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L
a Revista de la Pátria Grande


IDÉIAS EM REDE / IDEAS EN RED

Os desafios da profissão de professor/a, a necessidade de ir além da mera elaboração de planos para fazer acontecer efetivamente ações de formação dos/as professores/as, a polêmica em torno das concepções e procedimentos utilizados para a avaliação da aprendizagem e a Lei Nacional de Educação na Argentina são os temas abordados de modo bastante crítico nessa edição de Idéias em Rede. São artigos que, expressando reflexões, às vezes emocionadas, mas sempre muito bem fundamentadas, das professoras e pesquisadoras brasileiras Vera Maria Candau e Maria Teresa Esteban e das professoras e pesquisadoras Dinorah García Romero da República Dominicana e Susana Montaldo da Argentina, nos oferecem subsídios para aprofundar nossos estudos e nos “empurram” para o debate. Em outras palavras, são contribuições que podem fazer avançar nossas buscas no sentido da construção de uma verdadeira educação de qualidade para todos e todas.


Los desafíos de la profesión del/de la profesor/a; la necesidad de ir más allá de la mera elaboración de programas para que, de hecho, ocurran acciones para la formación de profesores/as; la polémica en torno a las concepciones y procedimientos utilizados para la evaluación del aprendizaje; la Ley de Educación Nacional Argentina, son los temas abordados, con bastante criticidad, en esta edición de Ideas en Red. Los artículos expresan reflexiones, a veces emotivas, pero siempre bien fundamentadas, de las profesoras e investigadoras brasileñas Vera Maria Candau y Maria Teresa Esteban, y de las profesoras e investigadoras Dinorah García Ronmero, de República Dominicana y Susana Montaldo, de Argentina. Las autoras nos ofrecen subsidios que nos ayudan a ahondar en nuestros estudios y nos llevan al debate. En otras palabras, dan contribuciones que pueden ayudarnos a avanzar en nuestras búsquedas por la construcción de una verdadera educación de calidad para todos y todas.



Professor/a: profissão de risco?
Vera Maria Candau
Professora e pesquisadora do Departamento de Educação da Puc-Rio
vmfc@edu.puc-rio.br
Rio de Janeiro, Brasil



foto: João Ripper
Por mucho tiempo la docencia fue vista y vivida como una profesión importante por su papel intelectual, ético y social. Pero actualmente ser profesor/a se ha transformado en una actividad de riesgo que desafía nuestra resistencia, salud y equilibrio emocional, capacidad de enfrentar conflictos y construir experiencias pedagógicas significativas cotidianamente. ¿Qué enseñar? ¿Como favorecer aprendizajes significativos? ¿Quiénes son nuestros alumnos? ¿Qué estrategias didácticas privilegiar en la clase? ¿Qué escuela para qué ciudadanía? Responder estos interrogantes constituye un reto para la profesión docente del presente.



O magistério foi considerado durante muito tempo como uma pro- fissão muito valorizada socialmente, de prestígio e reconhecimento pelo seu potencial humanizador e seu compromisso com a formação para a cidadania. Em geral, esta valorização não era acompanhada de condições de trabalho muito favoráveis. O salário dos professores e professoras era módico e os estímulos para o desenvolvimento profissional escassos. No entanto, isto não impedia que o magistério fosse visto e vivido como uma profissão que valia a pena por sua importância intelectual, ética e social.

Esta não é a situação que vemos hoje. Junto às condições de trabalho precárias que a grande maioria dos/as professores/as vive, é possível detectar um crescente mal-estar entre os profissionais da educação. Insegurança, stress, angústia parecem cada vez mais acompanhar o dia a dia dos docentes. Além disso, sua autoridade intelectual e preparação profissional é frequentemente questionada e as múltiplas manifestações de indisciplina e violência no cotidiano escolar se intensificam, assim como as pressões sociais se fazem cada vez mais fortes e as escolas, públicas e privadas, não conseguem responder adequadamente às novas demandas. Por outro lado, o impacto das tecnologias da informação e da comunicação sobre os processos de ensino-aprendizagem obrigam os/as educadores/as a buscar novas estratégias pedagógicas e os sujeitos da educação, crianças e adolescentes, apresentam configurações identitárias e subjetividades fluidas que escapam à compreensão dos professores e professoras. Diante deste quadro muitos/as evadem da profissão e procuram caminhos mais tranqüilos, gratificantes e seguros de exercício profissional.

Ser professor/a hoje se vem transformando em uma atividade de risco que desafia nossa resistência, saúde e equilíbrio emocional, capacidade de enfrentar conflitos e construir experiências pedagógicas significativas cada dia.

foto: João Ripper

ENTRE SABERES E CULTURAS: O QUE ENSINAR?

Esta pergunta, aparentemente simples, é na atualidade extremamente desafiadora para nós, professores e professoras. A identidade docente tem estado fortemente ancorada, especialmente a partir do segundo segmento do ensino fundamental, no domínio de um conhecimento específico do qual o/a professor/a é considerado/a especialista. A posse deste chamado "conteúdo" não é colocada em questão. Este saber, oriundo do campo científico de referência, dá ao docente segurança e convicção de que possui um patrimônio, que lhe é próprio, que lhe corresponde socializar. Este conhecimento foi adquirido ao longo de vários anos de formação universitária e pertence aos "iniciados" em cada área específica do conhecimento considerado científico. Por outro lado, existem bons livros didáticos que "pedagogizam" estes "conteúdos" aos diferentes níveis de ensino. Confiantes no nosso saber, formação e nos materiais de apoio selecionados nos é possível, esta é nossa crença, desenvolver com tranqüilidade e competência nossa atividade docente diária.

Esta era/é a visão dominante mas a reflexão pedagógica em geral e, mais especificamente, a teoria curricular, nos últimos anos vem questionando fortemente esta concepção do conhecimento escolar. Este passa a ser concebido como uma construção específica do contexto educacional, em que o cruzamento entre diferentes saberes, cotidianos e/ou sociais e científicos, referenciados a universos culturais plurais, se dá no cotidiano escolar em processos de diálogo e confronto, permeados por relações de poder. O conhecimento escolar não é concebido como um "dado" inquestionável e "neutro", a partir do qual nós, professores/as configuramos nosso ensino. Trata-se de uma construção permeada por relações sociais e culturais, processos complexos de "transposição"/ "recontextualização" didática e dinâmicas que têm de ser ressignificadas continuamente.

O que ensinar? Como favorecer aprendizagens significativas? Estas perguntas, mais ou menos óbvias e tranqüilas em outros tempos passam, hoje, a ser questões desestabilizadoras e instigantes, que admitem respostas múltiplas, segundo as concepções epistemológicas e educativas que informem nossas práticas pedagógicas cotidianas.


NOSSOS ALUNOS E ALUNAS: IDENTIDADES PLURAIS E FLUIDAS qUE NOS ESCAPAM A CADA MOMENTO?


Outra questão que informa a prática docente diz respeito à caracterização de nossos alunos e alunas. Durante muito tempo nos pautamos em nosso dia-a-dia por uma visão do que se convencionou chamar de "aluno médio", certamente uma abstração mas que constituía uma referência para a docência. De onde veio esta construção? Acredito que se possa afirmar que está baseada numa simplificação de textos de psicologia do desenvolvimento e de psicologia da educação em que são apresentadas as principais características de diferentes etapas da vida, no nosso caso das fases da infância, da pré-adolescência e da adolescência. Muitas vezes destacase elementos que favorecem uma visão homogeneizadora, que tendem a descrever de modo uniforme os/as alunos/as. Tendemos a assumir esta visão uniforme destes personagens e a adequar nosso ensino a ela.

Basta entrar em uma sala de aula do ensino fundamental com um olhar sensível às diferenças, para que se evidencia a inadequação desta perspectiva. As crianças e adolescentes "explodem" este modo de encará-los. Apresentam formas de expressar-se, comportar-se, situar-se diante de distintas situações que questionam nossas formas habituais, socialmente construídas, de lidar com elas. Diferenças de gênero, físico-sensoriais, étnicas, religiosas, de contextos sociais de referência, de orientação sexual, entre outras, se visibizam e expressam nos diversos cenários escolares.

Os educadores e educadoras nos manifestamos muitas vezes desconcertados com nossos alunos e alunas, diante desta explosão das diferenças. Tendemos, com freqüência, a encará-la negativamente, "já não se fazem alunos como antigamente".... afirmamos, explicita ou implicitamente. Os/as alunos/as - verdadeiros "alienígenas"?- estão exigindo de nós, educadores/as - ou será que somos nós os/as "alienígenas"? - , novas formas de reconhecimento de suas alteridades, de atuar, negociar, dialogar, propor e criar. Estamos desafiados a superar uma visão padronizadora, assim como um olhar impregnado por um juízo, em geral, negativo de suas manifestações e maneiras de ser. Trata-se de abrir espaços que nos permitam compreender estas novas configurações identitárias, plurais e fluidas, presentes nas nossas escolas e na nossa sociedade.

foto: João Ripper

ENTRE O "QUADRONEGRO/ VERDE/BRANCO" E AS TECNOLOGIAS DA INFORMAÇÃO E COMUNICAÇÃO: QUE DINÂMICA CONSTRUIR NA SALA DE AULA?


Outro aspecto desestabilizador da prática docente diz respeito ás estratégias didáticas privilegiadas na sala de aula. O ensino frontal tem sido a perspectiva dominante nas nossas escolas. Basta entrar em um estabelecimento de ensino que o reconhecemos pela organização espacial das salas de aula. O chamado "quadro-negro, verde ou branco" em uma das paredes, as carteiras enfileiradas diante dele indicando que todos devem olhar para aquele personagem, nós, professores/as, que, em alguns instantes, entrará para "dar" a sua aula. Certamente esta descrição é caricatural. Nos primeiros anos do ensino fundamental já está sendo superada. No entanto, na segunda etapa do ensino fundamental e no ensino médio, afirmo, sem duvidar, ainda impera na grande maioria das escolas. Certamente de modo matizado em muitas situações, com maior freqüência de exposições dialogadas, alguns trabalhos em grupos, utilização de filmes, apresentações em powerpoint e utilização de outras mídias que "modernizam" mas não rompem com o chamado ensino frontal.

É importante ressaltar que, em algumas escolas, já se está trabalhando em uma perspectiva diferente, que se pode chamar de "sala de aula ampliada"(Koff, 2008).[1] Nela os diferentes espaços escolares - corredores, pátio, biblioteca, laboratório de informática, etc - e mesmo espaços fora da escola - ruas, museus, fábricas, empresas, jardins, parques, shoppings, etc - são concebidos como "salas de aula", na medida em que favorecem processos de aprendizagem e ensino, tanto de professores/as quanto de alunos/as.

A familiaridade das crianças e adolescentes com as TIC's é cada vez maior. Os alunos e alunas manifestam intimidade com este mundo, "navegam" com autonomia e, muitas vezes, nos ensinam, pois nós professores/as - pelo menos os que possuímos mais anos de magistério -, em geral, nos metemos no mundo das TICs mais lentamente. Esta é uma realidade que vem se impondo cada vez mais. Como integrar de modo consistente as TICs nos processos de ensino-aprendizagem? Como utilizá-las na perspectiva de favorecer processos de construção de conhecimento, análise e reflexão críticas? Como operar com as múltiplas possibilidades que as TICs oferecem a partir de uma visão reflexiva e crítica de sua utilização tanto no meio escolar, como na sociedade em geral?


QUE SIGNIFICA CIDADANIA EM SOCIEDADES MARCADAS PELO INDIVIDUALISMO E A CULTURA DO CONSUMO? QUAL O PAPEL DA ESCOLA NESTA PERSPECTIVA?

Entre os objetivos das escolas, um dos considerados básicos, constitutivos da própria configuração da instituição escolar é a formação para a cidadania. Mas, o que quer dizer esta expressão hoje? Ainda tem sentido afirmá-la? Cidadania, em geral, é uma categoria referida à consciência de pertença a um estado- nação. Serviu historicamente, me atreveria a afirmar, para negar e/ou silenciar as diferenças, "Somos todos brasileiros" é uma expressão muitas vezes utilizada para não enfrentar conflitos, não reconhecer desigualdades e discriminações.

Vivemos em tempos de globalização que, para vários analistas, é um fenômeno pluri-dimensional que fragiliza os chamados estados-nação. Por outro lado, nas sociedades complexas, marcadas por políticas neoliberais e pela centralidade do consumo e do individualismo, a cidadania é muitas vezes orientada à formação de consumidores.

foto: João Ripper

Neste contexto, problematizar a questão da cidadania constitui um desafio importante para nós, educadores e educadoras. De que cidadania falamos? Que cidadania queremos ajudar a construir? Como ressignificar este conceito que está relacionado à dimensão publica, sócio-política e coletiva da vida? Como favorecer uma cidadania diferenciada, que procura articular igualdade e diferença? Muitas são hoje as experiências de voluntariado, os projetos promovidos por organizações não governamentais e outros atores da sociedade civil que apontam nesta direção e, certamente nós, educadores/as, também estamos chamados a participar desta construção de redes de solidariedade e compromisso social.

Profissão de risco... Certamente ser professor/a hoje supõe assumir um processo de desnaturalização da profissão docente, do "ofício de professor/a", e ressignificar saberes, práticas, atitudes e compromissos cotidianos orientados à promoção de uma educação de qualidade social e culturalmente plural para todos/as. Mas, não é isto que permite humanizarmo-nos e humanizar, aprofundar nos dilemas do nosso tempo, dilatar horizontes, desafiar, criar? E, não são estas as "marcas" da profissão docente? (NA)


[1] Koff, Adélia Maria Nehme Simão e. Escolas, Conhecimentos e Culturas: projetos de investigação como estratégia teórico-metodológica de reorganização curricular. Tese de doutoramento, Departamento de Educação da PUC-Rio, 2008.

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