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a Revista de la Pátria Grande


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Eleições 2006: O que dizem as urnas do Brasil?
Marcelo Andrade
Filósofo e Doutor em Ciências Humanas (PUC-Rio)
Membro da Equipe Novamerica - Brasil





Na noite de 29 de Outubro, logo após o encerramento das votações, iniciaram-se as avaliações sobre qual era o recado que os eleitores brasileiros haviam enviado para os políticos eleitos e derrotados. O primeiro a se reconhecer, porém, é a eficiência da Justiça Eleitoral. As urnas eletrônicas estão totalmente assimiladas pela população; são eficientes, seguras e permitem uma melhor inclusão dos eleitores analfabetos, pois funcionam com a simplicidade de um teclado telefônico. O sistema eletrônico revelou o resultado após 5 horas de encerradas as eleições. Essa realidade é uma conquista e uma contradição do Brasil moderno e arcaico.

O segundo ponto a ser considerado é que tivemos "Eleições Gerais": presidente, governadores, senadores, deputados federais e estaduais. Este amplo processo provoca um complexo, e muitas vezes contraditório, jogo de alianças que se reproduzem ou se desfazem nas diferentes esferas: nacional, estadual e local. Assim, um candidato a presidente pôde apoiar num mesmo estado dois candidatos a governador. E houve candidato a governador sem apoio de nenhum candidato a presidente. As Eleições Gerais em determinados estados pareciam diferentes eleições ou processos totalmente desconectados.

Avaliando as forças políticas que saíram vencedoras e as que saíram derrotadas, pode-se afirmar que caíram dois bastiões do corolenismo político brasileiro: os Magalhães (Bahia) e os Sarney (Maranhão). Depois de 30 anos de pleno domínio na Bahia, Antônio Carlos Magalhães (PFL) amargou uma dura derrota. Jaques Wagner (PT) ganhou o governo ainda no primeiro turno, contrariando as previsões de todas as pesquisas. Já no Maranhão, a senadora e ex-governadora Roseana Sarney (PFL), filha do senador e expresidente José Sarney (PMDB), foi derrotada no segundo turno. Aqui se deu uma das mais gritantes contradições do processo eleitoral, pois ainda que a tradicional família esteja historicamente filiada aos partidos de direita que apoiavam Geraldo Alckimin (PSDB), adversário de Lula, Roseana contou com o apoio irrestrito do presidente, o que não evitou a derrota histórica dos Sarney.

Quanto aos governadores, um fenômeno chamou a atenção: entre os 27 eleitos, 12 estão na casa dos quarenta anos de idade. Estes "governadores quarentões" são de diferentes vertentes políticas e de diferentes regiões do país, com exceção do Sul, e simbolizam uma nova geração de políticos, o que nem sempre representa uma renovação política.

Quanto às eleições legislativas, o marco foi a derrota dos governistas, o que significará maiores dificuldades para o segundo mandato de Lula na composição do governo e no apoio parlamentar. A base governista saiu das urnas com menos 27 deputados. Isso se deu principalmente devido aos escândalos de corrupção envolvendo os deputados dos partidos que apóiam Lula e mesmo do próprio PT. Os escândalos do "Mensalão" , dos "Sanguessugas" e do "Dossiê Serra-Alckimin" mostraram tanto a fragilidade do parlamento quanto a corrupção nos círculos próximos do presidente. No entanto, como os governadores exercem muita influência sobre os deputados federais de seus estados e Lula tem o apoio de 17 dos 27 governadores eleitos, a previsão é de que ele consiga ter os votos necessários para aprovar seus projetos tanto na Câmara de Deputados quanto no Senado. Também já estamos assistindo, como tem sido de praxe, as dança das cadeiras entre os partidos; a previsão é que muitos deputados migrem para os partidos da base governista a fim de benefícios políticos e nem sempre lícitos.

A disputa presidencial teve um caráter plebiscitário. Após o mecanismo de reeleição, o mandato de presidente é praticamente de oito anos com um plebiscito ao meio, como se fossemos chamados a responder a seguinte questão: "O presidente deve continuar ou não?" E a população brasileira, por ampla maioria, disse através das urnas que Lula continua no Palácio do Planalto até 2010. O "sim" ao presidente pode ser explicado a partir de diferentes análises. A primeira é um misto de carisma pessoal e trajetória de vida. Lula é um homem de origem pobre, migrante, sem estudos formais, que conhece e sente os sofrimentos dos mais pobres, inclusive por haver passado por eles. Esta idéia esteve muito forte durante a campanha. Lula também mantém o vigor dos tempos de sindicalista. Fala com entusiasmo, empolga as massas com discursos simples e ideologicamente marcados por ideais de justiça e igualdade.

Uma outra explicação também pode ser dada pelo sucesso de algumas políticas sociais e econômicas levadas durante o governo de Lula. A estabilidade econômica, o aumento real do salário mínimo, a queda dos preços de itens essenciais da cesta básica são alguns marcos no campo econômico. No campo social, projetos como o Bolsa Família (transferência de uma renda mínima aos mais pobres) e o ProUni (bolsas de estudos universitários para a população mais pobre) foram verdadeiras vitrines para sinalizar o compromisso com as classes mais desfavorecidas.

Também há que se considerar a fragilidade do candidato adversário. Sem carisma pessoal, sem um projeto claro de governo e carregando a herança do malfadado governo FHC (1994-2002), Geraldo Alckimin optou, no segundo turno, por um estilo agressivo nas denúncias de corrupção. O resultado foi claro: o candidato perdeu cerca de 3 milhões de votos entre os dois pleitos. Seu desempenho eleitoral diminui tanto que analistas políticos acreditam que no primeiro turno o eleitor quis muito mais enviar um sinal de alerta ao presidente Lula do que mudar de presidente.

Durante o primeiro turno Lula esteve à frente das pesquisas com mais de 50% das intenções de voto, o que lhe garantiria uma vitória sobre todos os candidatos. Isso levou o presidente a não comparecer a nenhum debate de TV e a conceder poucas entrevistas. Tudo já parecia resolvido e não parecia válido que o presidente se expusesse às críticas dos adversários, entre eles dois ex-petistas, a veemente senadora Heloísa Helena e o ex- Ministro da Educação Cristovam Buarque.

Por que Lula não venceu no primeiro turno como indicavam as pesquisas? Uma resposta possível é que o eleitor mandou um recado ao presidente, dizendo que seu "sim" não era incondicional. Esse alerta, a meu juízo, foi motivado pelo caso de petistas presos com dinheiro ilícito para comprar um dossiê contra os principais opositores do presidente há dez dias do pleito e a ausência do presidente no último debate de TV. A ausência ao debate, após denúncia tão grave, foi entendida como um sinal de que Lula não se importava em dar explicações sobre corrupção envolvendo seu governo. Então, o eleitor mandou seu aviso. Retirou o apoio ao presidente e levou as eleições para o segundo turno. Com o mandato em jogo, Lula compareceu a todos os debates e forçou uma comparação entre os seus quatro anos de governo e os oito anos de FHC, do mesmo partido e grupo político de Geraldo Alckimin. De fato, a desigualdade social e pobreza diminuíram no governo Lula e agora também sabemos que o IDH aumentou. O discurso de Lula ao eleitor foi repetido à exaustão: "Temos muito que fazer ainda. O Brasil não está uma maravilha. Mas estamos no caminho certo". O eleitor respondeu: "Se é assim, que fique".
(NA)

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