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Educação
– um tema que ocupa um lugar de destaque na Revista
Novamerica. Todos os anos, pelos menos um número é
dedicado às questões em torno dessa temática. São
denúncias, propostas, aprofundamentos teóricos, resultados
de pesquisas, ou seja, uma gama de textos que procuram
tratar o tema numa perspectiva multidimensional. Nesse
número, todo ele dedicado ao tema da Educação, a seção
Idéias em Rede trás uma diversidade de artigos, cuja
leitura e análise podem contribuir para fazer avançar
o debate. As questões e desafi os em torno da qualidade
da educação, o relato sobre uma experiência aberta
à diversidade, a Declaração do Foro Latino-Americano
de Políticas Educativas sobre o direito à educação
e à participação cidadã e refl exões acerca dos avanços
políticos, econômicos e ideológicos experimentados
pela América Latina e o papel relevante das instituições
que se dedicam a criar um “pensamento” latino-americano
formam um mosaico de idéias e nos ajudam a tecer rede.
Educación - un tema que ocupa un lugar destacado
en la Revista Nuevamerica. Todos los años, por lo
menos un número es dedicado a las problemáticas que
rodean esta temática. Son denuncias, propuestas, perfeccionamiento
teórico, resultados de investigaciones, o sea, una
gama de textos que buscan tratar un tema desde una
perspectiva multidimensional. En este número, dedicado
integralmente a la Educación, la sección Ideas en
Red trae una gran diversidad de artículos, cuya lectura
y análisis pueden contribuir para que crezca el debate.
Las problemáticas y los desafíos que rodean a la educación,
el relato sobre una experiencia abierta a la diversidad,
la Declaración del Foro Latinoamericano de Políticas
Educativas sobre el derecho a la educación y a la
participación ciudadana, las reflexiones sobre los
avances políticos, económicos e ideológicos experimentados
en América Latina. También el papel relevante de las
instituciones que se dedican a crear un "pensamiento"
latinoamericano. Estos son los temas que en este número
componen el mosaico de ideas y nos ayudan a tejer
esta red.
Qualidade
da educação: questões e desafios
Vera
Maria Candau
Brasil
Professora da PUC-Rio
Membro da Equipe da Novamerica

La
realidad educacional latinoamericana es mucho más heterogénea
y plural que la descripción realizada por organismos
de carácter nacional e internacional. Por lo tanto es
importante no caer, también en el ámbito educativo,
en la trampa del llamado pensamiento único y observar
las diferentes concepciones de calidad en educación
existentes para poder romper con perspectivas cristalizadas
y que responden a intereses de mercado. Mirar la heterogeneidad
de las prácticas nos permite observar varias experiencias
que se realizan en el contexto brasileño y continental,
que incorporan nuevas cuestiones desde una perspectiva
socioeducativa, y que muestran que es posible construir
una educación de calidad plenamente humana.
Hoje é consensual a afirmação de que cresce fortemente
a consciência sobre as transformações profundas pelas
que passa o mundo, e em acelerado ritmo de mudança.
Esta realidade provoca em muitas pessoas e grupos reações
contraditórias de insegurança, mal-estar, inquietude
e medo, mas também de novidade e esperança, sentimentos
que mobilizam as melhores energias para a construção
de um mundo diferente, mais humano e solidário.
Esta dialética é especialmente aguda no nosso país e
em toda a América Latina, onde a afirmação de uma sociedade
democrática e igualitária encontra diariamente obstáculos
nas políticas neoliberais hegemônicas e no avanço de
reformas que acentuam a marginalização e a exclusão,
em nome da abertura dos mercados e da modernização.
Neste contexto a educação vive no continente um momento
especialmente paradoxal e contraditório. Não é possível
negar a enorme expansão do sistema educativo nas últimas
décadas, pelo menos no que se refere à educação básica.
O discurso oficial apresenta a educação como a grande
responsável da modernização em nossas sociedades, por
suas maiores e menores possibilidades de se integrar
ao mundo globalizado e à sociedade do conhecimento.
A educação é encarada como esperança de futuro.
No entanto, persistem elevados índices de analfabetismo,
evasão, fracasso e desigualdade de oportunidades de
educação entre diferentes países, assim como entre as
regiões geográficas e grupos sociais e culturais de
cada um deles. Em muitas sociedades é grave a crise
da escola pública, assim como a crescente fragmentação
dos sistemas de ensino. Os grupos sociais de baixa renda
só têm acesso a determinadas escolas e outras capas
da população de maior poder aquisitivo freqüentam as
melhores escolas públicas e escolas particulares consideradas
de excelência. Esta crescente diferenciação do sistema
educativo evidencia a tendência que se vem afirmando
da inserção da educação na lógica do mercado, como um
produto de consumo que é negociado segundo as possibilidades
econômicas e as relações sociais de cada um/a, assim
como de cada grupo sócio-cultural.

OS DESAFIOS DA EDUCAÇÃO HOJE
Em 2000, por ocasião da preparação para o "Fórum Mundial
de Educação", realizado em Dakar de 24 a 28 de abril,
com o objetivo de analisar os resultados da avaliação
da década de Educação para Todos e aprovar uma nova
declaração e um novo Marco de Ação, que seriam estendidos
até o ano 2015, um grupo de educadores e intelectuais
latino-americanos elaborou um pronunciamento para socializar
suas preocupações e reflexões. Partindo da afirmação
de que "nossos povo merecem mais e melhor educação"
e de que"as políticas recomendadas e adotadas
nos últimos anos não se correspondem de forma satisfatória
às expectativas da população latinoamericana, às realidades
do sistema escolar e particularmente dos docentes e
não obtiveram os resultados esperados", propõe
que sejam feitas revisões no sentido das políticas educativas
adotarem concepções que não se reduzam a questões de
cobertura e de eficiência, nem concebam os sistemas
educativos como peças prioritariamente a serviço da
economia. Pelo contrário, que sejam inspiradas em valores
humanos fundamentais; que enfatizem a dimensão ética,
a necessidade de destinar recursos e esforços que favoreçam
a qualidade da educação para todos e todas, especialmente
os grupos excluídos e discriminados nas nossas sociedades;
que reconheçam a diversidade cultural e recuperem uma
visão das múltiplas dimensões e setores inerentes aos
problemas educativos. Em sua última parte, o documento
adverte especialmente para que, no contexto atual da
globalização, sejam trabalhadas as questões relativas
às identidades latino-americanas e aos valores nela
presentes, assim como a participação na sociedade, principalmente
dos educadores e educadoras, não só na sua execução,
mas também na formulação e discussão das políticas educativas.
Poderíamos analisar e discutir vários dos aspectos indicados
nessa síntese, mas o que nos parece mais importante
neste momento é assinalar que é previsto um impacto
negativo da situação política, econômica e social do
continente sobre o sistema educativo, e que o modo de
afrontar esta problemática supõe estimular a participação
de diversos atores sociais.
O papel do Estado, como responsável pela garantia
do direito à educação, não pode ser limitado ao acesso
e à universalização da matrícula, e supõe a permanência
na escola de todos os alunos e alunas durante todo o
período da educação obrigatória, exige a promoção de
um processo significativo de ensino-aprendizagem, assim
como uma democratização, em suas diferentes dimensões,
do ensino médio e superior.
É importante também indicar que, além das iniciativas
oficiais, no continente existem inúmeras experiências
em desenvolvimento de iniciativa de instituições de
ensino, públicas e particulares, assim como de grupos
de educadores, em muitos casos em interação com organizações
não governamentais e professores universitários, articuladas
à realização de pesquisas, que se situam em perspectivas
orientadas a uma renovação dos processos educacionais
em profundidade, assim como uma enorme riqueza e criatividade
no âmbito da educação não formal. A realidade educacional
é muito mais heterogênea e plural do que a descrição
que dela é feita principalmente pelos organismos de
caráter nacional e internacional. É importante não cair,
também no âmbito educativo, na armadilha do chamado
pensamento único.
QUALIDADE DA EDUCAÇÃO: UM DISCURSO HOMOGÊNEO OU PLURAL?
Neste contexto, a questão da qualidade da educação adquire
especial relevância. Todas as autoridades educacionais,
os educadores e as famílias defendem a promoção da qualidade
da educação. Não conheço ninguém que não assuma esta
causa. Além do mais, a referência à qualidade sempre
orientou, ao longo da história da educação, as diferentes
maneiras de se conceber a educação e todas as propostas
de reforma dos sistemas de ensino. No entanto, a expressão
qualidade da educação, ao mesmo tempo que expressa um
aparente consenso, pode ser interpretada a partir de
diferentes visões e concepções e encobre diversos marcos
conceituais e políticos de se conceber a educação, dependendo
do tipo de sociedade e cidadania que se queira construir.
Esta polissemia da expressão qualidade da educação tem
a ver com diferentes modos de entender as relações entre
educação e sociedade, o papel da escola e do/a educador/a,
a construção dos currículos e o processo de ensino -aprendizagem.
Para uns o papel da educação é formar sujeitos capazes
de responder às exigências da sociedade dominante. Nesse
sentido, a qualidade é definida pelas necessidades do
aparelho produtivo, pelo mercado. A procura da qualidade
supõe um maior ajuste do sistema educativo a estas necessidades.
A educação fica assim reduzida a uma finalidade fundamentalmente
econômica, de capacitar o "capital humano" necessário
para as mudanças nos sistemas de produção, formar empreendedores
e consumidores. Esta é a visão que, com diferentes matizes
e revestida de linguagens plurais, vem informando as
políticas educativas de caráter neoliberal.
Uma segunda perspectiva é a que entende a qualidade
da educação como uma volta a aspectos e concepções clássicas
da educação e afirma que a modernização da educação,
os movimentos renovadores, favoreceram processos superficiais
e de pouca consistência acadêmica e científica nas escolas.
Há que reafirmar os conteúdos considerados "universais",
os autores clássicos, o papel da educação na socialização
dos conteúdos historicamente considerados relevantes,
a cultura geral, a formação intelectual e moral, a disciplina,
o esforço e os procedimentos formais de avaliação.
Estas duas maneiras de entender a qualidade da educação
muitas vezes se articulam, mesmo que contraditoriamente.
Seu anseio é que os processos educativos tragam respostas
às necessidades percebidas, especialmente as do mercado
e as dos grupos sociais hegemônicos. São estas as visões
da qualidade da educação que, em geral, hoje se expressam
com força no Brasil e em outros países latino-americanos.
É possível conceber a da qualidade da educação em outro
marco conceitual, pedagógico e político? Certamente
e apostamos nesta perspectiva, sem negar as questões
e possíveis contribuições das visões acima assinaladas.
Por exemplo, não podemos ignorar as novas necessidades
do setor produtivo e da sociedade do conhecimento, mas
outra coisa é atrelar, as instituições educativas fundamentalmente
a este objetivo. Ou, não há processo educacional sem
a seleção de um corpo de conhecimentos considerado relevante
para um determinado momento histórico, mas este conjunto
de conhecimentos não é um dado a priori, sofre continuamente
modificações, a considerada "universalidade" é histórica
e relativa e, portanto, continuamente questionada e
reelaborada. De fato, os conhecimentos veiculados pelas
escolas são objeto de uma seleção que, certamente, não
é neutra, privilegia alguns componentes e elimina outros.

Há várias experiências em andamento no nosso pais, no
âmbito público e privado, que vêm incorporando estas
questões. Partem da convicção profunda de que a educação
escolar pode colaborar com processos de transformação
estrutural da sociedade, favorecer a construção de novas
mentalidades e de sujeitos de direito. Estabelecem relações
com movimentos sociais e diferentes organizações da
sociedade civil. Afirmam o papel do Estado na democratização
da educação e se opõem às formas diretas e indiretas
de conceber a educação como um produto a ser regulado
pela lógica do mercado. Lutam pela valorização da profi
são docente e pelo protagonismo dos educadores e educadoras
e seus movimentos. Propõem a reinvenção da escola
na perspectiva de repensar seus espaços e tempos, assim
como reelaborar os currículos para favorecer uma maior
interação com a realidade e os temas de interesse do
corpo discente, estimulando dinâmicas em que a informação
seja transformada em conhecimento e o conhecimento em
sabedoria. Também apostam na introdução de componentes
curriculares que incorporem diferentes referentes culturais,
tendo muito presente a diversidade cultural e étnica
dos países latino-americanos. Promovem o domínio crítico
das novas tecnologias da comunicação e a informação.
Querem formar para uma cidadania ativa e participativa
e promover uma educação em Direitos Humanos. Democratizam
a gestão escolar e abem as portas da escola a interações
múltiplas com organizações da sociedade civil. Constroem
processos educativos, em âmbitos formais e não formais,
em que a construção do conhecimento estimule a inter-relação
entre as diferentes áreas do conhecimento e favoreça
uma perspectiva interdisciplinar na análise dos temas
e questões, experiências que articulem teoria e prática,
reflexão e festa, prazer e procura intelectual rigorosa,
ética e compromisso.
Um sonho? Como não é um sonho individual e sim de
muitos educadores e educadoras e já se encontra em andamento,
sendo construído no dia-a-dia de muitas escolas e salas
de aula, ao longo do nosso país e de todo o continente,
já é uma realidade. É nesta perspectiva sócio-educativa
que acreditamos dever ser aprofundada e construída uma
qualidade de educação plenamente humana que dê resposta
aos desafios atuais da educação no nosso continente.
Tenho a firme esperança de que este movimento se afirme
e amplie. (NA)
DEZ
FATORES PARA UMA EDUCAÇÃO DE QUALIDADE PARA TODOS NO
SÉCULO XXI
Por
ocasião da Semana Monográfica da Fundação Santilla de
2004, realizada com o apoio da Organização dos Estados
Iberoamericanos e que se caracteriza por ser um espaço
de diálogo respeitoso, variado, plural e aberto, Cecília
Braslavsky (que faleceu recentemente) apresentou dez
fatores que, na sua opinião, incidem sobre a elaboração
de uma educação de qualidade para todos, ao mesmo tempo
prática, racional e emocional; que forma pessoas capazes
de compreender o mundo e criar seus projetos, aproveitando
as oportunidades geradas pelas surpresas inevitáveis
e evitando a realização de profecias descartáveis que
faziam parte do cenário dos primeiros anos do século
XXI. De acordo com a autora, esses fatores, apresentados
respeitando uma organização de certo modo hierárquica,
são:
1. O foco na relevância pessoal e social - refere-se
à idéia de que "uma educação de qualidade é aquela que
permite que todos aprendam o que necessitam a aprender,
no momento oportuno de sua vida e de suas sociedades,
e que o façam com felicidade, porque todos merecemos
a felicidade. [...] Meninos e meninas merecem, antes
de qualquer pessoa, ser felizes na escola".
2 - A convicção, a estima e autoestima dos envolvidos
- trata-se da "tensão criativa entre convicção, estima
e auto-estima das sociedades, dos dirigentes políticos
e das administrações sobre o valor da educação". E destaca:
"a convicção sobre as possibilidades da educação foi
uma das chaves do sucesso nos períodos em que a educação
teve mais poder e esteve sempre associada à valorização
dos profissionais da educação".
3 - A força ética e profissional dos mestres e professores
- para Cecília, "muitos mestres conseguem ensinar
bem mesmo em condições adversas", graças ao seu profissionalismo
e à sua força ética. O que significaria dizer que "além
de valorizarem a si próprios e de se sentirem valorizados
pela sociedade, têm os valores de paz e justiça incorporados
à sua própria constelação moral e possuem recursos para
obterem resultados com seus alunos".
4 - A capacidade de condução de diretores e inspetores
- refere-se a três características dos dirigentes.
A primeira, de ordem subjetiva, ou seja, trata-se do
valor que se atribui à função formativa dos estabelecimentos
educacionais, a segunda relacionase à sua capacidade
de construir sentido para o estabelecimento em seu conjunto,
mas também para cada um dos grupos e das pessoas que
o integram e a terceira está associada à sua capacidade
de construir eficácia.
5 - O trabalho em equipe dentro da escola e dos sistemas
educacionais - uma escola de qualidade pressupõe
adultos trabalhando juntos. E "esse trabalho conjunto
é promovido melhor e com maior intensidade quando o
próprio sistema educacional participa do trabalho".
6 - As alianças entre as escolas e os demais agentes
educacionais - trata-se de promover intensas alianças
com as famílias e outras instituições com funções diferenciadas
e complementares. Nesse caso, "cada ator pode compreender
a situação dos demais, pode ver o invisível e, além
disso, consegue oferecer algo aos demais no espaço de
valores compartilhado ou compartilháveis".
7 - O currículo em todos os seus níveis - aqui
a idéia é repensar os currículos, sendo que "o que importa
é construir a sensibilidade pelo conhecimento. Aprender
a fazer perguntas, a buscar respostas, a saber que há
mais de uma resposta e que aqueles que têm respostas
diferentes podem dialogar e construir outras novas,
mais ricas".
8 - A quantidade, a qualidade e a disponibilidade
dos materiais educativos - "Não há qualidade educacional
sem um entorno rico de materiais que possam ser usados
como materiais de aprendizagem". Por sua vez "a qualidade
desses materiais e suas características de utilização
por meio da dinamização pelo docente profissional e
eticamente comprometido são tão ou mais importantes
que sua existência".
9 - A pluralidade e a qualidade das didáticas
- nesse caso, a autora enfatiza que "qualidade da educação
é mais bem construída quando as pessoas que produzem
as didáticas estão mais perto daquelas que as utilizam,
porque isso permite que essas didáticas estejam mais
perto de sua relevância e que sejam mais adequadas".
Por outro lado, ressalta que existem "diversos caminhos
que podem conduzir à aprendizagem com significado e
desenvolvida em condições de bem-estar", exatamente
porque as crianças, os professores e os contextos são
diferentes.
10 - Condições materiais e incentivos socioeconômicos
e culturais mínimos - refere-se à existência de
condições materiais mínimas e de incentivos ao desenvolvimento
dos contextos, dos mestres, e das populações escolares,
condições que são consideradas indispensáveis, mas não
suficientes para a melhoria da qualidade educacional.
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