Revista

L
a Revista de la Pátria Grande


ENTREVISTA / ENTREVISTA

“O futebol é uma vida para mim”
“El fútbol es una vida para mí”
Entrevista com Carlos Alberto Parreira
Realizada por Adélia Maria Nehme Simão e Koff
Equipe Novamerica - Brasil



CARLOS ALBERTO PARREIRA


Atual técnico da Seleção Brasileira de Futebol, Carlos Alberto Gomes Parreira nasceu em 27 de fevereiro de 1943 e dispensa maiores apresentações. Estreou na seleção brasileira como treinador em 1983 e a sua frente conquistou vários títulos, com destaque para a Copa do Mundo de 1994. Foi técnico de vários times no Brasil, entre eles, o Fluminense, do Rio de Janeiro e o Corinthians Paulista. No exterior esteve à frente do Kotoko de Ghana, do Fenerbahçe na Turquia, do Valencia C. F. na Espanha e do New York Metro Star, além de ter dirigido as seleções do Kuwait e da Arábia Saudita, só para citar alguns exemplos.

No momento em que se prepara para a Copa do Mundo na Alemanha, o técnico da seleção cinco vezes campeã abriu um espaço na sua agenda durante os seus poucos dias de férias e concedeu à NOVAMERICA essa rica entrevista.

El actual técnico de la Selección Brasileña de Fútbol, Carlos Alberto Gomes Parreira, nació el 27 de febrero de 1943 y dispensa mayores presentaciones. Comenzó en la selección brasileña como entrenador en 1983 y desde entonces ha conquistado varios títulos, destacándose entre ellos, la Copa del Mundo de 1994. Fue técnico de varios equipos en Brasil, entre ellos, el Fluminense, de Rio de Janeiro y el Corinthians Paulista. En el exterior estuvo al frente del Kotoko en Ghana, del Fenerbahçe en Turquía, del Valencia C.F. en España y del New York Metro Star, además de haber dirigido las selecciones de Kuwait y de Arabia Saudita, para citar algunos ejemplos.

En medio a los preparativos para la Copa del Mundo en Alemania, el técnico de la selección cinco veces campeona abrió un espacio en su agenda durante sus pocos días de vacaciones y le concedió a NOVAMERICA esta rica entrevista.



NA - Qual é, para o senhor, o significado do futebol?

Carlos Alberto Parreira - O futebol tem diferentes fases na minha vida: já foi lazer, já foi brincadeira, já foi divertimento, na época da infância, da adolescência e hoje é trabalho. Então, o futebol é uma vida para mim, um mundo. Quando eu era criança e na adolescência, sempre gostei de jogar futebol. No começo da idade adulta, era prazer, era vontade, era brincadeira, era lazer, era hobby mesmo, era um esporte. Hoje, ele é uma atividade profissional, e significa muito para mim. É impressionante como o futebol, hoje, une as pessoas, as Nações. O que une o Brasil é a camisa amarelinha da Copa do Mundo. A gente não vê nenhuma manifestação de nacionalismo tão grande quanto na época da Copa do Mundo. O futebol é muita coisa, no mundo todo, são cerca de três bilhões de pessoas que vão assistir a Copa do Mundo. Ela mexe com o mundo todo. O futebol é impressionante. Esse segmento do futebol virou hoje um grande negócio, mas é um grande negócio que ainda continua despertando paixões, ainda faz as pessoas chorarem, rirem, se emocionarem. Então, não é só um negócio, ele virou um grande negócio que ainda faz as pessoas se emocionarem, chorarem, brigarem, perderem todo o sentido de qualquer racionalidade. É uma coisa que ainda é muita emoção.

Foto João Ripper

NA - E por que o senhor acha que ele mobiliza tanta gente, desperta tanta paixão?


Carlos Alberto Parreira - Primeiro porque ele é uma coisa fácil de ser interpretada, fácil de ser entendida. Tem uma identificação imediata. As pessoas não sabem explicar, nem a ciência, nem a psicologia, porque que uma criança vai a qualquer lugar ver um jogo e se encanta por aquele time, aquelas cores, e não adianta o pai e a mãe quererem que a criança torça por um outro time, é uma identificação natural, normal, não sei nem se algum psicólogo poderia explicar o porque dessa identificação. Por isso ele é, no mundo todo, esta paixão. Representa muita coisa e, até pela imprevisibilidade, talvez o futebol seja a única coisa onde o pobre ganha do rico, o fraco ganha do mais forte. Porque na economia o mais forte é, na verdade, o que produz mais, o que investe mais, o que vende mais. O esporte, qualquer outro esporte diferente do futebol - voleibol, basquete, por exemplo -, é elitista, só joga quem tem dois metros de altura. São esportes que eliminam o baixinho, o "baixinho" com um metro e oitenta já não entra, já não joga voleibol, já não joga mais basquetebol. Jogava há 30 anos atrás, hoje já não joga mais. Um esporte de alto rendimento onde é a altura que determina, então, é um esporte elitista. O automobilismo é esporte de rico, o tênis é esporte de rico, ao contrário, o futebol tem força porque você joga até descalço. Eu trabalhei em Ghana em 1967, os times de Ghana, os principais, treinavam num terreno baldio. Eles iam trabalhar, voltavam às 5 horas do trabalho, pegavam duas pedras, marcavam dois gols, trocavam de roupa num cantinho e iam jogar. O futebol possibilita isso. Jogar com bola de meia, com bola de borracha e tem regras fáceis de entender. Por isso, essa identificação, essa paixão e, no Brasil, ele é um fenômeno cultural, sociológico. É o próprio Comitê Olímpico Brasileiro que afirma: "nós temos 23 esportes e uma religião. Nós vamos para as Olimpíadas com 23 esportes e uma religião. A religião é o futebol".

NA - Agora eu vou lhe dizer algumas palavras e associá-las com o futebol. Por exemplo: Juventude e futebol. Que relações o senhor estabeleceria entre essas duas expressões?

Carlos Alberto Parreira - Eu tenho até uma palavra legal para caracterizar esta relação: liberdade. Porque o que encanta no futebol é essa imprevisibilidade, essa liberdade que o jovem gosta de ter. A adolescência é uma fase difícil. Nessa fase, o jovem costuma se rebelar contra o mundo, contra os pais, contra os dogmas da sociedade, ele quer liberdade. O futebol dá isso a ele, dá essa liberdade de poder criar, de sair jogando, você faz o que você quiser, ainda não tem regras tão definidas. Por isso, essa paixão pelo futebol. Liberdade e rebeldia. No futebol, você pode ser rebelde, pode ter liberdade, pode ser criativo. E isso é muito próprio da juventude.

NA - Qual o impacto que pode ter sobre o jovem o fato dele sair de casa cedo, sair do âmbito da família ou, até mesmo, deixar o próprio país para ir jogar futebol?

Carlos Alberto Parreira - Eu sou contra. Eles saem despreparados emocionalmente, sem estarem com a sua formação educacional e familiar completas, até mesmo, no que se refere ao seu amadurecimento psicológico, emocionalmente o impacto é muito grande. Ele tem que queimar etapas, o que, às vezes, na vida não é bom, não é interessante. Por exemplo, eu acho que o jovem só deveria poder assinar contrato depois dos 18 anos. Na Inglaterra, por exemplo, me parece que antes desta idade é proibido o jovem assinar um contrato profissional. Eu acho que, no Brasil, nós deveríamos ter leis que proibissem essa prática. Nós não temos nem idéia, os jovens do norte ou do nordeste do Brasil saem de suas regiões e de lá já vão direto para a Europa. Com 15 ou 16 anos e, então, o cordão umbilical é cortado muito cedo, bem na hora da formação do jovem, quando ele deveria ficar junto à família, quando ele ainda está sedimentando todas aquelas coisas importantes: o caráter, a personalidade, ele é cortado e é jogado às feras. E lhe dizem: "você vai para ser um vencedor". É isso o que ele escuta. Mas, se não for um vencedor, ele retorna e, então, retorna como um fracassado. Por isso, eu sou contra fazer o jovem sair do país nessa idade. Só que a Confederação Brasileira de Futebol - CBF - não tem mecanismos para proibir isto. Nós até queríamos criar leis que limitassem essa saída precoce, mas não temos meios, perante o governo, de proibir.

Foto João Ripper

NA - Outra relação: Educação e Futebol.


Carlos Alberto Parreira
- Existe a Educação Esportiva, e o esporte serve para educar, para disciplinar, para socializar, quer dizer, com o esporte é possível aprender a obedecer às regras, respeitar o adversário, o comandante, respeitar o diretor, a torcida, o público. Eu acho que educação tem a ver com isto. Você se educa para que? Não é só para obter informação, é para aprender a viver também, aprender a respeitar os seus companheiros, os seus amigos. Educação, em termos abrangentes, eu acredito que visa isto tudo. Educação é quando prepara o homem para a vida. E o futebol ajuda nisso, principalmente, quando o trabalho no clube é muito bem feito, como no caso de alguns clubes, e eu trabalhei em vários deles que fazem isso - o Internacional, o Atlético, o São Paulo - inclusive eles dispõem de psicólogos para atender aos garotos de 15 ou 16 anos. De um modo geral, esses jovens vão para lá cheios de ilusões, de sonhos, achando que vão ser um novo Ronaldinho, um novo Pelé, um novo Maradona e, de repente, com 18, 19 anos a realidade é outra. Eles não têm a vocação necessária, nem o talento, nem as qualidades para ser tudo o que eles pensavam que poderiam ser. E eles acabam tendo uma grande frustração. E se eles não tiverem um embasamento, uma educação, uma formação, não conseguirão ser cidadãos plenos. Nesse sentido, eu entendo que os clubes têm essa obrigação de preparar os jovens para o amanhã. Eles precisam entender que pode dar certo, pode não dar certo, que não são tantas as possibilidades, na verdade elas são muito pequenas. O fi ltro é muito grande. A base da pirâmide é sempre muito grande, mas no ápice... só poucos chegam lá em cima. Por isso, é necessário educar, o clube têm essa obrigação social de formar cidadãos e atletas.

NA - Construção de Valores e Futebol.

Carlos Alberto Parreira - É o que já falamos. Jogar futebol envolve respeito ao adversário. Envolve muitos outros valores. Por exemplo: ganhar através da qualidade técnica e valorizando a ética. Nunca usar de subterfúgios ou drogas, não recorrer ao auxílio de árbitros ou a coisas que fogem das regras convencionais, do legal.

NA - Mercado e Futebol.

Carlos Alberto Parreira - Quando me dizem que a CBF transferiu três mil jogadores nos últimos três anos para o exterior, eu digo graças a Deus. Que bom, foram três mil famílias que ficaram amparadas, tem alguém trabalhando, o chefe da família está ganhando, logo, o futebol é um mercado de trabalho. Quantas pessoas no mundo vivem às custas do futebol? Se olharmos o mundo do futebol, vamos ver que ele inclui, por exemplo, as empresas de material esportivo. Quantas pessoas trabalham nas fábricas de material esportivo? Milhões de pessoas. Por outro lado, quantas milhões de pessoas praticam futebol? Quando estamos falando de futebol, não estamos nos referindo apenas às grandes equipes, só nos Estados Unidos existem 40 milhões de praticantes, crianças, mulheres, muitos jogando. É camisa, é chuteira, alguém está produzindo, alguém está pagando imposto. Há os juízes, a imprensa, a televisão, os técnicos, os jogadores, é um universo muito grande. Existem os patrocinadores, as propagandas, quer dizer, envolve muita gente. Hoje, o futebol, melhor dizendo, o esporte de uma maneira geral, depois do turismo é a maior fonte de renda do mundo, já foi o armamento, a venda de armas, não é mais. Então, eu acho que mercado de venda tem tudo a ver com o futebol. E é importante. O Havelange, que foi o nosso presidente da FIFA, melhorou ainda mais esse mercado. Antes dele era só uma competição. Hoje tem o sub-16, o sub-18, o sub-20, tem o futebol feminino. Portanto, ele aumentou muito esse universo de empregos. .

NA - Como o senhor vê o futebol feminino?

Carlos Alberto Parreira - Há 15 anos atrás eu tinha muitas restrições. Recentemente, a partir de umas duas Olimpíadas para cá, eu acompanhei as seleções femininas - a americana e a do Brasil. E agora vi na Europa uma partida entre uma seleção européia contra uma seleção do resto do mundo, fiquei impressionado como o jogo mudou, como elas já são quase atletas, como elas já têm um domínio muito bom da técnica, mas é evidente que não vão poder, até pela força, pela velocidade, pelas qualidades físicas, competir com os homens. Como há no tênis, a velocidade, a força, o saque de um tenista, as batidas na bola, não dá para colocar homem competindo contra mulher. Existem as limitações, mas o jogo hoje já é empolgante, já é bonito de ser ver quando o nível é elevado. Hoje, eu gosto de ver.

Foto Rodolpho Oliva

NA - Fale um pouco sobre as torcidas.

Carlos Alberto Parreira - A torcida é a essência do nosso trabalho, o amor, a paixão. Às vezes falta bom senso, alguns são até irracionais. Existem pessoas que você não consegue conversar, é igual na política, na religião, não tem jeito, quando alguém tem determinados conceitos e você não consegue mudá-los...

Eu acho a torcida muito importante. Coisa mais decepcionante é um time, uma seleção ir para o campo e não ter a presença da torcida ou ter um público reduzido, um público que não está inflamado, não está emocionado, não está apoiando, não está entusiasmado. Eu trabalhei em algumas seleções importantes. Trabalhei no mundo árabe que era uma torcida muito fria. Trabalhei também na Turquia, onde havia a torcida mais fanática do mundo, talvez até mais fanática do que a nossa. Trabalhei no maior clube da Turquia que era o Fenerbahçe. Eles se auto-denominam fanatics, que é, na verdade, uma palavra de origem grega, mas eles usam tanto essa palavra, que já a incorporaram. Eles dizem: "nós somos fanatics". Eles são fanatics, quer dizer, são fanáticos. Lá, o jogo era às 6 horas da tarde, mas ao meio dia o estádio já estava lotado, meio dia, não é exagero não, quem não chegasse ao meio dia não conseguia lugar, são 40 mil lugares, mas 10 mil acabavam ficando do lado de fora do estádio, rodando, cantando, e com as bandeiras. Se o time perdia, eles choravam, se desesperavam, igual no Brasil. Eu acho que a torcida é muito importante. Pena que, nos últimos anos, com esse crescimento do futebol, dos interesses da mídia, do dinheiro que agora o futebol canaliza (antes tinha muito pouco dinheiro no futebol), há uma grande diferença, não só dentro do campo, mas também fora do campo. O futebol mudou, mudou muito dentro do campo: é muito mais veloz, exige mais condições físicas, muito mais disciplina do jogador. Mas mudou também fora do campo, tem muito mais dinheiro. Com isso, aumentou a responsabilidade de quem comanda, de quem dirige. Hoje, o jogador, o dirigente de futebol têm uma receita impensável há 15 anos atrás.

E a torcida, nesse contexto, passou a exigir muito mais. Agora, nós chegamos a um ponto até perigoso porque começou a atingir o nível de violência. Temos visto violência um pouco na Europa e muito mais no Brasil. Vemos isso todo final de semana. Pessoas sendo trucidadas, a coisa virou uma violência gratuita, impensável e que, aos poucos, está afastando as pessoas dos estádios, do futebol.

NA - Há alguma coisa que podemos fazer para mudar isso?

Os torcedores vândalos viajavam de uma cidade para outra, de um país para o outro. Eles hoje, se são apanhados em flagrante, são fichados. Os estádios têm centenas de câmeras que identificam mesmo e, quando eles são punidos no ato de violência, dependendo do que fizeram, da gravidade de seus atos, eles ficam presos durante seis meses, um ano, mas da seguinte maneira: no dia do jogo do time dele, ele é obrigado a se apresentar na polícia e ficar lá durante todo o período do jogo. Não podem viajar, os passaportes são caçados, são fichados e, com isso, praticamente foi possível quase acabar com a violência nos estádios da Inglaterra.

NA - No imaginário social, futebol e sucesso, ou melhor, jogar futebol e fazer sucesso parece que é uma relação automática. O que o senhor tem a dizer sobre isso? Ser jogador de futebol é mesmo estar sempre acompanhado de lindas mulheres, ter carros maravilhosos?

Carlos Alberto Parreira - Ninguém conseguiu definir o que é sucesso. O que é sucesso para um não é para outro. Então, com certeza, ter dinheiro, fama, andar de carro importado, andar com mulheres bonitas, ser bonito, ter talento isso não é sucesso. Sucesso na vida é quando você consegue realizar as coisas que você almeja e faz. Quando você consegue ser dono do seu nariz, fazer o que você gosta. Então, quando você faz aquilo que você gosta você é uma pessoa bem sucedida. Outros definem sucesso quando você consegue vencer dificuldades, obstáculos. Você é um vencedor porque você superou obstáculos ou dificuldades. Isso é muito comum no esporte. Então, nós temos esse tripé que eu acho fundamental. Muita gente é apanhada nas armadilhas do sucesso, só se concentra no lado do profissional, ganhar dinheiro, ganhar dinheiro. E isso acontece também no mundo empresarial...

Sucesso é quando você consegue realizar as suas metas, os seus objetivos, superar os obstáculos. Sucesso é o pai de família que paga suas contas todo o final do mês, forma o filho numa universidade, que constrói a sua casa. Eu dou o exemplo da Dona Zica que está sempre no noticiário. Ela é negra, era uma faxineira e tinha cabelos que ela não gostava e queria amaciá-los. Ela não estava satisfeita com os cremes que encontrava nos salões. E, então, ela resolveu vender as pouquinhas coisas que ela tinha em casa, juntou umas economias, o marido tinha um fusquinha, vendeu, juntaram uns três mil reais, contrataram um químico, eu acho e fizeram um creme. E ela começou a divulgar esse creme entre as amigas negras. E o sucesso do "boca-a-boca" foi tão grande que ela hoje tem cinco lojas e tem uma fábrica com 350 empregados. Para mim, isso é sucesso. Sucesso mesmo.

Acredito, portanto, que o jovem precisa estar muito ligado nisso. Saber que o sucesso pode ser uma armadilha muito grande. O jovem não pode esquecer o lado profissional -de um modo geral as pessoas se concentram muito no lado profissional-, mas não pode esquecer o lado social, da saúde e do familiar. Sucesso é apenas o início de um processo muito delicado e tem que ser equilibrado com a família e com o social, com os amigos, com a saúde. É igual uma mesa, um tripé, se você tirar um ou dois pés ela desaba.

O jovem tem que estar preparado para isso, para entender qual o verdadeiro significado do sucesso. Quer jogar futebol, vai jogar futebol, mas se não deu certo, procura uma outra alternativa. Nem todos conseguem realizar as suas metas no futebol até porque não depende só dele.

Foto Rodolpho Oliva

NA - Agora, eu gostaria de mudar um pouco o rumo de nossa conversa. Não é possível entrevistá-lo nesse momento e não falar da nossa Seleção. O que o senhor gostaria de destacar sobre esta fase de treinamento, sobre os nossos jogadores.

Carlos Alberto Parreira - A Seleção é a imagem do Brasil que dá certo. É o orgulho do brasileiro. Estou indo para a minha terceira Copa do Mundo, com a Seleção Brasileira, e vejo que nós saímos daquela época de muitos anos atrás de empirismo, pragmatismo, para uma fase de super profissionalização. A Seleção Brasileira é um modelo, um paradigma para o mundo. Eu queria que neste Brasil tudo funcionasse como funciona na Seleção Brasileira em termos de planejamento, de previsão, de tudo. Não fica nada a dever para nenhuma grande empresa. A Copa do Mundo é um grande empreendimento. Seis meses antes dela acontecer mandamos duas pessoas para a Alemanha, para ver aonde as partidas iam acontecer, os horários, os vôos, os hotéis. Se a grama não está boa, pedimos para trocar de estádio, mandamos preparar tudo. São 45 pessoas, entre elas, 18 profissionais, 22 jogadores, seguranças, mídia, informática, vídeo, há um fotógrafo que viaja com a Seleção, um outro rapaz que filma. A Seleção é algo impressionante. Quando as equipes chegam no local, já há um ônibus esperando dentro da pista. Quando as autoridades locais permitem, e quase sempre elas permitem, nós saímos do avião e entramos direto no ônibus, já com a vistoria do passaporte feita, chegamos no hotel e a comida já está pronta, pois o cozinheiro foi na frente. É uma máquina super azeitada que funciona muito bem. Por conta de tudo isso, dentro do campo, nós temos os melhores do mundo. Na verdade, nós facilitamos a tarefa deles que é jogar futebol.

Eu era contra a idéia do time Campeão do Mundo disputar as eliminatórias. Na minha opinião, o Campeão do Mundo estaria automaticamente classificado. O Brasil foi o primeiro Campeão do Mundo a disputar eliminatória e, atualmente, até porque nós temos 100% dos nossos jogadores atuando no exterior, eu reconheço que essa eliminatória nos ajudou. A Seleção foi formada na eliminatória, na Copa América e na Copa das Confederações, em competições oficiais. De dezembro de 2005 até junho de 2006, eu só vou ver os jogadores durante três dias. E em um amistoso que a FIFA definiu para 1° de março. É muito pouco. Logo, se não fossem esses jogos das eliminatórias -foram 18 jogos-, eu estaria muito pouco tempo com os jogadores. Por isso, a eliminatória foi boa para a nossa seleção. Nós vamos chegar na Copa, não gosto do termo favorito, mas vamos chegar como um dos bons, com certo favoritismo... Em 50, o Brasil era favorito, em 54 o Brasil era favorito, em 82 o Brasil também era favorito, em 2002 a França e a Argentina eram os favoritos e vai por aí afora, e em todos esses casos, todo mundo voltou mais cedo para a casa. Por isso, acho que o melhor é esquecer este favoritismo e a cada jogo, a cada partida jogar como se fosse o jogo da vida, o jogo mais importante. Pés no chão porque a Copa do Mundo é muito traiçoeira. Qualquer time pode ganhar um do outro, o mais fraco pode ganhar do mais forte. No futebol isso pode acontecer. Não acontece no voleibol, não acontece no basquete onde o mais forte, 98% das vezes ganha. Por exemplo, o Brasil vai jogar voleibol eu nem sei contra quem, mas eu sei que ele tem 99% de chance de ganhar. Pode perder sim, como perdeu para a Venezuela numa final, mas a chance disso acontecer é de 1%. O basquete americano quando vai para uma Olimpíada com o time principal ganha medalha de ouro, sempre ganhou porque é o melhor. No futebol, é imprevisível. Num jogo o mais fraco pode ganhar do mais forte. Pois esse jogo pode ser o jogo em que o time não está bem E as coisas podem não dar certo e o time ser eliminado. O Brasil perdeu seis jogos na eliminatória de 2002, mas acabou se classificando e depois foi campeão do mundo. Nessa fase, você pode perder vários jogos. Agora, na Copa do Mundo, a partir das oitavas, quartas e semifinal, são quatro jogos, que se você perder volta para casa. É isso aí: temos que ficar atentos. Um time menor, um time inferior tecnicamente pode, em um dia em que as coisas não estiverem dando certo, eliminar o time mais forte. Por isso, o futebol é essa paixão. Essa imprevisibilidade é apaixonante.

NA - Obrigada por sua atenção, boa sorte e sucesso na Copa do Mundo!

NA - ¿Cuál es para usted el significado del fútbol?

Carlos Alberto Parreira - El fútbol presenta diferentes fases en mi vida: ya fue placer, ya fue un juego, ya fue divertimento, en la época de la infancia, de la adolescencia y hoy es trabajo. Entonces, el fútbol es una vida para mí, un mundo. Cuando era chico, y en la adolescencia, siempre me gustó jugar al fútbol. Al comienzo de la edad adulta, era placer, era ganas, era un juego, era diversión, era realmente un hobby, era un deporte. Hoy es una actividad profesional y significa mucho para mí. Es impresionante cómo el fútbol, hoy, une a las personas, a las Naciones. Lo que une a Brasil es la camiseta amarilla de la Copa del Mundo. No se ve ninguna manifestación de nacionalismo tan grande como en la Copa del Mundo. El fútbol es muchas cosas en todo el mundo. Son cerca de tres mil millones de personas que van a ver la Copa del Mundo. El fútbol afecta al mundo entero. El fútbol es impresionante. Ese segmento del fútbol se volvió hoy un gran negocio, pero es un gran negocio que todavía continúa despertando pasiones, todavía hace que las personas lloren, rían, se emocionen. Entonces, no es solamente un negocio, se volvió un gran negocio que todavía hace que las personas se emocionen, lloren, peleen, pierdan el sentido de cualquier racionalidad. Es una cosa que todavía emociona mucho.

NA - ¿Por qué usted cree que moviliza a tanta gente, que despierta tanta pasión?

Carlos Alberto Parreira - Primero porque es una cosa fácil de ser interpretada, fácil de ser entendida. Hay una identificación inmediata. Las personas no saben explicar, ni la ciencia, ni la psicología, por qué un chico va a cualquier lugar a ver un juego y se encanta por aquel equipo, por aquellos colores, y de nada vale que el padre y la madre quieran que el chico hinche por otro equipo, es una identificación natural, normal, no sé ni si algún psicólogo podría explicar el porqué de esa identificación. Por eso el fútbol es en todo el mundo una pasión. Representa muchas cosas e incluso por ser imprevisible, tal vez el fútbol sea lo único en lo que el pobre le gana al rico, en lo que el débil le gana al más fuerte. Porque en la economía el más fuerte es, en realidad, el que produce más, el que invierte más, el que vende más. El deporte, cualquier otro deporte diferente al fútbol - voley, básquet, por ejemplo- es elitista, solo juega quien tiene dos metros de altura. Son deportes que eliminan al bajito, el "bajito" con un metro ochenta ya no entra, ya no juega voley, ya no juega más básquet. Jugaba hace 30 años, pero hoy no juega más. Un deporte de alto rendimiento en el que es la altura la determinante, entonces, es un deporte elitista. El automovilismo es un deporte de rico, el tenis es un deporte de rico. Por el contrario, el fútbol tiene fuerza porque se puede jugar incluso descalzo. Yo trabajé en Ghana en 1967. Los equipos de Ghana, los principales, entrenaban en un terreno baldío. Ellos iban a trabajar, volvían a las 5 h del trabajo, agarraban dos piedras, hacían dos goles, se cambiaban de ropa en un rinconcito e iban a jugar. El fútbol posibilita estas cosas. Jugar con una pelota de trapo, con una pelota de goma y tiene reglas fáciles de ser entendidas. Por eso, esa identificación, esa pasión. En Brasil, es un fenómeno cultural, sociológico. Es el propio Comité Olímpico Brasileño el que afirma: "nosotros tenemos 23 deportes y una religión. Vamos a las Olimpíadas con 23 deportes y una religión. La religión es el fútbol".

Foto João Ripper

NA - Ahora le voy a decir algunas palabras y las voy a asociar al fútbol. Por ejemplo: juventud y fútbol. ¿Qué relaciones usted establecería entre esos dos términos ?

Carlos Alberto Parreira - Tengo incluso una buena palabra para caracterizar esa relación: libertad. Porque lo que encanta en el fútbol es ese carácter imprevisible, esa libertad que al joven le gusta tener. La adolescencia es una fase difícil. En esa fase, el joven acostumbra rebelarse contra el mundo, contra los padres, contra los dogmas de la sociedad, quiere libertad. El fútbol le da eso, le da esa libertad de poder crear, de salir jugando, de poder hacer lo que se quiere, todavía no hay reglas tan definidas. Por eso esa pasión por el fútbol. Libertad y rebeldía. En fútbol se puede ser rebelde, se puede tener libertad, se puede ser creativo. Y eso es muy propio de la juventud.

NA - ¿Cuál es el impacto que puede tener sobre el joven el hecho de salir de casa temprano, de salir del ámbito de la familia o, incluso, el hecho de dejar el propio país para ir a jugar fútbol?


Carlos Alberto Parreira - Yo estoy en contra. Salen sin estar preparados emocionalmente, incluso sin estar con su formación educacional y familiar completas, y en lo que se refiere a su madurez psicológica, emocionalmente el impacto es muy grande. Tienen que quemar etapas, lo que a veces en la vida no es bueno, no es interesante. Por ejemplo, creo que el joven solo debería poder firmar contratos después de los 18 años. En Inglaterra, por ejemplo, me parece que antes de esa edad es prohibido que el joven firme un contrato profesional. Creo que, en Brasil, deberíamos tener leyes que prohibieran esa práctica. No tenemos ni idea, los jóvenes del norte o del noreste de Brasil salen de sus regiones y de allá van directo a Europa. Con 15 o 16 años y, entonces, el cordón umbilical es cortado desde muy temprano exactamente en el período de formación del joven, cuando él debería estar junto a su familia, cuando él todavía está sedimentando todas aquellas cosas importantes: el carácter, la personalidad; es arrancado y arrojado a las fieras. Y le dicen: "vas a ser un vencedor". Eso es lo que él escucha. Pero si no vence, vuelve y, entonces, regresa como fracasado. Por eso, estoy en contra de que el joven salga del país a esa edad. Pero la Confederación Brasileña de Fútbol -CBF- no tiene mecanismos para prohibirlo. Nosotros incluso queríamos crear leyes que limitasen esa salida precoz, pero no tenemos medios, ante el gobierno, para prohibirlo.

NA - Otra relación: Educación y Fútbol.

Carlos Alberto Parreira - Existe la Educación Deportiva y el deporte sirve para educar, para disciplinar, para socializar, es decir, con el deporte es posible aprender a obedecer las reglas, a respetar al adversario, al que comanda, a respetar al director, al hincha, al público. Creo que la educación tiene que ver con eso. ¿Uno se educa para qué? No solo para obtener información, sino también para aprender a vivir, para aprender a respetar a sus compañeros, a sus amigos. La educación, en términos globales, creo que apunta a todas esas cosas. Es educación porque prepara al hombre para la vida. Y el fútbol ayuda en esto, principalmente cuando el trabajo en el club está bien hecho, como en el caso de algunos clubes, y yo trabajé en varios que hacen esto -el Internacional, el Atlético, el San Pablo-, inclusive disponen de psicólogos para atender a los jóvenes de 15 o 16 años. En general, esos jóvenes van para allá llenos de ilusiones, de sueños, creyendo que van a ser un nuevo Ronaldinho, un nuevo Pelé, un nuevo Maradona y, entonces, con 18, 19 años la realidad es otra. No tienen la vocación necesaria, ni el talento, ni las cualidades para ser todo lo que pensaban que podían ser. Y acaban teniendo una gran frustración. Y si no tienen una base, una educación, una formación, no van a conseguir ser ciudadanos plenos. Por un lado, entiendo que los clubes tengan esa obligación de preparar a los jóvenes para el día de mañana. El joven necesita entender que las cosas pueden salir bien, pueden no salir bien, que no son tantas las posibilidades, en realidad son muy pequeñas. El filtro es muy grande. La base de la pirámide es siempre muy grande, pero en el ápice... solamente pocos llegan a la cima. Por eso, es necesario educar, el club tiene esa obligación social de formar ciudadanos y atletas.

NA - Construcción de Valores y Fútbol.

Carlos Alberto Parreira - Es lo que ya dijimos. Jugar al fútbol implica respeto por el adversario. Implica muchos otros valores. Por ejemplo: ganar a través de la calidad técnica y de la valoración de la ética. Nunca usar subterfugios o drogas, no recurrir al auxilio de árbitros o de cosas que escapan a las reglas convencionales, a lo legal.

Foto João Ripper

NA - Mercado y Fútbol.

Carlos Alberto Parreira - Cuando me dicen que la CBF transfirió tres mil jugadores en los últimos tres años al exterior, yo digo gracias a Dios. Qué bueno, fueron tres mil familias que quedaron amparadas, que tienen a alguien trabajando, el jefe de la familia está ganando, por lo tanto, el fútbol es un mercado de trabajo. ¿Cuántas personas en el mundo viven a costas del fútbol? Si nos fijamos en el mundo del fútbol, vamos a ver que el mismo incluye, por ejemplo, a las empresas de material deportivo. ¿Cuántas personas trabajan en las fábricas de material deportivo? Millones de personas. Por otro lado, ¿cuántos millones de personas practican fútbol? Cuando hablamos de fútbol, no nos referimos solamente a los grandes equipos. Solamente en Estados Unidos existen 40 millones de personas que lo practican, chicos, mujeres, muchos juegan. Camisetas, punteras, alguien las está produciendo, alguien está pagando impuestos. Están los jueces, la prensa, la televisión, los técnicos, los jugadores, es un universo muy grande. Están los patrocinadores, las propagandas, o sea, envuelve a mucha gente. Hoy, el fútbol, o mejor dicho, el deporte de manera general, después del turismo es la mayor fuente de renta del mundo, ya lo fue el armamento, la venta de armas, pero ya no lo es más. Entonces, creo que el mercado de venta tiene todo que ver con el fútbol. Y es importante. Havelange, que fue nuestro presidente de la FIFA, mejoró aún más este mercado. Antes de él era solamente una competencia. Hoy existe el sub-16, el sub-18, el sub-20, existe el fútbol femenino. Por lo tanto, él aumentó mucho ese universo de empleos.

NA - ¿Cómo ve usted al fútbol femenino?

Carlos Alberto Parreira - Hace 15 años tenía muchas restricciones. Recientemente, a partir de una de las Olimpíadas, vengo observando las selecciones femeninas -la americana y la de Brasil. Y ahora vi en Europa un partido entre una selección europea contra una selección del resto del mundo. Quedé impresionado con cómo cambió el juego, cómo ellas son ya casi atletas, cómo tienen un dominio muy bueno de la técnica, pero es evidente que no van a poder, incluso por la fuerza, por la velocidad, por las cualidades físicas, competir con los hombres. Al igual que en tenis, la velocidad, la fuerza, el saque de un tenista, el golpe en la pelota, no es posible poner al hombre compitiendo con la mujer. Existen las limitaciones, pero el juego hoy ya entusiasma, ahora es lindo verlo cuando el nivel es elevado. Hoy me gusta verlo.

NA - Hable un poco sobre las hinchadas.

Carlos Alberto Parreira - La hinchada es la esencia de nuestro trabajo, el amor, la pasión. A veces falta sentido común, algunas son incluso irracionales. Existen personas con las que no se puede conversar, es igual que en política, en religión, no hay nada que hacer, cuando alguien tiene determinados conceptos y no consigue cambiarlos... Yo creo que la hinchada es muy importante. No hay nada más decepcionante que un equipo, una selección vaya a la cancha y no cuente con la presencie de una hinchada, o de un público reducido, un público que no esté inflamado, que no esté emocionado, que no lo esté apoyando, que no esté entusiasmado. Trabajé en algunas selecciones importantes. Trabajé en el mundo árabe que era una hinchada muy fría. Trabajé también en Turquía, en donde estaba la hinchada más fanática del mundo, tal vez más que la nuestra. Trabajé en el mayor club de Turquía que era el Fenerbahçe. Ellos se autodenominan fanatics que, en realidad, es una palabra de origen griego, pero ellos la usan tanto que ya la incorporaron. Ellos dicen: "nosotros somos fanatics". Ellos son fanatics, es decir, son fanáticos. Allá, el juego era a las 6 de la tarde, pero al mediodía el estadio ya estaba lleno, al mediodía, y no es exageración. El que no llegaba al mediodía no conseguía lugar. Son 40 mil lugares, pero 10 mil quedaban del lado de afuera del estadio, andando, cantando, y con las banderas. Si el equipo perdía, lloraban, se desesperaban, igual que en Brasil. Creo que la hinchada es muy importante. Lástima que, en los últimos años, con ese crecimiento del fútbol, de los intereses de los medios de comunicación, del dinero que ahora el fútbol canaliza (antes había muy poco dinero en el fútbol), hay una gran diferencia, no sólo dentro de la cancha, sino también fuera. El fútbol cambió, cambió mucho dentro de la cancha: es mucho más veloz, exige más condiciones físicas, mucha más disciplina del jugador. Pero cambió también fuera de la cancha, hay mucho más dinero. Por eso aumentó la responsabilidad de quien comanda, de quien dirige. Hoy, el jugador, el dirigente de fútbol tiene una renta que era impensable hace15 años.

Y la hinchada, en ese contexto, pasó a exigir mucho más. Ahora llegamos a un punto incluso peligroso porque alcanzó niveles de violencia. Vimos un poco de violencia en Europa y mucha en Brasil. Lo vemos todos los fi nes de semana. Personas que son cruelmente asesinadas. Esto se convirtió en violencia gratuita, impensable, y que, de a poco, está alejando a las personas de los estadios, del fútbol.

NA - ¿Hay algo que podamos hacer para cambiar esto?

Carlos Alberto Parreira - Sí, sí. En Europa consiguieron. Los hinchas vándalos viajaban de una ciudad a otra, de un país a otro. Hoy, si son presos in fraganti, son fichados. Los estadios tienen centenas de cámaras que permiten la identificación y cuando son punidos en pleno acto de violencia, dependiendo de lo que hicieron, de la gravedad de sus actos, quedan presos durante meses, un año, pero de la siguiente manera: el día que juega su equipo, tienen obligación de presentarse a la policía y de quedarse ahí durante todo el juego. No pueden viajar, los pasaportes son retenidos, son fichados y, de esa manera, prácticamente fue posible acabar con la violencia en los estadios de Inglaterra. .

Foto Alexandre Firmino

NA - En el imaginario social, fútbol y éxito, o mejor, jugar fútbol y tener éxito parece que es una relación automática. ¿Qué podría decirnos sobre esto? ¿Ser jugador de fútbol es realmente estar siempre acompañado de lindas mujeres y tener autos maravillosos?


Carlos Alberto Parreira - Nadie consiguió definir lo que es el éxito. Lo que es éxito para unos, no lo es para otros. Evidentemente tener dinero, fama, andar en un auto importado, con mujeres bonitas, ser lindo, tener talento, no es éxito. El éxito en la vida se da cuando uno consigue realizar las cosas que desea. Cuando uno consigue ser dueño de su nariz, cuando consigue hacer lo que le gusta. Entonces, cuando uno hace aquello que le gusta es una persona exitosa. Otros definen que el éxito se da cuando se consigue vencer dificultades, obstáculos. Uno es un vencedor porque superó obstáculos y dificultades. Eso es muy común en el deporte. Entonces, existe esa tríada que me parece fundamental. Muchas personas son presas in fraganti en las trampas del éxito, solamente se concentran en el lado profesional, en ganar dinero, ganar dinero.

Y eso sucede también en el mundo empresarial. El éxito se da cuando uno consigue realizar sus metas, sus objetivos, superar los obstáculos. Exitoso es el padre de familia que paga las cuentas todo fin de mes, que pone a su hijo en una universidad, que construye su casa. Por ejemplo, Doña Zica, que está siempre en los noticieros. Ella es negra, era empleada doméstica y tenía un cabello que no le gustaba, quería alisarlo. No estaba satisfecha con las cremas que encontraba en los salones de belleza. Y, entonces, resolvió vender las poquitas cosas que tenía en casa, juntó unas economías; el marido tenía un fusquinha[1], lo vendió; juntaron unos tres mil reales, contrataron a un químico y creo que hicieron una crema. Y ella empezó a divulgar esa crema entre las amigas negras. El éxito de ese boca a boca fue tan grande que hoy tiene cinco negocios y tiene una fábrica con 350 empleados. Para mí, eso es el éxito. El éxito de verdad.

Creo, por lo tanto, que el joven necesita estar muy atento a eso. Saber que el éxito puede ser una trampa muy grande. El joven no puede olvidarse del lado profesional -de un modo general las personas se concentran mucho en el lado profesional-, pero tampoco puede olvidarse del lado social, de la salud y de la familia. El éxito es solamente el comienzo de un proceso muy delicado y tiene que estar equilibrado con la familia y con lo social, con los amigos, con la salud. Es como con una mesa, como una tríada, si se le saca una pata se viene abajo.

El joven tiene que estar preparado para eso, para entender cuál es el verdadero significado del éxito. ¿Quiere jugar fútbol?, que vaya a jugar fútbol, pero si las cosas no salen bien, que busque otra alternativa. No todos consiguen realizar sus metas en el fútbol, incluso porque no depende solamente de ellos.

NA - Ahora me gustaría cambiar un poco el rumbo de nuestra charla. No es posible entrevistarlo en este momento y no hablar sobre nuestra Selección. ¿Qué quisiera destacar sobre esta fase de entrenamiento, sobre nuestros jugadores?

Carlos Alberto Parreira - La Selección es la imagen del Brasil que funciona. Es el orgullo del brasileño. Voy hacia mi tercera Copa del Mundo con la Selección Brasileña y veo que salimos de aquella época de muchos años de empirismo, pragmatismo, hacia una fase de súper profesionalización. La Selección Brasileña es un modelo, un paradigma para el mundo. Quisiera que en este Brasil todo funcionase como funciona la Selección Brasileña, en términos de planeamiento, de previsión, en términos de todo. No tiene nada que envidiarle a ninguna gran empresa. La Copa del Mundo es un gran emprendimiento. Seis meses antes de que empiece, mandamos a dos personas a Alemania, para ver dónde van a ser los partidos, los horarios, los vuelos, los hoteles. Si el césped no está en condiciones, pedimos que cambien de estadio, mandamos preparar todo. Son 45 personas, entre ellas, 18 profesionales, 22 jugadores, hombres de seguridad, medios de comunicación, informática, video, hay un fotógrafo que viaja con la Selección, otro chico que filma. La Selección es algo impresionante. Cuando los equipos llegan, ya hay un ómnibus esperando dentro de la plataforma. Cuando las autoridades locales lo permiten, y casi siempre lo permiten, salimos del avión y entramos directamente al ómnibus; ya con la inspección del pasaporte hecha, llegamos al hotel y la comida ya está lista, porque el cocinero fue antes. Es una máquina súper aceitada que funciona muy bien. Es por eso que, dentro de la cancha, tenemos a los mejores del mundo. En realidad, nosotros les facilitamos el trabajo que es el de jugar fútbol.

Yo estaba en contra de que un equipo Campeón del Mundo disputase las eliminatorias. En mi opinión, el Campeón del Mundo debería estar automaticamente clasificado. Brasil fue el primer Campeón del Mundo a disputar eliminatorias y, actualmente, por el hecho de tener al 100% de nuestros jugadores actuando en el exterior, reconozco que esa eliminatoria nos ayudó.

Foto Agência TYBA

La Selección se formó en la eliminatoria, en la Copa América y en la Copa de las Confederaciones, en competencias oficiales. De diciembre de 2005 a junio de 2006, solamente voy a ver a los jugadores durante tres días. Y en un amistoso que la FIFA definió para el 1º de marzo. Es muy poco. Por lo tanto, si no hubiera sido por esos juegos de las eliminatorias -fueron 18 juegos-, habría estado muy poco tiempo con los jugadores. Por eso, la eliminatoria fue buena para nuestra selección. Nosotros vamos a llegar a la Copa, no me gusta el término favorito, pero vamos a llegar como uno de los buenos, con cierto favoritismo... En el 50, Brasil era el favorito; en el 54 Brasil era el favorito; en el 82 Brasil también era el favorito; en 2002 Francia y Argentina eran los favoritos y otros años hubo otro tanto, y en todos esos casos, todo el mundo volvió más temprano a casa. Por eso, creo que lo mejor es olvidarse de ese favoritismo y, en cada juego, en cada partido, jugar como si fuese el juego de la vida, el juego más importante. Hay que tener los pies sobre la tierra porque la Copa del Mundo es muy traicionera. Cualquier equipo le puede ganar al otro, el más débil le puede ganar al más fuerte. En fútbol eso puede suceder. No sucede en voley, no sucede en básquet, en donde el más fuerte gana el 98% de las veces. Por ejemplo, Brasil va a jugar voley no sé contra quién, pero ya sé que tiene 99% de chances de ganar. Puede perder, sí, como perdió con Venezuela en una final, pero la chance de que eso suceda es de 1%. El básquet americano cuando va a una Olimpíada con el equipo principal gana medallas de oro, siempre ganó, porque es el mejor. En fútbol, es imprevisible. En un juego el más débil puede ganarle al más fuerte. Porque ese juego puede ser el juego en que el equipo no está bien. Y las cosas pueden no salir bien y el equipo ser eliminado. Brasil perdió seis juegos en la eliminatoria de 2002, pero acabó clasificado y después fue campeón del mundo. En esa fase, se pueden perder varios juegos. Ahora, en la Copa del Mundo, a partir de las octavas, cuartas y semifinales, son cuatro juegos en los que, si perdemos, volvemos a casa. Y es eso: tenemos que estar atentos. Un equipo menor, un equipo inferior técnicamente puede en un día en que las cosas no salen bien, eliminar al equipo más fuerte. Por eso, el fútbol es esa pasión. Ese carácter imprevisible es apasionante.

NA - NA - Gracias por su atención, ¡buena suerte y éxito en la Copa del Mundo!


[1] Nome, en Brasil, de automóvil popular Volkswagen.

NOVAMERICA
Rua Dezenove de Fevereiro, 160 - Botafogo
22280-030 -
Rio de Janeiro - RJ
Brasil
Tel. (fax): (55) (21) 2542-6244

e-mail: novamerica@novamerica.org.br
CENTRO NOVAMERICA DE EDUCAÇÃO POPULAR
Praça Santos Dumont, 14 - Centro
25880-000 -
Sapucaia - RJ
Brasil
Tel. (fax): (55) (24) 2271-2004
e-mail: centronovamerica@uol.com.br
2003/2010 Novamerica - www.novamerica.org.br - Todos os direitos resevados.