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Diferentes
abordagens e reflexões sobre o tema Educação têm ocupado
os espaços da Revista Novamerica, sempre com o objetivo
de oferecer subsídios para a construção de novos caminhos
que possam ser trilhados pelos diferentes povos latino-americanos.
Nessa edição, o tema das reformas educativas está
em destaque e, especialmente na sessão Abrindo Caminhos,
você vai encontrar relatos de diferentes eventos e
experiências, cujos objetivos, dinâmicas e respostas
vêm contribuindo, seja para abrir novos caminhos,
seja para consolidá-los, sempre na perspectiva da
conquista, via educação, de um mundo melhor. São reflexões
sobre o Fórum Mundial de Educação e o Congresso Nacional
de Educação Básica, eventos realizados no primeiro
semestre de 2008 no Brasil, bem como sobre o Movimento
Fé e Alegria de Educação Popular e Promoção Social,
em marcha no Peru, e o anteprojeto da Lei de Educação
do Uruguai que nos convidam a entrar nessas discussões.
Diferentes abordajes y debates sobre Educación han
ocupado los espacios de la Revista Nuevamerica, y
siempre con el objetivo de ofrecer subsidios para
la construcción de nuevos caminos que puedan ser trazados
por los diferentes pueblos latinoamericanos. En esta
edición, se destaca el tema de las reformas educativas,
especialmente en la sesión Construyendo Caminos. En
esta sesión el lector encontrará relatos sobre diferentes
eventos y experiencias, cuyos objetivos, dinámicas
y respuestas han estado contribuyendo, tanto para
abrir nuevos caminos, como para consolidarlos, y siempre
dentro de la perspectiva de conquistar un mundo mejor
por medio de la educación. Son reflexiones sobre el
Foro Mundial de Educación y sobre el Congreso Nacional
de Educación Básica, llevados a cabo en el primer
semestre de 2008, en Brasil, y también sobre el Movimiento
Fe y Alegría de Educación Popular y Promoción Social,
en marcha en Perú, y sobre el anteproyecto de la Ley
de Educación de Uruguay. Todas reflexiones que nos
invitan a participar de estas discusiones.
Fórum
Mundial de Educação: educação cidadã em cidades
educadoras
Cinthia Monteiro de Araújo
Equipe Novamerica e doutoranda em Educação na PUC-Rio
Rio de Janeiro - Brasil
cinthiaraujo@hotmail.com

La primera edición del Forum Mundial de Educación, que
hoy tiene ya siete años de existencia, ocurrió en 2001
en Porto Alegre, Brasil, teniendo como una de sus principales
marcas la defensa de una educación integral e intersectorial.
Entendido como un espacio auto organizado de construcción
democrática de alternativas educacionales para los que
creen que “otro mundo es posible”, se ha constituido
en un importante locus de formación colectiva y de intercambio
de experiencias entre educadores/as de diferentes orígenes.
La edición de 2008, realizada por segunda vez en la
ciudad de Nova Iguaçu, Baixada Fluminense (RJ), giró
alrededor del tema de la Educación Ciudadana para una
Ciudad Educadora.
Pela segunda vez a cidade de Nova Iguaçu, localizada
na Baixada Fluminense, foi escolhida para sediar o Fórum
Mundial de Educação (FME). A primeira edição do FME
na Baixada, realizada em 2006, objetivou superar a marca
da violência que é freqüentemente vinculada à região.
E nesse sentido, a escolha de Nova Iguaçu nesta época
foi feita em função de uma chacina ocorrida em março
de 2005 que vitimou 29 pessoas. Para o prefeito Lindberg
Farias, apesar de a cidade viver atualmente um novo
momento, a realização do fórum também serve para reforçar
a auto-estima dos moradores de Nova Iguaçu e da Baixada
Fluminense.
O FME é concebido no mesmo espírito do Fórum Social
Mundial (FSM), tendo como principal característica o
pluralismo. Entendido como um espaço autoorganizado
de construção democrática de alternativas educacionais,
o único critério limitador à participação no evento
é a exigência de fidelidade ao princípio de oposição
ao domínio do mundo pelo capital. "Dele não participam
os que não sonham como um outro mundo possível", afirma
Moacir Gadotti, membro do Conselho Internacional do
FME.
"O Fórum Mundial de Educação, na mesma perspectiva
do Fórum Social Mundial, busca, de forma pluralista,
construir alternativas ao projeto neoliberal. Nesse
processo, não podemos prescindir da contribuição de
todas as tendências e vertentes progressistas do campo
educacional, praticando intensamente o diálogo/conflito,
a escuta atenta e a denúncia/anúncio, bases de uma nova
cultura política de entendimento radicalmente democrático."
Apesar da estreita relação com o FSM, o Fórum Mundial
de Educação conquistou seu próprio espaço ao longo de
seus sete anos de existência - a primeira edição foi
em 2001 em Porto Alegre -, tendo com umas das suas principais
marcas a defesa de uma educação integral e intersetorial.
A idéia de integralidade está apoiada na certeza de
que a educação deve desenvolver todas as potencialidades
humanas. Já o princípio de intersetorialidade aposta
na necessidade de articulação, no nível das políticas
públicas, de vários setores do Estado (secretarias,
departamentos, ministérios), num processo que busca
integrar saberes e experiências de ação e planejamento
na direção de uma educação integral.
O EVENTO 2008 EM MOVIMENTO
A edição de 2008 de FME, realizada entre os dias 27
a 30 de março e organizada por um comitê internacional
que engloba diversas entidades, contou com a participação
das prefeituras de 12 municípios da Baixada Fluminense
- além de Nova Iguaçu - e, mais uma vez, trouxe para
a discussão o tema da Educação Cidadã para uma Cidade
Educadora. A programação privilegiou os seguintes eixos
temáticos:
1. Educação, cultura e diversidade;
2. Ética e cidadania em tempos de exclusão;
3. Estado e Sociedade na construção de políticas públicas.
O evento teve início com uma marcha que contou com a
participação de cerca de 5 mil pessoas, dentre autoridades
locais, educadores/as, estudantes, representantes de
movimentos da sociedade civil. Também estavam presentes
na marcha 20 índios das tribos Tucano, no Amazonas,
Pataxó e Han Han Hãen, no Sul da Bahia, Guarani, no
Espírito Santo, e Funiô, em Pernambuco. Na programação
estavam previstas duas grandes conferências.
A primeira, que teve lugar no dia 27 de março, apresentou
o tema Educação, Cidadania e Políticas públicas na construção
da cidade educadora, cuja mesa foi formada por especialistas
do Chile, Portugal, Brasil e Alemanha. A segunda, realizada
em 29 de março, teve como título A infância e a juventude
na perspectiva da educação cidadã, e foi composta por
educadores/as da Espanha, Escócia, Colômbia e Argentina.
Além disso, o FME apresentou 198 atividades autogestionadas,
como relatos de experiências, oficinas pedagógicas,
apresentação de projetos sociais, apresentação de pesquisas
acadêmicas, dentre outras, propostas por diferentes
entidades. O programa também contemplava diferentes
atividades culturais e a modalidade de exposição de
pôsteres. Esse último formato de apresentação de atividades
contou com 504 trabalhos inscritos, dentre os quais
observou-se especial concentração no tema da diversidade
cultural (196 trabalhos inscritos no tema do eixo 1;
50 trabalhos para o eixo 2; e 60 trabalhos para o eixo
3).

Outros temas fortemente presentes no fórum foram violência
e juventude, onde se destacaram as discussões sobre
a influência dos grandes meios de comunicação no reforço
do preconceito que liga cultura juvenil à violência,
especialmente entre as camadas populares. Nesse sentido,
a mesa de discussão intitulada Pistola e lápis na mão:
experiências de educação e violência, que contou com
expressiva presença de educadores/as, dedicou-se a debater
estratégias para oferecer novas metodologias educacionais
em lugares em que as situações de violência assumem
centralidade nas representações sociais.
A idéia força que defende a integralidade e a intersetorialidade
da educação inspirou a realização de uma atividade que
apresentou experiências de cidades que já estão aplicando
estes princípios em políticas públicas. A mesa Caminhos
para a Educação Integral contou com apresentou experiências
de cidades que já estão aplicando este recurso e com
a participação de Moacir Gadotti, que também atua no
Instituto Paulo Freire. "A integralidade não pode ser
vista como um projeto especial. Tem que ser uma política
pública", disse ele, acrescentando que no Brasil é difícil
os projetos se manterem, como foi o caso dos Cieps de
Darcy Ribeiro. Baseado nas experiências apresentadas
por cidades como Nova Iguaçu, Belo Horizonte, Osasco,
Recife e Sorocaba, Gadotti defendeu a educação integral
como uma das principais alternativas para a melhoria
do ensino no país e apontou três eixos para a integralidade
dar certo: conhecimento simbólico, aprender a conviver
e conhecimento técnico. Segundo ele, o país sofre hoje
com a falta de profissionais que reúnam estas qualidades.
CONSTRUINDO CIDADES EDUCADORAS
Este tema - a integralidade e a intersetorialidade
na educação - está diretamente articulado ao eixo organizador
do fórum, ou seja, a proposta de constituição de cidades
educadoras. Para Gadotti, "educação para ser cidadã
precisa de uma cidade verdadeiramente educadora e educada".
O conceito de Cidade Educadora foi originado em 1990
em Barcelona, num congresso que propôs princípios básicos
para estabelecer seu perfil educativo e seus objetivos.
Essa idéia parte da defesa da educação como direito
fundamental de todas as pessoas e da utilização do espaço
urbano como instrumento de ensino, tendo como uns de
seus componentes o acesso de todos os moradores aos
meios de formação e desenvolvimento pessoal, a educação
para a diversidade e para a saúde.
No total, cerca de 340 cidades de 35 países fazem parte
da rede organizada pela Associação Internacional das
Cidades Educadoras (Aice). No Brasil, participam: Belo
Horizonte, Campo Novo do Parecis, Caxias do Sul, Cuiabá,
Dourados, Gravataí, Jequié, Piracicaba, Porto Alegre,
Santo André, São Carlos, São Paulo, Sorocaba. As cidades
brasileiras filiadas à rede têm desenvolvido projetos
que buscam a ampliação do fazer educativo para além
das questões curriculares, visando a integração ao contexto
local, a garantia à expressão e inclusão de diferentes
grupos, a melhoria das condições estruturais das escolas
e dos espaços públicos. São muitos os projetos desenvolvidos
que parecem proporcionar vivências coletivas e participação
ativa de diversos atores, condições essenciais à construção
de uma cidade educadora.

Nesta linha, a cidade de Nova Iguaçu vem desenvolvendo
uma proposta educacional batizada de Bairro Escola,
que procura repensar os currículos revendo a organização
do tempo e do espaço escolar na perspectiva da integralidade
e da intersetorialidade. O programa já se tornou referência
no MEC e modelo para três cidades brasileiras - Belo
Horizonte, Campinas e Sorocaba. Tem sido elogiado por
diversas entidades ligadas à educação, incluindo o Unicef,
e recebeu quatro prêmios em 2007, entre eles o de Tecnologia
Social, da Fundação Banco do Brasil, pela iniciativa
de integrar alunos, professores, funcionários, comunidade
e também uma rede de parceiros nos bairros onde funciona.
Através do Bairro Escola, clubes, associações de moradores,
igrejas, empresários, donas-de-casa ou qualquer outra
instituição ou indivíduo podem se tornar parceiros da
prefeitura cedendo espaços para as atividades extracurriculares
dos alunos realizadas no horário em que não estão na
escola. Atualmente o programa, que foi implementado
há dois anos, está em 35% da rede municipal, e a prefeitura
tem a expectativa de estender o horário integral a todos
os alunos das 102 unidades educacionais de Nova Iguaçu.
No entanto, apesar de tantas vozes favoráveis, há críticas
ao projeto Bairro Escola e ao próprio fórum. Setores
da sociedade civil organizada da Baixada Fluminense
acusam o programa de uma pretensa idéia de escola de
tempo integral, já que a maior parte das atividades
realizadas fora da escola não estão articuladas com
as atividades intra-escolares. Além disso, também apontam
a não identificação de melhorias na proficiência dos
alunos/as que participam das ações do Bairro Escola.
Quanto ao FME, estes mesmos setores apontam para a existência
de uma construção artificial, já que a marca desse evento
seria a exclusão dos/as professores/ as das escolas
das redes públicas dos municípios da Baixada Fluminense
como verdadeiros sujeitos dos processos por desencadeados
pelo Fórum. Dessa forma, o FME estaria sendo capitaneado
por especialistas e pesquisadores vindo de outras regiões
com a função de discutir projetos educacionais para
a Baixada, que por essa razão, estariam tão vazios de
sentido para os educadores locais.
Certamente que estas críticas nos fazem pensar sobre
a validade das políticas públicas e dos processos sociais
que não consideram, ou consideram muito pouco, a participação
de educadores/as e estudantes como atores capazes de
identificar suas reais necessidades e seus verdadeiros
anseios. Porém, me parece arriscado, diante disso, desvalorizar
a iniciativa do Fórum Mundial de Educação, especialmente
de sua realização num município da Baixada Fluminense.
Se a presença de professores/ as das redes públicas
da região foi discreta na apresentação das atividades
autogestionadas, isso pode ser justificado, em parte,
pelas exigências que esse tipo de atividade traz, como,
por exemplo, a responsabilidade por todo o custo envolvido
na sua realização. Por outro lado, não se pode dizer
o mesmo no que se refere à participação na apresentação
de pôsteres - atividade essa que supera significativamente
a realização das atividades autogestionadas no número
de inscrições. Nessa modalidade foi possível verificar
considerável presença de professores/as das redes públicas
da Baixada, bem como estudantes universitários que,
provavelmente, estejam se preparando para integrá-las
no futuro. Além disso, qualquer pessoa que circulasse
pelos corredores dos espaços onde se realizavam as atividades
poderia notar entre o público participante a importante
presença desse mesmo grupo.

De forma geral, me parece correto afirmar que o Fórum
Mundial de Educação tem se configurado como um importante
espaço de formação coletiva e de troca de experiências
entre educadores/as de diferentes origens. Ainda que
pareça desigual o acesso aos espaços de divulgação e
manifestação dentro do fórum, não tenho receio em identificar
aí uma correlação de forças inerente a qualquer espaço
político e arrisco-me em defender a necessidade constante
de luta pela ocupação desses espaços no lugar da simples
negação deles. (NA)
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