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a Revista de la Pátria Grande


EM DEBATE / EN DEBATE

Futebol: uma paixão planetária
Entrevista realizada por
Adélia Maria Nehme Simão e Koff
Equipe Novamerica - Brasil



ARMANDO NOGUEIRA

Armando Nogueira nasceu em Xapuri, no Acre, em 1927. Com 17 anos foi para o Rio de Janeiro. Formou-se na Faculdade de Direito do Rio de Janeiro. Em 1950, começou sua carreira de jornalista no Diário Carioca. Trabalhou na Revista Manchete, no O Cruzeiro e no Jornal do Brasil. Sua coluna Na Grande Área, ainda hoje, é publicada no Diário LANCE! E na revista A+. Fez a cobertura de todas as Copas do Mundo, a partir de 1954. Começou no telejornalismo em 1959 e de 1966 a 1990 foi diretor da Central Globo de Jornalismo da Rede Globo de Televisão, onde dirigia também a Divisão de Esportes.

No canal SPORTV/Globosat, atualmente apresenta o Programa Papo com Armando Nogueira e participa do programa Redação SportTV. Na rádio CBN participa do programa CBN BRASIL. Dirige a empresa Xapuri Produções e o site: www.armandonogueira.com.br. É autor de dez livros, todos sobre esporte, dentre os quais destacamos O Canto dos Meus Amores, A Chama que não se Apaga, e o mais recente, lançado em 2003, A Ginga e o Jogo.

Armando Nogueira nació en Xapuri, Acre, en 1927. Con 17 años viajó a Rio de Janeiro. Se graduó en la Facultad de Derecho de esa ciudad. En 1950 comenzó la carrera de periodista en Diário Carioca. Trabajó en la Revista Manchete, en O Cruzeiro, y en el Jornal do Brasil. Su columna Na Grande Área todavía hoy es publicada en el Diário LANCE! y en la revista A+. A partir de 1954, cubrió todos los Mundiales de Fútbol. Comezó en el teleperiodismo en 1959 y de 1966 a 1990 fue director de la Central Globo de Periodismo en la Rede Globo de Televisão, donde dirigía también la División de Deportes.

En el canal SPORTV/Globosat, actualmente presenta el Programa Papo com Armando Nogueira y participa en el programa Redação SportTV. En la radio CBN participa en el programa CBN BRASIL. Dirige la empresa Xapuri Produções y el site: www.armandonogueira. com.br. Es autor de diez libros, todos sobre deporte entre los que se destacan: O Canto dos Meus Amores, A Chama que não se Apaga, y el más reciente, editado en 2003, A Ginga e o Jogo.


Foto Rodolpho Oliva

NA - Na sua opinião, porque o futebol desperta tantas paixões, mobiliza tanta gente?

Armando Nogueira - O futebol, desde sua origem, nasceu com a vocação da popularidade, do sucesso, porque ele é uma competição suisgeneres, de regras muito simples, de adaptações muito simples. Qualquer pessoa pode demarcar um campo e, uma vez demarcado este campo com pedras, basta ter uma bola, ir em frente e jogar. Eu acho que um outro fator que também torna o futebol fascinante é o desafio de usar os pés. Os pés sofrem muito preconceito na sociedade, sobretudo na civilização ocidental. A Europa, os Estados Unidos, esses grandes universos sempre consideraram que a nobreza está nas mãos e a falta de jeito está nos pés. Eu até diria que a riqueza está nas mãos e a pobreza está nos pés, considerando que o continente africano é o continente que mais "usa" os pés. Na realidade, dominar a bola com os pés é um desafio muito maior do que dominá-la com as mãos. E, então, esse fator, que está intimamente ligado à habilidade, junto com outro fator ligado ao preconceito acabaram transformando o futebol numa atividade realmente planetária. Quer dizer, o processo de difusão do futebol no mundo se fez em dois níveis: em um nível aristocrático, como no Brasil, por exemplo, onde a primeira bola foi trazida por um aristocrata, um estudante brasileiro, um brasileiro rico que estudava na Inglaterra, o Charlie Müller. Mas também foi difundido em todos os portos do mundo quando a Marinha Mercante, e a armada inglesa conquistavam o mundo. Onde aportasse um navio inglês, desembarcavam dezenas e dezenas de marinheiros, que ali com os nativos, iam improvisando peladas. Assim, me parece que a proletarização do futebol foi um desses fatores que contribuíram de maneira decisiva para a difusão do futebol.

NA - Como o Sr. vê a relação entre futebol e trabalho?


Armando Nogueira - É evidente que o futebol nasceu como uma coisa lúdica. Com o máximo de fairplay. Nasceu, inclusive, com a expressão verbal to play. To play em inglês é brincar, é atuar. No entanto, hoje, nas manifestações dos jogadores nas entrevistas, nas matérias de jornal eles sempre fazem referência à palavra trabalho. Há 45, 50 anos atrás, nenhum jogador usaria a palavra trabalho. Hoje o "homo ludens" passou a ser o homo faber. Todo jogador, todo atleta de qualquer atividade profissional, quando ele quer falar de sua atividade, contar como é o seu cotidiano, seu dia-a-dia, com a maior naturalidade, ele diz: "nós somos uma equipe que trabalha muito", "nós trabalhamos muito". Ele nem diz mais "nós treinamos muito", ao contrário, ele sempre diz "nós trabalhamos muito", "nosso trabalho é duro". Essa relação tirou um pouco da poesia do futebol, o lirismo do futebol e transformou o futebol numa atividade sócio-econômica. O jogador é um operário, ele pode ser um operário divino, um operário excepcional, mas isso só acontece apenas com as estrelas. A maioria deles, e em qualquer mercado, é um sub-remunerado, ele é um operário modesto, que vive e sobrevive com dificuldade, sobretudo, num país como o Brasil, onde a maioria dos clubes não paga mal e nem sempre...

Foto Adriana Cunha

NA - Futebol e Educação. Fale-nos um pouco desta relação.

Armando Nogueira - Eu acho que o futebol, nos termos em que ele está organizado hoje, profissionalizado, mercantilizado, transformado em mercado, eu não vejo nenhuma relação entre futebol e educação. Pelo contrário, futebol, como ele está organizado, como ele se desenvolve, como ele é praticado, como ele é exercido, deseduca. Ele deseduca na medida em que ele exaspera a paixão e a paixão é meio selvagem. Os jovens quando vêem um jogo pela televisão, já nem falo nos estádios, que hoje são uma temeridade brutal, eles não têm o que aprender com a grande alegoria do futebol. No início, quando o futebol começou, era uma imitação da vida. Com ele, o jovem aprendia que a vida em sociedade está sujeita a regras. A vida global, a vida comunitária, é regida por leis, por normas que dizem onde está o bem, onde está o mal; que dizem qual é o caminho certo, qual é o caminho errado E as regras do futebol ajudavam a ensinar isso. Mas hoje, as regras estão completamente corrompidas, desrespeitadas. A autoridade do árbitro, que talvez fosse uma referência semelhante à autoridade do professor diante do aluno, não é respeitada e isso acaba repercutindo no meio familiar. E se hoje, nem sempre o professor contribui para formar, para educar o jovem, muito menos o futebol, seja através do árbitro ou através da manifestação dos jogadores. Porque o jogo, tal como acontece hoje, deixou de ser uma manifestação de vida para ser um meio de vida. E aí passou a ser uma guerra de foice no escuro, infelizmente.

NA - E a relação entre futebol e mídia?

Armando Nogueira - Como o futebol acabou se transformando em um business, em um negócio que movimenta bilhões de dólares em publicidade, em merchandising, em marketing, a mídia, conseqüentemente, ficou muito atrelada a tudo isso e ela já não desfruta, nas suas editorias de esporte, da liberdade que essas editorias desfrutavam quando o futebol era um belo passatempo, das cidades do interior, e mesmo das grandes cidades, das cidades cosmopolitas. Esse fenômeno é decorrente da deturpação exagerada do profissionalismo que acabou, como eu já havia dito, tirando um pouco do lirismo. A mídia ficou caudatária de todos esses fatores de pressão. No passado, o sentimento libertário do jornalista esportivo era imenso, o jornalista esportivo não sabia o que era censura e hoje ele já sabe o que é censura. Precisa ter muito cuidado com os grandes interesses que estão em jogo. Por sua vez, a televisão, entrou no futebol, no esporte de um modo geral, como um observador e, depois, ela acabou se transformando numa parceira dos grandes promotores, dos clubes, das entidades, das confederações. E isso de uma certa maneira, condicionou muito o comportamento das televisões diante do público, até porque a televisão precisa de audiência e tem que seguir mais ou menos uma política de não desvalorizar o espetáculo que ela está apresentando.

Foto Rodolpho Oliva

NA - Futebol e torcida. Fale-nos um pouco do seu significado e papel em campo e fora dele.

Armando Nogueira - A torcida é um exemplo edificante e triste da deformação provocada pelo futebol. Ao mesmo tempo que surgiram os "holligans" no futebol europeu, de um modo geral, embora a palavra seja inglesa e o fenômeno apareça restrito a Inglaterra, os vândalos do futebol estão na Holanda, na Alemanha, na Itália, na Espanha, em qualquer país, ninguém está a salvo deles. Na Argentina, nós temos verdadeiras falanges que atuam nos estádios onde eles despejam os seus instintos mais selvagens. Isso acontece com a criação no Brasil e, principalmente, na Argentina, das chamadas "torcidas organizadas" que se transformaram em verdadeiros mercenários do futebol. Remunerados até pelos clubes, melhor dizendo, pelas facções políticas dos clubes que mantém uma relação espúria com as torcidas, usando-as como instrumento político para combater uma diretoria, por exemplo. A diretoria, por sua vez, suborna aquelas falanges, aqueles grupos e estimula a subdivisão das torcidas. Antes, as torcidas torciam nos estádios sem descriminação -rubro-negros e vascaínos, rubro-negros e tricolores- eles torciam misturados, mas hoje em dia a polícia estabelece áreas, define setores para determinadas torcidas e, inclusive, já separa segmentos de uma mesma torcida que se odeiam. E como esse é um fenômeno onde se projeta, de maneira significativa, a gravidade da violência urbana, de um modo geral, nas cidades como o Rio de Janeiro e São Paulo, o futebol passa a ser um caldeirão assustador. Eu não consigo nem entender como é que as famílias correm o risco e ainda levam seus filhos ao campo de futebol.

NA - É muito comum as pessoas associarem futebol e sucesso. O que o senhor pensa sobre isso?

Armando Nogueira - Graças ao sucesso, hoje, no esporte, existem personalidades transformadas em "garotos-propaganda", com uma receita paralela a sua remuneração profissional e que é dez vezes maior do que a receita que eles têm com os seus contratos profissionais com os clubes. De um modo geral, esses jogadores, são usados, atualmente, por toda a mídia publicitária como nunca foram usados antes. Evidentemente, que essa relação é muito temerária. Um exemplo: alguém resolve investir num jogador como o Edmundo ou em um jogador como o Romário, ambos são jogadores polêmicos que não tem um mínimo de fairplay. Romário, dentro de campo, sempre foi um jogador padrão de elegância, de comportamento, de fairplay, mas fora de campo, ele tem uma vida que não pode ser usada como exemplo para a juventude. O mesmo acontece com o Edmundo e, por isso, os dois sumiram do universo publicitário. Na Inglaterra, o George Best se envolveu com álcool, com bebida e também foi cortado da propaganda. Entretanto, a verba destinada, hoje em dia, à publicidade, usando o prestígio dos jogadores de futebol, de basquete, de volei é uma coisa avassaladora.

Foto Agência TYBA

NA - A Copa do Mundo está chegando e gostaríamos de saber como o Sr. está vendo essa Copa da Alemanha? Quais as suas expectativas?


Armando Nogueira - A Copa do Mundo é um evento apaixonante. E hoje, um evento planetário. A FIFA transformou a Copa do Mundo num grande acontecimento, onde bilhões e bilhões de dólares e de euros são movimentados. Além disso, do ponto de vista da organização, é um evento exemplar. Basta lembrar a Copa do Mundo que aconteceu nos Estados Unidos -um país sem tradição, sem vínculo com o futebol- foi um grande acontecimento, um sucesso absoluto. A FIFA, de certa maneira, tem como meta transformar cada Copa do Mundo em um evento monumental, cósmico. Há também os Jogos Olímpicos de Verão que acabam se transformando em uma grande competição entre o Comitê Olímpico Internacional e a FIFA para ver quem organiza melhor os eventos. E os dois organismos têm dado o exemplo magnífico de como é que se pode fazer bonito.
(NA)


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