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Em
disputa: nosso futuro ou a felicidade do mercado?
Convenções
e acordos sobre o clima, a diversidade biológica e
sobre biosegurança
Jean Pierre Leroy[1]
Rio de Janeiro - Brasil
La
Eco 92 buscó enfrentar algunos de los problemas más
urgentes contra los riesgos del planeta, elaborando
la Convención sobre Cambios Climáticos Globales y
la Convención sobre la Diversidad Biológica, ambas
altamente relevantes y oportunas. Sin embargo, catorce
años después, el balance es bastante negativo. El
camino que toman las Convenciones internacionales
relacionadas al medio ambiente y al desarrollo dejan
en evidencia la sumisión de la política y de los Estados
a la economía y a las grandes empresas. La lucha contra
la pobreza y por la igualdad implica la construcción
y reinvención de proyectos de desarrollo, apoyados
en la sustentabilidad y la democracia.
Quinze anos depois da Conferência das Nações
Unidas para o Meio Ambiente e o Desenvolvimento -
UNCTAD, a Rio 92, se os cientistas que, na época,
contestaram os riscos que corre o planeta continuam
prudentes nas suas afirmações, poucos deles se atreveriam
a contestar que a nossa moradia está em perigo. Os
oceanos estão se tornando a lixeira dos continentes,
a contaminação das águas doces está se generalizando;
as florestas equatoriais estão desaparecendo aceleradamente,
os desertos e as zonas semi-áridas estão ganhando
terreno, a biodiversidade do planeta está comprometida,
o clima está iniciando mudanças profundas... A lista
das mazelas ambientais que afligem o mundo é longa.
A Rio 92 procurou enfrentar alguns dos problemas mais
prementes, em particular elaborando a Convenção sobre
Mudanças Climáticas Globais e a Convenção sobre a
Diversidade Biológica. O desaparecimento acelerado
de espécies vegetais e animais não é muito visível
aos olhos das pessoas; e as conseqüências do empobrecimento
biológico não são tão facilmente entendidas pelas
pessoas comuns, até porque as mídias tratam pouco
e mal do assunto. A violenta expansão do agronegócio
e, com ele, das monoculturas, em particular com a
soja, as plantações de pinhos e eucalipto e a pecuária,
reduz rapidamente ecossistemas ainda bastante preservados
e elimina o campesinato e populações tradicionais
que mantinham a biodiversidade com a diversificação
da agricultura e suas sementes nativas. As mudanças
climáticas se fazem mais presentes, até porque as
suas conseqüências, comprovadas ou não, são espetaculares
e fotogênicas. Derretimento das geleiras e recuo das
neves eternas nos Andes, aumento da intensidade e
do número dos furacões que varrem a América Central,
os Caribes e o sul dos EUA, devido ao super-aquecimento
das águas do Atlântico, seca na Amazônia em 2005,
ligada em parte ao mesmo fenômeno, furacão Catarina,
o primeiro extra-tropical, que varreu a costa do sul
do Brasil em 2004, chuvas diluvianas e secas prolongadas
fora de época, mudanças nas estações, não faltam dados
empíricos preocupantes. As Convenções eram, portanto,
altamente relevantes e oportunas. Quatorze anos depois,
porém, o balanço é bastante negativo. Entre outras
explicações, quero enfatizar uma que me parece fundamental
e que sintetizaria e simplificaria dizendo que a UNCTAD
confiou a salvação do planeta ao mercado. A Agenda
21, o principal documento elaborado na Rio 92, embora
não engajasse os governos presentes, atribuía um papel
central ao comércio internacional, às multinacionais
e às empresas em geral na promoção do desenvolvimento
sustentável que combateria a pobreza e garantiria
a conservação e a gestão dos recursos para o desenvolvimento.
Ambas as Convenções, cada uma a seu modo, avançam
na mesma linha, embora mais devagar do que os lobbistas
e muitos governos gostariam.
A QUESTÃO DOS RECURSOS GENÉTICOS E A BIODIVERSIDADE
AGRÍCOLA
O reconhecimento pela Convenção da Biodiversidade
dos direitos dos países sobre seus recursos genéticos
significa tão somente o direito de negociá-los, não
de subtraí-los às regras do mercado tais como definidas
pela Organização Mundial do Comércio (OMC). Essa constatação,
feita a partir da leitura do texto da Convenção, se
verifica amplamente nos encontros das partes - COP
- em que se debate as aplicações da Convenção. Acrescento
à minha argumentação o Protocolo de Cartagena, sobre
biossegurança, que realizou o seu 3° encontro das
partes - MOP3 - em Curitiba, junto com a COP8. Quais
foram os debates centrais? A manutenção da biodiversidade
do planeta? A segurança alimentar e da saúde? Não.
Na MOP3, foi se a rotulagem dos produtos que circulam
entre países contendo OVM (organismos vivos modificados),
mais conhecidos como transgênicos, deveria comportar
a expressão "contém OVM" ou "pode conter OVM".
No caso do "pode conter", a prova teria que ser dada
pelo consumidor, eximindo o país e as empresas exportadoras
de fazer a prova. Monsanto, Cargill, e outras empresas
contavam com numerosas pessoas presentes em delegações
oficiais. Apesar da sua pressão, os carregamentos
transfronteiriços com presença de OVMs deverão assinalar
"contém OVMs". Mas foi colocado um prazo de quatro
anos para os paises se adequarem a essa norma. O caso
do Brasil, onde as sementes transgênicas de soja foram
introduzidas por contrabando e depois legalizadas,
é um precedente que poderá se reproduzir. Daqui a
quatro anos, poderá se descobrir que OVM estão presentes
em tantos produtos sem o consumidor saber que se tornará
inócuo rotulá-los com a advertência.
Na COP8, uma das principais questões foi a das tecnologias
genéticas de restrição de uso (GURTS, em inglês),
tecnologias que produzem as sementes ditas "terminator",
chamadas por uns de sementes suicidas, pois, depois
da colheita, as sementes oriundas delas são estéreis
e, por outros, de sementes assassinas. Assassinas
de camponeses, pois, contra a tradição imemorial do
camponês plantar as suas próprias sementes, ele, dentro
das regras internacionais da OMC, poderá ser obrigado
no futuro, a comprar as sementes a cada estação, colocando-o
nas mãos da agroindústria. Existia uma moratória que
proíbe o uso comercial dessas sementes. Tentou-se
liberá-las "a critério de cada país", preparando aí
também um fato consumado. A proposta não passou, o
que mostra que ainda vale a pena lutar.
Outro grande debate: a propriedade dos povos indígenas
sobre seus recursos naturais e sobre os seus conhecimentos.
A grande questão por trás da Convenção sobre a diversidade
biológica é a de saber se a vida pode ser privatizada
ou não. Na história da humanidade - e isso começou
há 10.000 anos, as sementes agrícolas foram produzidas
e melhoradas por gerações de camponeses através do
mundo; bem como gerações de sábios indígenas aprenderam
a selecionar e manipular ervas medicinais. A detenção
coletiva desses recursos e do conhecimento deveria
garantir um direito coletivo, mas a legislação não
atribui valor a esse trabalho e não o reconhece, o
que significa na realidade uma expropriação do saber
e dos direitos. Os camponeses fazem a gestão de
um bem coletivo em nosso nome. Como e a quem atribuir
título de propriedade sobre sementes e variedades
que cruzaram o mundo, que foram melhoradas milhares
de vezes através dos continentes e dos ecossistemas?
Sustentar e elevar a biodiversidade agrícola é fundamental
para a sustentabilidade sócio-econômicaambiental dos
agroecossistemas e para a soberania alimentar e a
segurança alimentar e nutricional dos povos e das
nações. A captura por empresas multinacionais do patrimônio
genético, além de colocar os agricultores sob a sua
dependência e contribuir assim ao empobrecimento do
campesinato e sua saída do campo, provoca uma "erosão
genética", potencialmente preocupante. Reduzse o número
de variedades de milho, batata, arroz, etc. e, com
isso, a possibilidade de encontrar as que terão capacidade
de resistir a crises climáticas e novas doenças.
Aos povos indígenas, é colocado um dilema. Os seus
conhecimentos tradicionais continuarão coletivos ou
serão privadamente apropriados? A Convenção, reconhecendo
seus direitos, os convida a aceitar o regime da propriedade
privada, invenção dos "brancos", estranha a sua cultura.
Mas se, por hipótese, uma firma transnacional reconhecer
os direitos de um determinado povo sobre uma planta
medicinal que cura tal doença e lhe pagar pelo uso
dos seus conhecimentos, o que será dos direitos do
povo vizinho, detentor dos mesmos conhecimentos? A
COP8 não chegou a nenhuma conclusão sobre a repartição
dos benefícios da biodiversidade. Não é de se admirar,
pois são a OMC e a OMPI (organismo internacional que
estabelece as regras da propriedade intelectual) que
ditam as regras, numa ótica estritamente de mercado,
longe dos direitos dos agricultores e dos povos indígenas.

A LÓGICA DE MERCADO
A lógica de mercado marca ainda mais profundamente
a Convenção sobre Mudanças Climáticas. Das discussões
sobre a aplicação da Convenção, surgiu o Protocolo
de Quioto. O protocolo obriga 35 nações industriais
a cortar as emissões de dióxido de carbono em 5,2%
abaixo dos níveis medidos em 1990 até 2012. Em relação
a 1990, houve um leve queda nos países da Comunidade
Europea, mas, só entre 2003 e 2004, os espanhóis elevaram
em 4,8% suas emissões e a Itália vem logo atrás. Bush
retirou os EUA das negociações de Quioto em 2001,
alegando que a redução na emissão dos gases causadores
do efeito estufa prejudicariam a economia norte-americana
e por ser contra a exclusão de países pobres das metas.
Agora, é o Canadá que impera as negociações. Os países
ditos "em desenvolvimento" não têm metas de redução
dos gases de efeito-estufa produzidos por eles. É
grave, na medida em que países como China e Índia
conhecem um crescimento acelerado e que os desmatamentos
no Brasil têm um impacto enorme.
Muitos países aderiram ao Protocolo com a proposta,
logo aprovada, de criação do Mecanismo de Desenvolvimento
Limpo - MDL. O MDL permite a países que não consigam
cumprir com os seus compromissos de redução de emissões
de gases de efeito estufa apoiar financeiramente projetos
em países em desenvolvimento que possam contribuir
para a redução das emissões nesses países. Além disso,
se desenvolve um mercado de carbono: "Quem tem economia
de energia a me vender para eu continuar poluindo?
Quem quer comprar a economia de energia que vou ter
para continuar poluindo?" O MDL, ao mesmo tempo em
que permite aos países industrializados continuar,
mesmo que com algum freio, poluindo, não favorece
mudanças reais nos países do "Sul". O dinheiro obtido
graças ao MDL poderia permitir a constituição de Fundos
Públicos orientados para atenuar as distorções do
desenvolvimento. Em lugar de permitir que grandes
empresas de plantações de eucaliptos se vêem atribuídos
créditos e continuem destruindo os ecossistemas e
expulsando o campesinato, por exemplo, poderia se
orientar para fortalecê-lo, ele que, com a diversificação
da agricultura, contribui para capturar carbono; assim
como os povos indígenas e os agroextrativistas que,
mantendo a floresta e outros ecossistemas intactos,
evitam que sejam produzidos gases de efeito-estufa.
O caminho que tomam as Convenções internacionais
relacionadas ao meio ambiente e ao desenvolvimento
evidencia a submissão da política e dos Estados à
economia e às grandes empresas. Mas isso não seria
possível se o modelo de produção e consumo dominantes
não tivesse conquistado os corações e as mentes das
sociedades. Mesmo quem não tem acesso aos bens
materiais que são sinônimos de sucesso pensa que um
dia chegará lá. Neste ideal de sociedade moderna,
não há lugar para os vencidos, os fracassados, pouco
importando se constituem a metade da população latino-americana.
Mudanças climáticas afetaram e afetarão ainda mais
em primeiro lugar as populações pobres que não têm
muito como se proteger ou minimizar os impactos das
catástrofes. Uma gestão da biodiversidade orientada
pelo mercado vai impedir o campesinato e os povos
indígenas de manter a sua autonomia, e colocará definitivamente
a alimentação da humanidade e a sua saúde nas mãos
do mercado, que não costume praticar a filantropia.
A luta contra a pobreza e pela igualdade passa hoje
pela construção de projetos de desenvolvimento a serem
reinventados, tendo como base a sustentabilidade e
a democracia. Mesmo que sem visibilidade e em escalas
muito pequenas, já estão se desenhando. Mas é preciso
que passem de exemplos de resistência a alternativas
para o mundo.
(NA)
[1]
Coordenador do Projeto Brasil Sustentável e Democrático/Fase.
www.fase.org.br / E.mail:jpierre@fase.org.br
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