Revista

L
a Revista de la Pátria Grande


EM DESTAQUE / EN DESTAQUE

Tempos de Mudança
José María Gómez*

    
Michelle Bachelet                     Evo Morales

Há uma percepção generalizada, dentro e fora de América Latina, de que a região foi tomada, para esperanças de uns e temor de outros, por uma dinâmica acelerada de transformação política. Tal percepção, como se sabe, decorre da sucessão de processos eleitorais que, nos últimos anos, consagraram o acesso às mais altas posições de governo de forças progressistas e de esquerda, críticas ao modelo econômico neoliberal e ao unilateralismo imperial dos Estados Unidos no planeta e na área. Daí a associação imediata com os "novos tempos" - até por suas trajetórias biográficas - de Lula, Kirchner, Tabaré Vásquez e, recentemente, do líder cocalero indígena, Evo Morales, e da socialista, ex-torturada e filha de general legalista assassinado pela ditadura de Pinochet, Michelle Bachelet; sem esquecer, certamente, de Chávez (cuja irrupção eleitoral em 1998 já pré-figurava o ciclo atual) nem de outros nomes com fortes chances de se inscrever, ao longo de 2006, na tendência atual (López Obrador, Ollanta Humala, Daniel Ortega).

De fato, os processos em curso implicam mudanças significativas na agenda política interna de muitos países latino-americanos, bem como na agenda regional e hemisférica em função dos impactos no relacionamento com a hiperpotência do Norte. A rigor, o contraste com a década dos noventa não poderia ser maior. Nessa conjuntura histórica, coalizões eleitorais triunfantes que contavam com o suporte ostensivo das elites e classes dominantes nacionais e do bloco de poder imperial global (constituído por Estados centrais - sob aberta supremacia americana -, as frações mais transnacionalizadas do capital, as instituições financeiras e de seguridade internacionais, e os dispositivos de aglutinação ideológica de matriz neoliberal), aderiram à retórica celebratória da globalização capitalista e passaram a implementar os drásticos programas de ajuste estrutural que o "Consenso de Washington" formulou para a periferia.

Hoje, após anos de aplicação sistemática, são bem conhecidos seus efeitos negativos e cumulativos na região. A lista é longa. Em resumo, diante do cenário marcado pela deslegitimação e o fracasso do modelo neoliberal, a fragilização da democracia representativa, a ascensão da contestação social e os continuados exercícios hegemônicos da hiper-potência americana, não surpreende que coalizões progressistas e de esquerda obtenham contundentes triunfos eleitorais. Trata-se de resultados que, para além das características singulares, revelam uma série de traços comuns: re-valorizam o papel ativo e regulador do Estado na economia; priorizam a questão social na problemática do desenvolvimento e da cidadania de modo a reduzir o padrão escandaloso de pobreza, desigualdade social e desemprego; sustentam a preservação ou recuperação do controle nacional sobre recursos naturais estratégicos; redefi nem os temas da Nação e do Estado Democrático à luz do reconhecimento das identidades particulares e da inclusão igualitária dos direitos das maiorias ou minorias étnicas e sócio-culturais; pretendem impulsionar projetos de integração orientados por objetivos geoeconômicos de ampliação das margens de autonomia regional com relação aos centros do poder mundial (Comunidade das Nações do Sul, Mercosul ampliado, ALBA, intensificação das relações entre Venezuela, Brasil e Argentina em matéria energética, financeira, de infra-estrutura física e telecomunicações).

Assim sendo, cabe perguntar sobre o significado dessa "revira-volta" na conjuntura política de América Latina, mesmo que se trate de incipientes processos em curso. Decerto, não faltam leituras simplificadoras - com freqüência, de signos ideológicos contrários - que vêm no fenômeno uma "virada à esquerda" do continente. Por sua vez, em Washington, o sinal de alarme parece ter disparado tanto no campo conservador, dentro e fora da administração Bush, quanto em círculos liberais, tal como o demonstram declarações oficiais, avaliações de think tanks e editoriais de jornais influentes.

Mas a realidade parece ser mais complexa, ambivalente e contraditória do que as leituras dessa índole sugerem. Sem dúvida, como resultante do processo de deslegitimação e contestação crescente das nefastas experimentações neoliberais, o pêndulo político na América Latina está se deslocando em direção contrária àquela que dominava de maneira absoluta em períodos anteriores não tão distantes. Entretanto, tal direção só implica uma tendência geral de condições políticas favoráveis para sentar as bases do início de uma mudança profunda no continente, sem que, ademais, vislumbre-se um princípio de unidade real, nem nos conteúdos nem no sentido último.

Em outras palavras, a deslegitimação e o fracasso do modelo neoliberal não têm impedido que suas políticas, no essencial, persistam, assim como ainda não há modelos de desenvolvimento alternativos à vista. Por outro lado, a heterogeneidade das situações nacionais e dos signifi cados específicos dos triunfos eleitorais recentes de forças progressistas e de esquerda (em função das trajetórias, composições sociais e, sobre tudo, orientações político-ideológicas diferenciadas - que vão do nacional-populismo até o indigenismo, passando por tendências várias socialdemocratas), tornam extremamente difíceis as possibilidades de convergência política e de unidade de ação. Em suma, a partir do presente em movimento e em disputa, e contra o grave risco sempre atualizado de tornar-nos províncias do Império se nada for feito, apresentase a tarefa complicada e múltipla (em termos de atores, questões, níveis de ação e práticas concretas de governo e luta social) de traduzir e levar adiante esse enorme potencial de mudança em projetos concretos de transformação com sustentabilidade política, tanto no plano interno dos países quanto no regional. Algo que, por enquanto, está longe de ter realmente começado, mas que vale a pena lutar para que aconteça. (NA)


*Professor da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro e da Universidade Federal do Rio de Janeiro.

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