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Novo
populismo?
Maria Elisa N. de Sá Mäder
Brasil
Doutora em História Social pela Universidade Federal
Fluminense
Professora de História da América na Pontifícia Universidade
Católica do Rio de Janeiro
maisam@attglobal.net

Actualmente
se pueden identificar cambios significativos en América
Latina, tanto en sus sistemas políticos nacionales,
como en la dirección que toma la política externa
de varios países, al proponer una redefinición de
las relaciones de poder en el continente. Las victorias
electorales de nuevos líderes políticos que se proponen
gobernar e innovar la realidad latinoamericana se
deben en parte a la frustración generada en los años
90 por la utopía de la globalización y por las políticas
neoliberales. Estas nuevas perspectivas políticas
han sido interpretadas a través del tema del populismo,
concepto impreciso, difícil de definir y, por lo tanto,
un instrumento de análisis bastante defectuoso.
Chama a atenção a recorrência com que o tema
do populismo tem sido invocado para explicar muitas
das experiências políticas vividas pela América Latina,
neste início do século XXI. Seja referindo-se a uma
antiga idéia de populismo, seja falando em neo populismo,
o tema está na ordem do dia num continente que, em
geral, se movimenta historicamente de forma sincrônica,
apesar de sua enorme heterogeneidade interna. Sem
dúvida este é um assunto que merece atenção pelas
implicações políticas e ideológicas que ele supõe
ou carrega.
É possível identificar no momento atual mudanças significativas
na América Latina, tanto em seus sistemas políticos
nacionais, quanto no direcionamento da política externa
de vários países que hoje propõem uma redefinição
das relações de poder dentro do continente americano.
Para a melhor compreensão destas mudanças é preciso
recuar aos anos 70 do século passado, quando a América
Latina viveu as primeiras experiências de aplicação
do receituário político-econômico liberal-conservador
da era Reagan/Thatcher, no Chile, no Uruguai e na
Argentina. No entanto, foi na segunda metade dos anos
oitenta que este novo modelo se generalizou por todo
o continente. Neste momento muitos países abandonaram
os projetos nacionalpopulares ou desenvolvimentistas
que haviam sido hegemônicos desde 1930, adotando um
programa comum de políticas e reformas liberais que
abriu, desregulou e privatizou as economias nacionais.
Com o fim da Guerra Fria, esta política econômica
passou também a ser apresentada como uma peça chave
do que podemos chamar de uma "utopia da globalização"
financeira, vista como promessa de um caminho de convergência
da riqueza oferecida aos países periféricos do sistema
mundial.

Com o passar do tempo, entretanto, o modelo econômico
instalado pelas políticas liberais não cumpriu sua
promessa de crescimento econômico sustentado e de
diminuição da pobreza e das desigualdades sociais.
As crises financeiras se sucederam e a renda se concentrou
ainda mais nos países que adotaram tais políticas.
O resultado é que, atualmente, poucos ainda acreditam
nas virtudes das políticas receitadas por este ideário,
e o que se tem, depois de uma década de experimentação
é um balanço global negativo.[1]
Sem dúvida a frustração das expectativas criadas nos
anos 90 pela utopia da globalização e pelas políticas
neoliberais, contribuiu para as vitórias eleitorais
de novas lideranças políticas que estão se propondo
governar e inovar a história latino-americana, neste
início do século XXI. Uma virada democrática e à esquerda
de muitos governos da América Latina demonstra que
uma nova inflexão sincrônica está ocorrendo no continente.
A eleição para presidente da Bolívia, no final de
2005, do líder indígena, Evo Morales, da militante
socialista chilena, Michele Bachelet, no início de
2006, de Daniel Ortega, na Nicarágua, e Rafael Correa,
no Equador, em novembro de 2006, foram apenas eventos
de uma tendência que teve início com as eleições de
Hugo Chávez (1988), na Venezuela, Luiz Inácio Lula
da Silva, no Brasil (2002), Nestor Kirshner, na Argentina
(2003) e Tabaré Vasquez, no Uruguai (2004).
APROFUNDANDO A REFLEXÃO
É neste ponto que devemos aprofundar nossa reflexão,
indagando como têm sido interpretadas estas novas
perspectivas políticas da América Latina. O que mais
chama a atenção não só no meio acadêmico, como também
na mídia é a constante referência a um suposto retorno
da América Latina ao populismo ou até referências
ao surgimento de um neopopulismo. Criado nos anos
50, o conceito de populismo tornou-se um dos mais
utilizados para explicar a experiência política latino-americana
do século XX. Apesar de sua fragilidade teórica, trata-se
de um conceito com um dos mais altos graus de compartilhamento,
adaptabilidade e permanência, não apenas no meio acadêmico,
mas também na mídia e no senso comum.
Mas, se o conceito ainda vem sendo largamente utilizado
e defendido na academia como de valor, vem igualmente
sendo sistemática e fortemente criticado neste mesmo
espaço. Contudo, este nível de questionamento parece
não afetar em praticamente nada a aceitabilidade e
o trânsito do mesmo conceito no uso corrente das interpretações
das sociedades latino-americanas, pois aí ele parece
ter um significado já incorporado à memória coletiva[2].
Analisemos este conceito mais de perto. O populismo
é um conceito impreciso, difícil de definir e, portanto,
um instrumento de análise bastante defeituoso. Na
América Latina aparece identificado a partidos, regimes
políticos, líderes e práticas políticas, ou ainda
a manifestações, estratégias ou sistemas políticos
com características próprias e que apresentam como
especificidade a referência ao povo, outra categoria
tão imprecisa quanto a de populismo. Além disso, o
termo remete a realidades muito díspares, com características
próprias, em tempos e espaços diversos. Nossa hipótese
é que sua sobrevivência esteja ligada exatamente a
esta sua imprecisão teórica. A noção de populismo
tornou- se tão elástica e, de certa forma, a histórica
que passou, assim, a poder explicar quase tudo.
Classificam-se como populistas, por exemplo, os políticos
que enganam o povo com promessas não cumpridas ou
os que articulam retórica fácil com falta de caráter
em nome de interesses pessoais. Os regimes populistas
são geralmente considerados como ditaduras demagógicas
que se apóiam nas classes populares. Insiste-se neste
tipo de análises na dimensão carismática do chefe
e, sobretudo na irracionalidade das massas e na sua
emotividade que as impulsiona a "seguir o mau líder"
e a serem manipuladas. É o populismo afinal, que
demonstra como o "povo não sabe votar" ou, "ainda
não aprendeu a votar". Daí decorre facilmente uma
série de desdobramentos lamentáveis que, no limite
e paradoxalmente, podem justificar até a supressão
do voto em nome da "boa política". Some-se a isto
a idéia da existência de uma relação desigual entre
uma sociedade civil incapaz de auto-organização, uma
classe trabalhadora "débil" e um Estado que se impõe
a partir de mecanismos repressivos e persuasivos,
capaz de manipular e cooptar. Desta maneira, o princípio
da classificação através de algumas características
comuns, que identifica a categoria na experiência
política latino-americana, acabou sendo associado
a critérios de valor que condenam o populismo e tudo
o que ele possa adjetivar. Não pretendo aqui analisar
a trajetória da construção deste conceito, nem este
difícil terreno da transformação das idéias políticas
em elementos integrantes do vocabulário da cultura
política utilizada para analisar a história de um
continente, mas apenas chamar a atenção para as possíveis
razões para a ocorrência disto e suas implicações.
DIFERENTES INTERPRETAÇÕES...
Ao defender uma reemergência do fenômeno do populismo,
procurando caracterizar as novas formas que ele estaria
assumindo nos dias de hoje, traça-se uma espécie de
tipologia onde se procura distinguir entre um "populismo
clássico" vigente nas décadas de 1930 a 1960, interrompidos
pelos regimes militares, e o neopopulismo, que estaria
atualizando aquela antiga matriz política, interferindo
nas expectativas de consolidação da democracia no
continente.
Outras interpretações das experiências políticas latino-americanas
contemporâneas associam este novo populismo à emergência
de uma nova esquerda, mas também o fazem numa chave
de leitura negativa e adjetivada. É o caso dos que
defendem a tese da existência de "duas esquerdas"
na região[3]. Uma delas é moderna, de mentalidade
aberta, reformista e internacionalista e, paradoxalmente,
teria suas raízes na esquerda radical do passado.
Esta esquerda estaria representada, por exemplo, nos
antigos partidos comunistas chileno, uruguaio, brasileiro
e salvadorenho, que conquistaram parcelas significativas
do voto popular em um momento ou outro, participaram
de governos de "frente popular" ou "união nacional"
nas décadas de 1930 e 40, criaram uma presença sólida
no movimento sindical organizado ou ainda exerceram
influência importante nos meios acadêmicos e intelectuais.
A outra esquerda teria nascido do antigo populismo
latino-americano, é qualificada como nacionalista,
autoritária, estridente e de mentalidade fechada.
Esta esquerda reivindica como seus inspiradores ícones
históricos de grande estatura mítica como o peruano
Victor Raúl Haya de La Torre, o mexicano Lázaro Cárdenas,
Getúlio Vargas, Perón e José Maria Velasco Ibarra
no Equador.
Para os defensores desta tese atualmente os melhores
exemplos da esquerda "boa", podem ser vistos no Chile,
no Uruguai e, em grau um pouco menor no Brasil. Já
a "esquerda má" está exemplificada nos líderes Hugo
Chávez da Venezuela, em Kirchner, pelas suas raízes
peronistas, em Morales, pela sua militância e propaganda
política cocaleira, em Daniel Ortega da Nicarágua
e em Rafael Correa no Equador. Estes autores chegam
a defender que o resto do mundo, ao invés de se preocupar
com a ascensão da esquerda de maneira geral, deveria
pensar em fomentar a primeira esquerda, em vez da
segunda, alegando que é disso que a América Latina
precisa. Seja vindo de conservadores ou mesmo da própria
esquerda, o fato é que estas observações, em geral,
escondem um forte preconceito contra estes novos líderes
indígenas, sindicalistas ou soldados que não parecem
se encaixar nos modelos de dirigentes políticos de
outros países ditos civilizados. Além disso, escamoteiam
a instrumentalização do conceito de populismo pelas
forças políticas conservadoras e pela mídia como arma
de combate político.
Como tentar entender estas interpretações sobre as
novas perspectivas políticas na América Latina? Parece
haver uma equação histórica que é recorrentemente
utilizada como chave explicativa para a experiência
histórica latino-americana: o caudilho do século XIX
se transforma no populista ou no ditador do século
XX, numa história que se passa num tempo circular,
fazendo com que a América Latina pareça sempre presa
e condenada a um destino anárquico, autoritário e
inexorável, do qual ela jamais se libertará. A
origem disso estaria numa suposta natureza ou "cultura
autoritária" que teria raízes, por exemplo, na herança
da colonização ibérica. Daí o surgimento de teses
que cultuam a visão da América Latina como uma região
que precisa de assistência, orientação e liderança
firme. Ou como a do continente que precisa aceitar
intervenções que garantam a liberdade e a democracia.
Daí também as teses do retorno do populismo ganharem
força e credibilidade nos dias de hoje. Assim como
o perigo do retorno ao autoritarismo e às ditaduras
também já foi e é sempre um fantasma invocado, o fantasma
da vez é o retorno ao populismo. A quem interessa
este tipo de leitura da América Latina? Como quebrar
esta visão cíclica da história latinoamericana?
E O CONTINENTE SE MOVE...
Ao contrário do que muitas análises superficiais
e apressadas indicam, a democracia está cada vez mais
forte na América Latina, e uma nova esquerda parece
surgir, marcada por uma grande diversidade de tendências
e propostas[4]. O certo é que nenhum dos fenômenos
ocorridos na região na última década foi previsto,
e os acontecimentos superaram a capacidade de imaginação
dos analistas, intelectuais e dos meios de comunicação.
O continente se move em direções que não repetem a
história passada, e que, na verdade, constroem uma
história nova e diversa. Certamente os fenômenos políticos
representados pelas velhas esquerdas, pelas ditaduras
ou pelos populismos, não constituem fatos nem conformam
bases suficientes para tornar possível o reconhecimento
e a identificação do que está ocorrendo hoje na região.
Não se pode tentar explicar estas tendências políticas
sem levar em conta as particularidades nacionais e
as especificidades conjunturais, e sem reconhecer
a profunda insatisfação com a ordem política e econômica
vigente sentida por boa parte da população do continente,
uma das regiões mais desiguais do mundo. É evidente
que não se pode negar também as ambigüidades e incertezas
que rondam estas experiências. Trata-se de um mosaico
de respostas específicas a estruturas políticas desgastadas,
a cada vez mais altos níveis de desigualdade e exclusão
social, mas também a um cada vez maior grau de consolidação
democrática e de participação política de movimentos
sociais que representam etnias e grupos sociais excluídos
do poder por séculos. (NA)
[1] Ver a Conferência de José Luis Fiori, "Sistema Mundial
e América Latina: mudanças e perspectivas", proferida
no Itamaraty, em agosto de 2006.
[2] Ver o artigo de Ângela de Castro Gomes, "O populismo
e as ciências sociais no Brasil: notas sobre a trajetória
de um conceito" in: Jorge Ferreira (org.) O Populismo
e sua história: debate e crítica. Rio de Janeiro: Civilização
Brasileira, 2001.
[3] Ver, por exemplo, o artigo de Jorge Castañeda, "Bem
me quer, mal me quer", Folha de São Paulo, 28 de maio
de 2006, e seu livro, A Utopia Desarmada. São Paulo:
Cia das Letras, 1994.
[4] Ver os dados e as análises do Informe Latinobarómetro,
de dezembro de 2006.
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