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a Revista de la Pátria Grande


EM DEBATE / EN DEBATE

Futebol: paixão, trabalho e educação
Entrevista realizada por
Adélia Maria Nehme Simão e Koff
Equipe Novamerica - Brasil



FÁBIO ANDRÉ KOFF

Fábio André Koff nasceu em 13 de maio de 1931, na cidade de Bento Gonçalves, Rio Grande do Sul, Brasil. Formado em Ciências Jurídicas e Sociais é advogado, membro do Instituto dos Advogados (OAB/RS), exerceu a magistratura no seu estado ao longo de 20 anos. Foi Professor de Ensino Superior e Secretário Especial do Governo do Estado do Rio Grande do Sul, no Governo Pedro Simon, tendo ocupado também a Presidência da Companhia Riograndense de Saneamento do Estado.

Apaixonado pelo futebol, Fábio André Koff foi Presidente do Grêmio Football Porto Alegrense, nos períodos de 1982 a 1983 e de 1993 a 1996. Campeão da América nos anos de 1983 e 1995; Campeão do Mundo em 1983; Campeão do Campeonato Brasileiro no ano de 1996; Campeão da Recopa de Campeões; Campeão da Copa do Brasil em 1994 e 1996; quatro vezes Campeão Estadual. Foi Presidente do Conselho Deliberativo do Grêmio, nos anos de 1991 e 1992. Chefe da delegação do Brasil na Copa do Mundo de 1998, na França e desde de 1995 é Presidente da União dos Grandes Clubes do Futebol Brasileiro (Clube dos Treze).

Fábio André Koff nació el 13 de mayo de 1931, en la ciudad de Bento Gonçalves, Rio Grande do Sul, Brasil. Graduado en Ciencias Jurídicas y Sociales, es abogado, miembro del Instituto de Abogados (OAB/RS) y ejerció la magistratura en su estado por veinte años. Fue Profesor de Enseñanza Superior y Secretario Especial del Gobierno del Estado de Rio Grande do Sul, habiendo ocupado también la Presidencia de la Companhia Riograndense de Saneamiento del Estado.

Apasionado por el fútbol, Fábio André Koff fue Presidente del Club "Grêmio Foot-ball Porto Alegrense", en los períodos de 1982 a 1983 y de 1993 a 1996, equipo que se consagró Campeón de América en los años 1983 y 1995; Campeón Intercontinental en 1983; Campeón brasileño en 1996; Campeón de la Recopa de Campeones; Campeón de la Copa de Brasil en 1994 y 1996 y cuatro veces Campeón Estatal. Fue Presidente del Consejo Deliberativo de "Grêmio" en los años 1991 y 1992. Jefe de la delegación brasileña en el Mundial de Fútbol de 1998 en Francia y desde 1995 es Presidente de la União dos Grandes Clubes do Futebol Brasileiro (Clube dos Treze).


Foto Agência TYBA

NA - Na sua opinião, por que o futebol desperta tantas paixões? Mobiliza tanta gente?

Fábio André Koff - Para esta pergunta não existe uma resposta objetiva e def nitiva, vez que a paixão produzida pelo jogo chamado futebol está presente em qualquer disputa, seja válida por uma competição oficial ou, simplesmente, um confronto amistoso entre amigos. É possível que a raiz esteja na natureza competitiva do ser humano, em sua face mais sombria. Na China Antiga, 3000 a C. os militares, após as guerras, formavam equipes para chutar a cabeça dos soldados inimigos. Com o tempo, as cabeças foram substituídas por bolas de couro revestidas com cabelos. Formavam-se duas equipes com oito jogadores cada uma e o objetivo era passar a bola de pé em pé, sem deixá-la cair, levando-a para dentro de duas estacas fincadas no chão, ligadas por um fio de cera. No Japão Antigo, foi criado um esporte parecido com o futebol atual. Chamava-se Kemari e era praticado por integrantes da corte do imperador. O jogo acontecia em um campo de, aproximadamente, 200 metros quadrados, e a bola era feita com fibras de bambu. Historiadores relatam confrontos de Kemari entre equipes japonesas e chinesas. Também na Grécia Antiga, no século I a C., uma modalidade esportiva chamada Episkiros era disputada com bola feita de bexiga de boi cheia de areia ou terra. Todos os relatos dão conta de que essas disputas eram marcadas por grande ardor dos jogadores e entusiasmado acompanhamento dos seus torcedores. Sua popularização e desenvolvimento devem relacionar-se ao seu jeito simples de jogar: basta uma bola, equipes de jogadores e as traves para que, em qualquer espaço, crianças e adultos possam se divertir jogando futebol. A paixão tornou-se parceira indissociável deste esporte e tem sido o seu fator de sustentação.

NA - Muitas pessoas associam futebol a imensas somas de recursos financeiros, grandes negócios. O que o senhor teria a nos dizer sobre isso?


Fábio André Koff - Esta é uma decorrência natural iniciada em 1885, quando foi instituído o profissionalismo no futebol inglês. Em 1904, com a criação da FIFA - Federação Internacional de Futebol Associado - o futebol ganhou organização mundial. A nova entidade passou a organizar e gerenciar as maiores competições do mundo, ampliando geometricamente o interesse das populações por este esporte. Era inevitável que um produto, com tamanha aceitação popular, acabasse se valorizando a ponto de atrair investimentos cada vez mais vultuosos. À sombra do futebol, nosso tema, desenvolveu-se a indústria de material esportivo. Aos poucos, os clubes de futebol firmaram-se como marcas valiosas e os seus profissionais passaram a ser disputados por valores crescentes, gerando um milionário mercado de transferências. Além disso, o fenômeno da globalização aproximou os povos e o intercâmbio de imagens transmitidas pela televisão e, hoje, pela internet, ativou negócios para limites ainda desconhecidos. Hoje, o mercado do futebol pode ser comparado, por sua popularidade, a indústria do plástico.

NA - Parece não haver dúvidas de que existem relações muito intensas entre futebol, trabalho e educação. Fale-nos um pouco sobre isso.

Fábio André Koff - Na medida em que o futebol se expandiu e se profissionalizou, sua estrutura funcional passou a exigir a concorrência de mão-de-obra em variada escala de especialização que flutua entre a atividade fim, dentro do campo, e as ações de manutenção, organização e planejamento, fora dele. Este imenso campo de trabalho que no Brasil, estima-se, acolhe mais de um milhão de pessoas, alarga-se no em torno do futebol, produzindo empregos indiretos que repercutem na complementação de milhares de orçamentos domésticos. É, pois, pujante e crescente a relação do futebol com o trabalho. No que diz respeito à educação, o futebol reflete, de certa forma, os códigos que regem a convivência social entre as pessoas. Suas regras são conhecidas e respeitadas. E, quando violadas, seus infratores são punidos com a severidade adequada. Em todo o mundo, não há conjunto de regras mais conhecido do que as do futebol. Sem maiores pretensões, o fato de uma criança descobrir, jogando futebol, que existem regras a serem observadas, contribui com a sua formação e educação para uma vida em sociedade.

NA - A questão da construção de valores também parece ser um aspecto importante quando falamos de futebol. Como o senhor vê essa relação?


Fábio André Koff
- Poucos espaços públicos contemplam a convivência democrática com a intensidade de um estádio de futebol. Este congraçamento, de inegável ecumenismo social, consagra o elevado valor da igualdade. Ricos, pobres, pessoas de todas as raças e credos confraternizam, lado a lado, com o mesmo direito à emoção. No campo, os jogadores empenham-se pela vitória sob a égide da lealdade para com o adversário e pleno respeito pelas regras, sempre aplicadas quando o calor da disputa provoca deslizes comportamentais. O acatamento à autoridade do árbitro é valor que também reflete recomendável atitude social. Uma criança que aprende, desde cedo, que só obterá sucesso pela excelência do seu trabalho aliada ao respeito pelo próximo, será um adulto capaz de aceitar e praticar, com naturalidade, as normas impostas pelo convívio social. O futebol facilita esta compreensão. O valor do trabalho dedicado se manifesta, igualmente, quando o torcedor percebe que a qualidade da performance coletiva do seu time é conseqüência de cuidadosa e intensa preparação, concluindo que nada se dá pelo acaso, mas sim, por efeito de muito e competente trabalho.

Foto Agência TYBA

NA - Há dois aspectos relacionados ao tema do futebol que, acreditamos, merece reflexão: um deles está relacionado ao comportamento das torcidas e o outro ao imaginário coletivo que gira em torno de jogadores bem sucedidos. O que o senhor tem a nos dizer sobre isso?

Fábio André Koff - O torcedor ama o seu clube, venera suas cores e idolatra os jogadores que as representam. Ele vai ao estádio disposto a participar do esforço da equipe, aplaudindo e estimulando. Frustrado nos seus anseios ele até vaia, mas este é um comportamento que se esgotará ao primeiro indício de reação do time ou, no máximo, não perdurará até o jogo seguinte, quando voltará às arquibancadas para reafirmar a sua paixão. Este é o perfil da esmagadora maioria dos torcedores de futebol e não pode ser confundido com a ação minoritária de vândalos que se incluem entre as massas para perpetrar reprováveis atitudes de violência e desrespeito.

No que se relaciona ao imaginário coletivo em torno de jogadores bem sucedidos, é preciso considerar que no futebol, como em nenhuma outra atividade profissional, é possível uma rápida ascensão social através da realização financeira. Esta realidade, tangível para poucos, mexe com a imaginação de crianças e jovens de escassas condições sociais, principalmente, levando-os a buscar no futebol os meios para realizar os seus sonhos. No final do processo, como em qualquer outra carreira, descobrem que o sucesso está destinado aos mais aptos. Porém, não se pode ignorar que grandes contingentes de jovens são desviados dos caminhos das drogas e da delinqüência pela prática do futebol. E, que não apenas a consagração profissional é capaz de transformar um menino em cidadão. Se nem todos conseguem enriquecer pelo futebol, são incontáveis os casos em que o futebol proporcionou educação e formação suficientes para que um garoto crescesse, constituísse família e conseguisse manter-se socialmente incluído. Os próprios clubes estão tratando de encaminhar as suas jovens promessas para os bancos escolares, condicionando as suas participações nas categorias amadoras ao aproveitamento escolar.

Foto Alexandre Firmino

NA - A Copa do Mundo está chegando. O senhor gostaria de deixar, aqui, alguma mensagem especial?

Fábio André Koff - O presidente da FIFA, Joseph Blatter, tem manifestado preocupação com a importação ilimitada de jogadores por parte dos ricos clubes europeus. Os efeitos desta prática, gerada pela desigualdade econômica entre países desenvolvidos e emergentes, tornam-se mais visíveis durante uma Copa do Mundo, quando as seleções nacionais são formadas, basicamente, por jogadores naturais dos seus países. Como os clubes europeus têm diminuído os seus investimentos na formação de jogadores, preferindo buscá-los nos países pobres e em idade cada vez mais baixa, as seleções européias têm apresentado um decréscimo no nível técnico das suas equipes, nos últimos mundiais. Não seria exagerado imaginar que uma supremacia dos países exportadores sobre as nações importadoras, na Copa da Alemanha, possa apressar providências que estimulem os clubes da Europa a ampliar espaços para as crianças dos seus países, contendo o êxodo, cada vez mais prematuro, de jovens jogadores do Terceiro Mundo. O futebol, em nível global, sairia beneficiado.
(NA)


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