Revista

L
a Revista de la Pátria Grande


CONSTRUINDO CAMINHOS/ CONSTRUYENDO CAMIÑOS

Imigrantes angolanos e a construção de uma sociedade intercultural
“Somos de outro país, não de outro mundo!”
Kelly Russo
Brasil



Foto: João Ripper
En Brasil viven cerca de 1.700 angolanos, siendo que un tercio de este total reside en Río de Janeiro. Esta comunidad de inmigrantes está presente y al mismo tiempo es desconocida en el cotidiano de la ciudad. Los angolanos provienen de varias partes del país y llegan a Brasil en busca de mejores condiciones de vida. Estudian, trabajan, luchan por reconocimiento y contra el prejuicio de ser extranjeros. Forman redes de solidaridad entre ellos y mantienen en África una fuerte "raíz" que marca su identidad.


Bela, 33 anos, é dona de casa e há 12 anos mora no bairro de Ramos, subúrbio do Rio de Janeiro. Dorival, 32, é técnico de futebol e há 16 anos estruturou sua vida no bairro do Engenho Novo, também subúrbio carioca. Leonel, 30 anos, vive há cinco no conjunto de favelas conhecido como Complexo da Maré. Madalena, 18 anos, é estudante e vive, desde os seis anos de idade, na cidade de Duque de Caxias, na Baixada Fluminense. Ela é a única que diz não ter lembranças da terra onde nasceu - poucas imagens construídas a partir dos relatos dos pais sobre um longínquo período de guerra. Mas, apesar da falta de recordações, não hesitou em expressar, de modo claro, como é a sua vida no Brasil: "é ser um pouco angolana e um pouco brasileira: angolana porque sou africana, essa é a minha cultura e eu não posso negar; mas também sou brasileira, pois eu também estou vivendo aqui". Linda, com os cabelos negros presos em fitas de muitas cores, respira fundo antes de continuar a sua fala: "acho que imigrar é se adaptar em um novo país, se sentir à vontade em outro país que não tem a sua raiz." Talvez seja esta uma característica comum a todos os angolanos que vivem no Rio de Janeiro: chegaram em busca de melhores condições de vida, mas mantêm na mãe África uma forte "raiz" que marca a sua identidade.

Ao serem questionados sobre planos futuros, costumam ser evasivos. Estão no Rio de Janeiro por um tempo, talvez, ou por toda a vida, quem sabe? Vivem no Rio e é isso que agora importa. Alguns chegaram como refugiados, escapando do longo período de guerra civil angolana. Outros vieram em busca de uma melhor formação educacional e, em nossas universidades, colocam muitas esperanças. Também chegaram aqueles que buscavam uma chance de brilhar na seleção de futebol brasileiro ou, ainda, os que esperavam encontrar uma idílica cidade maravilhosa irresistivelmente apresentada nas novelas brasileiras (sucesso de audiência nas noites angolanas).

Escrever sobre a realidade dos imigrantes angolanos no Rio de Janeiro significa o confronto com um primeiro grande desafio: como reunir um conjunto tão diferente de pessoas, de histórias, de vivências e trajetórias sob um mesmo título "imigrantes", sem terminar por reduzir toda essa gente - gente diversa com tantas e variadas riquezas - por causa de uma inexata classificação? Classificação que mais exclui que inclui, como reclama Marquinha, cabeleireira angolana, que há 12 anos vive por aqui: "essa palavra não é muito boa pra gente, porque parece que não temos nada, que não sabemos nada... É muito negativa, porque a gente tem muito pra contar, mas vocês pensam que a gente não sabe nada! Sofremos com a falta de informação das pessoas sobre a gente!". Foi a fala de Marquinha que tornou claro o que passou a ser o principal objetivo deste artigo: refletir sobre a relação intercultural que existe na cidade do Rio de Janeiro, a partir da presença de uma grande comunidade formada pelos imigrantes angolanos. Comunidade esta tão presente e ao mesmo tempo tão desconhecida no cotidiano da cidade.

Foto: João Ripper

FORTALECENDO IDENTIDADES: FOLHA DE ANGOLA

Durante a realização desta reportagem, foram vários os relatos recolhidos. Alguns narravam os problemas enfrentados no Brasil, outros as variadas formas de sociabilidade de que dispunham e que conduziam suas práticas sociais neste novo país. Entre os problemas enfrentados está o "racismo à brasileira", conforme definido por Dorival, porque, segundo ele, "existem muitos refugiados no Brasil, mas, se ele é branco, passa batido, se é negro, as pessoas pensam logo as piores coisas!". Exemplifica com as notícias veiculadas pela imprensa sobre o envolvimento de angolanos com o tráfico de drogas na Maré, acusados de ministrarem cursos sobre táticas de guerrilha aos traficantes brasileiros. "Você acha que alguém que sai de seu país fugindo de uma guerra vai se envolver em outra, em outro país?!", perguntava o indignado Dorival, que hoje é técnico da equipe de futebol formada por jovens imigrantes ou filhos de angolanos no Rio de Janeiro. "É muito importante para melhorar a auto-estima deles, do grupo, para saberem que não estão sozinhos".

Como foi possível perceber logo no início da pesquisa, os imigrantes angolanos não constituem aqui, como também não o fazem lá, um grupo coeso, mas pertencem a uma mesma comunidade. Não compartilham as mesmas crenças, os mesmos valores sociais, a mesma língua materna ou os mesmos costumes, mas estabelecem redes de parceria. No Brasil, vivem cerca de 1.700 angolanos. Mais de um terço deste total está no Rio de Janeiro. O maior número concentra-se no Complexo da Maré, em bairros dos subúrbios cariocas e na cidade de Duque de Caxias, no interior do estado.

Zaqueo Zengo, professor angolano que há mais de 20 anos vive no Brasil, tornou-se uma importante referência para os estudantes que chegaram ao Rio de Janeiro, a partir da década de 1990. Zengo explica que grande parte dos imigrantes angolanos veio durante o período da guerra civil, que durou quase vinte anos naquele país. "Em 1975 libertamos o país de Portugal e passamos a enfrentar uma dura guerra entre o partido governista Movimento Popular de Libertação de Angola (MPLA), de inspiração marxista, e a União Nacional para a Independência Total de Angola (Unita), apoiada pelos Estados Unidos". Anos de um intenso conflito armado. A cruel versão da Guerra Fria nas quentes terras angolanas. Como conseqüência, ocorre, durante este período, a maior diáspora de jovens angolanos pelo mundo.

Foto: João Ripper

O grande fluxo migratório trouxe angolanos de várias partes do país. O jovem Leonel Martins, de 30 anos, foi um deles. Saiu de Angola em 1998, fugindo da guerra civil, e viveu por três anos na Europa. Chegou ao Brasil em 2002 por imaginar que aqui teria melhores condições de estudar. Estabeleceu-se na Vila dos Pinheiros, no Complexo da Maré no Rio de Janeiro, onde estudou em um pré-vestibular comunitário, e hoje cursa o 5º período de Jornalismo de uma faculdade privada, como bolsista pela Fundação Eduardo dos Santos (FESA). Assim como Marquinha, Bela, Madalena ou Dorival - os demais personagens desta nossa história - Leonel também se viu incomodado com a falta de informações sobre a sua comunidade e decidiu criar o site Folha de Angola: "onde o internauta encontra informações sobre Angola, a história, cultura, arte, desportos, danças ou gastronomia, além de encontrar links sobre guias e informações de utilidade pública de órgãos brasileiros e angolanos", explica o autor. É ele quem se entusiasma ao divulgar mais uma prova da intensa movida cultural de sua comunidade: o lançamento da primeira "discoteca africana", no bairro de Botafogo, zona sul do Rio de Janeiro. "Serão três DJs: um angolano, um brasileiro e um italiano, pra que a gente consiga, através da música, uma maior interação entre os países". Leonel dá outra dica para quem quiser conhecer mais da cultura angolana no Rio de Janeiro: "visite o site que você vai conhecer todos os estilos de música angolana, como o Zouk, uma dança parecida com o forró, que a gente dança juntinho", diz orgulhoso o criador da página web: www.folhadeangola.com.

Apesar das diferenças, entre os angolanos também foi possível notar algumas características que permitiriam identificá-los como estrangeiros. Falam o português com sotaque muito diferente do carioca, utilizam suas línguas maternas quando estão reunidos em grupo, cortam seus cabelos de modo específico e organizaram diferentes pontos de encontro na cidade. No Complexo da Maré o bar "Adega" ou o "Cantinho da Carmita" são alguns deles. "É o melhor lugar pra gente matar a saudade de nossa música e de nossa comida... O Calulu de carne seca da Carmita tem o sabor de Angola!", mais uma indicação cultural-gastronômica de Leonel.

Foto: João Ripper

O ESTRANGEIRO DENTRO DE TODOS NÓS

Os angolanos não apenas se estabelecem na cidade do Rio de Janeiro, como mantêm vivos aqui traços culturais de seu país de origem. Fazem festas, organizam reuniões, trocam informações. É através do encontro que fortalecem laços de solidariedade e recriam suas identidades. Mas, em seu cotidiano, não deixam de procurar identificar pontos de convergência entre as duas culturas, buscando um meio de melhor conviver em um lugar novo e diferente. Foi a esperança que os trouxe até aqui e é a esperança que os faz acreditar que um dia deixarão de ser esse "outro" desconhecido e temido pelos brasileiros. Bela se mostrou bastante incomodada com a sensação de estranhamento que vem dos brasileiros: "tem gente que pergunta se lá em Angola tem cerveja, tem vinho, se a gente dança... É claro que tem essas coisas também lá! Acho que Angola está muito mais próxima do Brasil do que os brasileiros da gente... Nós somos apenas de um outro país, não de outro mundo! É isso: eu gostaria que os brasileiros nos vissem como pessoas de outro país e não de outro mundo!".

Foto: João Ripper

A falta de informação afasta e alimenta o preconceito. José Kalunsiewo Nkosi é Mestre em História Política e Doutorando em Psicologia pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro. Angolano de nascimento e há 17 anos vivendo no Brasil, sabe o peso de ser esse "outro". Busca na literatura as referências para explicar em palavras o que sentiu em sua pele: "Os exilados são sempre os outros porque são diferentes. Essa xenofobia - em relação aos outros, isto é, aos que são diferentes de nós - só termina quando nos reconhecemos todos como estrangeiros. O estrangeiro, como diz Julia Kristeva, está dentro de todos nós. Ele é a face oculta da nossa identidade. Quando os nativos reconhecem que eles também são, de certa maneira, os outros, os refugiados e outras minorias ou categorias diferentes deixam de ser adversários ou ameaças. Eles continuam sendo apenas diferentes."

Diferentes sim e nessa diferença, repletos de saberes e histórias que nos faz, a todos, mais humanos. Toda diferença - assim como a igualdade - é construída socialmente, e na relação dialética entre estes dois pólos convivemos em uma sociedade. Daniel Mato (2006), ao defender a importância da prática intercultural, discute como a produção de conhecimento tende a legitimar determinadas formas de saber, em lugar de reconhecer e valorizar a diversidade. No caso particular da América Latina, a ruptura das relações coloniais, diz o autor, não acabou por completo com as formas de subordinação e/ou exclusão do "outro". E este desconhecimento e a divisão hierárquica de saberes não atingem somente populações específicas (sejam elas indígenas, negras ou imigrantes), mas a toda a sociedade em geral. "El lastre que supone esta negación no sólo afecta las posibilidades de construir sociedades más justas e incluyentes, sino también que cada una de estas sociedades pueda utilizar todos los saberes y talentos a su alcance para construir su presente y futuro, en lugar de privarse de aprovechar cada uno de ellos."

Foto: João Ripper

Bela, Dorival, Leonel, Marquinha ou Madalena já sabem, através de suas experiências cotidianas, o quão distantes estão de uma sociedade brasileira verdadeiramente intercultural. Mas talvez o que eles ainda não tenham percebido é o quanto suas lutas - por serem reconhecidos como "angolanos-brasileiros", "africanos- latino-americanos", ou "estrangeiros-brasileiros" - criam novos espaços de convivência e possibilitam o surgir de uma sociedade brasileira mais justa, inclusiva e humana. Humana em toda a sua diversidade.
(NA)



Imigrei porque desejava ter uma experiência de vida diferente, que me permitisse ter a oportunidade de conhecer pessoas e culturas diferentes. Sempre desejei estudar fora do meu país pois as condições universitárias na época, há 17 anos, eram muito desfavoráveis ao se viver num clima de guerra de baixa intensidade. A Guatemala, como muitos países na América Latina, atravessava por um período de instabilidade política como conseqüência de longas ditaduras militares. Fazer um curso universitário tinha seus riscos, mais ainda se de Sociologia ou Ciências Políticas se tratasse. Migrar era o caminho natural dos guatemaltecos, uns para procurar um destino melhor, freqüentemente o caminho era EUA, ou para proteger a vida, em quantidade de refugiados mais de um milhão de pessoas deslocaram-se para o México. A minha sorte não parece diferente, talvez só tenha mudado o roteiro e as condições.

Vale dizer que, no meu caso, imigrar foi uma maravilhosa experiência, pois migrei nas melhores condições que uma pessoa o pode fazer. Quando saí de "casa" do outro "lado da fronteira" havia um grupo me esperando com todo o calor tropical. Fui acolhida com o maior carinho e respeito. No Brasil, nunca me senti uma estrangeira discriminada. Muito pelo contrário, até hoje, posso dizer que tenho crescido como profissional e como pessoa graças as inúmeras oportunidades que o país e seu povo me têm brindado. Por isso sou grata.

Quero ressaltar que a minha trajetória pessoal, aparentemente idílica, tem sido marcada pela constatação existencial de que como ser humano deveria sempre redobrar as forças para conquistar aquilo que considerei um ideal de vida. Mesmo sendo difícil avaliar, com certeza que a energia para "sobreviver" teria sido menor se meu empenho tivesse sido realizado no país que me viu nascer. Mas como saber? No campo da hipótese só resta a realidade que pode ser resumida: valeu a pena! Migraria de novo nas mesmas condições.

Brenda Carranza - Guatemalteca, vivendo em Campinas, São Paulo, Brasil




Estou com 81 anos, nasci na Polônia e vim pra o Brasil depois da guerra porque tinha irmãos que vieram para cá antes da guerra. Sobrevivi à guerra fazendo trabalho escravo para companhias alemãs e durante a guerra estive em vários campos de concentração como Flossenburg e Auschewitz. Estava sendo levado para Dachau quando a guerra acabou. Morei depois em Munique e Paris e vim para o Brasil em 1947.

Imigrar para mim tem o significado de viver num país onde as pessoas eram boas para os judeus e onde os judeus eram livres para serem judeus. Naturalizeime brasileiro em 1964. O que foi mais forte nesta experiência? Que fiquei livre.

Szyja Kramer - Polonês naturalizado brasileiro e vivendo no Rio de Janeiro, Brasil




Meu pai veio pra o Brasil em 1933 porque a situação na Polônia e na Europa estava muito ruim. Ficou seis meses e depois eu vim, em 1934, com minha mãe e minha irmã. Eu tinha 1 ano e meio. Aqui foi toda a minha vida. Cresci, estudei, casei, trabalhei, tive minhas filhas e sou muito feliz. Tenho 75 anos, sou brasileira naturalizada com muito orgulho. Não me sinto nem nunca me senti polonesa.

Tauba Frajda Kramer - Polonesa naturalizada brasileira e vivendo no Rio de Janeiro, Brasil


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