Revista

L
a Revista de la Pátria Grande


CONSTRUINDO CAMINHOS/ CONSTRUYENDO CAMIÑOS

A esperança que vem da tela
Rosalia Duarte
Professora da Puc-Rio
Rio de Janeiro - Brasil


Foto Rodolpho Oliva
El cine latinoamericano viene recuperándose de las muchas crisis que lo aquejaron y, a partir de la última década del siglo pasado, está retomando su lugar en el escenario mundial, ofreciéndoles a los espectadores de todo el mundo lecturas acerca de su impresionante diversidad cultural y una particular forma de verse a sí mismo y de ver sus problemas y su belleza. Atentas a los problemas sociales, reflexionando acerca de la historia del continente, las obras que emergen de la crisis mantienen la tradición de crítica a la corrupción, a la injusticia y a la falta de ética, de forma profundamente innovadora.



Não é verdade que na primeira sessão pública de cinema os espectadores tenham saído correndo e gritando porta afora, com medo de serem atingidos pela locomotiva do filme L'arrivée d'un train à la Ciotat: embora estupefatos diante daquelas imagens, ninguém teria podido supor que se tratava de um trem de verdade vindo em sua direção. Mas a anedota resiste, incólume, ao tempo e à história, provavelmente, porque sabemos que boa parte do choque provocado pela invenção do cinematógrafo se deveu ao fato dessa forma de arte ser a que mais fielmente retrata o real. Utilizando uma linguagem que se tornou universal, os filmes sempre se empenharam em trazer a realidade para a tela, mesmo com inequívocas concessões à fantasia, e é isso que faz do cinema uma espécie de janela para o mundo, através da qual podemos contemplar, por ângulos distintos, acontecimentos dos quais podemos ou não ter participado, o que amplia em muito nossa capacidade de reflexão sobre eles.


O CINEMA LATINO-AMERICANO: MUITAS HISTÓRIAS PARA CONTAR

O cinema latino-americano vem desempenhando esse papel ao contar e recriar histórias, culturas e crenças dos povos e sociedades aos quais pertence, sobretudo a partir de meados do século XX, quando alguns realizadores decidiram investir em narrativas que retratassem a realidade e, ao mesmo tempo (ou por isso mesmo), ajudassem a transformá-la. Com uma estética neo-realista, câmera na mão e muitas preocupações sociais, algumas gerações de cineastas chilenos, argentinos, mexicanos e brasileiros, entre outros, ajudaram a compor uma cinematografia que ainda hoje participa diretamente da configuração das identidades dos povos do centro-sul das Américas. Filmes que ajudaram a preservar as culturas e mostraram ao mundo a exploração a que está submetida a imensa maioria dos latino-americanos.

Depois de muitas crises, durante as quais a produção de filmes foi reduzida praticamente a zero, dos anos 1990 para cá, a América Latina vem retomando seu lugar no cenário cinematográfico mundial, trazendo para as telas do mundo todo uma impressionante diversidade cultural e um modo muito peculiar de ver a si própria, seus problemas e sua beleza. Nossos filmes seguem atentos ao social, refletindo a história torta desse continente, marcada por genocídios, ditaduras, conflitos socais e crises econômicas: as obras que emergem da crise mantêm a tradição de crítica às mazelas sociais, à corrupção, à injustiça, à falta de ética, mas o fazem de forma profundamente inovadora.

Brasil e Argentina são responsáveis, hoje, por mais de 80% dos filmes latino-americanos, muitos deles realizados em co-produção com países europeus. O Instituto Nacional do Cine e do Audiovisual Argentino (Incaa) vem propiciando o aumento da produção naquele país através de uma lei que levanta recursos com a cobrança de taxas sobre as entradas nas salas de cinema e a venda de fitas de vídeo e DVD e com a taxação da publicidade na TV, o que possibilita também "um incentivo ao surgimento de novos realizadores"[1]. Das mãos dos jovens cineastas argentinos, a maioria nascida na segunda metade da década de 1960, saíram algumas das mais criativas e interessantes obras do cinema mundial do novo milênio. Filmes como Mundo grua (1999), de Pablo Trapero, melhor filme no Festival de Veneza, Nove rainhas, de Fabián Bielinsky (2000), O pântano, de Lucrécia Martel, vencedor do Festival de Berlim de 2001, Lugares comuns (Adolfo Aristarain, 2004), melhor roteiro e melhor filme em diversos festivais, Abraço partido, de Daniel Burman (Urso de Prata no Festival de Berlim de 2004), La niña santa (2004), de Lucrécia Martel, e muitos mais, tematizam com vigor e originalidade as dores, o humor, a sensibilidade e as perdas de um povo que, tendo sobrevivido à mais sangrenta ditadura militar do conesul, tetna superar uma da mais graves crises econômicas de sua história.

No Brasil, a perseverança dos realizadores e das organizações de classe, apoiada pelas leis Rouanet e do Audiovisual, trouxe a produção de volta ao patamar dos quase 100 filmes por ano. A competência e a experiência de cineastas veteranos nos oferece obras como Cronicamente inviável (Sergio Bianchi), Latitude zero, Cabra cega (Toni Venturi), Filme de amor (Julio Bressane), Signo do caos (Rogério Sganzerla), Edifício Master, O fim e o princípio (Eduardo Coutinho), Desmundo (Alain Fresnot), Seja o que Deus Quiser! (Murilo Salles), Brava gente brasileira, Quase dois irmãos (Lucia Murat), Glauber, o Filme, Marighella: retrato falado do guerrilheiro (Sílvio Tendler), entre muitos outros. Somando-se isso à ousadia dos que ingressaram mais recentemente no meio cinematográfico, como Fernando Meirelles (Cidade de Deus), Andrucha Waddington (Eu, tu eles; Casa de areia), Walter Salles (Central do Brasi; Abril despedaçado), Karin Ainouz (Madame Satã), Cláudio Assis (Amarelo Manga), Beto Brant (O invasor), Tata Amaral (Através da janela), Marcelo Gomes (Cinema, aspirinas e urubus), e outros, configura-se um cenário de conservação da qualidade estética e narrativa do nosso cinema e, ao mesmo tempo de inovação estética, diversidade temática, criatividade e qualidade técnica. Filmes que discutem o país, cada um a sua maneira, por diferentes pontos de vista.

O México, que chegou a realizar entre 80 e 100 filmes por ano entre 1935 e 1945, hoje tem uma produção anual inferior a 15 filmes. Em 2003, uma lei aumentou em um peso o preço dos ingressos, revertendo esse valor para um fundo de financiamento do cinema nacional, mas a medida ainda não produziu os resultados esperados. No entanto, mesmo com poucos recursos, o cinema mexicano não perdeu a capacidade de criar e de provocar impacto: Amores Brutos, de Alejandro González Iñárritu, que sacudiu o festival de Cannes, em 2000, E tua mãe também, de Alfonso Cuarón e O crime do Padre Amaro, de Carlos Carrera, uma crítica ácida à omissão da Igreja Católica frente a má distribuição de terras e à corrupção no país, levaram milhões de pessoas às salas de cinema em 2003 e foram bem recebidos pela crítica especializada. Vale lembrar que o veterano diretor Arturo Ripstein continua fazendo filmes e Ninguém escreve ao coronel (1999), La Perdición de los Hombres (2000), Concha de Oro no Festival de San Sebastián, e La Vírgen de la Lujuria (2002), Prêmio Especial do Juri do Festival de Veneza atestam seu vigor e criatividade.

Foto Rodolpho Oliva

A Colômbia ampliou sua produção para mais de trinta filmes por ano e entre eles está Maria cheia de graça (2004), de Joshua Marston, prêmio Alfred Bauer de melhor filme em Berlim e melhor drama em Sundance. Trata-se da impressionante história de uma jovem de 17 anos, pobre, grávida de um rapaz de quem não gosta e que, sem perspectiva de melhoria de sua condição de vida, aceita viajar aos Estados Unidos levando papelotes de cocaína no estômago. Um filme tenso e reflexivo, que apresenta o tráfico de drogas por um ângulo muito original. Da Colômbia também veio o agridoce A sombra de um andarilho, de Ciro Guerra, vencedor do Festival de Trieste em 2004, que narra uma amizade incomum, bizarra e redentora entre dois estranhos personagens: Mañe, um desempregado de meia-idade, que perdeu uma perna e vende origamis no centro de Bogotá, e um homem cuja profissão é carregar pessoas nas costas.

A produção chilena ainda não ultrapassou a casa dos 10 filmes por ano, mas, do meio dessa safra tão escassa emerge um dos mais belos e tocantes filmes latino-americanos dos últimos tempos: Machuca, de Andrés Wood (seleção oficial nos Festivais de Cannes, Vancouver, Lima, Bogotá, Havana e Vìña del Mar, indicado ao prêmio Goya e ao Oscar de melhor filme estrangeiro em 2004). Críticas publicadas por ocasião dos festivais o compararam a Au revoir les enfants (Adeus meninos, 1987), do cineasta francês Louis Malle, que conta a história da amizade entre dois meninos, em um colégio interno, durante a Segunda Guerra e é considerado um clássico do cinema mundial. Machuca se passa no Chile, em 1973, no auge da ditadura militar. Pedro Machuca é um menino muito pobre, morador de uma favela construída ilegalmente nos arredores de Santiago que, juntamente com outros meninos da favela, é convidado a estudar em um colégio católico de elite, localizado em um bairro nobre da cidade. O diretor do colégio, Padre McEnroe, é um idealista que tem o firme propósito de promover a convivência entre crianças de classes sociais diferentes porque acredita que assim elas aprenderão a se respeitar mutuamente. No colégio, Pedro conhece Gonçalo Infante, um menino de classe média alta, inteligente e sensível, cuja mãe apoia a ditadura e defende a repressão à esquerda socialista. Entre os dois meninos nasce uma grande amizade, atravessada por afeto e conflitos: juntos vivem a rotina escolar e experimentam a difícil convivência entre os diferentes; assistem à prisão do diretor do colégio e à implantação de regras extremamente rígidas; juntos redescobrem Santiago, apresentando um ao outro o ponto de vista de quem vive em lados opostos da cidade; participam indiretamente da luta política que divide o país, ao fazer amizade com uma menina que vende flâmulas em passeatas (tanto dos socialistas quanto da direita conservadora) e compartilham a dor e as delícias da descoberta do amor por essa menina, entre ciúmes, disputas e beijos regados a leite condensado. É sem dúvida um filme bouleversant, pelo qual não se pode passar imune; uma experiência, no sentido benjaminiano do termo: algo que vivenciamos, mais do que vemos e ouvimos, e que, por essa razão, nos transforma internamente, de maneira definitiva.

A América-Latina tem essas e muitas outras histórias para contar, a maioria delas com finais trágicos. Nosso cinema se encarrega de contá-las a nós mesmos, seus protagonistas, oferecendo-nos a oportunidade de refletir sobre o que somos e o que queremos ser, mas também as conta aos que nos olham de pontos distintos do planeta, permitindo que nos conheçam melhor. Se é verdade o que afirmava Leonardo da Vinci que nessuna cosa si può amare ne odiare se prima non si ha cognition di quella (não se pode amar nem odiar aquilo que não se conhece), nossos filmes prestam um serviço inestimável ao nosso amor próprio e ao enamoramento por nossas culturas daqueles que têm a possibilidade de conhecê-las.
(NA)



[1] Fernando Massini. A opulência simples do cinema argentino. In: www. pphp.uol.com.br/tropico/html/textos, coletado em 12/11/2005)

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