Revista

L
a Revista de la Pátria Grande


CONSTRUINDO CAMINHOS/ CONSTRUYENDO CAMIÑOS

As empresas e o ambientalismo anti-ecológico
Gian Mario Giuliani
Universidade Federal do Rio de Janeiro – UFRJ
Rio de Janeiro - Brasil


Foto Claus Meyer/TYBA
El entusiasmo mostrado por los partidarios de la nueva perspectiva de responsabilidad ambiental corporativa es eclipsado por una serie de importantes cuestiones de orden teórico, social, político y hasta filosófico que transmiten un fuerte escepticismo en relación al potencial de reconversión ambientalista de las empresas. Los principales puntos a debatir planteados por los ecoambientalistas al ambientalismo empresarial se refieren a la lógica que guía las acciones de las empresas, a las formas como las empresas entienden las relaciones entre sus propias actividades y el medio ambiente y al tipo de humanización de la naturaleza adoptado, considerado profundamente antiecológico.

"A economia não ensina a produzir...
ensina a escolher... o que produzir
e quais métodos de produção utilizar".
Ruffolo (2006:3)

A partir dos anos de 1970, o rápido desenvolvimento dos movimentos eco-ambientalistas (McCormick, 1992) juntamente a uma série de importantes estudos que apontavam para um futuro catastrófico caso não fosse mudado o modelo de crescimento econômico e populacional (Ehrlich, 1968; Club of Rome, 1972) acabam colocando as indústrias no âmago das críticas. Estas são acusadas de utilizar indiscriminadamente a natureza como um inesgotável reservatório de recursos gratuitos, de serem as grandes emissoras de resíduos que contaminam o ar, as águas e o solo, e de substituírem complexos ecossistemas naturais por monoculturas que reduzem drasticamente a biodiversidade. O conceito de desenvolvimento sustentável, lançado em 1987 ao público global pelo relatório Bruntland (United Nations, 1987) deveria reconciliar o desenvolvimento econômico e social com o meio ambiente e a natureza. Após a conferência UNCED realizada no Rio de Janeiro em 1992, as empresas começam a sentir crescer as pressões sociais para que se tornem ambientalmente responsáveis. Apesar da maioria dos empresários continuarem pensando na conservação ambiental como um entrave ao desenvolvimento dos negócios, algumas grandes empresas iniciam a por em pratica programas de gestão ambiental. A partir de 1995, é implantada a certificação ISO 14000 e a sua procura por parte das grandes empresas cresce muito nos anos sucessivos, induzindo ao convencimento de que investir na área ambiental é uma proposta conveniente para as empresas. O prefixo "eco" e o adjetivo "sustentável" parecem se adaptar rapidamente aos conceitos tradicionalmente econômico-empresariais. Fala-se de produção eco-compatível para os eco-negócios, assim como de eco-eficiência e, ao lado do desenvolvimento sustentável, fala-se de "desempenho sustentável" como da necessidade da empresa ser ambientalmente correta para poder se manter no mercado (Kinlow, 1993). O esverdear das empresas é apresentado como crescente e irreversível. Louva-se a expansão da consciência ambiental e ecológica que, por fim, atinge o setor social mais resistente às mudanças nessa ordem.

Surgem, no entanto, uma série de interrogações que colocam um freio ao entusiasmo mostrado pelos partidários da nova perspectiva da responsabilidade ambiental corporativa. São colocadas importantes questões de ordem teórica e nos planos social, político e até filosófi co que transmitem um forte ceticismo a respeito do potencial de reconversão ambientalista das empresas.

Foto João Ripper

TRÊS QUESTÕES EM DEBATE...

A seguir abordaremos, muito sinteticamente, três dos principais questionamentos movidos pelos eco-ambientalistas ao ambientalismo empresarial, e procuraremos algumas mediações naquilo que muitas vezes se apresenta como um debate entre surdos.

O questionamento mais geral refere-se à lógica que guia as ações das empresas. Pergunta-se: poderiam as empresas combinar sua vital necessidade de lucro com o respeito da natureza e do meio ambiente? A responsabilidade ambiental corporativa teria a capacidade de adequar a busca dos interesses individuais na realização do interesse geral? Nas argumentações empresariais a resposta é afirmativa, porque inspirada nos princípios da economia clássica e na filosofia utilitarista, muito cruamente sintetizáveis em "o que é bom para o individuo, é bom para a sociedade", assim que as atividades lucrativas e o crescimento da riqueza favorecem o bem comum independentemente de quem se apropria destas. Os críticos sustentam que tal argumentação se apóia em uma base empírica muito frágil. O lema da "responsabilidade ambiental corporativa", fartamente utilizado pela retórica empresarial como natural componente da "responsabilidade social corporativa", não teria encontrado ainda instrumentos de avaliação dos seus gabados efeitos positivos sobre a sociedade e o meio ambiente. Com efeito, além dos relatórios informativo-publicitários, não estão ainda disponíveis satisfatórias informações a respeito das práticas ambientais das empresas e menos ainda se conhece a respeito de como estas práticas se inserem no conjunto das atividades das mesmas.

Estas críticas são amplamente justificadas, já que pesquisas conduzidas na Europa e nos Estados Unidos mostram que os processos para decidir investimentos motivados pelas preocupações ambientais seguem uma lógica separada e distante daqueles motivados pelas preocupações econômicas. De um lado, as decisões de investimentos com finalidade ambiental são normalmente consideradas "obrigações" impostas pela legislação, ou são antecipações de previsíveis futuras imposições legais. De outro lado, as decisões com finalidade econômica nunca são avaliadas do ponto de vista ambiental. Cabe, no entanto, observar que há iniciativas para contornar o problema desde que as Nações Unidas adotaram o balanço proposto pelo Global Reporting Initiative - GRI, uma Ong criada nos Estados Unidos em 1997. O sistema do GRI tem 96 indicadores econômicos, sociais e ambientais que medem o desempenho das empresas. A adoção desse balanço é voluntária e 253 empresas no mundo estão usando este método, mas somente 96 têm respondido a todos os 96 quesitos (Arnt, 2003). A maior preocupação de organizadores e analistas é a necessidade de encaixar diferenças culturais satisfatórias.

Um segundo questionamento é relativo à maneira em que as empresas concebem as relações entre suas próprias atividades e o meio ambiente. A visão ambientalista empresarial considera alguns dos aspectos práticos relativos à sustentabilidade: poupar recursos naturais, buscar fontes energética alternativas, reduzir a poluição, preservar áreas naturais, proteger espécies ameaçadas de extinção. Temos que reconhecer que as empresas, enquanto expressões maiores da racionalidade econômica, buscam em continuação mudanças para melhorar seu desempenho ambiental. No entanto, ao fazê-lo não visam reduzir os desequilíbrios ambientais, mas antes de tudo buscam contornar os efeitos negativos sobre sua eficiência produtiva e seus rendimentos. Consideram que a finitude dos recursos naturais não deve gerar preocupações, porque estes são infinitos pelo que se refere à produção, já que são recriados pelo homem e suas tecnologias. Por isso, a racionalidade ambiental das empresas põe ênfase nos processos produtivos, na tecnologia limpa, na reciclagem e na eficiência energética, sendo que a palavra final a respeito da intensidade da qualidade do empenho ambiental corporativo pertence ao mercado. O que deve ser sustentada é a capacidade técnica e econômica das empresas para evoluir no atendimento das demandas dos consumidores.

Foto Ricardo Funari/TYBA

Esta perspectiva economicista é sem duvidas excessivamente redutiva. As ciências econômicas, embora já redimensionadas nas suas pretensões de ciências positivas, ainda tendem a considerar seus conhecimentos autônomos com relação à moral, à cultura, à política e à ideologia. A esse respeito, temos que observar que se o desenvolvimento do capitalismo tem imposto e universalizado a racionalidade econômica, mas não conseguiu torná-la nem homogênea nem independente da influência da cultura e dos seus específicos âmbitos (família, grupo, território, nação). A racionalidade encontra-se ainda exposta a forças que não pode controlar e que a deformam ou a contrastam. Deve-se assim considerar que os valores influenciam a racionalidade econômico-empresarial, e que os mesmos inspiram a formulação das regras e normas que dão fundamento e orientam as ações e iniciativas dos empresários para a manutenção do patrimônio, a acumulação do capital e a realização do lucro. Portanto, reconhecendo que a empresa se caracteriza pela racionalidade finalizada ao lucro, deve-se reconhecer também que podem ser diferentes as formas pelas quais tal finalidade é alcançada (Cappellin e Giuliani, 2003). Sendo assim, os valores ambientalistas da sociedade moderna poderiam "contaminar" a racionalidade econômica dos empresários reorientando seus objetivos e práticas produtivas.

Um terceiro questionamento, refere-se ao tipo de humanização da natureza adotada pelo ambientalismo empresarial e considerado profundamente anti-ecologica. Servir-se e transformar a natureza são atividades peculiares dos seres humanos e estão à base do processo histórico de todas as civilizações. Porém, a empresa não somente utiliza a natureza, mas sobretudo aspira a "refazê- la", a transformar elementos naturais em produtos artificiais (a energia a vapor, o motor a explosão, a energia elétrica e nuclear, o reflorestamento, o saneamento da água, etc.) e até "reinventá-la" pela bioengenharia e, mais recentemente, pela nano-robótica. A via de expansão das empresas consiste em transformar a matéria, os organismos e os serviços gratuitos da natureza em capital-dinheiro. O problema principal dessas intervenções é que estas se aplicam sobre elementos singulares da natureza e ignoram conscientemente que esta, como dizem ecologistas e ecólogos, é um "sistema de sistemas" no qual todos os elementos estão inter-relacionados (Morin, 1980 e 1998; Maturana e Varela, 1980; Odum, 1988; Ehrenfeld, 1992). Mesmo quando os empresários pensam na conservação da biodiversidade, o fazem na perspectiva da conservação de estoques de recursos singulares para a indústria. Este tipo de ambientalismo, talvez possa atenuar a curto e médio prazo a agudização da crise ambiental e acalmar um pouco a contradição que nos angustia, entre o querer um ambiente sadio e a opulência da vida moderna. No entanto, a natureza anti-ecologica do mesmo poderá nos levar em mais longo prazo a uma substancial piora em nossa qualidade de vida. Com efeito, novos conhecimentos no campo das ciências naturais, sobretudo da física e hoje da biologia, têm mostrado que, assim como as ciências sociais, estas também não consentem prever as conseqüências das intervenções sobre a natureza. Podem controlar sistemas simples, mas não há ciência nem tecnologia capaz de governar sistemas complexos. Assim, o imprescindível crescimento das empresas não é apenas uma furiosa corrida sem linha de chegada. Mas, ao fragmentar e simplificar os complexos ecossistemas e procedendo através de formas arbitrárias de seleção dos aspectos do real considerados relevantes tão somente para suas atividades, as empresas colocam em movimento forças que não podem controlar. Incerteza e riscos crescem junto com o crescimento das empresas e, em um circulo que se auto-alimenta, incerteza e riscos se tornam campo de investimento e lucro das empresas (Beck, 1992; Beck, Giddens e Lash, 1992). Além disso, como foi observado por Ribeiro e Salles (1997), a fragmentação setorial e a racionalidade em curto prazo com os quais os problemas ambientais são enfrentados influem sobre a solução dos mesmos, já que soluções em curto prazo podem adiar as soluções mais efetivas e de maior alcance (por exemplo, tornar mais "ecológicos" os carros, inibe a ampliação do sistema de transporte coletivo).

Foto João Ripper

UM CAMINHO A PERCORRER...


Para concluir, podemos dizer que via empresarial à conservação da natureza e do meio ambiente sadio depende de uma série de mudanças sócio-politico-culturais que passam pelos empresários, mas que, obviamente, não dependem somente deles. A desejada sustentabilidade está no centro do antagonismo entre a certeza das ciências naturais e da economia de um lado, e a incerteza das conseqüências que as mesmas não podem prever. É mais que sabido que as respostas a este antagonismo devem ser buscadas na implementação de políticas públicas capazes de incluir a emergência ambiental em todos seus setores, das políticas para a energia, às da educação e cultura, das políticas industriais às agrícolas e agrárias, da distribuição da riqueza à justiça social, nos âmbitos locais, nacionais e internacionais. Mas isto não acontece, e a responsabilidade também é de grande parte dos empresários, cegos e surdos aos problemas do meio ambiente. Coloca-se então, em curto prazo, o imperativo de uma efetiva aplicação das normas, fartamente já contempladas na legislação ambiental nacional e internacional, que ordenam as atividades produtivas, juntamente ao compromisso dos órgãos da justiça, do estado e das partes sociais, de monitorar e inibir as práticas social e ambientalmente danosas. Em longo prazo, sente-se a necessidade de programas amplamente educativos orientados para uma substantiva mudança cultural que dê às atividades produtivas um sentido maior que o simples acúmulo de riqueza e conforto.
(NA)


ARNT, R. O Esperanto da Sustentabilidade, Exame, 11/06/2003.
BARTOLOMEO, M. et alli, I concetti chiave della contabilitá ambientale, in: La contabilitá ambientale delle imprese, a cura di Matteo Bartolomeo, Il Mulino, Bologna, 1997.
BECK, U. Risk Society: towards a new modernity, Sage Pub., London, 1992.
BECK, U. Giddens, A., Lash, S., Modernização Refl exiva: política, tradição e estética na ordem social moderna, Ed. Unesp, 1992.
CAPPELLIN P. Giuliani G.M., Morel R.L., Pessanha E., "Organizações empresariais em face da responsabilidade social das empresas no Brasil", em C.E. Tribúrcio e Silva e F. Souza Freire, Balanço Social: teoria e prática, Ed. Atlas, São Paulo, 2001.
CAPPELLIN, P. e Giuliani, G.M., "A Racionalidade, a Cultura e o Espírito Empresarial", Sociedade e Estado, UNB, 2003.
---------------. "The Political Economy of Corporate Responsibility in Brazil: social and Environmental Dimensions", United Nations Research Institute for Social Development - UNRISD, Paper N. 14, Outubro 2004.
CLUB OF ROME. The limits to Growth, 1972.
EHRENFELD, D. A Arrogância do Humanismo , Ed. Campus, Rio de Janeiro, 1992.
EHRLICH, R. e EHRLICH, H. The population bomb, Simon and Shuster, New York, 1968.
ELSTER, J. Peças e Engrenagens das Ciências Sociais, Relume Dumará, Rio de Janeiro, 1994.
KINLAW, D. C. Competitive and Green, Pfeiffer & Company, 1993 (Empresa competitiva e ecológica. Estratégias e ferramentas para uma administração consciente, responsável e lucrativa, Makron Books do Brasil Ed., São Paulo, 1998).
MATURANA, H., e VARELA, F. Autopoiesis and cognition, Dordrecht, 1980.
McCORMICK, J. Rumo ao paraiso: a história do movimento ambientalista, Relume Dumará, Rio de Janeiro, 1992.
MORIN E. La Methode, 2. La Vie de la Vie, Seuil, Paris, 1980.
MORIN, E. O Método 4. As idéias, habitat, vida, costumes, organização, Ed. Sulina, Porto Alegre, 1998.
ODUM, E. P. Ecologia (Basic Ecology, 1983), Ed. Guanabara Koogan, Rio de Janeiro, 1988.
RIBEIRO, A., e SALLES, S., "Dinâmica de inovações sob restrição ambiental" em, AAVV, Economia do meio ambiente, Embrapa-UNicamp, 1997.
RUFFOLO, G. Lo specchio del diavolo. La storia dell'economia dal Paradiso terrestre all'inferno della fi nanza, Einaudi, Torino, 2006.
UNITED NATIONS, Our Common Future, Oxford University Press, Oxford, 1987.

www.globalreporting.org

www.cebds.com

NOVAMERICA
Rua Dezenove de Fevereiro, 160 - Botafogo
22280-030 -
Rio de Janeiro - RJ
Brasil
Tel. (fax): (55) (21) 2542-6244

e-mail: novamerica@novamerica.org.br
CENTRO NOVAMERICA DE EDUCAÇÃO POPULAR
Praça Santos Dumont, 14 - Centro
25880-000 -
Sapucaia - RJ
Brasil
Tel. (fax): (55) (24) 2271-2004
e-mail: centronovamerica@uol.com.br
2003/2010 Novamerica - www.novamerica.org.br - Todos os direitos resevados.