NA - No mundo contemporâneo,
muitas crianças e jovens parecem viver "mergulhados"
em tecnologias. Em outras palavras, atualmente
muitas crianças e os jovens têm uma relação intensa
com a TV, o computador, os jogos eletrônicos,
etc. Nesse caso, qual seria, para você, o impacto
disso sobre a vida dessas crianças e jovens?
RF - Prefiro pensar menos em "impacto"
ou "influências" e mais em transformações na cultura,
nos modos de pensar, de estabelecer relação com
o conhecimento, com a informação, com as imagens,
com a linguagem e com as próprias pessoas. Se
o dia de uma criança ou de um jovem é ocupado,
hoje, com quatro, cinco, seis horas diante da
TV ou do computador, certamente isso altera seu
modo de estabelecer relações com o mundo. Abre-se
para crianças e jovens um mundo praticamente infinito
de possibilidades de comunicação, o que em si
não teria problemas. Sucede, sim, uma série de
alterações, não só psíquicas, mas sociais e de
compreensão quanto ao que seria "conhecer", "aprender",
"informar-se". E isso não acontece independente
de outros acontecimentos, como as mudanças nos
modos de relacionamento entre adultos e jovens,
preocupações com segurança, confinamento em apartamentos
e assim por diante. Penso que é por aí que se
poderiam levantar novas questões, fundamentais
para a educação: nossos alunos e filhos usufruem
da Internet exatamente para quê e em que condições?
Ficam quatro horas diante da TV e vêem exatamente
o quê? Como esse tempo modifica as maneiras de
convivência nos diferentes grupos de que participam?
Que tipo de experiência têm com as novas tecnologias?
Buscam o acúmulo de informação? Ou aprendem a
discriminar o que vêem e lêem? Como vão adiante
a partir do que lêem e vêem nesses meios? Para
mim, é fundamental pensar sobre isso.

NA - Podemos constatar muitas discussões polêmicas
relacionadas ao uso das variadas tecnologias.
Nesse sentido, quais seriam, para você, os desafios
éticos a serem enfrentados quando nos referimos
ao uso dessas diversas tecnologias?
RF - Os desafios éticos são inúmeros. Primeiro,
da parte de quem faz, produz, veicula, seja programação
de TV, rádio, revistas, sites da Internet, softwares
diversos, CDs, etc. Afinal, sabemos que no Brasil
ainda engatinhamos, no que diz respeito ao controle
da informação nas mídias. Isso sempre vem associado
à censura. Segundo, da parte de quem assiste,
de quem usa esses meios. A sociedade civil
parece que não toma para si essa responsabilidade
de lutar pelo direito a uma informação eticamente
cuidadosa. O modo como, muitas vezes, os diferentes
grupos sociais são mostrados na TV, por exemplo,
negros, homossexuais, etc, somente há pouco tempo
é explicitamente questionado de fato. Ainda
temos muito a aprender quanto ao direito a reclamar,
de reivindicar que mulheres não sejam mostradas
em posição inferior; que comunidades pobres não
sejam sempre retratadas como ignorantes ou "coitadinhas".
Acho que a dignidade humana precisa encontrar
lugar em todo e qualquer produto midiático. Há
todo um trabalho de educação dos comunicadores,
que precisa ser feito nos cursos de graduação.
E há, com certeza, também uma tarefa cada vez
mais urgente, relativa à formação dos pedagogos,
dos professores, para transformarem efetivamente
a TV, a Internet, etc, em objeto de estudo diário
nas escolas.
NA - Para avançar um
pouco a nossa reflexão, eu gostaria que você se
aprofundasse na questão das relações que você
estabelece entre educação, cultura e mídia, de
um modo geral.
RF - Entendo que a educação está relacionada
não só com o trabalho pedagógico escolar, mas
com uma série de trabalhos direcionados a compreender
melhor nosso tempo, a cultura em que vivemos,
os modos de vida que produzimos e que nos produzem.
Ora, os meios de comunicação têm tudo a ver com
isso. Eles existem não apenas para informar, divertir,
ocupar nosso tempo, vender produtos. A mídia traz,
junto, formas de comunicação, modos de contar
histórias, de usar a linguagem, de descrever como
são ou devem ser crianças, jovens, adultos, pobres
e ricos, mulheres e homens, negros, brancos, grupos
de todas as etnias e condições sociais.
Assim, integrar a TV, o rádio, as revistas e jornais
ao currículo escolar significa trazer seus produtos
para a sala de aula, com o objetivo de fazer leituras
cotidianas do social veiculado na mídia. Significa
estabelecer com os alunos relações entre as narrativas
da mídia sobre nós mesmos, nosso País, o mundo,
e aquilo que nós pensamos, sentimos e entendemos
sobre aqueles mesmos temas, aqueles personagens,
aquelas vidas. Significa também aprender formas
de expressão, de linguagem, como é o caso da linguagem
publicitária, da linguagem ficcional de telenovelas,
da linguagem informativa dos telejornais.
NA - E, de um modo mais
específico, entre escola e televisão?
RF - A TV, certamente, é o meio de comunicação
mais acessível à maioria da população. Assim,
trazê-la para a sala de aula, como objeto permanente
de estudo, é seguramente um modo rico e eficaz
de compreendermos mais sobre o mundo em que vivemos,
ao mesmo tempo que esse trabalho se fará na perspectiva
de formar espectadores críticos, meninos e meninas
que se põem a pensar sobre o que lhes é mostrado
e que produzem algo seu a partir do que vêem.
NA - Você fez e faz pesquisas
sobre o que você chama de "estatuto pedagógico
da mídia" Fale-nos sobre o que isso significa.
RF - Em poucas palavras, tenho defendido que
a mídia e seus produtos operam pedagogicamente,
no sentido de que suas imagens e textos falam
de gente, de grupos sociais, de modos de ser e
existir hoje, neste mundo, neste País. Sempre,
em qualquer narrativa, seja ela de um livro, seja
ela de uma novela da TV, haverá escolhas, haverá
uma seleção do que se vai dizer, do que se vai
informar. Ora, a TV, na medida em que é um
dos principais meios de informação e diversão,
para a grande maioria das pessoas, acaba por ensinar
diferentes modos de ser e estar, e isso todos
os dias. Modos de ser mulher, de ser criança,
de ser jovem. Não acho que a TV crie isso
"do nada". Ela faz circular o que de certa forma
já existe na sociedade. Mas faz isso do seu modo
e com sua força. Hoje em dia, inclusive, a TV
tem assumido explicitamente um lugar de "educação":
vários programas nos ensinam como comer, como
nos vestir, como fazer sexo, como educar nossos
filhos. O exemplo mais visível hoje parece ser
o da "Super Nanny", aquela babá que literalmente
dá aulas aos pais, de como dar limites às crianças...
Minhas pesquisas procuram aprofundar essas questões.

NA - Você gostaria de
apresentar alguma sugestão para os professores
e educadores, de um modo geral, a respeito do
uso das diferentes mídias?
RF - Penso que qualquer material dos diferentes
meios, da própria Internet, é material rico para
uso em sala de aula. Crianças, mesmo as menores,
poderão assistir, junto com a professora, a um
desenho animado, e recontar a história, conversar
sobre as situações problemáticas mostradas, opinar
sobre as soluções éticas encontradas pelos personagens.
Também é interessante pensar nas várias possibilidades
de os próprios professores aprenderem mais sobre
as linguagens das diferentes mídias. A velocidade
da informação, a lógica do clipe, a impaciência
com as narrativas mais lentas, por exemplo - são
questões que podem e devem ser discutidas entre
os professores, pois elas têm a ver diretamente
com o cotidiano escolar, em que nossos alunos
parecem exigir uma outra lógica por parte do professor.
E isso tudo, a meu ver, estaria exigindo um aprendizado
por parte dos professores, um contato mais direto
e efetivo com essas linguagens todas. Outra questão
que gostaria de ressaltar: aprender com as mídias
não significa apenas investir em criticar a TV
e os jornais, a Internet. Significa também pesquisar,
dominar essas linguagens, e principalmente garimpar
produtos audiovisuais bem elaborados, criativos,
ricos, que estimulem as crianças a pesquisar,
a ir adiante, que as ajudem na formação do gosto
estético e de uma ética comprometida com as grandes
lutas sociais de nosso tempo, de direitos humanos,
de respeito às diferenças, etc. Principalmente,
que mostrem aos jovens as várias possibilidades
de se narrar algo: que as verdades não existem
inteiras e num só lugar, que elas são construídas
e que podemos discuti-las, podemos nos posicionar
diante delas, que elas podem ser questionadas.
NA - Rosa, foi um prazer
entrevistá-la. E obrigada por sua atenção. Você
gostaria de acrescentar algo para finalizar essa
nossa rica conversa? O espaço é todo seu.
RF - Queria agradecer essa bela oportunidade
de conversar com vocês e me colocar à disposição
para continuar discutindo com professores, com
educadores de todos os níveis, as pesquisas e
as elaborações que tenho feito, com a ajuda de
muitos colegas, dentro dessa rica área que relaciona
educação e comunicação. (NA)
|
NA
- En el mundo contemporáneo, muchos niños y
jóvenes parecen vivir "sumergidos" en la tecnología.
En otras palabras, actualmente muchos niños
y jóvenes tienen una intensa relación con la
TV, la computadora, los juegos electrónicos,
etc. En ese caso, ¿cuál sería para usted, el
impacto de este fenómeno en la vida de esos
niños y jóvenes?
RF - Prefiero pensar menos en "impacto"
o "influencias" y más en transformaciones en
la cultura, en la forma de pensar, de establecer
una relación con el conocimiento, con la información,
con las imágenes, con el lenguaje y con las
propias personas. Si un niño o un joven ocupa
hoy su día con cuatro, cinco, seis horas frente
a la TV o a la computadora, ciertamente eso
va a alterar su modo de establecer relaciones
con el mundo. Para ellos se abre un mundo prácticamente
infinito de posibilidades de comunicación, lo
que en sí no sería un problema. Lo que sí sucede
es una serie de alteraciones, no solo psíquicas,
sino sociales y de comprensión en cuanto a lo
que sería "conocer", "aprender", "informarse".
Y esto no sucede independientemente de otros
acontecimientos, como los cambios en las formas
de relacionarse entre adultos y jóvenes, el
preocuparse con la seguridad, el confinamiento
en departamentos, entre otros. Pienso que es
por ese camino por el que podríamos plantearnos
nuevos cuestionamientos, fundamentales para
la educación: nuestros alumnos e hijos ¿hacen
usufructo de Internet exactamente para qué y
en qué condiciones? Se quedan cuatro horas frente
a la TV y, ¿qué ven exactamente? ¿Cómo ese tiempo
cambia las formas de convivencia en los diferentes
grupos de que participan? ¿Qué tipo de experiencia
tienen con las nuevas tecnologías? ¿Buscan el
acúmulo de información? ¿O aprenden a discriminar
lo que ven y leen? ¿Cómo avanzan a partir de
lo que leen y ven en esos medios? Para mí, es
fundamental pensar sobre eso.
NA - Podemos constatar muchas discusiones polémicas
relacionadas al uso de las varias tecnologías.
En ese sentido, ¿cuáles serían los retos éticos
a los que tendríamos que enfrentarnos cuando
nos referimos al uso de esas diversas tecnologías?
RF - Los retos éticos son innumerables.
Primero, de parte de quien la hace, la produce,
la vehicula, sea la programación de la TV, radios,
revistas, sitios de Internet, softwares, diversos,
CDs, etc. Finalmente, sabemos que en el Brasil
todavía estamos gateando en lo que se refiere
al control de la información en la media. Eso
siempre está asociado a la censura. Segundo,
de parte de quien ve, de quien usa esos medios.
La sociedad civil no parece responsabilizarse
por el derecho a una información éticamente
cuidadosa. De hecho, solo hace algún tiempo
es explícitamente cuestionado el modo como,
muchas veces, los diferentes grupos sociales
son mostrados en la TV, por ejemplo, negros,
homosexuales, etc. Todavía tenemos mucho
que aprender en cuanto al derecho a reclamar,
a reivindicar que las mujeres no sean mostradas
en una posición inferior; a que comunidades
pobres no sean siempre retratadas como ignorantes
o "pobrecitas". Creo que la dignidad humana
necesita encontrar lugar en todo y cualquier
producto que salga de la media. Es necesario
que en los cursos de grado se desarrolle un
trabajo de educación a los comunicadores. Y,
por supuesto, también se hace necesaria una
tarea cada vez más urgente, relativa a la formación
de pedagogos, de profesores, para transformar
efectivamente la TV, el Internet, etc., en objeto
de continuo estudio en los colegios.
NA - Siguiendo con
esta reflexión, me gustaría que usted profundizara
sobre las relaciones que establece entre educación,
cultura y media, de un modo amplio.
RF - Entiendo que la educación no solo
se relaciona con el trabajo pedagógico escolar,
sino con una serie de trabajos dirigidos a comprender
mejor nuestro tiempo, la cultura en que vivimos,
las formas de vida que producimos y que nos
producen. Claro que los medios de comunicación
tienen todo que ver con eso. Existen no solo
para informar, divertir, ocupar nuestro tiempo,
vender productos. Junto con esto la media trae
formas de comunicación, formas de narrar historias,
de usar el lenguaje, de describir cómo son o
deben ser los niños, jóvenes, adultos, pobres
y ricos, mujeres y hombres, negros, blancos,
grupos de todas las etnias y condiciones sociales.
Así, integrar la TV, la radio, las revistas
y periódicos al curriculum escolar significa
llevar sus productos al salón de clases, con
el objetivo de hacer lecturas cotidianas de
lo social que es vehiculado en la media. Significa
establecer con los alumnos relaciones entre
las narrativas de la media sobre nosotros mismos,
sobre nuestro país, sobre el mundo, y aquello
que pensamos, sentimos y entendemos sobre esos
mismos asuntos, sobre aquellos personagens,
aquellas vidas. Significa también aprender formas
de expresión, de lenguaje, como el caso del
lenguaje publicitario, del lenguaje ficcional
de las telenovelas, del lenguaje informativo
de los noticieros.

NA - Y de un modo más
específico, ¿entre escuela y televisión?
RF - La TV es, evidentemente, el medio
de comunicación más accesible a la mayoría de
la población. Así, llevarla al salón de clases
como objeto permanente de estudio, es un modo
productivo y eficaz de comprender mejor el mundo
en que vivimos; al mismo tiempo ese trabajo
se hace con la perspectiva de formar espectadores
críticos, niños y niñas que piensen sobre lo
que les es mostrado y que produzcan algo suyo
a partir de lo que vieron.
NA - Usted hizo y hace
investigaciones sobre lo que llama de "estatuto
pedagógico de la media". Háblenos de qué se
trata.
RF - En pocas palabras, defiendo que la
media y sus productos operan pedagógicamente,
en el sentido de que sus imágenes y textos hablan
de personas, de grupos sociales, de modos de
ser y existir hoy, en este mundo, en este país.
Siempre, en cualquier narrativa, sea la de un
libro, sea la de una novela de la TV, habrá
que escoger, habrá una selección de lo que se
va a decir, de lo que se va a informar. La
TV, en la medida en que es uno de los principales
medios de información y diversión, para la mayoría
de personas, acaba por enseñarnos diferentes
modos de ser y estar, y eso ocurre todos los
días. Modos de ser mujer, de ser niño, de ser
joven. No creo que la TV cree eso "de la
nada". Ella hace circular lo que de cierta forma
ya existe en la sociedad. Pero lo hace a su
manera y con su fuerza. Hoy, incluso, la TV
viene asumiendo explícitamente un lugar de "educación":
varios programas nos enseñan cómo comer, cómo
vestirnos, cómo hacer el amor, cómo educar a
nuestros hijos. Hoy el ejemplo más visible parece
que es "Super Nanny", aquella nana que literalmente
les da clases a los padres de cómo dar límites
a los niños... Mis investigaciones buscan profundizar
estos planteamientos.
NA - ¿Le gustaría dar
alguna sugerencia a los profesores y educadores,
de un modo general, al respecto del uso de los
diferentes medios de comunicación?
RF - Pienso que cualquier material de
los diferentes medios de comunicación, del propio
Internet, es un material enriquecedor para ser
usado en clase. Los niños, aún los menores,
podrán ver, al lado de la profesora, un dibujo
animado, y volver a contar la historia, conversar
sobre las situaciones problemáticas mostradas,
opinar sobre las soluciones éticas encontradas
por los personajes. También es interesante pensar
en la posibilidad de que los propios profesores
aprendan más sobre los lenguajes de los diferentes
medios de comunicación. La velocidad de la
información, la lógica del clip, la impaciencia
con las narraciones más lentas, por ejemplo
-son cuestiones que pueden y deben ser discutidas
entre los profesores, pues ellas tienen que
ver directamente con el cotidiano escolar, en
el que nuestros alumnos parecen exigir otra
lógica de parte del profesor. Y todo esto,
a mi modo ver, exigiría un aprendizaje por parte
de los profesores, un contacto más directo y
efectivo con todos esos lenguajes. Otro asunto
que me gustaría resaltar: aprender con los medios
de comunicación no significa solamente invertir
en criticar a la TV y a los periódicos o al
Internet. Significa también investigar, dominar
esos lenguajes, y principalmente discernir productos
audiovisuales bien elaborados, creativos, ricos,
que estimulen a los niños a investigar, a avanzar,
que los ayuden a formar un gusto estético y
una ética comprometida con las grandes luchas
sociales de nuestro tiempo, los derechos humanos,
el respeto a las diferencias, etc. Principalmente,
que les muestren a los jóvenes las varias posibilidades
de narrarse algo: que las verdades no existen
enteras y en un solo lugar, sino que se construyen
y pueden ser discutidas, que podemos tener una
posición frente a ellas, que podemos cuestionarlas.
NA - Rosa, fue un placer
entrevistarla. Gracias por su atención. ¿Querría
decir algo más para finalizar nuestra enriquecedora
charla? El espacio es todo suyo.
RF - Quiero
agradecer esta bella oportunidad de conversar
con ustedes y decir que estoy disponible para
continuar discutiendo con profesores, con educadores
de todos los niveles sobre las investigaciones
y elaboraciones que vengo desarrollando, con
la ayuda de muchos compañeros, dentro de esa
productiva área que relaciona educación y comunicación.
(NA)
[1] En português: Associação Nacional de Pesquisa
em Educação - ANPED.
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