Revista

L
a Revista de la Pátria Grande


CONSTRUINDO CAMINHOS/ CONSTRUYENDO CAMIÑOS

Uma educação ambiental de crianças cariocas
Hedy Silva Ramos de Vasconcellos [1]
Rio de Janeiro - Brasil


Foto Rodolpho Oliva
Después de dos años de investigaciones, la singularidad encontrada en el ambiente natural y social de dos “buenas” escuelas municipales, frecuentadas por niños/as de clases populares, se resume en: cohesión docente y gestión democrática; actitud de abertura para el enriquecimiento del trabajo por actores de la comunidad; diálogo cotidiano entre los diversos segmentos de la comunidad escolar y la pasión explícita de sus educadores. Estas experiencias sirven para advertir que es posible construir una humanidad más feliz y superar los obstáculos que se presentan en el camino.



Ao longo de mais de dois anos desenvolvemos um estudo do cotidiano escolar de três escolas municipais cariocas[2], buscando descobrir como essas comunidades escolares se relacionavam com o seu ambiente natural e social, de modo a favorecer a educação e a saúde de seus alunos.

As escolas foram escolhidas por terem sido consideradas, através de estudos anteriores, como de boa qualidade ambiental. Constatamos, no entanto, usando metodologia de base etnográfica[3], no ambiente das primeiras séries do ensino fundamental, que apenas duas dessas escolas municipais podiam ser classificadas entre as de melhor qualidade de ensino de sua região, pelo alto índice de rendimento de aprendizagem, em relação aos resultados brasileiros (Vasconcellos, 1999). É apenas dessas duas boas escolas que iremos tratar aqui.

Inicialmente foram desenvolvidos estudos teóricos, pela equipe, sobre o conceito de espaço, visto como um sistema de objetos e um sistema de ações (Santos, 1997, p. 51). A educação, nessa pesquisa, foi entendida como a comunicação das pessoas adultas com as mais novas da sociedade, de modo a possibilitar-lhes sua sobrevivência: uma educação ambiental. Sendo assim, ela é situada no tempo e no espaço, tendo dimensões amplas e complexas, confirmando a complexidade do ser humano e de tudo que o rodeia. O espaço escolar terá, assim, como no conceito de ecologia proposto por Guattari (1991), dimensões físicas, mentais e sociais. Acrescentamos ainda a dimensão transcendental, só encontrada na espécie humana. No campo da saúde, foram buscados, nas escolas, indícios de fatores biopsicossociais e do meio ambiente, concedidos pela política governamental ou conquistados pela comunidade escolar, que pudessem ser considerados ações básicas propiciadoras de melhor qualidade de vida e, em conseqüência, mantenedores da saúde.

Concebemos, ainda, as comunidades escolares estudadas como o conjunto de: alunos, professores, responsáveis pelas crianças, administradores da escola, funcionários e os colaboradores externos que participavam regularmente da vida no ambiente escolar.

Além dos estudos teóricos sobre espaço, manutenção da saúde e educação ambiental, foram pesquisadas condutas direcionadas à formação moral das crianças, na modernidade contemporânea (Habermas, 1989). Os dados foram recolhidos em arquivos das escolas e da Coordenação Regional de Educação a elas relacionadas. Realizou-se observação direta e participativa, durante vários meses, nas escolas. Foram entrevistados 61 adultos e 782 crianças, usando-se roteiros semiestruturados.

Foto João Ripper

COMO SE EDUCA AMBIENTALMENTE?

Uma educação assim compreendida exige as informações necessárias para que cada um conheça a complexidade daquilo que o circunda de modo ativo e participante, a fim de preservar o que é necessário e mudar o que prejudica uma boa qualidade de vida. Compreendendo a interdependência dos seres, a ênfase da cooperação sobre a competição exige uma prática social. Como a origem comum da vida na Terra é apontada, valoriza-se nela a diversidade, tanto biológica quanto cultural, destacando-se a sua importância.

É a educação do contrato natural proposto por Serres (1991), estabelecido de um modo novo, ainda não experimentado. É a educação que enfrenta o fim das certezas, e que propõe uma nova racionalidade (Prigogine, 1996). Se estamos, conforme as novas teorias da física, em um mundo onde há uma irreversibilidade do tempo e em um estado de não-equilíbrio que possibilita novas construções, é das flutuações e da instabilidade que podemos construir algo que consideramos possível. Porque não há determinismo, não se podem estabelecer leis de causalidade, a não ser em casos restritos. Prigogine chega a afirmar que sem a coerência dos processos irreversíveis do não-equilíbrio, o aparecimento da vida na Terra seria inconcebível (Prigogine, 1996, p.12).

O conceito de educação com que trabalhamos não permite senão que consideremos que a educação, enquanto promotora de uma vida humana de qualidade, é possível. Nessa VIDA de qualidade há uma alternância de equilíbrio/ não-equilíbrio físico, mental e social. Mais ainda, não há determinismo, o que, segundo Popper é o obstáculo mais sólido e mais sério no caminho de uma explicação e de uma apologia da liberdade, da criatividade e da responsabilidade humanas (1982. In: Prigogine, 1996, p.21).


AS ESCOLAS EDUCADORAS AMBIENTAIS E EM SAÚDE

Qual foi a singularidade que encontramos no ambiente natural e social das duas boas escolas municipais[4], freqüentadas por crianças das classes populares, como resultado da pesquisa de dois anos? Sintetizaríamos como: Coesão do corpo docente e gestão democrática. Isso, ao lado de uma atitude de abertura para o enriquecimento do seu trabalho por atores da comunidade circunvizinha: médicos e dentistas do Centro Municipal de Saúde, fonoaudiólogos, nutricionistas, professores voluntários de balé, guardas de trânsito das ruas das escolas, Organizações Não Governamentais de Direitos Humanos, Grupos de Animação Cultural, Clubes...

Administradores, professores e funcionários que estavam dispostos a viver com as crianças e seus pais experiências educativas novas, sem temor ao transgredir regras velhas do sistema de ensino. Crianças alegres e auto-confiantes que gostam, aprendem e permanecem nesse ambiente rico e estimulante, com estudo, esportes e artes.

A consciência claramente explícita dos adultos de que a escola tem obrigação de despertar os alunos para o assumir a responsabilidade dos seus atos, através do desenvolvimento de uma consciência crítica e da própria auto-estima. O diálogo cotidiano e, também, mantido nas reuniões com representantes dos diversos segmentos da comunidade escolar era usado como mecanismo para manter a harmonia nas ações voltadas para o aperfeiçoamento constante da educação e saúde das crianças, em um ambiente amistoso.

A expectativa dos alunos (e a resposta positiva à mesma) que a escola lhes daria a linguagem escrita (ler e escrever era o que mais eles valorizavam), em ambiente confortável (seguro, limpo, alegre, bonito, com alimento, agradável), favorável à sua saúde.

A paixão declarada pelo seu trabalho de educadores, por parte de alguns administradores, professores e funcionários.

Foto Alexandre Firmino

A confiança expressa pelos pais e responsáveis pelas crianças, no trabalho educativo da escola.

O agir comunicativo (Habermas, 1989), isto é, a coerência entre as palavras e as ações, das administradoras e das professoras[5] parece ser a chave da qualidade dessas escolas. Elas entraram em acordo quanto à verdade, à correção e à sinceridade, nas reuniões e nos planejamentos, e mantêm comportamentos consistentes quanto à conduta moral definida dentro da escola. Isto lhes dá o ânimo, otimiza a utilização dos recursos disponíveis e dos recursos políticos do sistema de ensino carioca.

Enxergamos a educação das duas escolas como ambiental pelas seguintes características: leva os alunos a considerarem o meio em sua totalidade (natural, mental e social); essa visão de mundo é desenvolvida nas escolas sem distinção entre as séries (é contínua); os estudos são interdisciplinares, sob uma perspectiva global; há preocupação com as conseqüências da atuação da civilização moderna sobre o ambiente que é trabalhado de modo local, regional e planetário; desenvolvem o senso crítico e a auto-estima considerando a possibilidade de todos adquirirem as habilidades necessárias para resolver os problemas; e, finalmente, são escolas que usam diferentes ambientes físicos para educar, propiciados pela abertura aos grupos "de fora" (organizações governamentais, não governamentais e empresas, além de pessoas voluntárias).

Foto Rodolpho Oliva

Confrontando as análises dos diversos tipos de dados coletados (históricos, factuais e de discurso) concluímos que essas escolas conseguiram superar problemas, muitas vezes considerados historicamente determinados. Elas o conseguiram porque criaram e criam condições, dentro do contexto em que vivem, para se tornarem saudáveis ambientes educativos. Nunca, como agora, precisamos tanto de entusiasmo e de fé em que é possível a educação contribuir para uma humanidade mais feliz, no nosso planeta azul. Vivemos na esperança que outras escolas tenham a coragem e persistência nas lutas políticas, e a criatividade necessária no cotidiano, para a utilização nova de situações forjadas constantemente pelo caleidoscópio social em que vivemos.
(NA)



[1] Coordenadora da equipe formada pelos alunos de Iniciação Científica: Jorge E.V.da Silva, Katherine R.C.Ferreira, Leonardo S.G.de Azevedo e Raquel P.Guimarães.
[2] Carioca é aquele que nasce na cidade do Rio de Janeiro, no Brasil.
[3] Foi desenvolvida uma observação participante, nas três escolas: com o estudo dos documentos escolares; com observação direta das diferentes atividades escolares, sistemática e prolongada nas suas turmas das quatro primeiras séries; com entrevistas semi-estruturadas realizadas com os alunos, as professoras, a administração e alguns pais ou responsáveis. (Ver observação participante em Denzin, apud Lüdke & André, 1986, p.28)
[4] Há um programa de Educação Ambiental e Saúde na Secretaria Municipal de Educação do Rio de Janeiro.
[5] As escolas municipais cariocas estudadas eram compostas de professoras e administradoras com suas auxiliares. Havia apenas um membro do sexo masculino em uma das comunidades: o servente morador.


GUATTARI, Felix. As três ecologias. Campinas: Papirus, 1991.
HABERMAS, Jurgen. Consciência moral e ação comunicativa. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro, 1989.
PEDRINI, Alexandre de G. (Org.). Educação ambiental: reflexões e práticas contemporâneas. Petrópolis: Vozes, 1998.
PRIGOGINE, Ilya. O fim das certezas. São Paulo: Editora da Universidade Estadual Paulista, 1996.
SANTOS, Milton. A natureza do espaço. São Paulo HUCITEC, 1997.
SERRES, Michel. O Contrato natural. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1991.
SME- Secretaria Municipal de Educação. Projeto Educação Ambiental e Saúde Rio de Janeiro: SME, 1996.
VASCONCELLOS, Hedy S. R. de.(Coord.) A saúde da criança carioca no ambiente escolardo primeiro grau. Relatório de Projeto Integrado. Rio de Janeiro: CNPq/PUC-RIO, 1999.

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