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L
a Revista de la Pátria Grande


OPINIÃO / OPINIÓN

Sempre aberta para trazer diferentes pontos de vista acerca do tema específico da edição em pauta, a seção Opinião desse número abre um espaço especial para homenagear aquele que consideramos um dos maiores educadores por sua obra e ações. São dez anos sem Paulo Freire, cuja presença continua viva em nossas mentes e corações. A ele, a nossa reverência nas palavras de Frei Beto. Enriquecendo a seção, alguns Leitores Ativos expressam suas diversas idéias sobre as relações entre educação de qualidade, sociedade e cultura.

Siempre abierta a diferentes puntos de vista acerca del tema específico de la edición en pauta, la sección Opinión de este número abre un espacio especial para homenajear a aquel a quien consideramos uno de los mayores educadores, por su obra y por sus acciones. Son diez años sin Paulo Freire, cuya presencia continúa viva en nuestras mentes y en nuestros corazones. A él, nuestra reverencia en las palabras del Fraile Betto. Enriqueciendo la sección, algunos lectores activos expresan diversas ideas sobre las relaciones entre educación de calidad, sociedad y cultura.


Paulo Freire: a leitura do mundo
Frei Betto
Brasil
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Foto: André Valentim - Agência TYBA

"Ivo viu a uva", ensinavam os manuais de alfabetização. Mas o professor Paulo Freire, com o seu método de alfabetizar conscientizando, fez adultos e crianças, no Brasil e na Guiné-Bissau, na Índia e na Nicarágua, descobrirem que Ivo não viu apenas com os olhos. Viu também com a mente e se perguntou se uva é natureza ou cultura.

Ivo viu que a fruta não resulta do trabalho humano. É Criação, é natureza. Paulo Freire ensinou a Ivo que semear uva é ação humana na e sobre a natureza. É a mão, multiferramenta, despertando as potencialidades do fruto. Assim como o próprio ser humano foi semeado pela natureza em anos e anos de evolução do Cosmo.

Colher a uva, esmagá-la e transformá-la em vinho é cultura, assinalou Paulo Freire. O trabalho humaniza a natureza e, ao realizá-lo o homem e a mulher se humanizam. Trabalho que instaura o nó de relações, a vida social. Graças ao professor, que iniciou sua pedagogia revolucionária com trabalhadores do SESI de Pernambuco, Ivo viu também que a uva é colhida por bóia-frias, que ganham pouco, e comercializada por atravessadores, que ganham melhor.

Ivo aprendeu com Paulo que, mesmo sem ainda saber ler, ele não é uma pessoa ignorante. Antes de aprender as letras, Ivo sabia erguer uma casa, tijolo a tijolo. O médico, o advogado ou o dentista, com todo o seu estudo, não era capaz de construir como Ivo. Paulo Freire ensinou a Ivo que não existe ninguém mais culto do que o outro, existem culturas paralelas, distintas, que se complementam na vida social.

Ivo viu a uva e Paulo Freire mostrou-lhe os cachos, a parreira, a plantação inteira. Ensinou a Ivo que a leitura de um texto é tanto melhor compreendida quanto mais se insere o texto no contexto do autor e do leitor. É dessa relação dialógica entre texto e contexto do autor e do leitor. É dessa relação dialógica entre texto e contexto que Ivo extrai o pretexto para agir. No início e no fim do aprendizado é a práxis de Ivo que importa. Práxis-teoria-práxis, num processo indutivo que torna o educando sujeito histórico.

Ivo viu a uva e não viu a ave que, de cima, enxerga a parreira e não vê a uva. O que Ivo vê é diferente do que vê a ave. Assim, Paulo Freire ensinou a Ivo um princípio fundamental da epistemologia: a cabeça pensa onde os pés pisam. O mundo desigual pode ser lido pela ótica do opressor ou pela ótica do oprimido. Resulta uma leitura tão diferente uma da outra como entre a visão Ptolomeu, ao observar o sistema solar com os pés na Terra, e a de Copérnico, ao imaginar-se com os pés no Sol.

Agora Ivo vê a uva, a parreira e todas as relações sociais que fazem do fruto festa no cálice de vinho, mas já não vê Paulo Freire, que mergulhou no Amor na manhã de 2 de maio de 1997. Deixou-nos uma obra inestimável e um testemunho admirável de competência e coerência.

Paulo deveria estar em Cuba, onde receberia o título de Doutor Honoris Causa, da Universidade de Havana. Ao sentir dolorido seu coração que tanto amou, pediu que eu fosse representá-lo. De passagem marcada para Israel, não me foi possível atendê-lo. Contudo, antes de embarcar fui rezar com Nita, sua mulher, e os filhos, em torno de seu semblante tranqüilo: Paulo via Deus.
(NA)


Paulo Freire: la lectura del Mundo

Frei Betto
Brasil

Foto: João Ripper

"Ivo vio una uva", enseñaban los manuales de alfabetización. Pero el profesor Paulo Freire, con su método de alfabetizar concientizando, hizo que los adultos y chicos, en Brasil y en Guinea Bissau, en India y en Nicaragua, descubrieran que Ivo no vio solamente con los ojos. También vio con la mente y se preguntó si la uva era naturaleza o cultura.

Ivo vio que la fruta no resultaba del trabajo humano. Es Creación, es naturaleza. Paulo Freire le enseñó a Ivo que sembrar la uva es acción humana en y sobre la naturaleza. Es la mano, la multiherramienta, que despierta las potencialidades del fruto. Así como el propio ser humano fue sembrado por la naturaleza a lo largo de años y años de evolución del Cosmos.

Cosechar la uva, pisarla y transformarla en vino es cultura, señaló Paulo Freire. El trabajo humaniza a la naturaleza y, al hacer esto, el hombre y la mujer se humanizan. Trabajo que instaura el nudo de relaciones, la vida social. Gracias al profesor que inició su pedagogía revolucionaria con trabajadores del Sesi (Servicio Social de la Industria) de Pernambuco, Ivo vio también que la uva es cosechada por campesinos, que ganan poco, y comercializada por intermediarios, que ganan mejor.

Ivo aprendió con Paulo que, aun sin saber leer, no es una persona ignorante. Antes de aprender las letras, Ivo ya sabía erguer una casa, ladrillo por ladrillo. El médico, el abogado, el dentista, con todo su estudio, no eran capaces de construir como Ivo. Paulo Freire le enseñó a Ivo que nadie es más culto que otro ser humano, existen culturas paralelas, distintas, que se complementan en la vida social.

Ivo vio una uva y Paulo Freire le mostró los racimos, la parra, la plantación entera. Le enseñó a Ivo que la lectura de un texto es mejor comprendida cuanto más inmerso está el texto en el contexto del autor y del lector. Es de esa relación dialógica entre texto y contexto que Ivo extrae el pretexto para actuar. Al comienzo y al final del aprendizaje es la praxis de Ivo lo que importa. Praxis-teoría-praxis, en un proceso inductivo que convierte al educando en sujeto histórico. Ivo vio una uva y no vio al ave que, desde lo alto, vio la parra y no vio la uva. Lo que Ivo ve es diferente de lo que ve el ave. De esta manera, Paulo Freire le enseñó a Ivo un principio fundamental de la epistemología: la cabeza piensa donde los pies pisan. El mundo desigual puede ser leído bajo la óptica del opresor o bajo la óptica del oprimido. Resulta una lectura tan diferente una de la otra como entre la visión de Ptolomeo, al observar el sistema solar con los pies en la Tierra, y la de Copérnico, al imaginarse con los pies en el Sol.

Ahora Ivo ve una uva, el parral y todas las relaciones sociales que hacen que el fruto se vuelva fi esta en la copa de vino, pero ya no ve a Paulo Freire, que se entregó al Amor la mañana del 2 de mayo de 1997. Nos dejó una obra inestimable y un testimonio admirable de competencia y coherencia. Paulo debería estar en Cuba, en donde recibiría el título de Doctor Honoris Causa, de la Universidad de La Habana. Al sentir dolorido el corazón que tanto amó, me pidió que fuera en representación suya. Ya con el pasaje para ir a Israel, no me fue posible atenderlo. Sin embargo, antes de embarcar fui a rezar con Nita, su mujer, y con los hijos, en torno a su semblante tranquilo: Paulo veía a Dios.
(NA)

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