|
A
saúde e as metas do milênio em debate
Dilene
Raimundo do Nascimento
Médica, com doutorado em História Social,
pesquisadora titular e docente do Programa de
Pós-graduação em História das Ciências e
da Saúde da Casa de Oswaldo Cruz, Fiocruz.
dilenerai@hotmail.com

El
proceso de redemocratización del país trajo conquistas
para la población brasileña, y la Constitución de
1988 avanzó al establecer la salud como derecho de
todos y deber del Estado, com principios de universalidad,
equidad e integralidad, estos últimos todavía lejos
de ser alcanzados. Por otro lado, en el año 2000 se
establecieron internacionalmente los Objetivos de
Desarrollo del Milenio (ODM), tres de los cuales están
relacionados directamente a la salud. El gran desafío
para el Brasil es si será capaz de alcanzar estas
metas de la agenda, que implican tareas políticas
y un nuevo modelo de desarrollo nacional.
Se
no início do século XX despontava a promessa da ciência,
com o advento da bacteriologia, de erradicar as doenças
infecciosas, relacionadas à pobreza, ao atraso e à
ignorância que grassava no país, no seu final, implantou-
se a incerteza com a emergência de uma inesperada
doença que colocou em xeque a biomedicina e as tecnologias
de ponta desenvolvidas em favor da saúde dos indivíduos.
A Aids fez reemergir no imaginário social os velhos
fantasmas de epidemias do passado: a morte, o preconceito
e a busca de culpados.
Assim, o século XXI irrompeu ainda sob o impacto do
surgimento da Aids, que os grandes avanços nas pesquisas
sobre a doença não foram suficientes para evitar sua
disseminação. E isso se faz sentir com mais gravidade
nos países em desenvolvimento, como o Brasil, em que
grandes contingentes da nossa população sofrem o processo
de exclusão social, desemprego e uma perversa concentração
de rendas que se reflete em concentração de direitos
e cidadania.
O Brasil não é um país pobre, é o que se fala repetidamente,
mas extremamente injusto e desigual. Com uma população
próxima a 180 milhões, eminentemente urbana (80% vivem
nas cidades), possui considerável parcela de pessoas
pobres, em situação vulnerável, que compõe as estatísticas
de violência, de desemprego, de doenças, de falta
de acesso aos bens coletivos. A desigualdade, que
se manifesta entre os ricos e pobres, entre homens
e mulheres, entre brancos e negros e entre regiões
do país, se constitui em óbice ao exercício pleno
de cidadania.
O modelo neoliberal de valorização do crescimento
econômico, do monetarismo, do aperto fiscal, em detrimento
de um desenvolvimento social, já se mostrou incapaz
de dar conta da pobreza e de promover a melhoria das
populações, ao contrário, acentuou as desigualdades
sociais. E este é o grande desafio do novo milênio:
estabelecer uma política de desenvolvimento abrangente
e integradora, isto é, socialmente inclusiva.

Sem dúvida, o processo de redemocratização do país
trouxe várias conquistas da e para a população brasileira
e a Constituição de 1988 é um marco, quando estabelece
a saúde como direito de todos e dever do Estado, com
princípios de universalidade, eqüidade e integralidade.
Observa-se que, destes, a universalização dos serviços
de saúde, posta pelo Sistema Único de Saúde (SUS),
alcançou um nível satisfatório, contudo, a qualidade
dos serviços permaneceu desigual. Enquanto a parcela
da população desfavorecida peregrina em busca de serviços
que resolvam seus problemas de saúde, a parcela privilegiada
da população tem acesso às altas tecnologias para
diagnóstico e tratamento de seus males. Portanto,
a eqüidade e a integralidade estão longe de serem
cumpridas.
Dentre as macro-tendências identificadas e um dos
grandes desafios para a área da saúde está a população
que cresce, se urbaniza e envelhece. No Brasil, segundo
dados do IBGE, a expectativa de vida era de 33,4 anos
em 1910; passou para 52 anos em 1950; 63,4 anos em
1985; 66,8 anos em 2000 e 71,7 em 2005. O número
crescente de idosos é mais um elemento a incidir no
perfil epidemiológico misto e complexo prevalente
no país: são as doenças crônico-degenerativas próprias
da velhice, ao lado das doenças infecciosas vinculadas
à pobreza e das doenças cardiovasculares, cuja incidência
aumenta com a melhoria das condições de vida.
OS OBJETIVOS DE DESENVOLVIMENTO DO MILÊNIO (ODM)
DA ORGANIZAÇÃO DAS NAÇÕES UNIDAS
Mas o século XXI iniciou também com uma agenda internacional
que propõe o enfrentamento da pobreza, no planeta,
até 2015. Em setembro de 2000, os países-membro da
Organização das Nações Unidas (ONU) estabeleceram
os Objetivos de Desenvolvimento do Milênio (ODM).
Esta agenda se consubstancia em oito objetivos de
desenvolvimento, sendo três deles, direta e explicitamente,
ligados à saúde, contudo, todos eles vão incidir na
melhoria das condições de saúde da população, quais
sejam:

1 Erradicar a extrema pobreza e a fome, reduzindo
pela metade, entre 1990 e 2015, a proporção da população
com renda inferior a um dólar PPC por dia e a proporção
da população que sofre de fome;
2 Atingir o ensino básico universal, garantindo
que, até 2015, todas as crianças, de ambos os sexos,
terminem um ciclo completo de ensino básico;
3 Promover a igualdade entre os sexos e a autonomia
das mulheres, eliminando a disparidade entre os sexos
no ensino primário e secundário, se possível até 2005,
e em todos os níveis de ensino, a mais tardar até
2015;
4 Reduzir a mortalidade infantil, reduzindo
em dois terços, entre 1990 e 2015, a mortalidade de
crianças menores de 5 anos;
5 Melhorar a saúde materna, reduzindo em três
quartos, entre 1990 e 2015, a taxa de mortalidade
materna;
6 Combater o HIV/Aids, a malária, a tuberculose
e outras doenças, detendo, até 2015, a propagação
do HIV/Aids e invertendo a tendência atual das outras
doenças;
7 Garantir a sustentabilidade ambiental, integrando
os princípios do desenvolvimento sustentável nas políticas
e programas nacionais e revertendo a perda de recursos
ambientais;
8 Estabelecer uma Parceria Mundial para o Desenvolvimento.
Se você erradica a pobreza e a fome, você melhora
a saúde da população; se todos atingem um nível básico
de educação, têm melhores condições de cuidar de sua
saúde e de exigirem seus direitos à saúde; a sustentabilidade
ambiental vai permitir a preservação dos recursos
naturais, a distribuição eqüitativa de água potável,
dentre outras melhorias da qualidade de vida,
e as parcerias internacionais vão contribuir para
o enfrentamento das necessidades dos países menos
desenvolvidos.
Considerando o objetivo de redução da mortalidade
infantil, a taxa de óbitos infantis por 1.000 nascidos
vivos menores de 1 ano, em 1990 era de 48, já em 2002
reduziu para 25,1 e existem estimativas que se reduza
ainda a 16 em 2015, alcançando a meta da ONU. Essa
estimativa não é consenso, ante a incerteza de investimentos
necessários na assistência ao pré-natal e à criança
nas primeiras semanas de vida. Em compensação, a taxa
de mortalidade na infância que inclui as crianças
até 5 anos tiveram grande redução, seja pelas campanhas
de imunização, controlando as doenças imunopreveníveis,
seja pela orientação de reidratação oral que evita
a desidratação nas doenças diarréicas.
No Brasil, a taxa de mortalidade materna é de 75 mortes
de mulheres para cada 100 mil nascidos vivos, índice
considerado alto pela Organização Mundial de Saúde.
Entendendo que as mortes maternas estão diretamente
relacionadas à baixa qualidade dos serviços de saúde
oferecidos às mulheres, e com o propósito de reduzir
esse índice, o governo federal criou, no dia 8 de
março de 2004, o Pacto Nacional pela Redução da Mortalidade
Materna e Neonatal, cuja meta naquele momento foi
de reduzir em 15% os índices de mortalidade materna
e neonatal até o fim de 2006 e, em 75%, até 2015.
Para Adson França, coordenador do Pacto, "os índices
de mortalidade materna são uma vergonha nacional,
pois a maior parte deles são evitáveis" (Desafios,
2005).

Quanto às doenças infecciosas e parasitárias, como
a malária e a tuberculose, seus índices se mantêm
altos, dependendo da região do país. A expectativa
em relação à Aids é que se consiga alcançar a meta
estabelecida nos objetivos do milênio. Se nos primeiros
anos da epidemia a letalidade era de 100%, houve uma
redução para 50% a partir de 1999.
A grande questão e que passa a ser o nosso grande
desafio é se o Brasil vai ser capaz de alcançar as
metas estabelecidas nos Objetivos de Desenvolvimento
do Milênio. Como diz o médico sanitarista Antônio
Ivo de Carvalho, em entrevista concedida à Radis (nº43,
2006), "as metas de desenvolvimento do milênio são
tarefas da política e não só da saúde" e, assim,
entendemos necessário uma democracia que se paute
pela inclusão e que se estabeleça um novo projeto
nacional de desenvolvimento.
(NA)
O
subsistema de saúde indígena
Maurício Soares Leite
Departamento de Nutrição,
Universidade Federal de Santa Catarina
mauriciosleite@ccs.ufsc.br
Constitui um inegável desafio o atendimento a um contingente
de mais de 370.000 indivíduos, e caracterizado por uma
imensa heterogeneidade ambiental, histórica e sócio-cultural.
Em todo o país, são cerca de 220 etnias oficialmente
reconhecidas, falantes de cerca de 180 línguas, e dispersas
por quase todas as unidades da federação (Ricardo, 2000).
E, de diversas formas, toda esta heterogeneidade acaba
por se traduzir em perfis de saúde por vezes muito distintos.
Desde 1999 a atenção à saúde dos povos indígenas é responsabilidade
da Fundação Nacional de Saúde - FUNASA. O órgão exerce
suas atividades através dos Distritos Sanitários Especiais
Indígenas - DSEIs -, sistemas locais de saúde. A atenção
à saúde indígena constitui-se, assim, em um subsistema
do Sistema Único de Saúde - SUS. Mas, de modo bastante
distinto de outras instâncias do SUS, no subsistema
de saúde indígena as ações de saúde são executadas através
de convênios com as prefeituras ou organizações não-governamentais,
que aplicam os recursos disponibilizados pelo SUS.
O documento institulado "Política Nacional de Atenção
à Saúde dos Povos Indígenas", de 2002, descreve
os objetivos e diretrizes do subsistema: "O propósito
dessa política é garantir aos povos indígenas o acesso
à atenção integral à saúde, segundo os princípios e
diretrizes do Sistema Único de Saúde, contemplando a
diversidade social, cultural, geográfica, histórica
e política de modo a favorecer a superação dos fatores
que tornam essa população mais vulnerável aos agravos
à saúde de maior magnitude e trancendência entre os
brasileiros, reconhecendo a eficácia de sua medicina
e o direito desses povos à sua cultura" (FUNASA,
2002: 13).
Apesar de toda a diversidade que caracteriza os povos
indígenas, o quadro epidemiológico pode ser adequadamente
descrito pelo predomínio de doenças respiratórias, infecciosas
e parasitárias tanto como causas de morbidade como de
mortalidade, embora venham ganhando espaço neste panorama
as doenças crônicas não-transmissíveis. Chama a atenção,
contudo, o registro de coeficientes invariavelmente
mais elevados que aqueles encontrados a nível regional
e nacional. Assim é que a desnutrição infantil alcança
ainda hoje níveis alarmantes, assim como a tuberculose
e a malária, para mencionar apenas alguns exemplos.
No que se refere às condições sanitárias, o quadro caracteriza-se
pela precariedade, e na maior parte das comunidades
inexistem sistemas de tratamento de água, assim como
destino adequado para o lixo ou dejetos.
As análises da trajetória do subsistema de saúde
indígena revelam avanços significativos, ao mesmo tempo
em que tecem críticas importantes ao mesmo. Garnelo
& Brandão (2003) referem o aumento da cobertura da atenção
à saúde das populações indígenas aldeadas, e dos recursos
humanos e materiais, estes alcançando valores significativamente
superiores àqueles alocados em outras instâncias do
SUS. Os autores também destacam o significado da distritalização
da saúde indígena no contexto da Política Nacional de
Saúde e dos ideais de universalização, eqüidade, participação,
democratização e controle social. Publicação da Organização
Panamericana da Saúde (Garnelo, Macedo & Brandão, 2003)
menciona ainda o reconhecimento da relevância de uma
atenção diferenciada a grupos sociais específicos. Contudo,
a própria escassez de dados epidemiológicos dificulta
uma avaliação mais precisa dos impactos da implantação
do subsistema de saúde indígena (Garnelo, Macedo & Brandão,
2003).
O panorama atual da atenção à saúde indígena, contudo,
apresenta problemas importantes, ainda não equacionados.
O atendimento às especificidades sócio-culturais, embora
permeie a Política Nacional de Atenção à Saúde Indígena,
constitui um ideal ainda distante de ser alcançado.
No que se refere especificamente aos perfis de saúde,
persistem importantes diferenciais nas estatísticas
de morbi-mortalidade. Os convênios com prefeituras e
organizações não-governamentais refletem a política
neoliberal de terceirização de funções do Estado, em
um processo que não parece haver sido livre de tensões
para as organizações indígenas que se envolveram na
prestação de serviços de saúde. Ao mesmo tempo em que
se instrumentalizavam, as organizações indígenas se
viram inseridas em um contexto que não favorecia a sua
autonomia, enquanto executoras de políticas estatais
(Garnelo & Sampaio, 2005).
Embora seja consenso que a produção de dados demográficos
e epidemiológicos é fundamental para o planejamento,
a implantação e a avaliação de serviços de saúde, o
subsistema ainda não foi capaz de reverter a "invisibilidade
demográfica e epidemiológica" dos povos indígenas (Coimbra
Jr. & Santos, 2000:131). Mas as desigualdades em saúde
entre índios e não-índios não se limita aos indicadores
de saúde propriamente ditos, e revela-se também na escassez
de dados epidemiológicos e demográficos para este contingente
populacional - o que acaba por comprometer o planejamento
e a implementação das ações em saúde. A superação destes
diferenciais, em um contexto marcado por dificuldades
operacionais, ainda constitui um desafio para a concretização
dos ideais do SUS na atenção à saúde dos povos indígenas
do país.
Referências
bibliográficas
Coimbra Jr, C. E. A. & Santos, R. V. 2000. Saúde,
minorias e desigualdade: algumas teias de inter-relações,
com ênfase nos povos indígenas no Brasil. Ciência &
Saúde Coletiva, 5(1): 125-132.
Garnelo, L. & Sampaio, S. 2005. Organizações
indígenas e distritalização sanitária: os riscos de
"fazer ver" e "fazer crer" nas políticas de saúde. Cadernos
de Saúde Pública, 21(4): 1217-1223.
Garnelo, L.; Macedo, G. & Brandão, L. C. 2003.
Os Povos Indígenas e a Construção das Políticas de Saúde
no Brasil. Brasília: Organização Panamericana da Saúde.
Ricardo, C. A. 2000. Povos Indígenas no Brasil.
1996-2000. São
Paulo: Instituto Socioambiental. FUNASA (Fundação Nacional
de Saúde), 2002. Política Nacional de Atenção à Saúde
dos Povos Indígenas. Brasília: FUNASA.
|