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L
a Revista de la Pátria Grande


IDÉIAS EM REDE / IDEAS EN RED

Novas tecnologias digitais: a construção da subjetividade contemporânea
Ana Maria Nicolaci-da-Costa
Departamento de Psicologia da PUC-Rio
Rio de Janeiro Brasil


Foto Rodolpho Oliva
La llamada sociedad en red gana visibilidad y concretud psicológica en las formas de uso de los computadores y, principalmente, de Internet, produciendo grandes cambios materializados en nuevas organizaciones subjetivas. Recientes investigaciones revelaron características de esos usuarios que parecen ser las que identifican el sujeto del siglo XXI, características que sorprenden a la mayoría de los adultos por su diferencia radical con las de los jóvenes de tiempos pasados. Superada la sorpresa, la mejor estrategia a seguir como adultos es la de aprender a sintonizar con esta nueva sensibilidad.



Qualquer exposição sobre os processos por meio dos quais se dá a construção de organizações subjetivas em uma determinada sociedade em um dado período de tempo minimamente pressupõe uma definição e a adoção de duas importantes premissas.

A definição necessária é a de subjetividade, aqui entendida como o conjunto de todos os aspectos cognitivos e afetivos bem como de todas as crenças, usos de linguagem e habilidades sociais, conscientes ou não, que são internalizados pelos membros de um determinado grupo social em função de sua exposição aos valores, comportamentos e visão de mundo do grupo ao qual pertencem.

No que diz respeito às premissas adotadas, a primeira é a de que sociedades estão sempre em movimento, sempre em processo de mudança mais ou menos radical, mais ou menos acelerado. Tal afirmação é particularmente verdadeira no caso das sociedades complexas em que vivemos na medida em que estas não estão somente expostas aos processos de mudança gerados por razões políticas, econômicas, religiosas, tecnológicas, etc. de cunho interno, mas também sofrem fortes influências dos conjuntos de valores vigentes em outras sociedades do mundo globalizado de nossos dias.

Já a segunda premissa reza que mudanças sociais, não importam suas origens, têm um importante papel na construção da subjetividade dos jovens que lhes são contemporâneos bem como na transformação da organização subjetiva daqueles cuja subjetividade havia sido construída antes das mudanças em pauta. Esta constatação não é nova. Embora usando uma terminologia diferente, o sociólogo Georg Simmel já a deixava claramente registrada em sua discussão sobre o surgimento das grandes metrópoles na virada do século XIX para o XX. Então, ele dizia que "de cada ponto da superfície da experiência (...) pode-se deixar cair um fi o de prumo para o interior da profundeza do psiquismo, de tal modo que todas as exterioridades mais banais da vida estão, em última análise, ligadas às decisões concernentes ao significado e estilo de vida" (Simmel, 1902, em Velho, 1987, p. 15).

Foto Alexandre Firmino

AS NOVAS TECNOLOGIAS DIGITAIS E A ORGANIZAÇÃO SUBJETIVA

Uma vez explicitadas essa definição e essas premissas, podemos introduzir a questão que este artigo visa abordar: o papel que as mudanças produzidas pelas novas tecnologias digitais (principalmente pelos computadores e pela Internet) vêm tendo na construção da organização subjetiva dos jovens contemporâneos (Com este foco em mente, é bom esclarecer, estaremos aqui deixando de lado as não menos importantes transformações subjetivas que vêm sofrendo os membros de faixas etárias mais avançadas, como os pais e os professores desses jovens). Neste ponto, torna-se necessário descrever algumas dessas mudanças às quais acaba de ser feita menção. Todas têm em comum o fato de que foram produzidas pela interconexão em rede dos computadores mundiais. Tal interconexão gerou um tipo de sociedade sem precedentes na história: a chamada de sociedade em rede, na qual, pelo menos em princípio, qualquer elemento pode se conectar a qualquer outro. Nela impera a descentralização e a liberdade de circulação de tudo aquilo que não é material, não havendo caminhos pré-estipulados, fronteiras geográficas e outras barreiras congêneres.

Este tipo de organização social ganha visibilidade e concretude psicológica nas formas de uso dos computadores e, principalmente, da Internet. As possibilidades que o usuário experimenta ao lidar com um computador conectado à Internet são várias e, quase invariavelmente, bastante prazerosas para ele (principalmente se é jovem) na medida em que quase sempre produzem uma sensação de muita liberdade, mobilidade e poder. Viagens sem roteiro fixo a partir dos links de hipertexto. Inúmeros ambientes que congregam pessoas com interesses análogos, em muitos dos quais pode-se expressar livremente (geralmente por escrito) o que se pensa e o que se deseja sob a cobertura de apelidos protetores da identidade. Incontáveis maneiras de saciar a curiosidade e de explorar o desconhecido. A possibilidade sempre presente de manter diversas "janelas" simultaneamente abertas para o mundo e de executar diversas tarefas ao mesmo tempo. E muito mais.

Cabe agora perguntar qual o papel que essas mudanças de fato podem ter na construção de novas organizações subjetivas e o que se pode fazer para observar seu real impacto nessa construção.

Começarei pela última dessas duas perguntas. Isso porque é importante que deixe claro que conhecer uma nova organização subjetiva não é tarefa fácil nem rápida por duas razões principais: (a) na medida em que é sempre invisível, uma organização subjetiva não pode ser observada diretamente (o que é observável é sempre o comportamento e não aquilo que está por trás dele), ou seja, a ela só podemos ter acesso por meio de indicadores externos daquilo que se passa internamente; (b) na medida em que é extremamente complexa, uma organização subjetiva não pode ser investigada como um todo e, sim, em etapas - com objetivos bem definidos embora parciais - para que uma noção de conjunto possa eventualmente ser construída.

É exatamente essa visão de conjunto que começa a ganhar contornos nítidos nos dias de hoje, mais de uma década após a difusão dos computadores pessoais e da Internet. Dado, porém, que uma ampla revisão da literatura excederia o espaço disponível para a presente exposição, opto por concentrá-la nos resultados dos diversos trabalhos que vêm sendo produzidos pelo Núcleo de Estudos sobre Tecnologia e Subjetividade (NETS) do Departamento de Psicologia da PUC-Rio, do qual sou fundadora e coordenadora[1] Em cada um dos trabalhos listados neste site há, porém, inúmeras referências a trabalhos realizados por outros pesquisadores.

Ainda no ano de 1997, ou seja, nos primeiríssimos tempos de difusão da Internet no Brasil, minhas próprias investigações dos impactos subjetivos da Internet sobre seus usuários brasileiros (Nicolaci-da- Costa, 1998) revelavam que, já em seus primeiros momentos, a Internet estava gerando profundas alterações e subvertendo importantes expectativas em praticamente todas as áreas da experiência cotidiana. De fato, esses primeiros resultados revelavam um esboço do perfil de um sujeito - o homem ou a mulher do século XXI - que pensa, age, sente, faz uso da linguagem, se relaciona com os outros e consigo mesmo de modos que são muito diferentes daqueles dos de seus predecessores.

Isso, no entanto, ainda era muito vago. Cabia aprofundar a investigação dessas características do sujeito do século XXI. Para tanto, foram realizadas várias pesquisas com usuários da Internet ou com profissionais (terapeutas e educadores) que lidavam com esses usuários.

Foto Alexandre Firmino Foto Alexandre Firmino

O QUE DIZEM AS PESQUISAS

O conjunto dessas pesquisas revelou muitas características desses usuários, características essas que, na medida em que o que acontece no ambiente virtual é quase sempre transposto para o ambiente "real", parecem ser aquelas que identificam o sujeito do século XXI. Ao que nossos resultados indicam, este é:

1) Um sujeito que sente prazer em praticamente tudo o que faz online. De fato, o prazer parece ser a principal tônica dos novos modos de ser. Até mesmo as obrigações, como os trabalhos escolares, podem ser transformados em tarefas prazerosas se realizados online e, melhor ainda, se realizados em interação com outros usuários.

2) Um sujeito que está disposto a experimentar novas formas de ser. Na vida real, é difícil experimentar sem se expor. Já online, com a cobertura oferecida pelo anonimato dos apelidos, os jovens podem ousar sem se identificar, tendo sempre interlocutores que lhes dão retorno sobre aquilo que revelam ser. Tais interações podem se constituir em importantes formas de auto-conhecimento.

3) Um sujeito multi-tarefa, que faz diversas coisas ao mesmo tempo. Esta característica é de difícil apreensão por todos aqueles que foram socializados para executar tarefas em seqüência. Tem, porém, o atrativo de eliminar o tédio gerado por tarefas que exigem muita concentração.

4) Um sujeito que é ágil e está em constante movimento (mesmo quando seu corpo não se desloca). A agilidade, a movimentação e a curiosidade sempre foram atributos associados à juventude. A Internet (e, mais recentemente, a telefonia celular) dá novas dimensões a essa agilidade, que não mais está confinada a deslocamentos físicos nem tampouco à estabilidade dos conhecimentos registrados em enciclopédias. Tanto o deslocamento de um ambiente virtual para o outro quanto o conhecimento tornam-se passíveis de alterações de rumos e/ou definições.

5) Um sujeito que, por meio da mobilidade de sua escrita e não do seu deslocamento físico, habita vários espaços (muitas vezes simultaneamente). Nestes espaços - como, por exemplo, os de programas interativos online como o Messenger, o Orkut e os blogs - ganha acesso a diferentes realidades (culturais, imaginárias, sociais, etc.). Esta mobilidade, por sua vez, relativiza seu conhecimento e combate seus preconceitos.

6) Um sujeito que, nestes espaços, pode se apresentar com identidades e características diferenciadas, ou seja, pode construir diferentes narrativas (verídicas ou não, sinceras ou não, anônimas ou não) a respeito de si mesmo. Acrescente-se a isso o fato de que, dado que essas diferentes narrativas são construídas para seus interlocutores em ambientes interativos, este sujeito pode ter importantes retornos sobre aquilo que revela ser.

7) Um sujeito que, em função do retorno que recebe a partir do que escreve sobre si, submete as definições de si a um constante processo de revisão.

8) Um sujeito que, por se expor a tantos espaços, realidades, experiências e retornos, tem a si mesmo como a única fonte de integração possível dos resultados dessas múltiplas exposições e múltiplos retornos.

9) Um sujeito que, em conseqüência dessas múltiplas exposições, desses múltiplos retornos e das integrações possíveis, submete a um constante processo de definição e redefinição as fronteiras entre as esferas do público e do privado (para a defesa das quais cria novas formas e lança mão de novos recursos).

10) Um sujeito que está tendo dificuldades para encontrar fórmulas para se proteger dos excessos gerados por sua constante mobilidade e exposição à diversidade.

11) Um sujeito que, por efetuar, ele próprio, um recorte nas realidades às quais está exposto, torna-se cada vez mais singular e auto-referido.

12) Um sujeito que é flexível, adaptável, inquieto e ávido de novas experiências.

13) Um sujeito que conhece poucos limites para seus desejos.

A maioria dos adultos se surpreende com essas características, tão radicalmente diferentes daquelas dos jovens de tempos passados. Esta surpresa, no entanto, pode gerar diferentes reações. Muitos são tomados de horror e indignação. Felizmente, contudo, alguns - entre os quais espera-se que estejam aqueles cuja missão é a de educar esses jovens para viver em um novo mundo - têm sensibilidade suficiente para perceber que a melhor estratégia é a de aprender a sintonizar com essa nova subjetividade. Para tanto, contam com os subsídios fornecidos por aqueles que, como nós e muitos outros, tomam-na como objeto de suas pesquisas. (NA)



[1] (ver http://www.puc-rio.br/sobrepuc/depto/ psicologia/pesquisas.html#amnc ).


Nicolaci-da-Costa, A.M. (1998), Na malha da Rede: Os aspectos íntimos da Internet. Rio de Janeiro: Editora Campus.
Simmel, G. (1987). A metrópole e a vida mental. Em O. G. Velho (Org.), O fenômeno urbano (pp. 11-25). Rio de Janeiro: Editora Guanabara, 1987. (Original publicado em 1902)

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