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L
a Revista de la Pátria Grande


ENTREVISTA / ENTREVISTA

A questão ambiental no século XXI
El tema ambiental en el siglo XXI
Esta entrevista foi realizada por
Adélia Maria Nehme Simão e Koff
Equipe Novamerica - Brasil



ARISTIDES ARTHUR SOFFIATI NETTO


Ecologista, doutor em história ambiental e professor da Universidade Federal Fluminense, Rio de Janeiro - Brasil.

Ecologista, Doctor en Historia Ambiental y Profesor de la Universidad Federal Fluminense, Río de Janeiro - Brasil.



Foto João Ripper

NA - Estamos em pleno século XXI. Há muito tempo que diferentes ambientalistas, de diferentes partes do mundo vêm chamando a atenção para as questões ambientais e elas parecem se agravar cada vez mais. Diante deste contexto, gostaríamos de lhe perguntar: quais são para você os principais problemas ambientais, hoje? E quais as suas principais causas?


Soffiati - Começarei pela segunda parte da pergunta. Em todas as civilizações, desenvolveu-se algo parecido com o que chamamos de economia de mercado, pelo menos no nível da circulação de produtos, ou seja, no comércio. Esta atividade apenas arranhava o corpo da sociedade e a parasitava sem causar-lhe grandes danos. Na Europa Ocidental, porém, durante a Idade Média, o capitalismo tomou um desenvolvimento inédito, parasitando de tal forma o feudalismo que, num determinado momento, a produção para subsistência do sistema feudal não pôde mais atender às necessidades do mercado. Então, o capitalismo penetrou na esfera da produção para aumentar a oferta de mercadorias. Emergiu, assim, o modo de produção capitalista. Ele foi a mola propulsora da expansão da Europa para outros continentes, originando o processo de globalização, da destruição de várias culturas pelo mundo afora e da mudança de atitude em relação à natureza, que foi coisificada e se transformou em recurso. Max Weber teria sido feliz em dizer que o Ocidente desencantou o mundo se ele não visse com otimismo este desencantamento.

Com a concepção mecanicista do universo, concebida pelos pensadores europeus no século XVII, abriu-se caminho para a expansão do capitalismo e para a revolução industrial, na segunda metade do século XVIII. Esta consolidou mais ainda o modo de produção capitalista, que vinha se alastrando pela Europa Ocidental nos três séculos anteriores. Com ela, o trabalho tendeu a se tornar assalariado, e a sociedade viu o aumento das desigualdades. Não sem razão, as críticas ao modo de produção capitalista proliferaram, principalmente, pela via socialista em suas várias vertentes. Porém, a crítica do socialismo ao capitalismo concentrou-se mais nos planos econômico, social e político. A utopia marxista, por exemplo, vislumbra uma sociedade igualitária e o fim de todas as formas de alienação, como religião, igreja, Estado e família, mas não tem um projeto distinto do capitalismo para a tecnologia e para as relações da humanidade com a natureza, salvo em algumas passagens de Marx e Engels, bem como dos anarquistas. Assim, o socialismo que se instalou na Rússia e depois em vários outros países tinha o objetivo de dominar a natureza em benefício do "Homem", tal como nas sociedades capitalistas.

Deste modo, tanto no socialismo como no capitalismo acentuou-se a exploração da natureza de forma jamais praticada por qualquer outra sociedade humana no passado. Claro que algumas sociedades ultrapassaram os limites de sustentabilidade da natureza e pagaram altos preços por isso. Lembremo-nos apenas dos exemplos das sociedades mesopotâmicas, índica, chinesa, grega, khmeriana[1], maia e da ilha de Páscoa. No entanto, nenhuma delas pisou a natureza com um pé tão pesado como os dois modos de produção que emergiram da revolução industrial. Hoje, o socialismo faliu e ficou restrito a apenas alguns países pequenos, como Coréia do Norte e Cuba, se é que este socialismo não é apenas nominal. No mais, triunfou o capitalismo em sua expressão neoliberal, a forma mais perversa de exploração dos seres humanos e da natureza não-humana.

Esta exploração de 250 anos tocou nos limites da natureza, provocando problemas ambientais em dimensão global que se tornaram mais visíveis a partir da década de 1970. No conjunto, eles constituem a primeira crise antrópica planetária da história da vida. Antes que a humanidade, considerada no seu sentido mais amplo, ou seja, incluindo todos os nossos antepassados hominídeos, entrasse em cena, várias crises planetárias assolaram a Terra, mas nenhuma delas foi provocada pela ação humana coletiva, pela simples razão de o Homo sapiens não ter ainda surgido. Tais crises eram geradas por vulcanismo, tectonismo, mudanças climáticas e bombardeio de asteróides. Abro um parêntese que me parece pertinente. Nenhuma das espécies criadas pela natureza tem capacidade potencial de provocar grandes estragos na natureza, nem mesmo agindo coletivamente, como fazem os corais. O Homo sapiens é a única a desenvolver esta capacidade. Mesmo assim, trata-se de uma capacidade potencial só desenvolvida em sistemas sociais agressivos, como o capitalismo. Basta dizer que a humanidade, no seu sentido amplo, existe há cerca de sete milhões de anos, segundo as estimativas mais recentes, mas só começou a desenvolver técnicas e tecnologias mais destruidoras nos últimos dez mil anos, após a revolução do Neolítico.

Os problemas ambientais produzidos pelo modo de produção capitalista, na sua fase atual, alcançaram uma dimensão global que superam em grau incomensurável os problemas ambientais ao longo da história da humanidade. A meu ver, o mais greve destes problemas, na atualidade, são as mudanças climáticas, pois, além de expressarem com fidelidade a contrapartida da globalização econômica neoliberal, volta-se com fúria sobre o planeta como um todo, atingindo os mais recônditos locais da Terra, como o Continente Antártico, as geleiras do Ártico, os gelos das mais elevadas cadeias de montanhas, como a do Himalaia, os desertos desabitados e até as fossas abissais submarinas. Em termos de sociedades humanas, o aquecimento global atinge desigualmente as classes sociais, afetando mais os pobres que os ricos.

Vejo também no empobrecimento da biodiversidade um problema da maior gravidade. Nunca a humanidade destruiu tantas áreas de floresta e extinguiu tantas espécies. Edward Wilson, um dos maiores especialistas em biodiversidade, diz que a Terra passou por cinco grandes crises ambientais, todas elas antes da existência da humanidade. Agora, está vivendo a sexta, causada exatamente pela humanidade. Eu diria que não é a humanidade genérica que está provocando esta crise, mas a humanidade dentro do sistema capitalista. Preocupam muito, também, a extração cada vez maior dos recursos naturais não-renováveis e o descarte de resíduos, por um lado, causando esgotamento, por outro lado, gerando poluição.

Foto Rodolpho Oliva

NA - Fale-nos sobre suas reflexões acerca da relação entre desenvolvimento e meio ambiente.


Soffiati - O conceito de desenvolvimento foi tão banalizado que se tornou vazio. Em filosofia, parece um axioma, isto é, um conceito que dispensa explicitação. Qualquer pessoa, pobre ou rica, sabe ou pensa saber o que é desenvolvimento. Tenho o hábito de perguntar aos meus alunos, logo no início de minhas disciplinas, e às pessoas, de um modo geral, o que eles entendem por desenvolvimento. A resposta é invariável: indústria, grandes fábricas que gerem emprego e impostos. A maioria cala sobre a melhoria da qualidade da vida humana e do equilíbrio dos ecossistemas. Não apenas os sistemas econômicos derivados da revolução industrial impregnaram a mente das pessoas quanto a esta visão de desenvolvimento como também o modelo norte-americano. O que é bom para os Estados Unidos, e agora para a China, é bom para todos os países, é o pensamento dominante. Associamos a idéia de desenvolvimento ao consumismo. Quando explico aos meus alunos e ao público que assiste às minhas palestras a possibilidade de um desenvolvimento que não se oponha à proteção do meio ambiente, mas se construa através da proteção do meio ambiente, a estranheza é muito grande. Como estamos acostumados a um desenvolvimento que só privilegia a quantidade e o ter, consideramos inviável e delirante um desenvolvimento que valorize a qualidade e o ser.

De maneira alguma, polarizo proteção da natureza e desenvolvimento. Só que trabalho com um conceito de desenvolvimento que respeite a capacidade de suporte do ambiente e objetive a boa sociedade. Este tipo de desenvolvimento distingue necessário, supérfluo e pernicioso. Privilegia as necessidades essenciais do ser humano, como alimentação, saúde, educação, moradia, vestimenta, trabalho e tempo disponível para o desenvolvimento de valores éticos e espirituais, sempre no sentido qualitativo. Não que eu descarte o supérfluo, mas acentuo sempre que ele deve vir depois de atendidas às necessidades essenciais, mesmo assim com moderação. Quanto ao pernicioso, como a economia de guerra, empreendo uma crítica radical a ela.

O que mais surpreende meus críticos é a ênfase que dou à economia e à produção. Acho que uma sociedade só se sustenta se caminhar com os próprios pés. Mas isto não significa calçar sapatos de chumbo para esmagar a natureza e inviabilizar a própria existência da sociedade. É preciso caminhar com sapatos de seda e com bastante leveza.

NA - E sobre a relação entre pobreza e degradação ambiental?

Soffiati - Existe uma outra criação inédita do sistema capitalista, notadamente em sua fase neoliberal: nenhuma sociedade antes conseguiu fabricar tanta pobreza e tanta miséria, em nível mundial, como hoje. Entendo o conceito de exclusão com muita desconfiança, pois creio que todos os seres humanos estão incluídos nesta economia global, seja como miseráveis, pobres, remediados[2] e ricos. Quanto maior a concentração de riqueza maior o número de pessoas empurradas para as esferas remediadas, pobre e miserável. Sendo assim, é preciso explicitar de que esfera uma pessoa está excluída. A maioria da humanidade, hoje, vive nas esferas pobre e miserável. A degradação do meio ambiente é incomensuravelmente mais provocada pela esfera rica, dentro de cada país e no mundo todo, que pelas outras esferas. É a esfera rica que provoca os maiores desmatamentos, o maior consumo de matéria e energia não-renovável, a maior produção de rejeitos, a maior emissão de gases, a maior extinção de espécies. Quando as outras esferas produzem estes estragos, é certo encontrar por trás delas a esfera rica. Aumenta o número de pessoas nas três esferas que sofrem com a perturbação e com a degradação da natureza provocadas pela esfera rica, pois as desigualdades sociais fazem os danos ambientais pesarem desigualmente sobre as sociedades humanas. Além do mais, as esferas pobre e miserável vivem em grande parte com o lixo ou no lixo gerado pelas esferas rica e remediada. Mais ainda, no esforço de sobreviver, as esferas pobre e miserável, principalmente esta segunda, destroem mais ainda os poucos recursos ao seu redor, agravando a crise geral. Mas, ao contrário de muitos defensores dos pobres e miseráveis, inclusive muitos amigos meus, considero a defesa das comunidades tradicionais uma espécie de mito dos intelectuais. O sistema capitalista destrói e continua destruindo as comunidades tradicionais, da mesma forma que destrói o meio ambiente. Assim, em vez de exclusão, o que ocorre é um processo de inclusão cultural e ideológico, arrastando os miseráveis e pobres para a concepção de desenvolvimento dos ricos e remediados. Pouquíssimos grupos humanos mantêm suas tradições num mundo cada vez mais globalizado pelo neoliberalismo. As sociedades tradicionais estão em franco declínio e se integrando a um sistema global. Todos ou quase todos estão no sistema, com a ressalva de que a esmagadora maioria está nas esferas pobre e miserável.

Foto J. L. Bulcão/TYBA

NA - Parece que já existem leis e acordos suficientes para proteger a Terra e por que a Terra continua sendo tão prejudicada?

Soffiati - Mais importante que tratados, acordos, protocolos e leis é a constituição de um novo paradigma ético, que vem sendo construído progressivamente. O grande paradigma ainda vigente foi construído sob a égide do mecanicismo e do maquiavelismo. O mecanicismo coisificou a natureza e o ser humano. O maquiavelismo valeu para época dele, mas hoje alimenta o individualismo, o egoísmo e a desonestidade. Qualquer diploma com valor legal concebido por estas duas visões não vai jamais resolver nossos problemas. Mesmo um crítico realista do desenvolvimento clássico, como o economista Ignacy Sachs, sustenta que o Tratado de Kioto, se fosse cumprido à risca por todos os países signatários e mesmo por todos os países que fazem parte da ONU, reduziria em apenas 10% as emissões de gases causadores do aquecimento global. Assim, este tratado está servindo mais para transações econômicas com créditos de carbono. O mesmo se pode dizer da lei que instituiu a política brasileira dos recursos hídricos, que, além de mal concebida em si, está sendo reduzida a transformar a água em mercadoria. É um mito dizer que as leis brasileiras são boas. Quase todas buscam, quando muito, compatibilizar crescimento econômico capitalista e proteção da natureza. Se falham, a corda arrebenta sempre do lado do mais fraco, ou seja, dos pobres e miseráveis e do meio ambiente. Precisamos de novas leis, mas concebidas dentro de um novo paradigma, que denomino de naturalista organicista contemporâneo.

NA - Na sua opinião, o que podemos fazer para mudar toda essa situação ambiental?


Soffiati - Mais uma vez, estamos diante da alternativa: revolução ou reforma? As revoluções inglesa, francesas, russa, chinesa e cubana mataram milhares de pessoas e deram no que deram. A Inglaterra e a França não colocaram o ideário liberal plenamente em prática. A União Soviética se esfacelou e voltou ao capitalismo. A China combina uma economia de mercado com um governo autoritário. Cuba está muito esclerosada. Pergunto se valeu a pena tanto sacrifício de vidas humanas diante de tamanho fracasso. Concluo que não. As grandes utopias da Modernidade são ditatoriais por planejarem o futuro para gerações que vão nascer. Cada geração tem o direito de pensar a sua vida. Cabe-nos tão somente, talvez, assegurar as bases ambientais para nossos descendentes e para todos os seres vivos.

Assim, só nos resta a via reformista. Mas, desde logo, deixo claro que a passagem de uma civilização pesada como a nossa para uma civilização leve não é impossível, mas muito difícil e demorada. Sempre que diagnostico a crise planetária e antrópica da atualidade, meus ouvintes parecem ficar angustiados, como se estivessem presos numa masmorra, e pedem logo para sair, pedem logo que eu apresente soluções. Agora, estou devolvendo a pergunta. Como respostas, colho aumentar a fiscalização, cumprir as leis, aprimorar as leis, investir mais na educação, mobilizar a população, criar mais ONGs, escolher melhor os governantes, etc. Assim, as pessoas acabam se dando conta de quão difícil é transformar a realidade. Hoje, não sou mais tão convicto de minhas convicções. Por iniciativa humana, a mudança poderia começar com a ocupação das áreas não ocupadas pelo capitalismo ou abandonadas por ele por um outro estilo de vida. De certa forma, muitas pessoas em todo o mundo já tomaram esta iniciativa, mas ela não merece destaque nos meios de comunicação. De mais a mais, sempre que aparece um espaço vazio, o paradigma clássico indica que a melhor maneira de ocupá-lo é com estilos convencionais de desenvolvimento. Enfim, creio que não devemos esmorecer no processo de mudança, como propõe Immanuel Wallerstein, do contrário eu me recusaria a falar sobre este assunto e me daria por vencido. O adversário que enfrentamos é muito grande e poderoso, o que nos leva ao pessimismo. No entanto, Edgar Morin diz que a luta deve continuar, pois fatores imprevisíveis podem entrar em cena. Seguindo Boaventura de Sousa Santos, não devemos abdicar das utopias, mas devemos ser mais modestos em relação a elas. Da minha parte, continuo a combater o paradigma hegemônico, tendo em vista um projeto viável para o nosso tempo. Se, no tempo de vida que me resta, eu puder assistir ao crescimento de uma nova ética, avanços de uma salutar relação entre humanidade e natureza, diminuição das injustiças sociais e fortalecimento da democracia, vou me sentir melhor. Seja como for, com a nossa ação ou sem ela, o capitalismo não poderá sobreviver por muito tempo. Ele anima uma civilização insustentável. Se ela não é a única civilização inviável que a humanidade já construiu, é sem dúvida a mais inviável de todas. Prevejo seu desmoronamento na forma de desastres que acarretarão muito sofrimento e muita destruição, embora não acredite na extinção do Homo sapiens. Todavia, permanece o impasse: ou concluímos que mudanças drásticas devem ser feitas por iniciativa humana ou tais mudanças ocorrerão por ajustes adaptativos da ecosfera.

Foto João Ripper

NA - O que você gostaria de acrescentar?

Soffiati - Comecei meu ativismo no fim da década de 1970 com a percepção de que nosso inimigo número um são os sistemas econômico-sociais criados pela Modernidade, principalmente após a revolução industrial. Hoje, quase 30 anos depois, continuo acreditando que este é o nosso inimigo, embora minha visão dele seja bem mais complexa. No entanto, vejo que os chamados ambientalistas passaram a acreditar num capitalismo ecológico e socialmente sustentável ou adotaram as armas da própria Modernidade para lutar contra ele. Posso estar enganado, porém considero extremamente difícil, senão impossível, um capitalismo com respeito ao meio ambiente e com justiça social. Por outro lado, os socialistas, depois de considerarem por longo tempo o ecologismo como o último obstáculo ao avanço do comunismo ou do anarquismo, concluem que a questão ambiental não é uma invenção da classe média desempregada, como proclamaram João Bernardo, Maurício Tragtenberg e Gildo Magalhães nos anos 80. Contudo, os socialistas que incorporam a questão ambiental em suas reflexões não estão conseguindo ultrapassar a dimensão social para chegar na dimensão ambiental. Na reforma que preconizo, a abordagem transdisciplinar e complexa é fundamental. O que vejo, entretanto, é o desinteresse dos ecocapitalistas e dos ecossocialistas quando manifesto preocupação com o aquecimento global, com a extinção de espécies, com a devastação de florestas, com a contaminação do planeta, com a implantação de grandes unidades produtivas, com a ameaça que paira sobre as esponjas e os anfíbios. Em outras palavras, temo que a análise dos problemas ambientais e seu combate caiam nas mãos de especialistas, reproduzindo o paradigma que combatemos. (NA)



[1] Refere-se à civilização do Khmer, que se situava no atual Cambodja, no Sudeste Asiático.
[2] Os "remediados" podem equivaler às camadas médias da sociedade em relação à renda. Elas são constituídas por pessoas que não se situam no círculo restrito dos ricos nem vivem no interior do grande círculo da pobreza e no ainda maior círculo dos miseráveis.

NA - Estamos en pleno siglo XXI. Hace mucho tiempo que varios ambientalistas de diferentes partes del mundo llaman la atención a los asuntos ambientales y estos parecen agravarse cada vez más. Frente a este contexto, nos gustaría preguntarle: ¿cuáles son para usted los principales problemas ambientales hoy en día?, y ¿cuáles sus causas principales?

Soffiati - Comenzaré por la segunda parte de la pregunta. En todas las civilizaciones se desarrolló algo parecido con lo que llamamos de economía de mercado, por lo menos a nivel de circulación de productos, es decir, en el comercio. Esta actividad apenas le hacía cosquillas a sociedad y la parasitaba sin causarle mayores daños. En Europa Occidental, sin embargo, durante la Edad Media el capitalismo se desarrolló de forma inédita, parasitando de tal forma el feudalismo que en un momento determinado, la producción para subsistencia del sistema feudal no pudo más atender las necesidades del mercado. Entonces, el capitalismo penetró en la esfera de la producción para aumentar la oferta de mercaderías. Emergió así el modo de producción capitalista. Este fue el eje propulsor de la expansión de Europa para otros continentes, originando el proceso de globalización, de la destrucción de varias culturas por el mundo y del cambio de actitud con relación a la naturaleza, que fue coisificada y se transformó en recurso. Max Weber habría sido oportuno al decir que el Occidente desencantó al mundo si no mirase con optimismo este desencantamiento.

Con la concepción mecanicista del universo, concebida por los pensadores europeos en el siglo XVII, se abrió el camino para la expansión del capitalismo y la revolución industrial, en la segunda mitad del siglo XVIII. Esta consolidó todavía más el modo de producción capitalista, que se arrastraba por toda Europa Occidental durante los tres siglos anteriores. Con ella, el trabajo pasó a ser pago, y la sociedad vio el aumento de las desigualdades. No sin razón, las críticas al modo de producción capitalista proliferaron, principalmente, por la vía socialista en sus varias vertientes. Sin embargo, la crítica del socialismo al capitalismo se concentró más en los programas económico, social y político. La utopía marxista, por ejemplo, vislumbra una sociedad igualitaria y el fin de todos los tipos de alienación, como religión, iglesia, Estado y familia, pero no tiene un proyecto diferente del capitalismo para la tecnología y para las relaciones de la humanidad con la naturaleza, salvo en algunos pasajes de Marx y Engels, así como de los anarquistas. Así, el socialismo que se instaló en Rusia y después en varios países tenía el objetivo de dominar a la naturaleza en beneficio del "Hombre", tal como en las sociedades capitalistas.

Foto Ricardo Funari/TYBA

De este modo, tanto en el socialismo como en el capitalismo se acentuó la explotación de la naturaleza de forma jamás practicada por cualquier otra sociedad humana en el pasado. Claro que algunas sociedades ultrapasaron los límites de sustentabilidad de la naturaleza y pagaron caro por esto. Hagamos memoria apenas a los ejemplos de las sociedades mesopotámica, índica, china, griega, khmeriana[1], maya y la de la Isla de Pascua. Sin embargo, ninguna de ellas la pisó tan fuerte como los dos modos de producción que emergieron de la revolución industrial. Hoy, el socialismo fracasó y quedó restringido a apenas algunos pequeños países, como Corea del Norte y Cuba, si es que este socialismo no es solamente de nombre. En lo demás, triunfó el capitalismo en su expresión neoliberal, la forma más perversa de explotación de los seres humanos y de la naturaleza no humana.

Esta explotación de 250 años tocó los límites de la naturaleza, provocando problemas ambientales en dimensión global que se hicieron más visibles a partir de la década de 1970. En conjunto, constituyen la primera crisis antrópica planetaria de la historia de la vida. Antes que la humanidad, considerada en su sentido más amplio, o sea, antes que todos nuestros antepasados homínedos entrasen en escena, varias crisis planetarias devastaron la Tierra, pero ninguna de ellas fue provocada por la acción humana colectiva, por la simple razón de que el Homo sapiens todavía no había surgido. Tales crisis eran generadas por vulcanismo, tectonismo, cambios climáticos y bombardeo de asteroides.

Hago un paréntesis que me parece oportuno. Ninguna de las especies creadas por la naturaleza tiene capacidad potencial de provocar grandes males a la misma, ni siquiera actuando de forma colectiva, como hacen los corales. El Homo sapiens es el único que desarrolló esta capacidad. Aun así, se trata de una capacidad potencial solo desarrollada en sistemas sociales agresivos, como el capitalismo. Basta decir que la humanidad, en su sentido amplio, existe cerca de siete millones de años, según las más recientes probabilidades, pero solo comenzó a desarrollar técnicas y tecnologías más destructivas en los últimos diez mil años, después de la revolución del Neolítico.

Los problemas ambientales producidos por la forma de producción capitalista, en su actual etapa, alcanzaron una dimensión global que superan en un grado inconmensurable los problemas ambientales a lo largo de la historia de la humanidad. En mi opinón, lo más grave de estos problemas, en la actualidad, son los cambios climáticos, ya que aparte de expresar con fidelidad la contrapartida de la globalización económica neoliberal, regresa con furia sobre el planeta como un todo, alcanzando los más recónditos lugares de la Tierra, como el Continente Antártico, las heladas del Ártico, el hielo de las más elevadas cadenas de montañas, como la del Himalaya, los desiertos deshabitados y hasta las fosas abismales submarinas. En términos de sociedades humanas, el calentamiento global alcanza desigualmente las clases sociales, afectando más los pobres que a los ricos.

Veo también en el empobrecimiento de la biodiversidad un problema sumamente grave. Nunca la humanidad destruyó tantas áreas de floresta y extinguió tantas especies. Edward Wilson, uno de los más grandes especialistas en biodiversidad, dice que la Tierra pasó por cinco grandes crisis ambientales, todas antes de la existencia de la humanidad. En este momento, está viviendo la sexta, causada exatamente por ella. Yo diría que no es la humanidad genérica que está provocando esta crisis, sino la humanidad dentro del sistema capitalista. La extracción cada vez mayor de los recursos naturales no renovables y el descarte de los deshechos, preocupan mucho, por un lado, causando contaminación, por otro lado, generando contaminación.

NA - Háblenos sobre sus reflexiones acerca de la relación entre desarrollo y medio ambiente.


Soffiati - El concepto de desarrollo fue tan banalizado que está vacío. En Filosofía parece un axioma, es decir, un concepto que dispensa explicación. Cualquier persona, pobre o rica, sabe o piensa saber lo que es desarrollo. Tengo el hábito de preguntar a mis alumnos, apenas comienzan las clases, y a la gente de un modo general, lo que entienden por desarrollo. La respuesta es invariable: industria, grandes fábricas que generan empleo e impuestos. La mayoría calla sobre la mejora de calidad de vida humana y del equilibrio de los ecosistemas. No apenas los sistemas económicos derivados de la revolución industrial impregnaron la mente de la gente en cuanto a esta visión de desarrollo, sino también el modelo norteamericano. Lo que es mejor para Estados Unidos, y ahora para China, es bueno para todos los países, es el pensamiento dominante. Asociamos la idea de desarrollo al consumismo. Cuando explico a mis alumnos y al público que asiste a mis ponencias, la posibilidad de un desarrollo que no se oponga a la protección del medio ambiente, pero que se construya a través de la protección del mismo, se quedan sorprendidos. Como estamos acostumbrados a un desarrollo que solo privilegia la cantidad y el tener, consideramos inviable y delirante un desarrollo que valore la calidad y el ser.

De ninguna manera polarizo la protección a la naturaleza y el desarrollo. Solo que trabajo con un concepto de desarrollo que respete la capacidad de soporte del ambiente y objetive la buena sociedad. Este tipo de desarrollo distingue lo necesario, superfluo y pernicioso. Privilegia las necesidades esenciales del ser humano, como alimento, salud, educación, vivienda, vestido, trabajo y tiempo disponible para el desarrollo de valores éticos y espirituales, siempre en el sentido cualitativo. No que se descarte lo superfluo, pero se acentúa siempre que debe venir después que las necesidades esenciales sean atendidas, y aún así moderadamente. En relación a lo pernicioso, como la economía de guerra, emprendo una crítica radical a ella.

Lo que más les sorprende a mis críticos es el énfasis que doy en la economía y en la producción. Creo que una sociedad solo se sustenta si camina con sus propios pies. Pero esto no significa ponernos zapatos de plomo para aplastar a la naturaleza e inviabilizar la propia existencia de la sociedad. Es necesario caminar con zapatos de seda y muy suavemente.

Foto Rodolpho Oliva

NA - ¿Y sobre la relación entre pobreza y degradación ambiental?

Soffiati - Existe otra creación inédita del sistema capitalista, notadamente en su fase neoliberal: ninguna sociedad antes consiguió fabricar tanta pobreza y tanta miseria, a nivel mundial, como hoy. Entiendo el concepto de exclusión con mucha desconfianza, pues creo que todos los seres humanos están incluídos en esta economía global, sea como miserables, pobres, remediados[2] y ricos. Cuanto mayor sea la concentración de riqueza mayor el número de personas empujadas hacia las esferas remediadas, pobre y miserable. Siendo así, es necesario explicitar de qué esfera una persona está excluída. La mayor parte de la humanidad, hoy en día, vive en las esferas pobre y miserable. La degradación del medio ambiente es inconmensurablemente más provocada por la esfera rica, dentro de cada país y en todo el mundo, que por las otras esferas. Es la esfera rica la que provoca mayores depredaciones, el más grande consumo de materia y energía no renovable, la mayor producción de desechos, la mayor emisión de gases, la mayor extinción de especies. Cuando las otras esferas producen esta destrucción, es casi seguro que se encontrará detrás de ellas gente de la esfera rica. Aumenta el número de personas en las tres esferas que sufren con la perturbación y con la degradación de la naturaleza provocadas por la esfera rica, ya que las desigualdades sociales hacen que los daños ambientales pesen desigualmente sobre las sociedades humanas. Además, las esferas pobre y miserable viven en gran parte con la basura o en la basura generada por las esferas rica y remediada. Todavía más, en el esfuerzo por sobrevivir, las esferas pobre y miserable, principalmente esta segunda, destruyen más todavía los pocos recursos a su alrededor, agravando la crisis general. Pero, al contrario de muchos defensores de los pobres y miserables, incluso muchos de mis amigos, considero la defensa de las comunidades tradicionales una especie de mito de los intelectuales. El sistema capitalista destruye y continúa destruyendo las comunidades tradicionales, de la misma forma que destruye el medio ambiente. Así, en vez de exclusión, lo que ocurre es un proceso de inclusión cultural e ideológica, arrastrando a los miserables y pobres para la concepción de desarrollo de los ricos y remediados. Poquísimos grupos humanos mantienen sus tradiciones en un mundo cada vez más globalizado por el neoliberalismo. Las sociedades tradicionales están en franco declínio e integrándose a un sistema global. Todos o casi todos están en el sistema, con la resalva de que la aplastante mayoría está en las esferas pobre y miserable.

NA - Parece que ya existen leyes y acuerdos suficientes para proteger la Tierra. ¿Por qué la Tierra continúa siendo tan perjudicada?

Soffiati - Más importante que los tratados, acuerdos, protocolos y leyes es la constitución de un nuevo paradigma ético, que está siendo construido progresivamente. El gran paradigma vigente todavía fue construido sobre el escudo del mecanicismo y del maquiavelismo. El mecanicismo coisificó la naturaleza y el ser humano. El maquiavelismo valió para su época, pero hoy en día se alimenta el individualismo, el egoísmo y la deshonestidad. Cualquier diploma con valor legal concebido por estas dos visiones no va a solucionar jamás nuestros problemas. Aún un crítico realista del desarrollo clásico, como el economista Ignacy Sachs, sustenta que con el Tratado de Kioto, si fuese cumplido al pie de la letra por todos los países signatarios y por todos los países que conforman la ONU, se reducirían en apenas 10% las emisiones de gases causadores del calentamiento global. Así, este tratado está sirviendo más para transacciones económicas con créditos de carbono. Lo mismo se puede decir de la ley que instituyó la política brasileña de recursos hídricos, que aparte de mal concebida en sí, está siendo reducida a transformar el agua en mercancía. Es un mito decir que las leyes brasileñas son buenas. Casi todas buscan, a lo sumo, compatibilizar crecimiento económico capitalista y protección de la naturaleza. Si fallan, la cuerda se rebienta siempre por el lado más débil, es decir, de los pobres y miserables y del medio ambiente. Necesitamos de nuevas leyes, pero concebidas dentro de un nuevo paradigma, que llamo de naturalista organicista contemporáneo.

Foto João Ripper

NA - ¿En su opinión, qué podemos hacer para cambiar toda esta situación ambiental?


Soffiati - Una vez más, estamos delante de la alternativa: ¿revolución o reforma? Las revoluciones inglesa, francesa, rusa, china y cubana mataron miles de personas y fueron a parar donde fueron a parar. Inglaterra y Francia no colocaron el ideario liberal plenamente en práctica. La Unión Soviética se destruyó y regresó al capitalismo. China mezcla una economía de mercado con un gobierno autoritario. Cuba está muy esclerótica. Me pregunto si valió la pena tanto sacrificio de vidas humanas frente a tamaño fracaso. Concluyo que no. Las grandes utopías de la Modernidad son dictatoriales por planear el futuro para generaciones que van a nacer. Cada generación tiene el derecho de pensar su vida. Nos cabe solamente, talvez, asegurar las bases ambientales para nuestros descendientes y para todos los seres vivos.

Así, sólo nos resta la vía reformista. Pero, desde luego, dejo claro que el pasaje de uma civilización de tanto peso como la nuestra hacia una civilización más suave no es imposible, pero es muy difícil y demorado. Siempre que diagnostico la crisis planetaria y antrópica de la actualidad, mis oyentes parece que se angustian, como si estuviesen presos en una masmorra, y piden para salir rápido, piden rápidamente que se presenten soluciones. Ahora estoy devolviendo la pregunta. Como respuestas, elijo aumentar la fiscalización, cumplir las leyes, perfeccionar las leyes, invertir más en educación, movilizar a la población, crear más ONGs, escoger mejor a los gobernantes, etc. Así, la gente acaba dándose cuenta de cuan difícil es transformar la realidad. Hoy por hoy, no estoy más convencido de mis convicciones. Por iniciativa humana, el cambio podría comenzar con la ocupación de áreas no ocupadas por el capitalismo o abandonadas por él por otro estilo de vida. De cierta forma, muchas personas en todo el mundo ya tomaron esta iniciativa, pero no se destaca en los medios de comunicación. Además, siempre que aparece un espacio vacío, el paradigma clásico indica que la mejor manera de ocuparlo es con estilos convencionales de desarrollo. En fi n, creo que no debemos flaquear en el proceso de cambio, como propone Immanuel Wallerstein, de lo contrario me rehusaría a hablar sobre este asunto y me daría por vencido. El adversario que enfrentamos es grande y poderoso, lo que nos lleva al pesimismo. Sin embargo, Edgar Morin nos dice que la lucha debe continuar, pues factores imprevisibles pueden entrar en escena. Como nos dice Boaventura de Sousa Santos, no debemos abdicar de las utopías, pero debemos ser más modestos en relación a ellas. De mi parte, continúo combatiendo el paradigma hegemónico, considerando un proyecto viable para nuestro tiempo. Si en el tiempo de vida que me queda, pudiera asistir el crecimiento de una nueva ética, al avance de una saludable relación entre humanidad y naturaleza, disminución de las injusticias sociales y fortalecimiento de la democracia, me sentiría mejor. Sea como sea, con nuestra acción o sin ella, el capitalismo no podrá sobrevivir por mucho tiempo. Alienta una civilización insustentable. Si no es la única civilización inviable que la humanidad ya construyó, es sin duda alguna la más inviable de todas. Preveo su desmoronamiento en la forma de desastres que acarretarán mucho sufrimiento y destrucción, a pesar de que no crea en la extinción del Homo sapiens. Aún así, permanece la disyuntiva: o concluímos que cambios drásticos deben ser hechos por iniciativa humana o tales cambios ocurrirán por ajustes adaptativos de la ecosfera.

NA - ¿Le gustaría decir algo más?

Soffiati - Comencé a ser activista a fines de la década de 1970 con la percepción de que nuestro enemigo número uno son los sistemas económico- sociales creados por la Modernidad, principalmente después de la revolución industrial. Hoy, casi 30 años después, continúo creyendo que este es nuestro enemigo, a pesar de que mi visión de ella sea aún más compleja. Sin embargo, veo que los dichos ambientalistas empezaron a creer en un capitalismo ecológico y socialmente sustentable o adoptaron las armas de la propia Modernidad para luchar contra él. Puedo estar equivocado, pero considero extremamente difícil, sino imposible, un capitalismo de respeto al medio ambiente y con justicia social. Por otro lado, los socialistas, después de que consideraron por un largo tiempo el ecologismo como último obstáculo al avance del comunismo o del anarquismo, concluyen que el asunto ambiental no es un invento de la clase media desempleada, como proclamaron João Bernardo, Maurício Tragtenberg y Gildo Magalhães en los años 80. Con todo esto, los socialistas que incorporan el asunto ambiental en sus reflexiones no están consiguiendo ultrapasar la dimensión social para llegar a la dimensión ambiental. En la reforma que preconizo, el abordaje transdiciplinar y complejo es fundamental. Lo que veo, sin embargo, es el desinterés de los ecocapitalistas y de los ecosocialistas cuando manifiesto preocupación con el calentamiento global, con la extinción de las especies, con la devastación de los árboles, con la contaminación del planeta, con la implantación de grandes unidades productivas, con la ameaza que paira sobre las esponjas y los anfibios. En otras palabras, temo que el análisis de los problemas ambientales y su combate caigan en las manos de especialistas, reproduciendo el paradigma que combatimos. (NA)


Foto Rodolpho Oliva


[1] Se refiere a la civilización Kmer, actualmente Camboya, en el Sudeste Asiático.
[2] Los “remediados” pueden equivaler a los sectores medios de la sociedad en relación a la renta. Constituidas por personas que no se situan em el círculo restricto de los ricos ni viven en el interior del gran círculo de la pobreza y en el todavía mayor círculo de los miserables.

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