 |

La Revista de la Pátria
Grande |
|
|
|
|
CONSTRUINDO CAMINHOS/
CONSTRUYENDO CAMIÑOS
|
Bragança
de Belford Roxo: uma história de paixão pelo futebol
Stela
Quedes Caputo
Rio de Janeiro - Brasil

En Bom Pastor, Belford Roxo, municipio de la "Baixada
Fluminense" (RJ), región abandonada por el poder público,
se sitúan la sede del Bragança Futebol Clube, la Escuela
Infantil de Fútbol y el Centro Social Educacional y
Deportivo Bragança. La sede de la Escuela Infantil,
que viene formando a más de 200 niños en diez años,
no pasa de dos paredes levantadas en un terreno adquirido
por la familia responsable por esta realización. A pesar
de las adversidades del lugar y de las condiciones precarias
de vida y trabajo en que se encuentran los niños y sus
familias, los sucesos profesionales y los trofeos conquistados
en campeonatos y torneos son muchos. "Sueño es compromiso".
Y el compromiso no es solo con el fútbol, es con la
propia vida.
Laura Moraes, 39 anos, é técnica do Bragança
Futebol Clube desde sua fundação, em 26 de janeiro de
1992. Na véspera do time completar 14 anos, ela me recebe
em sua casa, na rua Maria Tedin, número 29, em Bom Pastor,
Belford Roxo, Baixada Fluminense. Nessa casa simples,
Laura mora com sua família, Tosa, seu marido e cabeça
de área do time e os dois filhos do casal, Wallace,
de 13 anos, cabeça de área como o pai e Kelly,
de 11, única da família a não se interessar por futebol,
ela quer ser modelo. A sede do melhor time da história
de Belford Roxo e da Escolinha de Futebol da Laura,
criada na mesma época, também funciona ali, o que não
é difícil perceber, já que os móveis da sala tiveram
de abrir espaço para os mais de 80 troféus conquistados
em campeonatos, torneios e copas.
A Copa Verão de Futebol Amador do Jardim Bom Pastor
começa no dia seguinte. Nesse sábado ensolarado, véspera
de jogo, em pouco tempo a casa é tomada por 20, 30,
50, crianças que esperam que a técnica distribua os
uniformes para o treino. Além de comandar o time, ela
lava, passa e guarda todos os uniformes das cinco categorias
do clube (fraldinha, pré-mirim, mirim, infantil e juvenil),
e do próprio Bragança. "Sempre fiz isso, desde o
começo, e agora é ainda mais importante porque algumas
camisas têm 10 anos, estão muito puídas e não podemos
perdê-las" , explica a técnica. Quem não gosta muito
da bagunça é Kelly: "É ruim acordar com as crianças
dizendo 1,2,1,2, já aqui na varanda. E quase todo dia
é isso. Minha mãe é maluca por futebol, se tem problema
do time para resolver ela larga tudo e nem faz comida,
sempre sobra é pra mim" , reclama a futura modelo
e atriz. A realização da Copa, com término previsto
para junho, é do Centro Social Educacional e Esportivo
Bragança, também dirigido pelo casal e o campeão receberá
R$150,00.
As dificuldades da família, do time e da escolinha são
evidentes. Nessa semana de chuvas fortes, a geladeira
e o fogão foram colocados em cima de tijolos, já que
a água do valão que corta o bairro alagou as casas.
"Quase perdemos tudo, mas conseguimos salvar também
os documentos e fotos do time, já pensou perder nossa
história?" , diz Laura, visivelmente mais feliz
por ter salvo as fotos do Bragança do que a geladeira.
Entre os documentos salvos está o certificado expedido
pelo Conselho Municipal dos Direitos da Criança e do
Adolescente de Belford Roxo para o Centro Social. Outro,
é a renovação de um convênio com a Universidade Suam,
para a cessão de profissionais de várias áreas para
atuarem no Centro. "Sempre renovamos esse convênio
para não perdê-lo, mas nunca pudemos receber os profissionais
que trabalhariam com as crianças porque não temos sede"
, lamenta Laura. A sede que poderia abrigar a entidade
e receber os profissionais para trabalharem com as mais
de 200 crianças da escolinha, há dez anos, não passa
de duas paredes erguidas em um terreno adquirido pela
família em frente à casa de Laura. "Há anos recebemos
promessas, seja do poder público ou de políticos. Estamos
cansados disso. Contamos mesmo é com nosso esforço e
o das crianças. Só que está cada dia mais difícil das
famílias contribuírem mesmo para comprar o lanche. A
maioria está desempregada ou em empregos precários,
nem temos coragem de pedir" , diz Tosa, antes de
sair todo animado, levando para o campo, a uns 50 metros
de sua casa, cerca de 50 crianças, entre 5 e 17 anos.

CERCADOS POR PROBLEMAS, MAS CHEIOS DE SONHOS
Laura vai ver o jogo e, mal chega, já se entusiasma:
"Cadê o lateral? Abre Ronaldo!" A concentração
dos times é feita embaixo dos pés de jamelão, única
sombra do local. O campo é cercado, de um lado, pelo
valão com esgoto a céu aberto e, de outro, pelo aterro
sanitário da indústria alemã Bayer. "Agora até que
eles tratam mais o lixo químico, mas ainda sofremos
quando venta e um pó amarelo entra em nossas casas.
As crianças têm alergia" , afirma Laura. Aliás,
o campo de futebol utilizado pela escolinha pertence
à própria Bayer e está emprestado pela indústria ao
clube. "Não há nada escrito, foi só um acordo que
a Bayer fez conosco e que vai acabar quando o aterro
sanitário precisar cobrir o campo, como já fez com outros
terrenos aqui da área. O aterro avança e nosso tempo
diminui" , preocupa-se Tosa.
Enquanto Márcio Luiz, jogador do Bragança, treina no
campo com os pré-mirins, embaixo do jamelão, Tosa dá
orientações aos mirins: "Quem estiver estudando
à tarde, treina pela manhã e quem estudar pela manhã
treina à tarde. Mas ninguém pode faltar, nem na escola,
nem aqui" , determina. Depois do treino, todos tomam
banho no chuveiro instalado no quintal da casa de Laura
e a técnica distribui novas tarefas. Dois meninos vão
comprar mais pão, mortadela e refrigerante, enquanto
Kelly vai preparando os sanduíches. Ao todo, 90 pães
foram servidos e, depois do lanche, a garotada vai para
casa, mas muitos ficam por ali mesmo conversando o resto
do dia sobre futebol e sonhos profissionais. Sonhos
que para alguns dos ex-craques do Bragança já estão
virando realidade. É o caso de Alexandre da Silva Gabriel,
o Nikita, atualmente com 19 anos, que, durante
uma partida no campeonato de Belford Roxo, no ano passado,
marcou dois gols e acabou escolhido por "olheiros" da
categoria júnior do Corinthians de Alagoas. "Eles
vieram para ver o Nikita e o Leonir, que já tinha sido
levado pelo Criciúma de Santa Catarina e levaram o Nikita,
mas ele vem nos visitar sempre que pode" , conta
a orgulhosa Laura.
Sentados na porta da cozinha, comendo pão com mortadela,
outros meninos esperam sua vez. Justamente ali, segundo
Tosa, estão os próximos a serem "descobertos". O meio-campo,
William Rodrigues de Oliveira, de 14 anos, conhecido
como "Dibilim", que já treina também no Núcleo
do Fluminense, em Nova Iguaçu, e o atacante Leandro
dos Santos, 13 anos. "Sonho também é compromisso.
Não basta que eles sonhem, é preciso que se comprometam"
, ensina Tosa.
VITÓRIAS PARA ALÉM DO FUTEBOL
O compromisso, segundo Laura, não é só com o futebol,
é com a própria vida que, numa região como a Baixada,
tão abandonada pelo poder público, nem sempre é fácil
de preservar. "Ficamos contentes quando os meninos
ganham campeonatos, mas é quando vencem na batalha pela
educação e pelo emprego que realmente comemoramos.
E olha que nesse jogo os adversários são muitos e, às
vezes, mais fortes" , revela a técnica, referindo-se
também ao tráfico de drogas. De acordo com Laura, é
impossível contabilizar, ao longo desses anos, quantos
jogadores morreram por algum tipo de envolvimento com
o tráfico na região. "A conta não caberia nos dedos
das mãos, acho que já perdemos para o tráfico cerca
de 10% a 15% de crianças e jovens que passaram pela
escolinha, mas a gente está vencendo essa longa partida"
, garante.
J. M.A, de 26 anos, sabe bem o que isso significa. Chamado
por Laura, ele conta sua história. "Treino na escolinha
desde menino e, mesmo tendo bom aproveitamento e orientação,
por causa das necessidades que passava, acabei me envolvendo
com drogas e entrando também para o crime. Me afastei
da escolinha que era a minha família porque não queria
colocar ninguém em risco. Em 2002, durante uma tentativa
de assalto, dois companheiros meus foram mortos e fui
preso com outros três. Fiquei quase dois anos na prisão.
Saí, percebi meus erros e voltei pra cá" , conta
J.M, que largou as drogas, arranjou um emprego e começou
a estudar. "Agradeço a Deus, à minha família, a
Laura e a Tosa. Agora só falta voltar a treinar, não
dá para ser craque, mas pelo menos perco essa forma
arredondada" , brinca.

NA SELEÇÃO DE LAURA,
O FENÔMENO FICARIA NO BANCO
Preocupada com a seleção brasileira, Laura acha que
não se deve confiar no favoritismo do Brasil nessa Copa
e manda um recado para o técnico Parreira. "O Ronaldinho
fenômeno deve ficar no banco e o Adriano deve ser titular.
O principal não é a publicidade, é vencer e o Ronaldo
não está bem não" . Se a técnica do Bragança não
poupa nem o fenômeno, por que pouparia o marido?
"Quando o Tosa joga mal também fica no banco. Não arrisco
meu time por nada" , garante.
Apaixonados por futebol desde crianças, Laura Moraes
e Aílton Tosa se conheceram nos campeonatos de Beford
Roxo. "Eu torcia para o Estrela Azul, jogava em
times femininos e ele jogava no Cairu. O futebol nos
aproximou e nos une ainda hoje" , diz Laura. O casal
se dedica muito à família e também freqüenta a igreja
presbiteriana do bairro, mas, não há como disfarçar,
não fosse isso, o esporte seria absoluto na vida de
ambos. O casamento aconteceu no dia 26 de dezembro de
1987, em plena Copa Infantil de Bom Pastor e a lua-de-mel
seguia tranqüila em Muriqui. Tranqüila? Nem tanto. Preocupados
com a final, que aconteceria em janeiro de 88, os dois
não tiveram a menor dúvida e voltaram muito antes do
previsto. "Naquele ano fomos campeões, não perderíamos
isso por nada" , garante Tosa. E Laura confirma.
Na verdade, Laura e Tosa têm poucas divergências, talvez
a única seja a de que ela é flamenguista doente e ele,
vascaíno roxo.
(NA)
|
|
|
NOVAMERICA
Rua Dezenove de Fevereiro, 160 - Botafogo
22280-030 - Rio
de Janeiro - RJ
Brasil
Tel. (fax): (55) (21) 2542-6244
e-mail: novamerica@novamerica.org.br
|
CENTRO
NOVAMERICA DE EDUCAÇÃO POPULAR
Praça Santos Dumont, 14 - Centro
25880-000 - Sapucaia
- RJ
Brasil
Tel. (fax): (55) (24) 2271-2004
e-mail: centronovamerica@uol.com.br
|
2003/2010
Novamerica - www.novamerica.org.br - Todos os direitos resevados.
|