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Índios,
negros e educação popular: a
construção da educação intercultural na América Latina
Vera Maria Candau - Professora da PUC Rio
Kelly Russo - Doutoranda da PUC Rio Brasil

La
preocupación por una educación de respeto y por la
valorización de las diferencias culturales surgió
en forma muy original en América Latina: la educación
escolar indígena fue matriz fundamental para pensar
el interculturalismo, a cuya reflexión se le sumaron
las contribuciones del movimiento negro y de la educación
popular. Hoy en día las cuestiones que el interculturalismo
presenta atraviesan las fronteras educativas para
proponer nuevas perspectivas jurídicas, modificaciones
en el campo de la salud, de las políticas de desarrollo
y de gestión institucional, siendo referencias fundamentales
para la formulación de políticas sociales y de nuevas
concepciones de Estado y de sociedad civil.
Los
pueblos indígenas tienen derecho a revitalizar, utilizar,
desarrollar y transmitir a las generaciones futuras
sus historias, idiomas, tradiciones orales, filosofías,
sistemas de escritura y literaturas, y a atribuir nombres
a sus comunidades, lugares y personas, y mantenerlos.
Os povos indígenas têm o direito de reviver, usar, desenvolver,
promover e transmitir às futuras gerações suas próprias
línguas, sistemas de escrita e literatura, e designar
e manter os nomes originais de comunidades, lugares
e pessoas.
As relações entre sociedade, educação e cultura(s)
adquiriram nos últimos anos maior visibilidade em
diferentes países do mundo. Ficaram evidentes a partir
da ação de diferentes movimentos sociais, principalmente
aqueles de caráter identitário, que denunciam injustiças,
desigualdades e discriminações, reivindicando maior
reconhecimento político, social e cultural. Na América
Latina esse debate está inserido em diferentes âmbitos,
mas possui grande força no campo educativo.
A construção dos estados nacionais supôs um processo
de homogeneização cultural em que a escola exerceu
papel fundamental, tendo por função difundir e consolidar
uma cultura comum de base européia, silenciando vozes
e diferenças. A eliminação física do "outro" ou sua
escravização, que também não deixa de ser uma forma
violenta de negação de alteridades, ocorreram historicamente
e estão presentes no plano das representações e no
imaginário social de nossas sociedades. Também estiveram
presentes nestas sociedades as perspectivas alternativas,
baseadas no reconhecimento da nossa pluralidade cultural
e na valorização das diferenças, tanto no âmbito político-social,
quanto educacional. Nesse contexto de conflitos, lutas
e resistências, a preocupação por uma educação que
respeitasse e valorizasse as diferenças culturais
emergiu de modo muito original na América Latina.
Aqui a educação escolar indígena foi matriz fundamental
para se pensar o interculturalismo mas, na perspectiva
que defendemos, as contribuições do movimento negro
e da educação popular impuseram dinâmicas específicas
e fundamentais para o atual debate em nossas sociedades.
POVOS INDÍGENAS E O CAMINHO INTERCULTURAL
Sem pretender reduzir a imensa complexidade do tema,
mas pretendendo tornar mais claro o desenvolvimento
do interculturalismo na América Latina, propomos uma
análise inicial sobre a trajetória da educação escolar
indígena no continente. Para isso, ressaltamos quatro
grandes períodos históricos. O primeiro iria desde
o período colonial às primeiras décadas do século
XX e se caracterizaria por seu espanto etnocentrista
e sua violência mercantilista, que não deixaram espaço
para qualquer possibilidade de encontro entre as culturas
ameríndias e as européias. "Eliminar o outro" era
a tônica fundacional deste primeiro período, enquanto
que na segunda etapa, "assimilação" e "integração"
seriam as palavras-chave para se compreender a educação
voltada para as populações nativas.
A partir da segunda década do século XX, em diferentes
países do continente, foram construídas as primeiras
escolas bilíngües. Mas, falar línguas nativas,
não significava valorizar a cultura local: a educação
escolar é vista como uma etapa de transição para a
assimilação destes grupos à sociedade nacional.
Por intermédio da organização estadunidense Summer
Institute of Linguistics (SIL), foi difundido em grande
parte dos países latino-americanos, um modelo "moderno"
de alfabetização bilíngüe, onde a escola deveria ser
vista como um "motor de desenvolvimento comunitário":
valores cristãos eram explicados em língua materna,
porque "a criança consegue entender muito melhor e
transmitir para os pais os conceitos e valores da
cultura nacional"[1].
Tal proposta ganhou visibilidade e o bilingüismo de
transição foi desenvolvido como principal método educativo
voltado para populações nativas do continente até
a década de 1970, quando uma nova etapa se inicia.
Diferentes organizações voltadas para a defesa da
causa indígena começaram a emergir no cenário educativo
e setores progressistas da Igreja Católica, assim
como universidades e centros de pesquisa passaram
a adotar a defesa dos direitos humanos e das minorias
étnicas, apoiando lideranças do próprio movimento
indígena latino-americano. Foram produzidos materiais
didáticos alternativos e programas de educação bilíngües
que, apesar de ainda terem como fim uma melhor "integração"
dos grupos às sociedades nacionais, questionavam a
hierarquização cultural, promoviam relações mais igualitárias
entre os diferentes grupos sócio-culturais e reconheciam
o direito dos povos indígenas de fortalecer e manter
suas organizações originárias[2].
O final dos anos 1980 e princípios dos 1990 foi um
período importante para o fortalecimento de um movimento
indígena transnacional, período que consideramos uma
nova etapa para o desenvolvimento da educação escolar
indígena. Os próprios grupos lideram os debates e
o bilingüismo não é visto como uma estratégia de transição
ou de manutenção para uma cultura ameaçada, mas parte
de uma série de demandas. O conceito "interculturalidade"
é adotado e a educação escolar voltada para povos
originários é percebida como um caminho de mão dupla:
inter-relação entre diferentes povos, indígenas e
nãoindígenas. A escola é vista como um espaço de fronteira,
onde o contato inter-étnico deve estar presente de
forma constante.

NEGROS E O DESAFIO DA "BRANQUIDADE"
Assim como os povos originários, a situação das populações
negras no continente é bastante heterogênea. Em alguns
países a população negra foi praticamente eliminada,
em outros constitui a grande maioria da população,
mas em qualquer contexto essas populações fazem parte
de uma realidade fortemente marcada pela escravidão.
Eliminados, considerados "não humanos", silenciados
e discriminados[3], estes grupos têm se caracterizado
por suas lutas contra o racismo e suas diferentes
manifestações. Igualmente importante é sua contestação
à apologia da mestiçagem, que configurou um ideário
de democracia racial sobre as relações sociais
e raciais mantidas entre os diferentes grupos presentes
nas sociedades latino-americanas. Esta leitura tende
a eliminar o conflito e perpetuar estereótipos: se
os diferentes grupos étnico-raciais desde o início
do processo colonizador foram se integrando "cordialmente",
às diferentes posições hierárquicas que ocupam na
sociedade, esta realidade seria resultado da capacidade
e empenho dos indivíduos, não do sistema social ao
qual fazem parte.
Além da denúncia e da desconstrução de que constituímos
sociedades "cordiais", os movimentos negros organizados
têm desenvolvido leituras alternativas do processo
histórico vivido e do papel dos negros na formação
dos países latino-americanos. Propostas como estas,
também desenvolvidas pelas populações indígenas, questionam
o discurso e as práticas eurocêntricas, homogeneizadoras
e monoculturais dos processos sociais e educativos
e colocam no cenário público questões referidas à
nossa formação histórica. Desvelam o processo da construção
histórica da "branquidade", assim como o racismo e
as práticas discriminatórias que perpassam o cotidiano
das nossas sociedades e instituições educativas e
promovem o reconhecimento e valorização das diferenças
culturais, componentes fundamentais para a promoção
de uma educação intercultural.
PAULO FREIRE E A EDUCAÇÃO POPULAR
Outra contribuição importante para o caráter particular
do desenvolvimento da educação intercultural no continente
diz respeito às inúmeras e plurais experiências de
educação popular realizadas, particularmente a partir
dos anos sessenta. Privilegiou os âmbitos de educação
não formal tendo, no entanto, exercido impacto nas
propostas de renovação de diversos sistemas escolares.
Sua principal contribuição na perspectiva do presente
trabalho foi a de afirmar a intrínseca articulação
entre processos educativos e os contextos sócio-culturais
em que estes se situam, colocando assim os universos
culturais dos atores implicados no centro das ações
pedagógicas.
Certamente a inspiração de Paulo Freire constitui
a marca característica deste movimento. Sua posição
não pode ser reduzida a um "método" pedagógico. Supõe
uma postura filosófica e política, uma leitura do
mundo. Na perspectiva freiriana, o reconhecimento
da legitimidade do background cultural do analfabeto
não era uma mera estratégia metodológica. Trazia no
seu bojo um modo de lidar com a diferença cultural.
Mais do que um respeito distante e asséptico por essa
diferença, mais do que a mera tolerância, enfatiza-se
e estimula-se a troca entre os sujeitos das relações
pedagógicas. Por essas características pode-se considerar
que o pensamento de Paulo Freire já adiantava aspectos
importantes do que hoje se configura como a perspectiva
multi/intercultural na educação.
UMA PROPOSTA EMERGENTE: A INTERCULTURALIDADE COMO
EIXO PRINCIPAL DE UM NOVO PROJETO POLÍTICO-PEDAGÓGICO
A educação intercultural na América Latina tem uma
trajetória própria e bastante original. Emerge das
preocupações com a educação dos grupos indígenas,
mas recebe contribuições fundamentais dos movimentos
negros e da experiência de educadores populares. Esta
perspectiva sofre uma transformação substantiva ao
longo dos anos e nas últimas décadas passa a constituir
o eixo central de determinadas propostas educativas.
Atualmente, as questões colocadas pela interculturalidade
ultrapassam as fronteiras educativas para propor novas
perspectivas jurídicas, modificações no campo da saúde,
das políticas de desenvolvimento e a gestão institucional.
A interculturalidade passa a ser uma referência fundamental
para a formulação de políticas públicas e novas concepções,
tanto dos Estados quanto das sociedades civis de diferentes
países.
O que está em questão hoje quando aprofundamos
o debate sobre a interculturalidade na América Latina
é a própria possibilidade de construção de estados
pluriétnicos, plurilinguísticos e, inclusive plurinacionais.
Trata-se de uma problemática complexa e controvertida.
Certamente a educação ocupa um lugar fundamental nesta
construção. (NA)
[1] Kindall e Jones, citado em Collet, 2001:77
[2] Para conhecer algumas dessas experiências alternativas,
ver: López e Küper, 1999.
[3] Essa discriminação também é percebida entre demais
grupos historicamente excluídos, como demonstram Walsh
e García (2002) ao analisarem como os afro-equatorianos
são vistos como "os últimos outros", ou seja, percebidos
como mais fracos e fragmentados, analisados em um contexto
de suposta "hegemonia indígena".
COLLET, Célia.(2001) Quero progresso sendo índio: o
princípio da interculturalidade na educação escolar
indígena. Dissertação de Mestrado. Museu Nacional: RJ.
LÓPEZ, Luis Enrique; KüPER, Wolfgang (1999) "La educación
intercultural bilingüe en América Latina: balance y
perspectivas". Em: Revista Iberoamericana de Educación
- OEI, Número 20, Maio - Agosto.
WALSH, Catherine y GARCíA, Juan (2002) "El pensar del
emergente movimiento afroecuatoriano. Reflexiones (des)de
un proceso" Em: Daniel Mato, coord: Estudios y otras
prácticas intelectuales latinoamericanas en cultura
y poder. Caracas: Consejo Latinoamericano de Ciencias
Sociales y Universidad central de Venezuela.
A
universidade como casa de sabedoria
Marcelo Andrade
Professor da PUC Rio - Brasil
As
universidades são uma invenção humana. Segundo algum
consenso entre os historiadores, elas teriam iniciado
na Europa durante o século XII com objetivo de oferecer
estudos superiores para uma pequena elite letrada. A
universidade é, assim, uma invenção tipicamente ocidental
e com um corte de classe definido. No entanto, não se
pode desprezar que já na Grécia Antiga havia experiências
de centros de estudos superiores e que o mundo islâmico
já tinha instituições semelhantes desde o século IX.
O fato é que, ao longo da história, as universidades
se consolidaram em todo o mundo como núcleos de excelência
de saber, como locais de estudos avançados e como centros
de pesquisa nas mais variadas áreas do conhecimento
humano.
Na América Latina, a universidade decorre também do
processo de colonização. Não será preciso muito esforço
para se perceber que a universidade entre nós foi e
tem sido uma agência de difusão da cultura européia
de origem greco-romana, sutilmente chamada de "cultura
universal", ou seja, uma cultura particular entendida
como válida para todos em todos os tempos. A universidade
na América Latina - sob a égide da racionalidade, da
verdade e da imparcialidade científicas - tem sido um
importante mecanismo de padronização da cultura e do
conhecimento, bem como de silenciamento das culturas
dos povos originários.
As culturas de origem não européia sempre tiveram pouco
ou nenhum espaço em nossas universidades. Os saberes,
as linguagens e os conhecimentos de grupos indígenas,
negros, ciganos, populares ou não dominantes nunca foram
plenamente reconhecidos pela universidade como saberes
válidos. Pouco ou nada foram estudados, considerados
e registrados. Só muito recentemente vem se tentando
algum tipo de diálogo intercultural entre os saberes
científico-acadêmicos e os ditos saberes populares e/ou
culturais de grupos historicamente marginalizados.
Neste contexto, vêm surgindo algumas experiências de
universidades marcadas pela identidade desses grupos
e com o compromisso direto com estas culturas. Este
é o caso da Universidad Intercultural de Las Naciones
y Pueblos Indígenas surgida nos meados dos anos noventa
na cidade de Quito, Equador. A universidade é identificada
como Amawtay Wasi, que na língua quéchua significa Casa
de Sabedoria.
Amawtay Wasi é uma proposta de educação superior que
surgiu e se consolidou dentro do movimento indígena
equatoriano. Não se trata de uma proposta nova, mas
sim de um resultado recente de um longo processo de
luta, debates e sistematização de uma maneira de entender
o conhecimento, os processos de ensino-aprendizagem
e as demandas históricas e atuais de educação para o
movimento indígena latino-americano.
Aqueles/as que estão acostumados/as ou mesmo formatados/as
pela lógica das universidades tradicionais - ou ocidentalizadas
- poderão estranhar a maneira como Amawtay Wasi está
organizada. Seus princípios, seus centros de saberes,
sua estruturação interna, sua lógica de funcionamento
pouco ou nada tem a ver com a nossa maneira hierarquizada
e fragmentada de entender o tempo, o conhecimento e
os processos de ensino-aprendizagem.
No entanto, Amawtay Wasi precisa funcionar e ser reconhecida
como instituição de ensino superior a partir de uma
lógica já estabelecida em nossas sociedades. Neste sentido,
o esforço de diálogo intercultural parece ser o grande
desafio desta nova instituição, ou seja, reconhecer-se
e funcionar na lógica e na cultura dos povos ameríndios
originários e conquistar o status de universidade, de
instituição de ensino superior, de pesquisa e de extensão
social dos saberes aí produzidos.
Fica aqui o convite para conhecer melhor esta Casa de
Sabedoria. Vale uma visita ao site: www.amawtaywasi.
edu.ec
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