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PROVINHA
BRASIL: reeditando
a velha confusão entre avaliação e exame
Maria Teresa Esteban
Doutora em Educação, Professora da Faculdade de Educação
da Universidade Federal Fluminense e Pesquisadora
do GRUPALFA (Grupo de Pesquisa Alfabetização dos alunos
e alunas das classes populares)
mtesteban@uol.com.br
Rio de janeiro - Brasil

Las
variadas acciones implementadas para mejorar la calidad
de la escuela en Brasil no impidieron que el fracaso
escolar se mantenga vigente. Una nueva acción incorporada
recientemente es la Provinha Brasil, que pretende
verificar el aprendizaje durante el ciclo de alfabetización,
direccionándose a niños de ocho años. Se establece,
de esta forma, una relación linear entre examen (instrumento
de coerción, certificación y exclusión) y aprendizaje,
la que a su vez reduce desempeño y evaluación a un
sistema de control. La centralidad de la evaluación
puesta en un proceso de regulación externa a la dinámica
pedagógica, colabora con la reducción de las posibilidades
de reflexión sobre el trabajo de la escuela y de formulación
de propuestas de acción propias y de modos colectivos
y democráticos de regulación de un trabajo favorable
al proceso de enseñanza aprendizaje.
O
fracasso escolar, em suas diversas formas de expressão,
mantém seu vigor a despeito das muitas ações propostas
com o objetivo de melhorar a qualidade da escola.
Neste contexto, se institui a Provinha Brasil, para
verificar a aprendizagem durante o ciclo de alfabetização.
Direciona-se, portanto, a crianças de oito anos.
O que dizer dessa "nova" proposta de avaliação, apresentada
pelo governo, que não venha sendo dito há muitos anos?
Em trabalhos do início dos anos 90, Díaz Barriga faz
uma excelente análise do processo de redução da avaliação
ao exame, nos quais mostra com detalhes o movimento
de articulação dos processos escolares em função do
credenciamento e do controle, que sustenta o que ele
denomina "pedagogia do exame". Esta pedagogia se apóia
na suposta cientificidade do exame, garantia da veracidade
de seus resultados, permitindo uma classificação que
justifica a exclusão entrelaçada a todo o processo.
A possibilidade de exclusão, implícita em todo o processo,
é entendida como elemento necessário à produção da
qualidade da escola. Nada mais distante do que se
observa nos resultados da escola e menos desejável
para a construção de uma escola pública democrática.
A relação linear entre exame - instrumento de coerção,
certificação e exclusão - e aprendizagem reduz aprendizagem
a desempenho e avaliação a controle. Essa relação
não traz nada de novo, pois, apesar de amplamente
criticada tem primazia nas práticas escolares e nas
políticas públicas, embora não venha conseguindo oferecer
contribuições significativas para a ampliação da face
democrática da escola.
Os resultados da avaliação externa (INEP; 2004: 33)
têm mostrado o que há muito se sabe no cotidiano escolar:
ao menos a metade das crianças não está aprendendo
satisfatoriamente e, dentre as que têm desempenhos
aceitáveis, poucas são as que expressam capacidade
de leitura e escrita compatível com o tempo de escolarização.
A Provinha Brasil, assim como o SAEB no momento de
seu lançamento, apóia-se na compreensão do exame como
instrumento de promoção da qualidade. Porém, após
mais de uma década de realização do SAEB, com sucessivas
mudanças em sua metodologia visando a seu aperfeiçoamento,
seus resultados indicam a manutenção dos altos e históricos
índices de fracasso escolar. A inconsistência entre
a proposição do sistema e os resultados alcançados
não se mostra suficiente para abalar a credibilidade
na capacidade do exame para produzir qualidade, pelo
contrário, diante de resultados insatisfatórios no
4º ano de escolarização, aferidos pelo SAEB, propõe-se
o alargamento do sistema de exames por se acreditar
que a mais exame corresponde maior qualidade no sistema
educacional.

PROVINHA BRASIL: REFORÇANDO A CONCEPÇÃO DE UMA
AVALIAÇÃO CLASSIFICATÓRIA
A relação entre a aplicação de uma "provinha" e a
garantia da alfabetização das crianças no máximo aos
oito anos de idade expõe desconhecimento das discussões
e práticas relacionadas à aprendizagem infantil e
ao processo de alfabetização. Essa proposta expressa
a permanência de uma perspectiva redutora da infância,
aliada a uma concepção mecanicista de alfabetização
que fortalece sua dimensão técnica e ofusca as vertentes
histórica e sócio- cultural que a constituem.
Uma vez assumido o exame como meio para acompanhar
os processos de desenvolvimento e aprendizagem infantis,
reforçando uma concepção de avaliação classificatória,
fortemente enraizada nas práticas cotidianas, dificilmente
serão estabelecidos procedimentos outros que são mais
efetivos no acompanhamento que sem dúvida se faz necessário
em todos os momentos da escolarização. Portanto, a
consolidação do exame afasta as possibilidades de
acompanhamento, compreensão e intervenção no processo
de aprendizagem.
A idéia de uma "provinha", assim no diminutivo,
pode parecer um modo de aproximar o exame do contexto
infantil. Neste sentido, reforça o estereótipo da
criança como um sujeito de "segunda classe", incapaz,
alguém que se prepara para ser, mas ainda não é.
Há também uma infantilização do(a) professor(a), responsável
pela aplicação da prova, não por sua elaboração. Aqui
se evidencia uma clara desqualificação da ação docente,
de sua capacidade de formulação de sua prática cotidiana.
A "Provinha Brasil" promove a ampliação do sistema
de controle sobre a escola, sobre a ação docente e
sobre a aprendizagem infantil. A ênfase na regulação,
que atravessa o exame, pouco pode contribuir para
uma profunda reflexão sobre a dinâmica pedagógica,
sobre os percursos realizados, sobre as aprendizagens
alcançadas e sobre os conhecimentos necessários e
os modos de obtê-los, como vêm demonstrando os resultados
dos outros níveis de escolarização que já integram
o sistema nacional de avaliação. A centralidade no
exame, mesmo que disfarçado de provinha e aplicado
pelo(a) professor(a) regente da turma, direciona a
ação pedagógica para a obtenção dos resultados pré-fixados,
o que reduz, na escola, a possibilidade de percepção,
compreensão e fortalecimento dos múltiplos processos
de aprendizagem e de ensino ali realizados, bem como
dos diferentes conhecimentos que dão vida à sala de
aula como espaço de permanente aprendizagem.
A centralidade da avaliação é posta em um processo
de regulação externa da dinâmica pedagógica, colaborando
intensamente para a redução das possibilidades da
escola de reflexão sobre seu trabalho, formulação
de suas propostas de ação e estabelecimentos de modos
coletivos e democráticos de regulação do trabalho
com a finalidade de produzir práticas favoráveis ao
processo aprendizagem-ensino.
O exame, configurado a partir de padrões que estimulam
a uniformização dos processos e dos resultados, tem
uma atuação importante no sentido de moldar as práticas,
reduzindo as possibilidades de estímulo à diferença,
característica da sala de aula. Assim, legitima as
desigualdades decorrentes das diferenças, naturaliza
a subalternidade e fomenta, nos sujeitos, o desejo
de normalização. O exame, apoiado na formulação que
apresenta a neutralidade como uma de suas mais fortes
características, se realiza através de instrumentos
e procedimentos construídos para distanciar o sujeito
que realiza a avaliação - o avaliador que neste caso
será o próprio professore regente - e objeto do conhecimento
- o aluno. Simultaneamente afasta o aluno, sujeito
que aprende, do conhecimento, que deveria ser o objeto
da aprendizagem. Esse processo fragmenta as relações,
isola os sujeitos uns dos outros e distancia cada
um de seu próprio processo, esvaziado pela ênfase
no resultado. Tal dinâmica dificulta a produção de
práticas dialógicas realmente favoráveis a um permanente
processo de ampliação de conhecimentos por todos.
Assim, amplia a possibilidade de produzir uma narrativa
socialmente válida sobre o outro, tornado objeto da
relação, justificando a desqualificação da alteridade.
A Provinha Brasil (a exemplo do SAEB, do ENEM e do
SINAES) não pode imprimir melhor qualidade ao processo
de alfabetização realizado nas escolas públicas brasileiras.
No entanto, pode oferecer minuciosos elementos para
a construção de um discurso que, mais uma vez, justifica
o fracasso escolar sem conseguir ser parte de um processo
de real democratização da escola, em que êxito e desempenho
não se confundem. (NA)
Bhabha, H. (1998). O local da Cultura. Belo Horizonte:
UFMG.
Díaz Barriga, A. (s/d). Una polémica en relación al
examen. IN Diaz Barriga, A. Currículo y evaluación escolar.
Buenos Aires: Aique.
Esteban, M.T. (2006). Sala de Aula - dos lugares fixos
aos entre-lugares fluidos. Revista Portuguesa de Educação.
19(2). 7-20.
INEP/MEC (2004) O desafio de uma educação de qualidade
para todos: educação no Brasil - 1990- 2000. Brasília.
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