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L
a Revista de la Pátria Grande


IDÉIAS EM REDE / IDEAS EN RED

Movimentos sociais na América Latina na atualidade
Maria da Glória Gohn
UNICAMP/UNINOVE/CNPq
Brasil


Foto João Ripper
Comprender las nuevas concepciones del proceso cultural de civilización puesto en marcha con la globalización, implica la capacidad de leer críticamente el mundo que nos rodea en el plano local, para entender las contradicciones globales y convivir con la fragmentación y los antagonismos de una sociedad que se sustenta a partir de conflictos. Uno de los grandes desafíos de esta era es construir e implementar un proceso de autonomía política que enseñe a ocupar los espacios públicos, a tener una visión crítica del mundo y a no depender de prácticas políticas del pasado. La autonomía debe capacitar a los individuos a incorporarse en el contexto social y a comprender las circunstancias de la existencia humana en la globalización. Estos desafíos nos remiten a la figura de los sujetos colectivos de la sociedad civil organizada, los movimientos sociales, las ONGs, las asociaciones comunitarias y las cooperativas populares.



Este texto objetiva refletir sobre o contexto da atual conjuntura latino-americana, a partir dos impactos da globalização na sociedade e nas políticas públicas, e avaliar os espaços de construção de outras possibilidades de ação coletiva em direção a processos socioculturais emancipatórios. Este segundo ponto terá como referência a atuação da sociedade civil organizada, destacando o papel dos movimentos sociais e das ONGs.


A SOCIEDADE POLÍTICA: ESTADO E AS POLÍTICAS PÚBLICAS NA AMÉRICA LATINA

Sabe-se que, nas últimas décadas, na maioria dos países da América Latina, implantou-se um modelo de desenvolvimento fundamentado em concepções neoliberais, no qual as políticas públicas priorizam o pagamento de juros da dívida, o controle dos déficis e superávits financeiros, os fluxos de caixa, etc. em detrimento da oferta de serviços públicos para o atendimento dos direitos econômicos, sociais e coletivos dos cidadãos. O resultado na realidade desses países tem sido um cenário com altos índices de desigualdade social, concentração da riqueza, desemprego, redefinição do papel do estado, estabelecimento de políticas sociais assistencialistas de caráter compensatório, etc. Disso tudo resultam ações onde se destacam o pragmatismo, o tecnicismo, a ausência dos sonhos para construir alternativas. A ação coletiva emancipatória não é a que gera compaixão. Ela é fruto de relações que geram sinergias, forças, inovações de outras ordens, que constroem caminhos para a mudança e a transformação social.

Do ponto de vista da cultura - como o capital não tem compromisso com o lugar, com os territórios locais -, a sua tendência é ser algo como um furacão: onde chega e destrói tudo. O território local é o lugar da memória, da cultura, da religião, das tradições, de uma língua, um dialeto, uma etnia, um povo específico em suma. A globalização separa a economia da cultura. Divide-se o mundo em áreas de domínio e tenta-se impor uma cultura global - vista como sinônimo de consumo, de mercado, de acesso, distribuição e consumo de marcas, grifes, logotipos. A globalização não tem preocupação com a preservação do mundo cultural do indivíduo. O neoliberalismo, por sua vez, exige diversidade mercadológica, quer um indivíduo desenraizado culturalmente, aposta na possibilidade de aliená-lo politicamente, Os direitos culturais de amplas maiorias são apresentados como direitos monitorados, concedidos a grupos específicos. Mas é só a partir dos direitos que se pode falar em políticas emancipatórias. Só a partir dos direitos pode-se reformular a agenda econômica e resgatar a cultura. Ética, moral, sonhos, desejos, felicidade, etc. são necessidades do ser humano, não do capital, não podem ser concedidas pelo mercado porque este visa o lucro.

Foto João Ripper

Quando olhamos para o campo social observa-se que o "mundo global financeiro" fez dos indivíduos um amontoado de números, senhas infinitas, cartões múltiplos, tudo para fazê-lo crer que é único, singular, não comparável com outro globalizado. Para impor-se, enquanto cidadão(ã), o indivíduo tem que conquistar a autonomia. Necessita relacioná-la como uma das formas para vencer as dificuldades de compreensão política do mundo que o cerca, para além dos problemas emergentes locais, autonomia como instrumento de formação de um cidadão capaz de ser e agir, de ter um entendimento crítico da sociedade globalizada, de ler o mundo. Isso tudo implica, necessariamente, na absorção de novos valores e na mudança de comportamentos, a partir da compreensão crítica da realidade. A autonomia é o principal canal para o alcance da participação dos cidadãos, em múltiplos espaços (políticos, produtivos, sociais, culturais, etc.), em direção a uma sociedade onde haja mudanças e emancipação sócio-política e cultural dos indivíduos e não a formação de redes de clientes usuários de políticas sociais atreladas, não emancipatórias. É preciso ter a capacidade de fazer uma leitura crítica do mundo que nos rodeia, no plano local, para entender as contradições globais, para conviver com as fragmentações e os antagonismos de uma sociedade que faz dos conflitos a sua base de sustentação, para compreender as novas concepções do processo cultural civilizatório em marcha na globalização.

Portanto, um dos grandes desafios, na era da globalização, é a construção e implementação de um processo de autonomia política, que ensine a aprender a ocupar espaços públicos, a ter uma visão crítica do mundo, de não ser dependente de práticas políticas do passado. A autonomia deve capacitar os indivíduos a inserir-se no contexto social e a compreender as circunstâncias da existência humana na globalização. Estes desafios remetem a figura dos sujeitos coletivos da sociedade civil organizada, os movimentos sociais, as ONGs, as associações comunitárias, as cooperativas populares, fóruns diversos, etc.


A SOCIEDADE CIVIL:
OS MOVIMENTOS SOCIAIS E AS ONGS LATINO-AMERICANAS


O movimento social é expressão máxima do sujeito coletivo em ação. Este sujeito só se realiza no coletivo, interagindo com o outro, trocando e confrontando subjetividades, num processo de inter-subjetividade. Os sujeitos individuais tem seus pertencimentos, suas experiências vivenciadas e seus projetos - que não são de ordem pessoal no sentido intimista, de sua personalidade. São requerimentos de sua existência como ser humano - gênero, raça, língua, nação, religião, valores e tradições herdadas e adquiridas, etc. Quando confrontados uns com outros, quando relacionados por redes solidárias ou de pertencimento cultural, estes sujeitos individuais constroem o sujeito coletivo. Os movimentos sociais são um dos principais sujeitos coletivos porque eles são fonte de inovação e matrizes geradoras de saberes.

Foto João Ripper

A América Latina é um continente pontilhado e recortado por movimentos sociais na atualidade, de diferentes tipos, formas e demandas. Eles emanam de redes associativistas que envolvem predominantemente as classes populares e as camadas médias. Muitos deles, na atualidade, fazem um apelo a um sujeito plural, numa sociedade que os exclui, discrimina, segrega, tenta suprimir e substituir seus valores e cultura.

No Brasil e em vários outros países da América Latina, no final da década de 70 e parte dos anos 80, ficaram famosos os movimentos sociais populares articulados por grupos de oposição ao então regime militar, especialmente pelos movimentos de base cristãos, sob a inspiração da Teologia da Libertação. Ao final dos anos 80, e ao longo dos anos 90, o cenário sociopolítico se transformou radicalmente. Inicialmente teve-se um declínio das manifestações nas ruas que conferiam visibilidade aos movimentos populares nas cidades. Alguns analistas diagnosticaram que eles estavam em crise porque haviam perdido seu alvo e inimigo principal - o regime militar. Na realidade as causas da desmobilização são várias. O fato inegável é que os movimentos sociais dos anos 70/80 contribuíram decisivamente, via demandas e pressões organizadas, para a conquista de vários direitos sociais novos, que foram inscritos em leis na nova Constituição brasileira de 1988.

A partir de 1990, ocorreu o surgimento de outras formas de organização popular, mais institucionalizadas. No Brasil, por exemplo, teve-se a constituição de Fóruns Nacionais de Luta pela Moradia, pela Reforma Urbana; Fórum Nacional de Participação Popular etc. Os fóruns estabeleceram a prática de encontros nacionais em larga escala gerando grandes diagnósticos dos problemas sociais, assim como definindo metas e objetivos estratégicos para solucioná-los. Emergiram várias iniciativas de parceria entre a sociedade civil organizada e o poder público, impulsionadas por políticas estatais ou por requerimentos constitucionais como a formação de conselhos gestores. Todos atuam em questões que dizem respeito a participação dos cidadãos na gestão dos negócios públicos. À medida que as políticas neoliberais avançaram foram surgindo outros movimentos sociais como: contra as reformas estatais, a Ação da Cidadania contra a Fome, movimentos de desempregados, ações de aposentados ou pensionistas do sistema previdenciário. Algumas dessas ações coletivas surgiram como respostas à crise socioeconômica, atuando mais como grupos de pressão do que como movimentos sociais estruturados. Os atos e manifestações pela paz, contra a violência urbana, também são exemplos desta categoria. Se antes a paz era um contraponto à guerra, hoje ela é almejada como necessidade ao cidadão-cidadã comum, em seu cotidiano. Em todas as mobilizações e movimentos, a presença das mulheres têm sido marcante e majoritária. Elas também criaram redes de conscientização de seus direitos e frentes de lutas contra as discriminações.

Os movimentos localizados no meio rural, como o dos indígenas aumentaram suas mobilizações e organizações, especialmente nos países de língua espanhola onde sempre foram parte do maior segmento das classes populares. O Brasil, diferentemente de outros países da América Latina, tem mantido a maioria do que restou de sua população indígena, confinada em áreas rurais longínquas, como na Amazônia. Há pouca visibilidade dos descendentes de índios nas cidades, a maior visibilidade nos centros urbanos é a da população afro-brasileira, dada nossas origens coloniais, ao passado escravocrata. Mas o trabalho focalizado das ONGs possibilitou, nas entidades que tem por base práticas cidadãs e projetos de emancipação junto aos grupos que atuam, que vários grupos indígenas se organizassem e passassem a lutar por suas terras, pela sua língua, por escolas com professores que ensinem nas e em suas línguas, e pela venda de seu produtos a preço justo e não como quinquilharias para turistas. As ONGs ainda são o principal canal para levarem sua voz e protesto ao mundo, já que os governos muitas vezes são surdos. Esse protagonismo ativo do movimento indígena ficou mais visível.

Quanto aos sem-terra, o processo é diferente pois não são as ONGs que lhes assessoram mas grupos articulados às pastorais, aos sindicatos, e a algumas lideranças históricas. No Brasil eles se transformaram, via o MST - Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem-Terra -, no movimento mais organizado do Brasil e da América Latina. Nos últimos anos houve um deslocamento do foco da luta por entenderem que a contradição principal no meio rural brasileiro hoje está entre o grande "agronegócio" exportador e os trabalhadores rurais sem terra, e não entre a desapropriação e o crédito fundiário, como nos anos 90.

Quanto a outros movimentos sociais, de caráter global, como o movimento contra o pagamento da dívida externa, embora tenha conseguido obter milhares de assinaturas em 1999, no início deste século ele ficou confinado a pequenos círculos dos militantes e não sensibilizou a sociedade. Mais forte do que ele tem sido o movimento antiglobalização no qual o Fórum Social Mundial ocorrido em Porto Alegre, em 2001/2002 /2003 e 2005, são uma parte de sua manifestação. Ao nos referirmos aos FSMs ocorridos em Porto Alegre é importante atentarmos para as concepções globais que estão sendo construídas, especialmente na área dos direitos, de diferentes tipos, predominando os humanos e o grande destaque para os direitos culturais.

Foto João Ripper

Alguns autores elaboraram a hipótese de uma "tolerância" maior do estado na atualidade em relação aos movimentos sociais. Creio que ela é insuficiente para explicar este cenário porque ignora todo o processo da luta dos movimentos e atribui ao Estado e às políticas neoliberais uma força de controle social, de integração dos demandatários na ordem instituída via flexibilização da repressão; essas formas tolerantes promoveriam uma inclusão "por cima", pelo alto. Trata-se, ao meu ver, de um processo de modernização conservadora, mas ele é permeado de tensões e conflitos, um processo cujos resultados mudam constantemente segundo a correlação das forças presentes.

Para finalizar mencionamos o movimento das associações de "Economia Solidária", e as ações dos grupos organizados em redes solidárias ou cooperativas populares, voltadas para a produção de bens ou serviços que gerem renda para as populações de baixa renda, nos chamados projetos de inclusão social. O território tem uma importância fundamental nestas atividades porque ele não é apenas um lugar geográfico-espacial. Ele é um elemento de agregação, de catalização de energias e solidariedades. Ele formata a identidade de um grupo.

Concluindo: creio que o trabalho de FORMAÇÃO junto aos movimentos sociais deve ser retomado (e não só informação). A motivação à participação e a renovação de quadros nos movimentos é uma necessidade. A preocupação com a sistematização das aprendizagens e com a construção do conhecimento precisam estar na agenda das entidades que realizam mediações pedagógicas com os movimentos. Aprendizagens e metodologias devem ser sistematizadas/socializadas. O interesse pelo tema dos movimentos sociais tem diminuído na academia e centros de pesquisa, como se fosse um tema do passado, ou apenas do mundo rural, dos sem-terras. Retomar a discussão da universalidade e da singularidade, contra a política da focalização é uma forma de discutir a política. Muitos marcos legais que normatizam tais políticas devem ser revistos. As experiências devem ser resgatadas para que a esperança se reascenda. Os movimentos devem reapropriar-se do eixo da criatividade, das iniciativas. Na maioria dos casos eles estão a reboque das iniciativas governamentais, à espera de programas sociais que atendam suas demandas. As iniciativas inovadoras têm que pautar as ações coletivas. (NA)

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