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Os
cursos prévestibulares comunitários: os caminhos plurais
da cidadania ativa
José
Carmelo Braz de Carvalho
Brasil
Ph. D PUC-Rio
Coordenador do Projeto Raízes Comunitárias
jcarmelo@edu.puc-rio.br

Desde
la década de 1990, los cursos comunitarios para ingreso
a la Universidad (CPVC) se consolidan en el Brasil
como sujetos colectivos de ciudadanía activa, inclusión,
diversidad cultural y empoderamiento en comunidades
pobres. En este movimiento de la sociedad civil, que
en el Grande Rio de Janeiro cuenta con una centena
de núcleos, pueden encontrarse varias corrientes plurales,
tanto por su praxis como por sus estrategias.
Desde
seus primórdios no início da década de 90, como expressões
de movimentos da sociedade civil, os CPVCs (Cursos
Pré-Vestibulares Comunitários) mostram a pluralidade
de contextos e motivações que os caracterizam. Em
1993, na Bahia, o SENUM, uma dissidência de universitários
negros contra a direção da UNE, que não admitia a
bandeira anti-racista como luta política universitária,
e o Grupo Steve Biko desencadeiam o processo dos CPVCs.
Em São Paulo, na USP, a comemoração do 1º centenário
da Abolição da Escravatura, restrita exclusivamente
a docentes e pesquisadores brancos, motivou representantes
acadêmicos negros a reivindicarem seu protagonismo
e a organizarem em 1996 o Núcleo da Consciência Negra.
Na Baixada Fluminense, em decorrência da Campanha
da Fraternidade de 1988 em prol da inclusão social
da população negra, pastorais juvenis e ações dos
frades franciscanos promovem desde 1993 iniciativas
de CPVCs.
Esses múltiplos espaços e eixos de ações da sociedade
civil - rupturas ideológicas de correntes na UNE;
reações no seio da mais prestigiosa universidade brasileira;
movimentos associados às pastorais juvenis católicas
- ampliam- se ao longo dos últimos treze anos, em
crescimento exponencial dos CPVCs, hoje podendo ser
estimados em mais de 1.200 cursinhos, com cerca de
60.000 pré-vestibulandos de comunidades pobres. Sob
nossa delimitada experiência de três anos de engajamento
junto a uma centena de CPVCs - parceiros da PUC-Rio
nos projetos de inclusão via bolsas sociais - nosso
diálogo e práxis desenvolvem-se especialmente em torno
da antinomia - "compromisso político e competência
técnica" - já aguda desde 1983 entre correntes neo-gramscianas
na educação brasileira (Nozella 2005). Naquele contexto
da reabertura política na década de 80, tal dilema
refl etia bem as tensões teóricas e praxiológicas
hoje bem presentes nos CPVCs. Como um exemplo emblemático,
no momento de elaboração deste texto, a Rede EDUCAFRO
/ Regional Sudeste, desencadeia entre seus CPVCs afi
liados novos debates e propostas sobre seus projetos
políticopedagógicos, articulados em torno dos conteúdos
programáticos do tema transversal e/ou da disciplina
nuclear "Cultura e Cidadania". Busca assim repensar
ao longo de 2007 uma nova alternativa de resguardar
e ampliar os compromissos de um movimento social urbano,
comprometido com a causa da cidadania ativa, inclusão
social e empoderamento comunitários, responsabilização
grupal pelo empoderamento político e a diversidade
cultural; portanto como sujeitos coletivos em busca
da auto-sustentabilidade social e política de suas
comunidades, e não da mera mobilidade individual de
milhares de alunos pobres.
OS CAMINHOS PLURAIS DOS CPVCS
A ênfase mais técnico-pedagógica, emprestada a
nossos diálogos e práticas com essa centena de CPVCs
no Grande Rio, enseja serem delineados seis caminhos
ou correntes plurais entre os CPVCs parceiros, sob
o prisma de suas práxis e estratégias de cidadania
ativa. Esta incipiente tipologia presta-se apenas
ao intento de oferecer, a leitores menos familiarizados
com os CPVCs no Grande Rio, os múltiplos caminhos
percorridos pelas diferentes propostas político-pedagógicas
desses movimentos sociais:
1) um primeiro segmento de CPVCs busca definir-se
como espaços de formação crítica e de intervenção
política, na perspectiva de movimentos de educação
popular. Assim, seu projeto político-pedagógico contempla
sobretudo ênfases em mudanças estruturais de longo
prazo nos sistemas político e escolar, do que alterações
conjunturais e episódicas de políticas compensatórias
e focalizadas. Seu projeto educativo busca compatibilizar
os processos de preparação para o vestibular com os
de formação política; entretanto essa práxis pedagógica
nem sempre assegura condições suficientes para a construção
da formação política nas diversas disciplinas, apesar
da centralidade conferida à disciplina Cultura e Cidadania;
2) outros núcleos de CPVCs buscam constituir-se
como alternativas de inclusão direcionadas a grupos
étnicos e sociais excluídos; lutam por instituir medidas
específicas, com vistas à inclusão nas agendas das
políticas universalistas medidas específicas em prol
da inclusão dos grupos discriminados, como políticas
de cotas nas universidades e IES públicas e privadas
e de ações afirmativas complementares; sob o prisma
mais didático desenvolvem projetos político-pedagógicos
decorrentes dos pressupostos de abordagens crítico-social
de conteúdos e do método Paulo Freire; ressaltam processos
de ensino-aprendizagem no contexto de um acentuado
interacionismo sócio-cultural entre docentes e discentes,
como alternativas de superação das barreiras psicopedagógicas
à aprendizagem, de empoderamento coletivo e convivialidade
entre docentes (já exemplos de ascensão social e educacional)
e seus alunos em busca de espaços de afirmação grupal
e pessoal;

3) outros segmentos de CPVCs integram-se a
uma rede de projetos comunitários mais abrangentes,
com propostas diversas de inclusão social (diversos
níveis escolares, inclusão digital, formação profissional
e geração de renda, etc), sob coordenação de uma ONG
local ou de associação de moradores, na perspectiva
da cidadania ativa e de afirmação da comunidade em
sua identidade e diversidade sócio-cultural; enfatizam-se
processos de mediações políticas com o Estado e a
Sociedade Civil em vistas a instaurar localmente recursos
de justiça distributiva; os quadros docentes são recrutados
na própria comunidade, curricularmente enfatizam temáticas
locais e operam com recursos físicos, financeiros
e humanos mais autóctones, a par de buscar respaldos
externos mais consistentes;
4) um quarto conjunto de CPVCs decorre de ações
institucionalizadas de escolas religiosas e leigas,
ou de igrejas e associações filantrópicas, como alternativas
do exercício da cidadania e de compromissos pela inclusão
social de grupos carentes e/ou de comunidades pobres
vizinhas; são patrocinadas pela comunidade de pais,
professores e alunos, dispondo de relativa autonomia
financeira; pedagogicamente a proposta aproxima-se
de modelos de educação supletiva de adultos, geralmente
implicando um ano de consolidação da educação básica
e uma segunda série mais propedêutica;
5) outro segmento de CPVCs decorrem de iniciativas
de instituições filantrópicas e de grupos ativos da
sociedade civil (igrejas, ONGs e movimentos sociais),
operando em seus espaços físicos ou de escolas públicas
e privadas em horários cedidos; são dependentes do
poder de arregimentação das suas lideranças; contam
com quadros docentes de profissionais voluntários,
de estagiários e licenciandos de faculdades públicas
e privadas; desenvolvem uma proposta pedagógica menos
homogênea e mais associada às experiências docentes
dos seus colaboradores individuais;
6) mais recentemente desde 2004, um novo segmento
de CPVCs configura-se crescentemente como alternativas
institucionais desenvolvidas por universidades públicas
- no início de 2004 eram apenas 05, em especial as
universidades estaduais da BA, RJ e RS; agora ao final
de 2006 englobam 32 universidades federais e outras
15 estaduais (MEC/SECAD, 2006). Patrocinado por MEC/
SECAD e UNESCO, em parceria com o Observatório de
Favelas e outras ONGs, o Programa "Conexões de Saberes"
objetiva promover o diálogo entre as universidades
públicas e as comunidades pobres, debatendo o ingresso
e permanência de estudantes de origem popular nas
universidades oficiais. Face ao diagnóstico da SECAD,
de que apenas 6,3% dos calouros das 32 IFES são de
origem popular, as instâncias políticas do MEC e dessas
47 instituições públicas buscam superar os muros do
corporativismo acadêmico, escudado em geral sob o
discurso da qualidade, mas ao qual é imprescindível
somar- se igualmente sua relevância sócio-político-cultural,
em prol da inclusão da imensa maioria pobre até hoje
barrada das IES públicas.

À GUISA DE CONCLUSÃO
Desde 1993 os CPVCs consolidam-se no país como sujeitos
coletivos de cidadania ativa, inclusão, diversidade
cultural e empoderamento em comunidades pobres. Nesse
contexto são naturais as antinomias entre o compromisso
político de movimentos sociais comunitários e a competência
técnico-pedagógica de suas equipes docentes e de coordenação
pedagógica, em buscar superar os determinantes e condicionantes
educacionais e sociais que marcam as trajetórias escolares
de alunos das camadas populares. Face a esse dilema
sempre presente nas propostas político-pedagógicas
dos CPVCs, o seu equacionamento teórico e prático
dependerá sempre das formas plurais de organização
dessas instâncias da sociedade civil, articuladas
a núcleos estritamente comunitários, a movimentos
eclesiais de base, a ONGs e a outros grupos voluntários
do Terceiro Setor, a nichos político-partidários no
aparato do poder público, comprometidos com a causa
da inclusão das camadas populares no ensino universitário.
Maria da Glória Gohn (2006) tem analisado com consistência
nos últimos anos, como os movimentos sociais atuantes
na área da educação - tanto a formal, quanto a informal
- adquirem crescente visibilidade como atores independentes,
a par de desenvolvem seus próprios processos de aprendizagem:
"partir da ótica dos direitos de um povo ou agrupamento
social é adotar um princípio ético, moral, baseado
nas necessidades e experiência cumulada historicamente
dos seres humanos e não nas necessidades do mercado......
Fora da ótica da universalidade dos direitos caímos
nas políticas focalizadas, meras justificativas para
políticas que promovem uma modernização conservadora.
A ótica dos direitos como ponto de partida poderá
nos fazer entender as mudanças sociais em curso" (
M. G. Gohn, 2006).
Importa retomar-se aqui a proposta de Dermeval Saviani
(1983, p. 142) em relação aos debates sobre competência
técnica e/ou compromisso político: "a identificação
dos fins implica imediatamente a competência política,
e mediatamente a competência técnica; a elaboração
dos métodos para atingi-los implica a competência
técnica, e mediatamente a competência política (...)
Logo, sem competência técnico-política não é possível
sair da fase romântica (....) Cabe unificar as
lutas, visando consolidar os avanços e tornar irreversíveis
as conquistas feitas, trilhando um caminho sem retorno
no processo de reapropriação, por parte das camadas
trabalhadoras, do conhecimento elaborado e acumulado
historicamente".
(NA)
CARVALHO, J. C. Os Cursos Pré-Vestibulares Comunitários
e seus condicionantes pedagógicos. Cadernos de Pesquisa.
São Paulo: Fundação Carlos Chagas, v. 36, n. 128, p.
299-326, maio/ago 2006.
GOHN, M. G. Educação não-formal, participação da sociedade
civil e estrturas colegiadas nas escolas. Ensaio: Avaliação
e Políticas Públicas em Educação. Rio de Janeiro: Fundação
Cesgranrio, v. 14, n. 50, jan/mar 2006, p. 10.
MEC / SECAD e UNESCO. Programa Conexões de Saberes:
Anais do II Seminário Nacional. Brasília: Secretaria
de Educação Continuada, Alfabetização e Diversidade,
novembro de 2006, 164 p.
NOZELLA, P. Compromisso político e competência técnica:
20 anos depois. Campinas: Educação e Sociedade, v. 26,
n. 90, jan/abr. 2005.
SAVIANI, D. Competência política e compromisso técnico,
ou o pomo da discórdia e o fruto proibido. Campinas:
Educação e Sociedade, n. 15, agosto de 1983, p. 142.
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