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a Revista de la Pátria Grande


ENTREVISTA / ENTREVISTA

FAMÍLIA: NINGUÉM OCUPA ESSE LUGAR
FAMILIA: NADIE OCUPA ESE LUGAR


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Terezinha Féres-Carneiro

Brasileira, Psicóloga, Doutora em Psicologia Clínica pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, com Pós-doutorado em Psicoterapia de Família e Casal pela Universidade de Paris V, Sorbonne. Professora Titular e Coordenadora de Pós-graduação e Pesquisa do Departamento de Psicologia da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro, tem 33 anos de experiência em ensino e pesquisa na área de família e no trabalho clínico como psicoterapeuta de família e casal.

É consultora de diversas instituições governamentais, dentre elas o Ministério da Educação e o Ministério de Ciência e Tecnologia. Publicou cerca de uma centena de trabalhos científicos, entre livros, capítulos e artigos. Construiu um método clínico de avaliação das relações familiares - a Entrevista Familiar Estruturada - e recentemente, organizou os livros Família e Casal - arranjos e demandas contemporâneas, publicado em parceria pelas Editoras Loyola e PUC-Rio; e Família e Casal - efeitos da contemporaneidade, uma publicação da Editora PUC-Rio.

Brasileña, Psicóloga, Doctora en Psicología Clínica por la Pontificia Universidad Católica de San Pablo. Realizó un Post-doctorado en Psicoterapia de Familia y Parejas en la Universidad de Paris V, Sorbonne. Profesora Titular y Coordinadora del postgrado e Investigación del Departamento de Psicología de la Pontificia Universidad Católica de Río de Janeiro. Tiene 33 años de experiencia en enseñanza e investigación en el área de familia y en el trabajo clínico, como psicoterapeuta de familia y parejas.

Es consultora de diversas instituciones gubernamentales, entre las que se encuentran el Ministerio de Educación y el Ministerio de Ciencia y Tecnología. Publicó cerca de una centena de trabajos científicos entre libros, capítulos y artículos. Construyó un método clínico de evaluación de las relaciones familiares -la Entrevista Familiar Estructurada- y recientemente organizó los libros
Família e Casal - arranjos e demandas contemporâneas, publicado conjuntamente por las editoras Loyola y PUC-Río; y Família e Casal - efeitos da contemporaneidade, publicación de la editora PUC-Río.



Foto João Ripper

NA - O que caracterizaria uma família, hoje?


Podemos pensar na caracterização da família hoje do ponto de vista jurídico e do ponto de vista psicológico.

Do ponto de vista jurídico, a Constituição de 1988 e o Novo Código Civil de 2002 reconhecem como entidade familiar a comunidade formada por qualquer dos pais e seus dependentes. Assim como reconhecem como família a união estável estabelecida entre os cônjuges. Isto já é um grande progresso em relação à Constituição anterior onde família era definida como família legítima, constituída a partir do casamento pelos pais e seus dependentes.

Acho que já foi um grande ganho para a sociedade e para a saúde emocional dos membros da família, o fato de a Constituição de 1988 reconhecer que o grupo familiar, hoje, é plural e que, além da família nuclear típica, ou seja, o pai e a mãe de um primeiro casamento com seus filhos, temos diferentes configurações familiares.

Do ponto de vista psicológico, podemos dizer que família é uma unidade onde predominam sobretudo os laços afetivos. Onde predominam a intimidade, a convivência, a solidariedade, a reciprocidade e a afetividade. Na maioria dos grupos familiares, com certeza, a consangüinidade está presente. Contudo, hoje, não se considera a consangüinidade o elemento essencial para caracterizar a família, tal como estava definido na Constituição anterior.

Então, o que é que temos hoje? Diferentes configurações familiares: a típica tradicional família nuclear, as famílias separadas, famílias recasadas, famílias monoparentais, famílias adotivas, famílias homoparentais. Já temos, aqui no Rio de Janeiro, na 1ª. Vara de Família, casos de adoções por homossexuais, e mesmo famílias homoparentais constituídas de outras formas que não pela via da adoção. Temos, portanto, hoje, uma pluralidade de configurações familiares.

NA - Diante dessa pluralidade de configurações familiares, o que mudou e o que não mudou?


Apesar de todas estas diferentes configurações, observamos hoje, atendendo as famílias na clínica e desenvolvendo pesquisas sobre a dinâmica familiar, que ainda estão presentes, mesmo nos novos arranjos familiares, alguns valores tradicionais e que eles coexistem com alguns valores modernos.

Podemos dizer que na família contemporânea temos a presença tanto dos valores tradicionais como dos valores modernos. Pode parecer que tudo está moderno demais, mas quando realizamos pesquisas com os jovens, com os casais, com as famílias, observamos como determinados valores tradicionais ainda são importantes e ainda são preservados na família contemporânea.

NA - Você poderia dar exemplos de alguns desses valores?

Na contemporaneidade, há uma ambivalência em relação ao casamento e à família. Ao mesmo tempo, por exemplo, em que a monogamia e a fidelidade aparecem como valores importantes, o narcisismo e o individualismo permeiam as relações amorosas. Ao mesmo tempo em que há um apelo ao novo e ao que é descartável, há uma valorização do compromisso, do engajamento e da manutenção das relações e do casamento.

No momento, estamos desenvolvendo uma pesquisa sobre o lugar do casamento no projeto de vida dos jovens solteiros. E o que estamos querendo, de fato, é avaliar a influência do casamento dos pais no projeto de casamento dos filhos.

Queremos conhecer a percepção que os filhos tiveram do casamento dos seus pais, não importando a realidade, e sim o que eles perceberam como realidade. E mais, queremos saber que influência isso pode ter no projeto de casamento dos filhos. Que lugar o casamento ocupa no projeto de vida deles? A pesquisa ainda está em andamento. Tivemos uma primeira etapa, onde avaliamos a percepção do casamento dos pais pelos filhos e agora estamos numa segunda etapa, entrevistando alguns desses filhos, ou seja, os que avaliaram o casamento dos pais como muito satisfatório e os que avaliaram como muito insatisfatório. Aqueles que acharam o casamento dos pais mais ou menos satisfatório não estamos entrevistando. Estamos ouvindo os extremos, para ver se o fato de terem percebido o casamento dos pais como muito satisfatório ou muito insatisfatório influencia o projeto de casamento desses jovens.

E o que estamos constatando nestas entrevistas, em termos dos valores, é que a fidelidade é muito valorizada pelos jovens, e que, em alguns casos, o casamento institucionalizado também. Ao mesmo tempo em que estão presentes estes valores tradicionais, são ressaltados também, como muito importantes, valores modernos, como por exemplo, a igualdade entre os sexos, a mulher tendo os mesmos direitos do homem, o homem já assumindo um pouco mais algumas tarefas domésticas, embora isso ainda seja responsabilidade das mulheres. Na verdade, o homem assume essas tarefas, mas numa posição de estar prestando um serviço, digamos assim, às mulheres. É a isto o que estou chamando da coexistência de valores tradicionais e valores modernos na família contemporânea.

Ainda uma questão. Podemos dizer que essas novas configurações familiares engendram também novas relações que precisam ser muito mais flexíveis, muito mais criativas. Porque você imagina um menino de uma família recasada, que tem pais, madrasta, padrasto, oito avós, irmãos, meio-irmãos, irmãos por afinidade, ele deverá ter muito mais flexibilidade, muito mais criatividade, e os pais e os outros membros da família também para lidar com toda essa complexidade. Essas novas configurações familiares não são mais problemáticas, elas são mais complexas. E essa complexidade traz uma conseqüência, ela demanda uma flexibilidade maior, uma criatividade maior.

NA - Quais as implicações para a formação das crianças e dos jovens o fato de existir diferentes configurações familiares? Quer dizer, como é que isto afeta a formação, o desenvolvimento da criança e do jovem?

Eu diria que essas novas configurações familiares, em si, não sinalizam um problema, não são menos saudáveis do ponto de vista emocional do que, por exemplo, a família nuclear, do que as configurações mais tradicionais de família. Não considero que os novos arranjos familiares possam ter conseqüências negativas para a formação da criança e do jovem.

Foto João Ripper

O importante, em qualquer família, seja ela nuclear, separada, recasada, monoparental ou adotiva, é que haja um clima que permita o desenvolvimento dos filhos. A família precisa ser um lugar onde os filhos possam crescer em segurança, ou seja, onde eles possam ter na figura dos adultos - dos pais ou de outros responsáveis - modelos de identificação saudáveis. É fundamental o modo como os adultos desempenham as suas funções parentais frente à criança, sejam eles pais biológicos ou não. É a função simbólica de ser pai e ser mãe que é, sobretudo, importante para o desenvolvimento da criança. Então, ter pais casados de um primeiro casamento numa família nuclear não é garantia de saúde emocional. O importante é que os pais possam ter maturidade emocional e possam assumir as funções parentais.

Mais ou menos promoção de saúde emocional na família vai depender sobretudo do desempenho dos papéis de cada membro no grupo familiar. E o que é isto? Trata-se de as funções familiares poderem ter uma demarcação clara, não rígida, mas clara. Que as funções de pai e de mãe possam ser exercidas na família, que os filhos possam ser crianças e jovens, e crescerem seguros porque há adultos na família exercendo suas funções, sobretudo assumindo o lugar de autoridade.

Eu acredito que a grande dificuldade atual da família é a crise de autoridade. Temos também, no mundo atual, uma crise de valores que produz uma conseqüência na constituição dos modelos que os pais são para os filhos. Ou seja, temos também uma crise de modelos. Talvez até pudéssemos dizer que isso tem alguma relação com a difusão da psicologia e da psicanálise, digamos assim, com uma interpretação equivocada de que não se pode proibir, não se pode reprimir. E, então, os pais começaram a confundir autoridade com autoritarismo. E para não serem autoritários, eles foram deixando de ser autoridade. E as crianças e os adolescentes precisam de autoridade. Os pais, muitas vezes, acham que, para ser uma família democrática, eles precisam ser uma família de iguais. Mas família democrática não é família de iguais, como sociedade democrática não é sociedade de iguais. A sociedade democrática é hierarquizada. A família é uma instituição hierarquizada, onde os pais têm deveres e direitos que são distintos dos deveres e direitos das crianças e dos jovens. Creio que essa confusão entre autoridade e autoritarismo criou uma crise de modelos e uma crise de valores na família. Todavia, é muito importante que os pais ou responsáveis exerçam essa autoridade no grupo familiar porque os filhos necessitam dela. Muitas vezes, recebo no consultório famílias onde não é possível discriminar o subgrupo parental do subgrupo filial. Eles parecem um grupo de adolescentes, são todos iguais, os pais e os filhos. Isso também tem a ver com a questão da valorização do ser jovem. E os pais, um pouco buscando esse valor, se igualam, muitas vezes, aos filhos e deixam de exercer o papel de autoridade, que é tão importante para o desenvolvimento dos filhos.

NA - E quando há outros membros da família como os avós, os tios ... fale um pouco sobre a presença deles na família?


Acredito que o papel dos tios, dos avós e de outros agregados, como os padrinhos, as madrinhas, são papéis muito importantes em termos da transmissão dos valores, em termo das trocas afetivas. Como acabei de dizer, é importante que os papéis parentais possam ser assumidos pelos pais ou pelos responsáveis na família, mas na ausência deles, em algum momento, por qualquer razão, um filho mais velho pode assumir esse lugar de autoridade. Um avô, um tio, uma tia, a madrinha podem assumir esse lugar de cuidado, de prover as necessidades materiais e afetivas dos que ainda estão crescendo. Assim, a extensão da família, a incorporação dos avós, dos tios, dos primos, dos agregados, é muito importante para o desenvolvimento da criança. Além disso, a observação, o contato que a criança tem com o modo como os adultos tratam os idosos, como os pais tratam os avós, vai constituir-se num modelo, digamos assim, que a criança incorpora. Pois, no futuro, os seus pais serão os avós e elas serão os adultos e terão os seus filhos. Essa transmissão transgeracional é muito importante na formação das crianças e dos adolescentes. A transmissão dos valores familiares, das crenças, dos rituais é um fator relevante na construção da história familiar e na promoção da saúde emocional na família.

NA - Suas reflexões me levaram a pensar em uma outra questão. Muitas vezes, ouvimos observações relacionadas ao fato de que a família hoje não teria o mesmo peso, o mesmo significado que teve no passado para a formação da criança e dos jovens, uma vez que eles estão mais em contato, hoje do que no passado, com o mundo, isto é, com os seus pares, com a mídia, a sociedade de uma maneira geral. E então, a família perdeu mesmo espaço, ou não?

Eu acho que em qualquer cultura, em qualquer sociedade a família terá sempre um peso muito grande no desenvolvimento dos filhos, no desenvolvimento das crianças e dos adolescentes. Mesmo com esse cenário. Entretanto, o que está acontecendo com a família hoje é que o fato de a mãe ter ido para o mercado de trabalho, e de passar o mesmo número de horas fora da casa que o pai, faz uma diferença em relação à família do passado. O que não diminui a importância da família, mas traz conseqüências, digamos assim, para as relações familiares e para o desenvolvimento das crianças.

O que está acontecendo é que os pais estão terceirizando a educação, a educação dos seus filhos. Eles estão entregando as crianças, e estão deixando de exercer o papel pedagógico, o papel de educadores que lhes cabe. Os que podem, pagam o que tiver que pagar para os especialistas, e entregam os filhos. Os pais dos segmentos menos privilegiados da população também passam muitas horas fora de casa e entregam seus filhos. Nesses segmentos, muitas vezes, há redes comunitárias que respondem melhor a essas necessidades da família. Nas classes média e média-alta, o que está acontecendo é que a educação formal, a escola ficou quase como mais um objeto de consumo.

Foto João Ripper

Os pais entregam as crianças, muitas vezes, por conta dessa ausência de ambos da casa, por um período longo, e esperam que a escola desempenhe um papel que é deles. Às vezes, escuto das famílias no consultório, ou das minhas alunas que trabalham em escolas, que os pais querem que a escola fale, para eles, sobre seus filhos. Isso, muitas vezes, quer dizer que os filhos não estão sendo vistos pelos pais, que os pais não observam seus filhos, não sabem a respeito deles. Neste cenário, os pais querem que a escola faça isso por eles, delegam à escola a função que seria deles. É como se eles dissessem: "Já que estou pagando, é a escola que tem que fazer isto por mim". É a isto que poderíamos chamar de terceirização da função paterna e materna, da função parental.

E aí o que é que acontece? A escola fica sobrecarregada, os professores ficam com uma demanda impossível de ser atendida. Há pouco tempo, foi veiculada na mídia uma matéria sobre o adoecimento dos professores. A reportagem ressaltava que os professores estavam adoecendo com tanta demanda, estavam sobrecarregados com as inúmeras atribuições e com a falta de autoridade. Porque se os pais não têm autoridade, o professor também não terá autoridade. Existe uma certa tirania dos filhos em relação aos pais, e os pais, talvez porque culpados, por passarem o dia fora de casa, se submetem a essa tirania e isso se repete na escola. Os filhos esperam que a professora também se submeta, isto faz com que os professores fiquem realmente desgastados e sem autoridade.

Na clínica, por exemplo, o que ocorre quando os pais chegam querendo me entregar os filhos? Eu raramente vejo as crianças, sobretudo quando elas têm abaixo de dez anos. Trabalho quase sempre com os pais, às vezes com a família toda e, só em situações muito raras, com a criança ou com o adolescente sozinho. E nesse trabalho, o que eu posso fazer? O que o psicólogo pode fazer? Talvez o mais importante a ser feito é tentar entender, junto com os pais, a relação existente entre os problemas que a criança, ou o adolescente, está apresentando e a interação familiar. É mostrar para os pais a responsabilidade deles no crescimento da criança, não para culpabilizá-los, mas para resgatar o poder que eles têm. É mostrar para os pais que eles são muito mais poderosos que os psicólogos, que eles podem realizar muito mais coisas com seus filhos. E que é a partir deles, e com eles, que nós, os psicólogos, vamos poder transformar essa dificuldade, essa realidade do filho que, na maior parte das vezes, tem tudo a ver com a dinâmica da família. Não adianta tratar uma criança, tratar um adolescente se não tratarmos os pais, não tratarmos a família. Acredito que os especialistas, sejam eles psicólogos, psiquiatras, pedagogos ou fonoaudiólogos, ao mesmo tempo em que devem acolher a dificuldade, acolher a dor e a demanda daqueles que buscam sua ajuda profissional, devem trabalhar essa demanda, fazendo ressurgir nos pais a questão da responsabilidade que eles têm sobre seus filhos e do poder que têm enquanto pais. Os especialistas devem resgatar com eles esse poder, porque os pais estão muito impotentes.

Eles têm dificuldade de colocar limites, dificuldade de exercer a autoridade, por isso, eles acabam buscando a ajuda dos especialistas. Penso que é preciso trabalhar a necessidade de normatização. É como se houvesse uma certa anomia, uma certa confusão, uma certa desordem familiar que precisa ser confrontada e trabalhada. Existe uma necessidade de serem colocadas normas, de serem colocados limites, de que os pais possam organizar com os filhos essa confusão em que se encontra, muitas vezes, a família.

NA - Escutamos várias famílias afirmarem: "eu não consigo dizer não para os meus filhos". Fale um pouco mais sobre isso?

Essa dificuldade dos pais talvez esteja também relacionada ao fato de estarem muito ausentes da casa e se sentirem culpados. É importante que os pais possam trabalhar essa culpa e possam se ausentar de uma maneira menos onerosa para eles, para que isso não repercuta negativamente nas suas relações com os filhos. Porque se os filhos percebem que os pais estão culpados e estão fragilizados, é uma tendência natural, desde muito pequenos, tentar obter ganhos desta situação. Então a tirania dos filhos, digamos assim, muitas vezes, ocorre por conta da percepção que eles têm da fragilidade dos pais. É preciso fortalecer os pais, se eles buscam um atendimento psicológico, se buscam a escola. É preciso que também a escola devolva a esses pais a autoridade que é deles. É preciso que a escola faça os pais verem que eles têm um papel e que a escola não pode substituí-los. Tampouco nós, os psicólogos, podemos fazê-lo.

NA - E isso, independentemente da classe social?

Sim, independentemente da classe social. Entretanto, eu creio que, nas classes sociais menos privilegiadas, as famílias contam mais com o apoio de redes na comunidade. São famílias que se ajudam mutuamente, são associações que oferecem determinados serviços da própria comunidade. Acredito que eles têm mais estes recursos das redes populares do que nas classes média e média alta, onde as famílias são muito auto-referidas, e estão muito isoladas.

NA - Você poderia falar mais um pouco sobre a questão da relação entre educação e família e entre mídia e família?

Eu acho que isto que as famílias fazem transferindo as funções que são suas para a escola, elas também estão fazendo com a mídia, com os meios de comunicação, sobretudo com a televisão e o computador. Os filhos ficam na internet horas, ficam nos joguinhos eletrônicos, ficam horas diante da televisão. E esse excesso de informação, essa não discriminação de que informação para quem, na família, isso de fato pode prejudicar o desenvolvimento da criança e do adolescente. As famílias deveriam estar mais atentas e mais cuidadosas em relação a essa situação.

Ao mesmo tempo, existe a possibilidade de a mídia contribuir, informar, mas em excesso isso pode trazer prejuízos para as crianças e os adolescentes. É nesse momento que eu ressaltaria a importância da autoridade dos pais. Mas, como já vimos, eles estão tento dificuldade para exercer essa autoridade, para dizer não, para colocar horários, colocar limites para os jogos eletrônicos, para a televisão, para o computador. Por outro lado, os pais também estão "entregando" seus filhos à mídia, na medida em que eles deixam as crianças e os adolescentes ficarem muitas horas diante da televisão ou do computador, como se fosse um prêmio de consolação, por conta de suas ausências prolongadas. Seria importante, porém, que eles se dessem conta do prejuízo que isso pode trazer para o desenvolvimento dos filhos.

NA - Hoje mesmo eu participei de uma discussão sobre as crianças ou os adolescente que não permitem que seus pais ou responsáveis vejam o que estão fazendo quando estão navegando no computador. Diante da tentativa do adulto, eles chegam a dizer: "não invada a minha privacidade, esse é o meu espaço". O que você tem a dizer sobre isso?

Quando uma criança fala isso para o pai (ou para a mãe), "não invada a minha privacidade", e o pai toma essa afirmação como uma fala conseqüente, nesta hora, ele não está discriminando quem é adulto de quem é criança. O pai está tomando a fala da criança como se ela fosse adulta e pudesse dizer isto para ele. O pai que vai embora, que se afasta, não age como um pai que exerce sua função paterna, que exerce sua autoridade. Na verdade, o que ele deveria fazer nesta hora?

Foto João Ripper

Ele deveria olhar o que está acontecendo, a que a criança está assistindo ou com quem está se relacionando, e se fosse algo ou alguém com quem a criança não devesse estar tendo contato, ele deveria afirmar: "Isso não é para você", e mandar a criança desligar ou desligar ele mesmo o computador.

Essa situação, em que os pais tomam a fala da criança como uma fala conseqüente é uma situação equivocada. Porque o pai que, diante dessa frase, vai embora, que acha que está mesmo invadindo a privacidade da criança, não está cuidando do desenvolvimento saudável da mesma, não está dando as condições necessárias para o esse desenvolvimento. É dever dele, enquanto pai, propiciar à criança tais condições. Considerar a fala da criança ou do adolescente dirigida ao adulto como a fala de um igual, como se estivessem numa posição de equivalência, é um grande equívoco.

NA - Existiria alguma relação entre a possibilidade de assumir plenamente suas funções e o grau de escolarização dos pais ou responsáveis?

Por que os pais ou responsáveis que têm menos escolaridade teriam mais dificuldade de exercer a função parental? Eu não acho que seja assim. Eu não acho que o exercício da função parental tenha a ver com o nível de escolaridade...

NA - E com disponibilidade?

Com disponibilidade sim, mas aí estaríamos falando das famílias de todos os segmentos sociais, em que os pais, por alguma razão, e a maior parte deles, homens e mulheres que estão no mercado de trabalho, estão passando muitas horas fora de casa. Eu acho que isto tem muito mais a ver com a possibilidade de assumir a função parental, do que com a questão da escolaridade.

Às vezes observamos famílias de segmentos sociais menos privilegiados em que estas funções são muito bem demarcadas, em que a mãe exerce a autoridade com muito mais tranqüilidade e com muito menos culpa do que, muitas vezes, a mãe de classe média, que é informada, que tem alta escolaridade. E também encontramos em segmentos menos privilegiados as mães que não exercem com tanta facilidade, com tanta clareza estas funções. Eu acho que as funções precisam ser claras, elas precisam ser bem demarcadas. A hierarquia na família não precisa ser rígida, mas precisa ser muito clara. Acredito que esta falta de clareza no estabelecimento da hierarquia familiar é que tem provocado o maior número de problemas para o desenvolvimento das crianças e dos adolescentes.

NA - O que mais você gostaria de dizer que você considera importante para aprofundar a reflexão sobre o tema da família?


Gostaria ainda de acrescentar algo sobre os pais e as famílias. Eu diria que o mais importante é que possamos transmitir para os pais - no consultório, na escola, nos meios de comunicação, na revista Novamerica - a importância da função parental, enfatizando a necessidade de eles exercerem sua autoridade com firmeza, de exercerem a função de pai e de mãe. Todavia, a função parental não se limita ao exercício da autoridade, mas é também a função de cuidar, é também a função de poder ver os filhos, de poder promover e validar o crescimento dos filhos. É preciso mostrar para os pais quão importantes eles são.

Acho que se os pais se dessem completamente conta da responsabilidade que eles têm enquanto modelos identificatórios, da importância do papel que têm no crescimento dos seus filhos, talvez eles, talvez nós hesitaríamos em ter filhos de tão preocupados que ficaríamos. Acredito, assim, que é importante dizer para os pais que eles precisam tratar de ser felizes para que seus filhos também possam sê-lo.

Às vezes, eu recebo no consultório pais que se lamentam, que são infelizes porque se sacrificam pelos filho, mães que dizem: "Eu faço tudo, eu morro pela minha filha". E eu preciso dizer: "Mas sua filha não quer que a senhora morra por ela, sua filha quer que a senhora viva e viva muito bem, que a senhora seja feliz para que ela também possa viver muito bem, e ser feliz sem culpa". O primeiro passo para fazer um filho feliz é poder ser feliz. O primeiro passo para formar filhos saudáveis é poder promover uma dinâmica familiar saudável, é poder se dar conta da realidade e lidar com a realidade da maneira mais construtiva possível.

Foto João Ripper

Ajudar a família é, sobretudo, poder sensibilizar os pais, os adultos que são os responsáveis pelo crescimento dos membros da família, pela promoção da saúde emocional na família. Se a escola pudesse dizer para os pais, quando eles viessem perguntar: "Como é que é o meu filho?" (porque os pais perguntam, muitas vezes, isso para a escola) e se a escola pudesse responder: "Nós observamos o seu filho sim, mas seria muito importante que o senhor e a senhora pudessem observar o seu filho; seria importante que vocês pudessem, mesmo passando oito, dez horas fora de casa, em algum momento, vocês pudessem entrar em contato com as necessidades do seu filho". A escola estaria prestando um grande serviço à família, talvez muito maior do que se fizesse um relatório pormenorizado de tudo aquilo que os pais querem saber sobre os seus filhos. É importante que os pais olhem para os filhos. Podemos pensar a mesma questão na clínica. No consultório trabalhamos com as dificuldades dos pais. Mas é importante que este trabalho seja feito para resgatar junto aos pais as funções que eles têm que desempenhar em relação aos seus filhos. Porque psicoterapia familiar não é panacéia para todas as dificuldades que as famílias enfrentam e nem um processo que vai durar a vida toda. É importante que os pais não fiquem dependentes dos psicoterapeutas, não fiquem dependentes dos especialistas.

O psicoterapeuta de família deve trabalhar a função parental junto aos pais de forma a reabilitá-los, digamos assim, no exercício dessa função, ou seja, validá-los como pais. Muitas vezes, os pais querem entregar os filhos ao psicólogo e ir embora. E eu digo: "Sem vocês eu não trato, eu não posso tratar, não seria ético e nem daria os resultados que estamos esperando". Tratar crianças e adolescentes sem os pais pode, muitas vezes, ser um desserviço que prestamos às famílias. Portanto, na maior parte dos casos, devemos tratar as dificuldades apresentadas pelos filhos com os pais. Devemos tratar a família. Por mais que, como especialistas, possamos cuidar da família, não poderemos jamais substituí-la. Ninguém ocupa o lugar da família, tenha ela a configuração que tiver. Ninguém ocupa esse lugar. (NA)


Foto João Ripper

NA - ¿Qué caracteriza, hoy, a una familia?

Hoy es posible caracterizar a una familia desde el punto de vista jurídico y desde el punto de vista psicológico.

Desde el punto de vista jurídico, la Constitución de 1988 y el nuevo Código Civil de 2002 reconocen como entidad familiar a la comunidad formada por uno de los padres y sus dependientes. Al igual que reconocen como familia la unión estable entre los cónyuges. Este ya es un gran progreso en relación a la Constitución anterior en la que la familia era definida como familia legítima, constituida por los padres y sus dependientes a partir del casamiento.

Creo que fue un gran avance para la sociedad y para la salud emocional de los miembros de la familia el hecho de que la Constitución de 1988 reconociera que el grupo familiar hoy, es plural y que, además de la familia nuclear típica, o sea, el padre y la madre de un primer casamiento con sus hijos, hay diferentes configuraciones familiares.

Desde el punto de vista psicológico, podemos decir que la familia es una unidad en la que predominan sobre todo los lazos afectivos. En la que predominan la intimidad, la convivencia, la solidaridad, la reciprocidad y la afectividad. En la mayoría de los grupos familiares se hace presente, seguramente, la consanguinidad. Sin embargo, hoy no se considera la consanguinidad el elemento esencial para caracterizar a la familia, tal como estaba definido en la Constitución anterior.

Entonces, ¿qué es lo que tenemos hoy? Diferentes configuraciones familiares: la típica tradicional familia nuclear, las familias separadas, familias de padres vueltos a casar, familias monoparentales, familias adoptivas, familias homoparentales. Aquí en Río de Janeiro ya hay, en la 1º Vara de Familia, casos de adopciones por parte de homosexuales, e incluso, familias homoparentales constituidas a través de vías diferentes a la adopción. Por lo tanto, hoy existe una gran pluralidad de configuraciones familiares.

NA - Frente a esta pluralidad de configuraciones familiares, ¿cuáles fueron las cosas que cambiaron y cuáles no?

A pesar de todas estas diferentes configuraciones, hoy puede observarse, a partir de la atención a familias en la clínica y a través del desarrollo de investigaciones sobre la dinámica familiar, que todavía se hallan presentes, aun en los nuevos grupos familiares, algunos valores tradicionales coexistiendo con algunos valores modernos.

Puede decirse que en la familia contemporánea se hacen presentes tanto los valores tradicionales como los valores modernos. Puede parecer que todo es demasiado moderno, pero cuando realizamos investigaciones con los jóvenes, con las parejas, con las familias, observamos cómo determinados valores tradicionales todavía son importantes y son aún preservados por la familia contemporánea.

Foto João Ripper

NA - ¿Usted podría dar ejemplos de algunos de esos valores?

En la contemporaneidad hay una ambivalencia en relación al casamiento y a la familia. Por ejemplo, al mismo tiempo en que la monogamia y la fidelidad aparecen como valores importantes, el narcisismo y el individualismo traspasan las relaciones amorosas. Al mismo tiempo que hay un apelo a lo nuevo y a lo que es descartable, existe una valoración hacia el compromiso, hacia el envolvimiento y el mantenimiento de las relaciones y del casamiento.

En este momento estamos desarrollando una investigación sobre el lugar del casamiento en el proyecto de vida de los jóvenes solteros. Y lo que queremos, de hecho, es evaluar la influencia del casamiento de los padres en el proyecto de casamiento de sus hijos.

Queremos conocer la percepción que los hijos tuvieron del casamiento de sus padres, sin importar la realidad, sino lo que ellos percibieron como realidad. Más, queremos saber qué influencia eso puede tener en el proyecto de casamiento de los hijos. Qué lugar el casamiento ocupa en el proyecto de vida de ellos. La investigación todavía está en desarrollo. Tuvimos una primera etapa en la que evaluamos la percepción del casamiento de los padres por parte de los hijos y ahora estamos en una segunda etapa, entrevistando a algunos de esos hijos, o sea, a los que evaluaron el casamiento de los padres como muy satisfactorio y a los que lo evaluaron como muy insatisfactorio. A los que consideraron el casamiento de los padres más o menos satisfactorio no los estamos entrevistando. Estamos oyendo los extremos para ver si el hecho de que hayan percibido el casamiento de los padres como muy satisfactorio o muy insatisfactorio ejerce influencia en el proyecto de casamiento de esos jóvenes.

Y lo que estamos constatando en estas entrevistas, en términos de valores, es que la fidelidad es muy valorada por los jóvenes y que, en algunos casos, el casamiento institucionalizado también. Al mismo tiempo en que se hacen presentes estos valores tradicionales, se resaltan también como valores muy importantes, valores modernos como, por ejemplo, la igualdad entre los sexos, la mujer con los mismos derechos del hombre, el hombre que asume un poco más algunas tareas domésticas, aunque eso todavía sea responsabilidad de las mujeres. En realidad, el hombre asume esas tareas, pero digamos que desde una posición de prestarle un servicio a las mujeres. Es a esto a lo que llamo coexistencia de valores tradicionales y valores modernos en la familia contemporánea.

Y hay más. Es posible decir que esas nuevas configuraciones familiares engendran también nuevas relaciones que necesitan ser mucho más flexibles, mucho más creativas. Porque imagínese que un chico de una familia con padres vueltos a casar, que tiene padres, madrastra, padrastro, ocho abuelos, hermanos, medio hermanos, hermanos por afinidad, tendrá que tener mucha más flexibilidad, mucha más creatividad, y los padres y los otros miembros de la familia también para lidiar con toda esa complejidad. Esas nuevas configuraciones familiares no son más problemáticas sino más complejas. Y esa complejidad trae una consecuencia: demanda una flexibilidad mayor, una creatividad mayor.

NA - ¿Qué implicaciones trae para la formación de los chicos y los jóvenes, el hecho de que existan diferentes configuraciones familiares? O sea, ¿de qué manera esto afecta su formación, su desarrollo?


Yo diría que esas nuevas configuraciones familiares, en sí, no son indicio de un problema, no son, desde el punto de vista emocional, menos saludables que la familia nuclear, que las configuraciones más tradicionales de familia. No considero que las nuevos grupos familiares puedan tener consecuencias negativas para la formación de los chicos y los jóvenes.

Lo importante en cualquier familia sea nuclear, separada, de padres vueltos a casar, monoparental o adoptiva, es que haya un clima que permita el desarrollo de los hijos. La familia necesita ser un lugar en donde los hijos puedan crecer con seguridad, es decir, en donde puedan tener en la figura de los adultos -de los padres o de otros responsables- modelos de identificación saludables. Es fundamental el modo cómo los adultos desempeñan sus funciones frente al chico, trátese de los padres biológicos o no. Es, sobre todo, la función simbólica de ser padre y madre la que importa para el desarrollo del chico. Entonces, tener padres casados de un primer matrimonio en una familia nuclear no es garantía de salud emocional. Lo importante es que los padres tengan madurez emocional y asuman sus funciones.

El que haya más o menos promoción de salud emocional en la familia va a depender sobre todo del desempeño de los papeles de cada miembro del grupo familiar. ¿Y a qué se refiere esto? Se trata de que las funciones familiares tengan una demarcación clara, no rígida, pero clara. Que las funciones del padre y de la madre puedan ser ejercidos en familia, que los hijos puedan ser chicos y jóvenes y que puedan crecer seguros porque hay adultos en la familia que ejercen sus funciones y asumen el lugar de autoridad.

Creo que la gran dificultad actual de la familia es la crisis de autoridad. Hay también, en el mundo actual, una crisis de valores que trae consecuencias en la constitución de modelos que los padres son para los hijos. O sea, hay también una crisis de modelos. Tal vez hasta podamos decir que eso se relaciona con la difusión de la psicología y del psicoanálisis, con una interpretación equivocada acerca de que no se puede prohibir, no se puede reprimir. Y entonces los padres comienzan a confundir autoridad con autoritarismo. Y para no ser autoritarios dejan de ser autoridad. Y los chicos y los adolescentes necesitan de una autoridad. Los padres muchas veces creen que para ser una familia democrática tienen que ser una familia de iguales. Pero una familia democrática no es una familia de iguales, así como una sociedad democrática no es una sociedad de iguales. La sociedad democrática es jerárquica. La familia es la institución jerárquica en la que los padres tienen deberes y derechos que son distintos de los deberes y derechos de los chicos y los jóvenes. Creo que esta confusión entre autoridad y autoritarismo creó una crisis de modelos y una crisis de valores en la familia. Pero es muy importante que los padres o responsables ejerzan esa autoridad en el grupo familiar porque los hijos necesitan de ella. Muchas veces recibo en el consultorio familias en las que no es posible diferenciar el subgrupo parental del subgrupo filial. Parecen un grupo de adolescentes, son todos iguales, padres e hijos. Esto también tiene que ver con el tema de la valoración del ser joven. Y los padres, un poco por buscar ese valor, se igualan muchas veces a los hijos y dejan de ejercer el papel de autoridad que es tan importante para el desarrollo de los hijos.

NA - ¿Y cuando hay otros miembros de la familia como abuelos, tíos...? Háblenos un poco sobre su presencia en la familia.

Creo que el papel de los tíos, de los abuelos y de otros como padrinos, madrinas, son papeles muy importantes en términos de transmisión de valores, en términos de intercambios afectivos. Como dije, es importante que los papeles parentales sean asumidos por los padres o por los responsables en la familia pero en su ausencia, en algún momento, por cualquier razón, el hijo mayor puede asumir ese lugar de cuidado, de proveer las necesidades materiales y afectivas de los que todavía están creciendo. De esta forma, la extensión de la familia, la incorporación de los abuelos, de los tíos, de los primos, de otros, es muy importante para el desarrollo del chico. Además, la observación, el contacto que el chico tiene con el modo como los adultos tratan a los mayores, el modo como los padres tratan a los abuelos, se va a constituir en un modelo que el chico incorpora. Ya que en el futuro sus padres serán abuelos y ellos serán los adultos y tendrán a sus hijos. Esa transmisión transgeneracional es muy importante para la formación de los chicos y de os adolescentes. La transmisión de los valores familiares, de las creencias, de los rituales es un factor relevante para la construcción de la historia familiar y para la promoción de la salud emocional en la familia.

Foto João Ripper

NA - Sus reflexiones me llevan a pensar en otro tema. Muchas veces oímos observaciones relacionadas al hecho de que la familia hoy no tendría el mismo peso, el mismo significado que tuvo en el pasado para la formación de los chicos y de los jóvenes, ya que hoy ellos están más en contacto con el mundo, con sus pares, con los medios, con la sociedad de una manera general. Entonces, ¿la familia perdió espacio, realmente, o no?

Creo que en cualquier cultura, en cualquier sociedad la familia tendrá siempre un peso muy grande para el desarrollo de los hijos, para el desarrollo de los chicos y los adolescentes, aun con ese panorama. Sin embargo, lo que sucede hoy con la familia es que el hecho de que la madre haya tenido que entrar al mercado de trabajo y pasar el mismo número de horas que el padre fuera de casa, marca una diferencia en relación a las familias de anteriormente. Lo que no disminuye la importancia de la familia, sino que acarrea consecuencias en las relaciones familiares y en el desarrollo de los chicos.

Lo que sucede es que los padres están denegando la educación de sus hijos. Están entregando a los chicos y están dejando de ejercer el papel pedagógico, el papel de educadores que les cabe. Los que pueden, le pagan lo necesario a los especialistas y se los entregan. Los padres de los segmentos menos privilegiados de la población también pasan muchas horas fuera de casa y entregan a sus hijos. En esos segmentos muchas veces hay redes comunitarias que responden mejor a esas necesidades de la familia. En la clase media y media alta, lo que sucede es que la educación formal, la escuela, se convirtió prácticamente en un objeto de consumo.

Los padres entregan a sus hijos por un período largo y esperan que la escuela desempeñe un papel que es de ellos. A veces escucho de las familias en el consultorio, o de mis alumnas que trabajan en escuelas, que los padres quieren que la escuela les hable sobre sus hijos. Eso muchas veces quiere decir que los hijos no son vistos por los padres, que los padres no observan a sus hijos y no saben a su respecto. En este contexto, los padres quieren que la escuela haga eso por ellos, delegan en la escuela la función que sería de ellos. Es como si dijeran: "Ya que estoy pagando, que la escuela haga esto por mí". Es a esto que llamaríamos denegación de la función paterna y materna, de la función parental. ¿Y entonces qué pasa? La escuela queda sobrecargada, los profesores acaban con una demanda imposible de atender. Hace poco tiempo los medios transmitieron una noticia sobre la enfermedad de los profesores. El reportaje resaltaba que los profesores se estaban enfermando con tanta demanda, estaban sobrecargados con las innúmeras atribuciones y con la falta de autoridad. Porque si los padres no tienen autoridad, el profesor tampoco la tendrá. Existe una cierta tiranía de los hijos en relación a los padres y los padres, tal vez culpables por pasar el día fuera de casa, se someten a esa tiranía y eso se repite en la escuela. Los hijos esperan que la profesora también se someta. Esto hace que los profesores queden realmente desgastados y sin autoridad.

En la clínica, por ejemplo, ¿qué ocurre cuando los padres llegan con la intención de dejarme a los hijos? Yo raramente veo a los chicos, sobre todo cuando tienen menos de diez años. Trabajo casi siempre con los padres, a veces con toda la familia y solamente en raras ocasiones, con el chico o el adolescente. ¿Y qué es o que puedo hacer? ¿Qué puede hacer el psicólogo? Tal vez lo más importante que se pueda hacer es intentar entender, junto con los padres, la relación existente entre los problemas que el chico o el adolescente presentan y la interacción familiar. Es mostrarle a los padres su responsabilidad en el crecimiento del chico, no para culparlos, sino para que rescaten el poder que ellos tienen. Es mostrarle a los padres que son mucho más poderosos que los psicólogos, que pueden realizar muchas más cosas con sus hijos. Y que es a partir de ellos, y con ellos, que nosotros, los psicólogos, vamos a poder transformar esa dificultad, esa realidad del hijo que, la mayor parte de las veces, tiene que ver con la dinámica de la familia. De nada sirve tratar a un chico, a un adolescente si no se trata a los padres, a la familia. Creo que los especialistas, trátese de psicólogos, psiquiatras, pedagogos o fonoaudiólogos, al mismo tiempo que deben acoger la dificultad, acoger el dolor y la demanda de aquellos que buscan su ayuda profesional, deben trabajar esa demanda haciendo resurgir en los padres el tema de la responsabilidad que tienen sobre sus hijos y del poder que tienen en tanto padres. Los especialistas deben rescatar con ellos ese poder porque los padres están muy impotentes.

Los padres tienen dificultades para poner límites, dificultades para ejercer su autoridad, por eso acaban buscando la ayuda de especialistas. Creo que es necesario trabajar la necesidad de una norma. Es como si hubiera una cierta anomia, una cierta confusión, un cierto desorden familiar que necesita ser confrontado y trabajado. Existe una necesidad de poner normas, de poner límites, de que los padres organicen con los hijos esa confusión en que se encuentra, muchas veces, la familia.

NA - A veces se les oye decir a los padres: "yo no consigo decirle no a mis hijos". Hable un poco más sobre esto.

Esa dificultad de los padres talvez esté relacionada, también, al hecho de estar muy ausentes de casa y sentirse culpables. Es importante que los padres trabajen esa culpa y se ausenten de una forma menos onerosa para ellos mismos, para que eso no repercuta negativamente en su relación con los hijos. Porque si los hijos se dan cuenta de que los padres se sienten culpables y fragilizados, hay una tendencia natural a que, desde muy chicos, intenten obtener beneficios de esta situación. Entonces la tiranía de los hijos muchas veces se da a causa de la percepción que ellos tienen de la fragilidad de los padres. Es necesario fortalecer a los padres, si ellos buscan ayuda psicológica, si buscan la escuela. También es necesario que la escuela les devuelva a esos padres la autoridad que es de ellos. La escuela necesita hacerles ver que tienen un papel y que ella no puede remeplazarlos. Tampoco nosotros los psicólogos podemos hacer eso.

Foto Rodolpho Oliva

NA - ¿Y esto independientemente de la clase social?

Sí, independientemente de la clase social. Sin embargo, creo que en las clases sociales menos privilegiadas las familias cuentan más con el apoyo de redes comunitarias. Son familias que se ayudan mutuamente, son asociaciones que ofrecen determinados servicios de la propia comunidad. Creo que ellos tienen más estos recursos de las redes populares que las clases medias y media alta, en donde las familias son mucho más autorreferidas y están más aisladas.

NA - ¿Usted podría hablar un poco más sobre la relación entre educación y familia y medios y familia?

Creo que esto que las familias hacen de transferir sus funciones a la escuela, también lo están haciendo con los medios de comunicación, sobre todo con la televisión y la computadora. Los hijos se quedan horas en internet, con los jueguitos electrónicos, se quedan horas frente a la televisión. Y este exceso de información, esa no discriminación de qué información y para quién, en la familia, puede, de hecho, perjudicar el desarrollo de los chicos y de los adolescentes. Las familias deberían estar más atentas y ser más cuidadosas en relación a esa situación.

Al mismo tiempo, existe la posibilidad de que los medios contribuyan, informen, pero en exceso eso puede traerles prejuicios a los chicos y a los adolescentes. Yo resaltaría, en este momento, la importancia de la autoridad de los padres. Pero, como ya vimos, ellos tienen dificultades para ejercer esa autoridad, para decir no, para poner horarios, para poner límites para los jueguitos electrónicos, para la televisión, para la computadora. Por otro lado, los padres también "entregan" a sus hijos a los medios de comunicación, en la medida en que dejan que se queden muchas horas frente a la televisión o frente a la computadora, como si fuese un premio de consuelo por las prolongadas ausencias. Sin embargo, sería importante que se dieran cuenta del prejuicio que eso le puede traer al desarrollo de sus hijos.

NA - Hoy mismo participé de una discusión sobre chicos o adolescentes que no permiten que sus padres o responsables vean lo que hacen cuando están navegando con la computadora. Frente al intento del adulto, ellos dicen: "no invadas mi privacidad, este es mi espacio". ¿Qué diría usted al respecto?

Cuando un chico le dice esas cosas al padre (o a la madre), "no invadas mi privacidad", y el padre toma esa afirmación como un discurso consecuente, él no discrimina quién es adulto y quién es chico. El padre toma las palabras del chico como si este fuese un adulto y pudiera decirle eso. El padre que se va, que se aleja, no actúa como un padre que ejerce su función paterna, que ejerce su autoridad. En realidad, ¿qué es lo que él debería hacer en ese momento? Debería mirar lo que está pasando, lo que el chico está viendo o con quién está relacionándose y si se estuviera relacionando con algo o alguien indebido, el padre tendría que decirle: "Esto no es para ti", y mandar al chico a que apague la computadora o apagarla él mismo.

Esta situación en que los padres toman las palabras del chico como un discurso consecuente es una situación equivocada. El padre que frente a esas palabras se va porque cree realmente que está invadiendo la privacidad del chico, no está cuidando del desarrollo saludable del mismo, no le está dando las condiciones necesarias para ese desarrollo. Es su deber como padre propiciarle al chico esas condiciones. Considerar la falta del chico o del adolescente dirigida al adulto como un discurso de un igual, como si estuviesen en una posición de equivalencia, es un gran equívoco.

NA - ¿Existe alguna relación entre la posibilidad de asumir plenamente sus funciones y el grado de escolarización de los padres o responsables?


¿Por qué los padres o responsables con menos escolaridad tendrían más dificultades para ejercer la función parental? No me parece que sea así. No creo que el ejercicio de la función parental tenga que ver con el nivel de escolaridad...

NA - ¿Y con la disponibilidad?

Con disponibilidad sí, pero entonces estaríamos hablando de las familias de todos los segmentos sociales en las que los padres, por alguna razón -y la mayor parte de ellos, hombres y mujeres que están en el mercado de trabajo- pasan muchas horas fuera de casa. Creo que esto tiene que ver más con la posibilidad de asumir la función parental, que con el tema de la escolaridad. A veces observamos familias de segmentos sociales menos privilegiados en que estas funciones están muy bien demarcadas, en las que la madre ejerce la autoridad con mucha más tranquilidad y con mucha menos culpa que la madre de clase media que es informada, que tiene alta escolaridad. Y también encontramos en segmentos menos privilegiados madres que no ejercen con tanta facilidad, con tanta claridad, estas funciones. Creo que las funciones tienen que ser claras y estar bien demarcadas. La jerarquía en la familia no necesita ser rígida, pero tiene que ser muy clara. Creo que la falta de claridad en el establecimiento de la jerarquía familiar es lo que ha venido provocando un gran número de problemas para el desarrollo de los chicos y los adolescentes.

NA - ¿Qué más le gustaría decir que considere importante para profundizar la reflexión sobre el tema de la familia?

Me gustaría agregar algo sobre los padres y la familia. Yo diría que lo más importante es que podamos transmitirles a los padres -en el consultorio, en la escuela, en los medios de comunicación, en la revista Novamerica- la importancia de la función parental y enfatizar la necesidad de que ellos ejerzan su autoridad con firmeza, de ejercer la función de padre y madre. No obstante, la función parental no se limita al ejercicio de la autoridad, sino también a la función de cuidar y también a la función de poder ver a los hijos, de poder promover y validar el crecimiento de los hijos. Es necesario mostrarles a los padres cuán importantes son.

Foto Rodolpho Oliva

Creo que si los padres se diesen completamente cuenta de la responsabilidad que tienen en tanto modelos identificatorios, de la importancia del papel que tienen en el crecimiento de sus hijos, tal vez pensarían mejor el tener hijos, de tan preocupados que quedarían. Creo que es importante decirles a los padres que tienen que tratar de ser felices para que sus hijos también puedan serlo.

A veces recibo en el consultorio padres que se lamentan, que son infelices porque se sacrifican por los hijos, madres que dicen: "Yo haría todo, moriría por mi hija". Y yo tengo que decirle: "Pero su hija no quiere que usted muera por ella, su hija quiere que usted viva y que viva muy bien, que sea feliz para que también ella pueda vivir bien y ser feliz sin culpa". El primer paso para hacer a un hijo feliz es poder ser feliz. El primer paso para formar hijos saludables es poder promover una dinámica familiar saludable, es poder darse cuenta de la realidad y lidiar con ella de la manera más constructiva posible.

Ayudar a la familia es, sobre todo, poder sensibilizar a los padres, a los adultos que son los responsables por el crecimiento de los miembros de la familia, por la promoción de la salud emocional en la familia. Si la escuela pudiese decirles a los padres, cada vez que viniesen a preguntar: "¿Cómo es mi hijo?" (porque los padres preguntan muchas veces eso en la escuela), si la escuela pudiera responderles: "Nosotros observamos a su hijo, sí, pero sería muy importante que ustedes observaran a su hijos, sería importante que ustedes pudiesen, aun pasando ocho, diez horas fuera de casa, en algún momento, entrar en contacto con las necesidades de su hijo", la escuela le estaría prestando un gran servicio a la familia, tal vez mucho más que si hiciera un informe pormenorizando todo lo que los padres quieren saber sobre sus hijos. Es importante que los padres miren a los hijos. Podemos pensar este mismo asunto en la clínica. En el consultorio trabajamos con las dificultades de los padres. Pero es importante que este trabajo se haga para rescatar junto a los padres las funciones que ellos tienen que desempeñar en relación a sus hijos. Porque la psicoterapia familiar no es una panacea para todas las dificultades que las familias enfrentan y ni un proceso que va a durar la vida entera. Es importante que los padres no dependan de los psicoterapeutas, que no dependan de los especialistas.

El psicoterapeuta de familia debe trabajar la función parental junto con los padres para rehabilitarlos en el ejercicio de esa función, o sea, para validarlos como padres. Muchas veces los padres quieren entregarle sus hijos al psicólogo e irse. Yo les digo: "Sin ustedes yo no los trato, no puedo hacerlo, no sería ético y no daría los resultados esperados". Tratar chicos y adolescentes sin los padres puede, muchas veces, ser un servicio contraproducente que les prestamos a las familias. Por lo tanto, la mayor parte de las veces, debemos tratar las dificultades que presentan los hijos junto con los padres. Debemos tratar a la familia. Aunque como especialistas podamos cuidar de la familia, nunca podremos reemplazarla. Nadie ocupa el lugar de la familia, tenga esta la configuración que tenga. Nadie ocupa ese lugar. (NA)


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