que está acontecendo com
a família hoje é que o fato de a mãe ter ido para
o mercado de trabalho, e de passar o mesmo número
de horas fora da casa que o pai, faz uma diferença
em relação à família do passado. O que não diminui
a importância da família, mas traz conseqüências,
digamos assim, para as relações familiares e para
o desenvolvimento das crianças.
O que está acontecendo é que os pais estão terceirizando
a educação, a educação dos seus filhos. Eles estão
entregando as crianças, e estão deixando de exercer
o papel pedagógico, o papel de educadores que
lhes cabe. Os que podem, pagam o que tiver que
pagar para os especialistas, e entregam os filhos.
Os pais dos segmentos menos privilegiados da
população também passam muitas horas fora de casa
e entregam seus filhos. Nesses segmentos, muitas
vezes, há redes comunitárias que respondem melhor
a essas necessidades da família. Nas classes
média e média-alta, o que está acontecendo é que
a educação formal, a escola ficou quase como mais
um objeto de consumo.

Os pais entregam as crianças, muitas vezes, por
conta dessa ausência de ambos da casa, por um
período longo, e esperam que a escola desempenhe
um papel que é deles. Às vezes, escuto das famílias
no consultório, ou das minhas alunas que trabalham
em escolas, que os pais querem que a escola fale,
para eles, sobre seus filhos. Isso, muitas vezes,
quer dizer que os filhos não estão sendo vistos
pelos pais, que os pais não observam seus filhos,
não sabem a respeito deles. Neste cenário, os
pais querem que a escola faça isso por eles, delegam
à escola a função que seria deles. É como se eles
dissessem: "Já que estou pagando, é a escola que
tem que fazer isto por mim". É a isto que poderíamos
chamar de terceirização da função paterna e materna,
da função parental.
E aí o que é que acontece? A escola fica sobrecarregada,
os professores ficam com uma demanda impossível
de ser atendida. Há pouco tempo, foi veiculada
na mídia uma matéria sobre o adoecimento dos professores.
A reportagem ressaltava que os professores estavam
adoecendo com tanta demanda, estavam sobrecarregados
com as inúmeras atribuições e com a falta de autoridade.
Porque se os pais não têm autoridade, o professor
também não terá autoridade. Existe uma certa tirania
dos filhos em relação aos pais, e os pais, talvez
porque culpados, por passarem o dia fora de casa,
se submetem a essa tirania e isso se repete na
escola. Os filhos esperam que a professora também
se submeta, isto faz com que os professores fiquem
realmente desgastados e sem autoridade.
Na clínica, por exemplo, o que ocorre quando os
pais chegam querendo me entregar os filhos? Eu
raramente vejo as crianças, sobretudo quando elas
têm abaixo de dez anos. Trabalho quase sempre
com os pais, às vezes com a família toda e, só
em situações muito raras, com a criança ou com
o adolescente sozinho. E nesse trabalho, o que
eu posso fazer? O que o psicólogo pode fazer?
Talvez o mais importante a ser feito é tentar
entender, junto com os pais, a relação existente
entre os problemas que a criança, ou o adolescente,
está apresentando e a interação familiar. É
mostrar para os pais a responsabilidade deles
no crescimento da criança, não para culpabilizá-los,
mas para resgatar o poder que eles têm. É mostrar
para os pais que eles são muito mais poderosos
que os psicólogos, que eles podem realizar muito
mais coisas com seus filhos. E que é a partir
deles, e com eles, que nós, os psicólogos, vamos
poder transformar essa dificuldade, essa realidade
do filho que, na maior parte das vezes, tem tudo
a ver com a dinâmica da família. Não adianta tratar
uma criança, tratar um adolescente se não tratarmos
os pais, não tratarmos a família. Acredito que
os especialistas, sejam eles psicólogos, psiquiatras,
pedagogos ou fonoaudiólogos, ao mesmo tempo em
que devem acolher a dificuldade, acolher a dor
e a demanda daqueles que buscam sua ajuda profissional,
devem trabalhar essa demanda, fazendo ressurgir
nos pais a questão da responsabilidade que eles
têm sobre seus filhos e do poder que têm enquanto
pais. Os especialistas devem resgatar com eles
esse poder, porque os pais estão muito impotentes.
Eles têm dificuldade de colocar limites, dificuldade
de exercer a autoridade, por isso, eles acabam
buscando a ajuda dos especialistas. Penso que
é preciso trabalhar a necessidade de normatização.
É como se houvesse uma certa anomia, uma certa
confusão, uma certa desordem familiar que precisa
ser confrontada e trabalhada. Existe uma necessidade
de serem colocadas normas, de serem colocados
limites, de que os pais possam organizar com os
filhos essa confusão em que se encontra, muitas
vezes, a família.
NA - Escutamos várias
famílias afirmarem: "eu não consigo dizer não
para os meus filhos". Fale um pouco mais sobre
isso?
Essa dificuldade dos pais talvez esteja também
relacionada ao fato de estarem muito ausentes
da casa e se sentirem culpados. É importante que
os pais possam trabalhar essa culpa e possam se
ausentar de uma maneira menos onerosa para eles,
para que isso não repercuta negativamente nas
suas relações com os filhos. Porque se os filhos
percebem que os pais estão culpados e estão fragilizados,
é uma tendência natural, desde muito pequenos,
tentar obter ganhos desta situação. Então a tirania
dos filhos, digamos assim, muitas vezes, ocorre
por conta da percepção que eles têm da fragilidade
dos pais. É preciso fortalecer os pais, se eles
buscam um atendimento psicológico, se buscam a
escola. É preciso que também a escola devolva
a esses pais a autoridade que é deles. É preciso
que a escola faça os pais verem que eles têm um
papel e que a escola não pode substituí-los. Tampouco
nós, os psicólogos, podemos fazê-lo.
NA - E isso, independentemente
da classe social?
Sim, independentemente da classe social. Entretanto,
eu creio que, nas classes sociais menos privilegiadas,
as famílias contam mais com o apoio de redes na
comunidade. São famílias que se ajudam mutuamente,
são associações que oferecem determinados serviços
da própria comunidade. Acredito que eles têm
mais estes recursos das redes populares do que
nas classes média e média alta, onde as famílias
são muito auto-referidas, e estão muito isoladas.
NA - Você poderia falar
mais um pouco sobre a questão da relação entre
educação e família e entre mídia e família?
Eu acho que isto que as famílias fazem transferindo
as funções que são suas para a escola, elas também
estão fazendo com a mídia, com os meios de comunicação,
sobretudo com a televisão e o computador.
Os filhos ficam na internet horas, ficam nos joguinhos
eletrônicos, ficam horas diante da televisão.
E esse excesso de informação, essa não discriminação
de que informação para quem, na família, isso
de fato pode prejudicar o desenvolvimento da criança
e do adolescente. As famílias deveriam estar mais
atentas e mais cuidadosas em relação a essa situação.
Ao mesmo tempo, existe a possibilidade de a mídia
contribuir, informar, mas em excesso isso pode
trazer prejuízos para as crianças e os adolescentes.
É nesse momento que eu ressaltaria a importância
da autoridade dos pais. Mas, como já vimos, eles
estão tento dificuldade para exercer essa autoridade,
para dizer não, para colocar horários, colocar
limites para os jogos eletrônicos, para a televisão,
para o computador. Por outro lado, os pais também
estão "entregando" seus filhos à mídia, na medida
em que eles deixam as crianças e os adolescentes
ficarem muitas horas diante da televisão ou do
computador, como se fosse um prêmio de consolação,
por conta de suas ausências prolongadas. Seria
importante, porém, que eles se dessem conta do
prejuízo que isso pode trazer para o desenvolvimento
dos filhos.
NA - Hoje mesmo eu participei
de uma discussão sobre as crianças ou os adolescente
que não permitem que seus pais ou responsáveis
vejam o que estão fazendo quando estão navegando
no computador. Diante da tentativa do adulto,
eles chegam a dizer: "não invada a minha privacidade,
esse é o meu espaço". O que você tem a dizer sobre
isso?
Quando uma criança fala isso para o pai (ou para
a mãe), "não invada a minha privacidade", e o
pai toma essa afirmação como uma fala conseqüente,
nesta hora, ele não está discriminando quem é
adulto de quem é criança. O pai está tomando a
fala da criança como se ela fosse adulta e pudesse
dizer isto para ele. O pai que vai embora, que
se afasta, não age como um pai que exerce sua
função paterna, que exerce sua autoridade. Na
verdade, o que ele deveria fazer nesta hora?

Ele deveria olhar o que está acontecendo, a que
a criança está assistindo ou com quem está se
relacionando, e se fosse algo ou alguém com quem
a criança não devesse estar tendo contato, ele
deveria afirmar: "Isso não é para você", e mandar
a criança desligar ou desligar ele mesmo o computador.
Essa situação, em que os pais tomam a fala da
criança como uma fala conseqüente é uma situação
equivocada. Porque o pai que, diante dessa frase,
vai embora, que acha que está mesmo invadindo
a privacidade da criança, não está cuidando do
desenvolvimento saudável da mesma, não está dando
as condições necessárias para o esse desenvolvimento.
É dever dele, enquanto pai, propiciar à criança
tais condições. Considerar a fala da criança ou
do adolescente dirigida ao adulto como a fala
de um igual, como se estivessem numa posição de
equivalência, é um grande equívoco.
NA - Existiria alguma
relação entre a possibilidade de assumir plenamente
suas funções e o grau de escolarização dos pais
ou responsáveis?
Por que os pais ou responsáveis que têm menos
escolaridade teriam mais dificuldade de exercer
a função parental? Eu não acho que seja assim.
Eu não acho que o exercício da função parental
tenha a ver com o nível de escolaridade...
NA - E com disponibilidade?
Com disponibilidade sim, mas aí estaríamos falando
das famílias de todos os segmentos sociais, em
que os pais, por alguma razão, e a maior parte
deles, homens e mulheres que estão no mercado
de trabalho, estão passando muitas horas fora
de casa. Eu acho que isto tem muito mais a ver
com a possibilidade de assumir a função parental,
do que com a questão da escolaridade.
Às vezes observamos famílias de segmentos sociais
menos privilegiados em que estas funções são muito
bem demarcadas, em que a mãe exerce a autoridade
com muito mais tranqüilidade e com muito menos
culpa do que, muitas vezes, a mãe de classe média,
que é informada, que tem alta escolaridade. E
também encontramos em segmentos menos privilegiados
as mães que não exercem com tanta facilidade,
com tanta clareza estas funções. Eu acho que as
funções precisam ser claras, elas precisam ser
bem demarcadas. A hierarquia na família não precisa
ser rígida, mas precisa ser muito clara. Acredito
que esta falta de clareza no estabelecimento da
hierarquia familiar é que tem provocado o maior
número de problemas para o desenvolvimento das
crianças e dos adolescentes.
NA - O que mais você gostaria de dizer que você
considera importante para aprofundar a reflexão
sobre o tema da família?
Gostaria ainda de acrescentar algo sobre os pais
e as famílias. Eu diria que o mais importante
é que possamos transmitir para os pais - no consultório,
na escola, nos meios de comunicação, na revista
Novamerica - a importância da função parental,
enfatizando a necessidade de eles exercerem sua
autoridade com firmeza, de exercerem a função
de pai e de mãe. Todavia, a função parental não
se limita ao exercício da autoridade, mas é também
a função de cuidar, é também a função de poder
ver os filhos, de poder promover e validar o crescimento
dos filhos. É preciso mostrar para os pais quão
importantes eles são.
Acho que se os pais se dessem completamente conta
da responsabilidade que eles têm enquanto modelos
identificatórios, da importância do papel que
têm no crescimento dos seus filhos, talvez eles,
talvez nós hesitaríamos em ter filhos de tão preocupados
que ficaríamos. Acredito, assim, que é importante
dizer para os pais que eles precisam tratar de
ser felizes para que seus filhos também possam
sê-lo.
Às vezes, eu recebo no consultório pais que se
lamentam, que são infelizes porque se sacrificam
pelos filho, mães que dizem: "Eu faço tudo, eu
morro pela minha filha". E eu preciso dizer: "Mas
sua filha não quer que a senhora morra por ela,
sua filha quer que a senhora viva e viva muito
bem, que a senhora seja feliz para que ela também
possa viver muito bem, e ser feliz sem culpa".
O primeiro passo para fazer um filho feliz é poder
ser feliz. O primeiro passo para formar filhos
saudáveis é poder promover uma dinâmica familiar
saudável, é poder se dar conta da realidade e
lidar com a realidade da maneira mais construtiva
possível.

Ajudar a família é, sobretudo, poder sensibilizar
os pais, os adultos que são os responsáveis pelo
crescimento dos membros da família, pela promoção
da saúde emocional na família. Se a escola
pudesse dizer para os pais, quando eles viessem
perguntar: "Como é que é o meu filho?" (porque
os pais perguntam, muitas vezes, isso para a escola)
e se a escola pudesse responder: "Nós observamos
o seu filho sim, mas seria muito importante que
o senhor e a senhora pudessem observar o seu filho;
seria importante que vocês pudessem, mesmo passando
oito, dez horas fora de casa, em algum momento,
vocês pudessem entrar em contato com as necessidades
do seu filho". A escola estaria prestando um grande
serviço à família, talvez muito maior do que se
fizesse um relatório pormenorizado de tudo aquilo
que os pais querem saber sobre os seus filhos.
É importante que os pais olhem para os filhos.
Podemos pensar a mesma questão na clínica. No
consultório trabalhamos com as dificuldades dos
pais. Mas é importante que este trabalho seja
feito para resgatar junto aos pais as funções
que eles têm que desempenhar em relação aos seus
filhos. Porque psicoterapia familiar não é
panacéia para todas as dificuldades que as famílias
enfrentam e nem um processo que vai durar a vida
toda. É importante que os pais não fiquem dependentes
dos psicoterapeutas, não fiquem dependentes dos
especialistas.
O psicoterapeuta de família deve trabalhar a função
parental junto aos pais de forma a reabilitá-los,
digamos assim, no exercício dessa função, ou seja,
validá-los como pais. Muitas vezes, os pais querem
entregar os filhos ao psicólogo e ir embora. E
eu digo: "Sem vocês eu não trato, eu não posso
tratar, não seria ético e nem daria os resultados
que estamos esperando". Tratar crianças e adolescentes
sem os pais pode, muitas vezes, ser um desserviço
que prestamos às famílias. Portanto, na maior
parte dos casos, devemos tratar as dificuldades
apresentadas pelos filhos com os pais. Devemos
tratar a família. Por mais que, como especialistas,
possamos cuidar da família, não poderemos jamais
substituí-la. Ninguém ocupa o lugar da família,
tenha ela a configuração que tiver. Ninguém ocupa
esse lugar. (NA)

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NA
- ¿Qué caracteriza, hoy, a una familia?
Hoy es posible caracterizar a una familia desde
el punto de vista jurídico y desde el punto
de vista psicológico.
Desde el punto de vista jurídico, la Constitución
de 1988 y el nuevo Código Civil de 2002 reconocen
como entidad familiar a la comunidad formada
por uno de los padres y sus dependientes. Al
igual que reconocen como familia la unión estable
entre los cónyuges. Este ya es un gran progreso
en relación a la Constitución anterior en la
que la familia era definida como familia legítima,
constituida por los padres y sus dependientes
a partir del casamiento.
Creo que fue un gran avance para la sociedad
y para la salud emocional de los miembros de
la familia el hecho de que la Constitución de
1988 reconociera que el grupo familiar hoy,
es plural y que, además de la familia nuclear
típica, o sea, el padre y la madre de un primer
casamiento con sus hijos, hay diferentes configuraciones
familiares.
Desde el punto de vista psicológico, podemos
decir que la familia es una unidad en la que
predominan sobre todo los lazos afectivos. En
la que predominan la intimidad, la convivencia,
la solidaridad, la reciprocidad y la afectividad.
En la mayoría de los grupos familiares se hace
presente, seguramente, la consanguinidad. Sin
embargo, hoy no se considera la consanguinidad
el elemento esencial para caracterizar a la
familia, tal como estaba definido en la Constitución
anterior.
Entonces, ¿qué es lo que tenemos hoy? Diferentes
configuraciones familiares: la típica tradicional
familia nuclear, las familias separadas, familias
de padres vueltos a casar, familias monoparentales,
familias adoptivas, familias homoparentales.
Aquí en Río de Janeiro ya hay, en la 1º Vara
de Familia, casos de adopciones por parte de
homosexuales, e incluso, familias homoparentales
constituidas a través de vías diferentes a la
adopción. Por lo tanto, hoy existe una gran
pluralidad de configuraciones familiares.
NA - Frente a esta
pluralidad de configuraciones familiares, ¿cuáles
fueron las cosas que cambiaron y cuáles no?
A pesar de todas estas diferentes configuraciones,
hoy puede observarse, a partir de la atención
a familias en la clínica y a través del desarrollo
de investigaciones sobre la dinámica familiar,
que todavía se hallan presentes, aun en los
nuevos grupos familiares, algunos valores tradicionales
coexistiendo con algunos valores modernos.
Puede decirse que en la familia contemporánea
se hacen presentes tanto los valores tradicionales
como los valores modernos. Puede parecer que
todo es demasiado moderno, pero cuando realizamos
investigaciones con los jóvenes, con las parejas,
con las familias, observamos cómo determinados
valores tradicionales todavía son importantes
y son aún preservados por la familia contemporánea.

NA - ¿Usted podría
dar ejemplos de algunos de esos valores?
En la contemporaneidad hay una ambivalencia
en relación al casamiento y a la familia. Por
ejemplo, al mismo tiempo en que la monogamia
y la fidelidad aparecen como valores importantes,
el narcisismo y el individualismo traspasan
las relaciones amorosas. Al mismo tiempo que
hay un apelo a lo nuevo y a lo que es descartable,
existe una valoración hacia el compromiso, hacia
el envolvimiento y el mantenimiento de las relaciones
y del casamiento.
En este momento estamos desarrollando una
investigación sobre el lugar del casamiento
en el proyecto de vida de los jóvenes solteros.
Y lo que queremos, de hecho, es evaluar la influencia
del casamiento de los padres en el proyecto
de casamiento de sus hijos.
Queremos conocer la percepción que los hijos
tuvieron del casamiento de sus padres, sin importar
la realidad, sino lo que ellos percibieron como
realidad. Más, queremos saber qué influencia
eso puede tener en el proyecto de casamiento
de los hijos. Qué lugar el casamiento ocupa
en el proyecto de vida de ellos. La investigación
todavía está en desarrollo. Tuvimos una primera
etapa en la que evaluamos la percepción del
casamiento de los padres por parte de los hijos
y ahora estamos en una segunda etapa, entrevistando
a algunos de esos hijos, o sea, a los que evaluaron
el casamiento de los padres como muy satisfactorio
y a los que lo evaluaron como muy insatisfactorio.
A los que consideraron el casamiento de los
padres más o menos satisfactorio no los estamos
entrevistando. Estamos oyendo los extremos para
ver si el hecho de que hayan percibido el casamiento
de los padres como muy satisfactorio o muy insatisfactorio
ejerce influencia en el proyecto de casamiento
de esos jóvenes.
Y lo que estamos constatando en estas entrevistas,
en términos de valores, es que la fidelidad
es muy valorada por los jóvenes y que, en algunos
casos, el casamiento institucionalizado también.
Al mismo tiempo en que se hacen presentes estos
valores tradicionales, se resaltan también como
valores muy importantes, valores modernos como,
por ejemplo, la igualdad entre los sexos, la
mujer con los mismos derechos del hombre, el
hombre que asume un poco más algunas tareas
domésticas, aunque eso todavía sea responsabilidad
de las mujeres. En realidad, el hombre asume
esas tareas, pero digamos que desde una posición
de prestarle un servicio a las mujeres. Es a
esto a lo que llamo coexistencia de valores
tradicionales y valores modernos en la familia
contemporánea.
Y hay más. Es posible decir que esas nuevas
configuraciones familiares engendran también
nuevas relaciones que necesitan ser mucho más
flexibles, mucho más creativas. Porque imagínese
que un chico de una familia con padres vueltos
a casar, que tiene padres, madrastra, padrastro,
ocho abuelos, hermanos, medio hermanos, hermanos
por afinidad, tendrá que tener mucha más flexibilidad,
mucha más creatividad, y los padres y los otros
miembros de la familia también para lidiar con
toda esa complejidad. Esas nuevas configuraciones
familiares no son más problemáticas sino más
complejas. Y esa complejidad trae una consecuencia:
demanda una flexibilidad mayor, una creatividad
mayor.
NA - ¿Qué implicaciones trae para la formación
de los chicos y los jóvenes, el hecho de que
existan diferentes configuraciones familiares?
O sea, ¿de qué manera esto afecta su formación,
su desarrollo?
Yo diría que esas nuevas configuraciones familiares,
en sí, no son indicio de un problema, no son,
desde el punto de vista emocional, menos saludables
que la familia nuclear, que las configuraciones
más tradicionales de familia. No considero que
las nuevos grupos familiares puedan tener consecuencias
negativas para la formación de los chicos y
los jóvenes.
Lo importante en cualquier familia sea nuclear,
separada, de padres vueltos a casar, monoparental
o adoptiva, es que haya un clima que permita
el desarrollo de los hijos. La familia necesita
ser un lugar en donde los hijos puedan crecer
con seguridad, es decir, en donde puedan tener
en la figura de los adultos -de los padres o
de otros responsables- modelos de identificación
saludables. Es fundamental el modo cómo
los adultos desempeñan sus funciones frente
al chico, trátese de los padres biológicos o
no. Es, sobre todo, la función simbólica de
ser padre y madre la que importa para el desarrollo
del chico. Entonces, tener padres casados de
un primer matrimonio en una familia nuclear
no es garantía de salud emocional. Lo importante
es que los padres tengan madurez emocional y
asuman sus funciones.
El que haya más o menos promoción de salud emocional
en la familia va a depender sobre todo del desempeño
de los papeles de cada miembro del grupo familiar.
¿Y a qué se refiere esto? Se trata de que las
funciones familiares tengan una demarcación
clara, no rígida, pero clara. Que las funciones
del padre y de la madre puedan ser ejercidos
en familia, que los hijos puedan ser chicos
y jóvenes y que puedan crecer seguros porque
hay adultos en la familia que ejercen sus funciones
y asumen el lugar de autoridad.
Creo que la gran dificultad actual de la familia
es la crisis de autoridad. Hay también, en el
mundo actual, una crisis de valores que trae
consecuencias en la constitución de modelos
que los padres son para los hijos. O sea, hay
también una crisis de modelos. Tal vez hasta
podamos decir que eso se relaciona con la difusión
de la psicología y del psicoanálisis, con una
interpretación equivocada acerca de que no se
puede prohibir, no se puede reprimir. Y entonces
los padres comienzan a confundir autoridad con
autoritarismo. Y para no ser autoritarios dejan
de ser autoridad. Y los chicos y los adolescentes
necesitan de una autoridad. Los padres muchas
veces creen que para ser una familia democrática
tienen que ser una familia de iguales. Pero
una familia democrática no es una familia de
iguales, así como una sociedad democrática no
es una sociedad de iguales. La sociedad democrática
es jerárquica. La familia es la institución
jerárquica en la que los padres tienen deberes
y derechos que son distintos de los deberes
y derechos de los chicos y los jóvenes. Creo
que esta confusión entre autoridad y autoritarismo
creó una crisis de modelos y una crisis de valores
en la familia. Pero es muy importante que los
padres o responsables ejerzan esa autoridad
en el grupo familiar porque los hijos necesitan
de ella. Muchas veces recibo en el consultorio
familias en las que no es posible diferenciar
el subgrupo parental del subgrupo filial. Parecen
un grupo de adolescentes, son todos iguales,
padres e hijos. Esto también tiene que ver con
el tema de la valoración del ser joven. Y los
padres, un poco por buscar ese valor, se igualan
muchas veces a los hijos y dejan de ejercer
el papel de autoridad que es tan importante
para el desarrollo de los hijos.
NA - ¿Y cuando hay
otros miembros de la familia como abuelos, tíos...?
Háblenos un poco sobre su presencia en la familia.
Creo que el papel de los tíos, de los abuelos
y de otros como padrinos, madrinas, son papeles
muy importantes en términos de transmisión de
valores, en términos de intercambios afectivos.
Como dije, es importante que los papeles parentales
sean asumidos por los padres o por los responsables
en la familia pero en su ausencia, en algún
momento, por cualquier razón, el hijo mayor
puede asumir ese lugar de cuidado, de proveer
las necesidades materiales y afectivas de los
que todavía están creciendo. De esta forma,
la extensión de la familia, la incorporación
de los abuelos, de los tíos, de los primos,
de otros, es muy importante para el desarrollo
del chico. Además, la observación, el contacto
que el chico tiene con el modo como los adultos
tratan a los mayores, el modo como los padres
tratan a los abuelos, se va a constituir en
un modelo que el chico incorpora. Ya que
en el futuro sus padres serán abuelos y ellos
serán los adultos y tendrán a sus hijos. Esa
transmisión transgeneracional es muy importante
para la formación de los chicos y de os adolescentes.
La transmisión de los valores familiares, de
las creencias, de los rituales es un factor
relevante para la construcción de la historia
familiar y para la promoción de la salud emocional
en la familia.

NA - Sus reflexiones
me llevan a pensar en otro tema. Muchas veces
oímos observaciones relacionadas al hecho de
que la familia hoy no tendría el mismo peso,
el mismo significado que tuvo en el pasado para
la formación de los chicos y de los jóvenes,
ya que hoy ellos están más en contacto con el
mundo, con sus pares, con los medios, con la
sociedad de una manera general. Entonces, ¿la
familia perdió espacio, realmente, o no?
Creo que en cualquier cultura, en cualquier
sociedad la familia tendrá siempre un peso muy
grande para el desarrollo de los hijos, para
el desarrollo de los chicos y los adolescentes,
aun con ese panorama. Sin embargo, lo que sucede
hoy con la familia es que el hecho de que la
madre haya tenido que entrar al mercado de trabajo
y pasar el mismo número de horas que el padre
fuera de casa, marca una diferencia en relación
a las familias de anteriormente. Lo que no disminuye
la importancia de la familia, sino que acarrea
consecuencias en las relaciones familiares y
en el desarrollo de los chicos.
Lo que sucede es que los padres están denegando
la educación de sus hijos. Están entregando
a los chicos y están dejando de ejercer el papel
pedagógico, el papel de educadores que les cabe.
Los que pueden, le pagan lo necesario a los
especialistas y se los entregan. Los padres
de los segmentos menos privilegiados de la población
también pasan muchas horas fuera de casa y entregan
a sus hijos. En esos segmentos muchas veces
hay redes comunitarias que responden mejor a
esas necesidades de la familia. En la clase
media y media alta, lo que sucede es que la
educación formal, la escuela, se convirtió prácticamente
en un objeto de consumo.
Los padres entregan a sus hijos por un período
largo y esperan que la escuela desempeñe un
papel que es de ellos. A veces escucho de las
familias en el consultorio, o de mis alumnas
que trabajan en escuelas, que los padres quieren
que la escuela les hable sobre sus hijos.
Eso muchas veces quiere decir que los hijos
no son vistos por los padres, que los padres
no observan a sus hijos y no saben a su respecto.
En este contexto, los padres quieren que la
escuela haga eso por ellos, delegan en la escuela
la función que sería de ellos. Es como si dijeran:
"Ya que estoy pagando, que la escuela haga esto
por mí". Es a esto que llamaríamos denegación
de la función paterna y materna, de la función
parental. ¿Y entonces qué pasa? La escuela queda
sobrecargada, los profesores acaban con una
demanda imposible de atender. Hace poco tiempo
los medios transmitieron una noticia sobre la
enfermedad de los profesores. El reportaje resaltaba
que los profesores se estaban enfermando con
tanta demanda, estaban sobrecargados con las
innúmeras atribuciones y con la falta de autoridad.
Porque si los padres no tienen autoridad, el
profesor tampoco la tendrá. Existe una cierta
tiranía de los hijos en relación a los padres
y los padres, tal vez culpables por pasar el
día fuera de casa, se someten a esa tiranía
y eso se repite en la escuela. Los hijos esperan
que la profesora también se someta. Esto hace
que los profesores queden realmente desgastados
y sin autoridad.
En la clínica, por ejemplo, ¿qué ocurre cuando
los padres llegan con la intención de dejarme
a los hijos? Yo raramente veo a los chicos,
sobre todo cuando tienen menos de diez años.
Trabajo casi siempre con los padres, a veces
con toda la familia y solamente en raras ocasiones,
con el chico o el adolescente. ¿Y qué es o que
puedo hacer? ¿Qué puede hacer el psicólogo?
Tal vez lo más importante que se pueda hacer
es intentar entender, junto con los padres,
la relación existente entre los problemas que
el chico o el adolescente presentan y la interacción
familiar. Es mostrarle a los padres su responsabilidad
en el crecimiento del chico, no para culparlos,
sino para que rescaten el poder que ellos tienen.
Es mostrarle a los padres que son mucho más
poderosos que los psicólogos, que pueden realizar
muchas más cosas con sus hijos. Y que es
a partir de ellos, y con ellos, que nosotros,
los psicólogos, vamos a poder transformar esa
dificultad, esa realidad del hijo que, la mayor
parte de las veces, tiene que ver con la dinámica
de la familia. De nada sirve tratar a un chico,
a un adolescente si no se trata a los padres,
a la familia. Creo que los especialistas, trátese
de psicólogos, psiquiatras, pedagogos o fonoaudiólogos,
al mismo tiempo que deben acoger la dificultad,
acoger el dolor y la demanda de aquellos que
buscan su ayuda profesional, deben trabajar
esa demanda haciendo resurgir en los padres
el tema de la responsabilidad que tienen sobre
sus hijos y del poder que tienen en tanto padres.
Los especialistas deben rescatar con ellos ese
poder porque los padres están muy impotentes.
Los padres tienen dificultades para poner límites,
dificultades para ejercer su autoridad, por
eso acaban buscando la ayuda de especialistas.
Creo que es necesario trabajar la necesidad
de una norma. Es como si hubiera una cierta
anomia, una cierta confusión, un cierto desorden
familiar que necesita ser confrontado y trabajado.
Existe una necesidad de poner normas, de poner
límites, de que los padres organicen con los
hijos esa confusión en que se encuentra, muchas
veces, la familia.
NA - A veces se les
oye decir a los padres: "yo no consigo decirle
no a mis hijos". Hable un poco más sobre esto.
Esa dificultad de los padres talvez esté relacionada,
también, al hecho de estar muy ausentes de casa
y sentirse culpables. Es importante que los
padres trabajen esa culpa y se ausenten de una
forma menos onerosa para ellos mismos, para
que eso no repercuta negativamente en su relación
con los hijos. Porque si los hijos se dan cuenta
de que los padres se sienten culpables y fragilizados,
hay una tendencia natural a que, desde muy chicos,
intenten obtener beneficios de esta situación.
Entonces la tiranía de los hijos muchas veces
se da a causa de la percepción que ellos tienen
de la fragilidad de los padres. Es necesario
fortalecer a los padres, si ellos buscan ayuda
psicológica, si buscan la escuela. También es
necesario que la escuela les devuelva a esos
padres la autoridad que es de ellos. La escuela
necesita hacerles ver que tienen un papel y
que ella no puede remeplazarlos. Tampoco nosotros
los psicólogos podemos hacer eso.

NA - ¿Y esto independientemente
de la clase social?
Sí, independientemente de la clase social. Sin
embargo, creo que en las clases sociales
menos privilegiadas las familias cuentan más
con el apoyo de redes comunitarias. Son familias
que se ayudan mutuamente, son asociaciones que
ofrecen determinados servicios de la propia
comunidad. Creo que ellos tienen más estos
recursos de las redes populares que las clases
medias y media alta, en donde las familias son
mucho más autorreferidas y están más aisladas.
NA - ¿Usted podría
hablar un poco más sobre la relación entre educación
y familia y medios y familia?
Creo que esto que las familias hacen de transferir
sus funciones a la escuela, también lo están
haciendo con los medios de comunicación, sobre
todo con la televisión y la computadora. Los
hijos se quedan horas en internet, con los jueguitos
electrónicos, se quedan horas frente a la televisión.
Y este exceso de información, esa no discriminación
de qué información y para quién, en la familia,
puede, de hecho, perjudicar el desarrollo de
los chicos y de los adolescentes. Las familias
deberían estar más atentas y ser más cuidadosas
en relación a esa situación.
Al mismo tiempo, existe la posibilidad de que
los medios contribuyan, informen, pero en exceso
eso puede traerles prejuicios a los chicos y
a los adolescentes. Yo resaltaría, en este momento,
la importancia de la autoridad de los padres.
Pero, como ya vimos, ellos tienen dificultades
para ejercer esa autoridad, para decir no, para
poner horarios, para poner límites para los
jueguitos electrónicos, para la televisión,
para la computadora. Por otro lado, los padres
también "entregan" a sus hijos a los medios
de comunicación, en la medida en que dejan que
se queden muchas horas frente a la televisión
o frente a la computadora, como si fuese un
premio de consuelo por las prolongadas ausencias.
Sin embargo, sería importante que se dieran
cuenta del prejuicio que eso le puede traer
al desarrollo de sus hijos.
NA - Hoy mismo participé
de una discusión sobre chicos o adolescentes
que no permiten que sus padres o responsables
vean lo que hacen cuando están navegando con
la computadora. Frente al intento del adulto,
ellos dicen: "no invadas mi privacidad, este
es mi espacio". ¿Qué diría usted al respecto?
Cuando un chico le dice esas cosas al padre
(o a la madre), "no invadas mi privacidad",
y el padre toma esa afirmación como un discurso
consecuente, él no discrimina quién es adulto
y quién es chico. El padre toma las palabras
del chico como si este fuese un adulto y pudiera
decirle eso. El padre que se va, que se aleja,
no actúa como un padre que ejerce su función
paterna, que ejerce su autoridad. En realidad,
¿qué es lo que él debería hacer en ese momento?
Debería mirar lo que está pasando, lo que el
chico está viendo o con quién está relacionándose
y si se estuviera relacionando con algo o alguien
indebido, el padre tendría que decirle: "Esto
no es para ti", y mandar al chico a que apague
la computadora o apagarla él mismo.
Esta situación en que los padres toman las palabras
del chico como un discurso consecuente es una
situación equivocada. El padre que frente a
esas palabras se va porque cree realmente que
está invadiendo la privacidad del chico, no
está cuidando del desarrollo saludable del mismo,
no le está dando las condiciones necesarias
para ese desarrollo. Es su deber como padre
propiciarle al chico esas condiciones. Considerar
la falta del chico o del adolescente dirigida
al adulto como un discurso de un igual, como
si estuviesen en una posición de equivalencia,
es un gran equívoco.
NA - ¿Existe alguna relación entre la posibilidad
de asumir plenamente sus funciones y el grado
de escolarización de los padres o responsables?
¿Por qué los padres o responsables con menos
escolaridad tendrían más dificultades para ejercer
la función parental? No me parece que sea así.
No creo que el ejercicio de la función parental
tenga que ver con el nivel de escolaridad...
NA - ¿Y con la disponibilidad?
Con disponibilidad sí, pero entonces estaríamos
hablando de las familias de todos los segmentos
sociales en las que los padres, por alguna razón
-y la mayor parte de ellos, hombres y mujeres
que están en el mercado de trabajo- pasan muchas
horas fuera de casa. Creo que esto tiene que
ver más con la posibilidad de asumir la función
parental, que con el tema de la escolaridad.
A veces observamos familias de segmentos sociales
menos privilegiados en que estas funciones están
muy bien demarcadas, en las que la madre ejerce
la autoridad con mucha más tranquilidad y con
mucha menos culpa que la madre de clase media
que es informada, que tiene alta escolaridad.
Y también encontramos en segmentos menos privilegiados
madres que no ejercen con tanta facilidad, con
tanta claridad, estas funciones. Creo que las
funciones tienen que ser claras y estar bien
demarcadas. La jerarquía en la familia no necesita
ser rígida, pero tiene que ser muy clara. Creo
que la falta de claridad en el establecimiento
de la jerarquía familiar es lo que ha venido
provocando un gran número de problemas para
el desarrollo de los chicos y los adolescentes.
NA - ¿Qué más le gustaría
decir que considere importante para profundizar
la reflexión sobre el tema de la familia?
Me gustaría agregar algo sobre los padres y
la familia. Yo diría que lo más importante es
que podamos transmitirles a los padres -en el
consultorio, en la escuela, en los medios de
comunicación, en la revista Novamerica- la importancia
de la función parental y enfatizar la necesidad
de que ellos ejerzan su autoridad con firmeza,
de ejercer la función de padre y madre. No obstante,
la función parental no se limita al ejercicio
de la autoridad, sino también a la función de
cuidar y también a la función de poder ver a
los hijos, de poder promover y validar el crecimiento
de los hijos. Es necesario mostrarles a los
padres cuán importantes son.

Creo que si los padres se diesen completamente
cuenta de la responsabilidad que tienen en tanto
modelos identificatorios, de la importancia
del papel que tienen en el crecimiento de sus
hijos, tal vez pensarían mejor el tener hijos,
de tan preocupados que quedarían. Creo que es
importante decirles a los padres que tienen
que tratar de ser felices para que sus hijos
también puedan serlo.
A veces recibo en el consultorio padres que
se lamentan, que son infelices porque se sacrifican
por los hijos, madres que dicen: "Yo haría todo,
moriría por mi hija". Y yo tengo que decirle:
"Pero su hija no quiere que usted muera por
ella, su hija quiere que usted viva y que viva
muy bien, que sea feliz para que también ella
pueda vivir bien y ser feliz sin culpa". El
primer paso para hacer a un hijo feliz es poder
ser feliz. El primer paso para formar hijos
saludables es poder promover una dinámica familiar
saludable, es poder darse cuenta de la realidad
y lidiar con ella de la manera más constructiva
posible.
Ayudar a la familia es, sobre todo, poder
sensibilizar a los padres, a los adultos que
son los responsables por el crecimiento de los
miembros de la familia, por la promoción de
la salud emocional en la familia. Si la
escuela pudiese decirles a los padres, cada
vez que viniesen a preguntar: "¿Cómo es mi hijo?"
(porque los padres preguntan muchas veces eso
en la escuela), si la escuela pudiera responderles:
"Nosotros observamos a su hijo, sí, pero sería
muy importante que ustedes observaran a su hijos,
sería importante que ustedes pudiesen, aun pasando
ocho, diez horas fuera de casa, en algún momento,
entrar en contacto con las necesidades de su
hijo", la escuela le estaría prestando un gran
servicio a la familia, tal vez mucho más que
si hiciera un informe pormenorizando todo lo
que los padres quieren saber sobre sus hijos.
Es importante que los padres miren a los
hijos. Podemos pensar este mismo asunto en la
clínica. En el consultorio trabajamos con las
dificultades de los padres. Pero es importante
que este trabajo se haga para rescatar junto
a los padres las funciones que ellos tienen
que desempeñar en relación a sus hijos. Porque
la psicoterapia familiar no es una panacea para
todas las dificultades que las familias enfrentan
y ni un proceso que va a durar la vida entera.
Es importante que los padres no dependan de
los psicoterapeutas, que no dependan de los
especialistas.
El psicoterapeuta de familia debe trabajar la
función parental junto con los padres para rehabilitarlos
en el ejercicio de esa función, o sea, para
validarlos como padres. Muchas veces los padres
quieren entregarle sus hijos al psicólogo e
irse. Yo les digo: "Sin ustedes yo no los trato,
no puedo hacerlo, no sería ético y no daría
los resultados esperados". Tratar chicos y adolescentes
sin los padres puede, muchas veces, ser un servicio
contraproducente que les prestamos a las familias.
Por lo tanto, la mayor parte de las veces, debemos
tratar las dificultades que presentan los hijos
junto con los padres. Debemos tratar a la familia.
Aunque como especialistas podamos cuidar de
la familia, nunca podremos reemplazarla. Nadie
ocupa el lugar de la familia, tenga esta la
configuración que tenga. Nadie ocupa ese lugar.
(NA)
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