Revista

L
a Revista de la Pátria Grande


IDÉIAS EM REDE / IDEAS EN RED

Violência, tolerância e diferença
Marcelo Andrade
marcelo-andrade@puc-rio.br
Professor do Departamento de Educação da PUC-Rio.
Membro da Equipe Novamerica
Rio de Janeiro, Brasil



foto de João Ripper
La tolerancia se relaciona con la capacidad humana de aceptar lo diferente, aunque no se lo comprenda totalmente; se vincula a la virtud de admitir que no siempre se tiene la razón, que los actos correctos y justos y las propias opciones no son siempre las más válidas. La observación del contexto nacional e internacional lleva a afirmar que hay mucho que entender de los fenómenos violentos e intolerantes de la actualidad. En sociedades multiculturales y marcadas por prejuicios y discriminaciones de varios tipos, la tolerancia hacia lo diferente constituye una agenda mínima, urgente y extremamente necesaria.


Não é fácil defender o conceito de tolerância. Em geral, ele é associado a uma atitude antipática de não aceitação verdadeira e espontânea do outro. O ato de tolerar é interpretado como suportar algo ou alguém que, verdadeiramente, rejeito ou não gosto. É importante deixar claro que não estou considerando aqui tolerância nesta perspectiva, ou seja, como indulgência, falsa aceitação ou consentimento forçado.

Tolerância, a meu juízo, tem relação com a capacidade humana de aceitar o diferente, ainda que não o compreenda totalmente; tem a ver com a virtude de admitir que a verdade não está necessariamente do nosso lado, que não somos sempre os corretos ou que as nossas opções não são sempre as mais válidas.


POR QUE DEFENDER A TOLERÂNCIA?

A essa questão respondo: porque a intolerância violenta e assassina tornou-se uma prática comum diante da diferença. Segundo AUGRAS (1997:78), "quando se fala de tolerância é, na verdade, da intolerância que se trata".

Em sociedades multiculturais e marcadas pelo preconceito e pela discriminação de vários tipos - racismo, sexismo, xenofobia, homofobia etc. - a tolerância com o diferente apresenta-se como uma agenda mínima, urgente e extremamente necessária. O conceito de tolerância se coloca cada vez mais na pauta de discussão porque a intolerância violenta e assassina contra a diferença tem sido recorrente na história da humanidade e ainda hoje em nossas sociedades. Inegavelmente estamos caracterizados pela diferença e, no entanto, parece que não sabemos tratá-la.

A humanidade - marcada dolorosamente pela escravidão dos negros, pelas guerras religiosas, pelo genocídio dos povos ameríndios, pelo holocausto dos judeus, pela perseguição aos ciganos, pela aversão à homossexualidade, pela submissão das mulheres - deveria não mais permitir nenhuma manifestação de intolerância contra o diferente, pois "a intolerância não é apenas questão de não tolerar as opiniões divergentes; ela é agressiva e com freqüência assassina, no seu ódio à diversidade alheia" (MENEZES 1997:46).

A intolerância é, invariavelmente, violenta e assassina. E é isso que devemos ter em mente quando defendemos a tolerância. Não se trata de aceitação forçada, mas de deixar viver aqueles/as que são diferentes do grupo dominante. Ninguém pode ser violentado ou eliminado fisicamente por causa da cor da pele, do gênero, da língua que fala, da etnia que pertence, das opiniões políticas que sustenta, da maneira como se relaciona com a divindade ou da maneira como orienta sua sexualidade.

foto de João Ripper

TOLERÂNCIA E VIOLÊNCIA: PERSPECTIVAS HISTÓRICAS

MENEZES (1997:41) afirma que o termo tolerância aparece pela primeira vez entre os iluministas do século XVI. O nascimento do conceito se deu no rescaldo das lutas religiosas, dos massacres recíprocos de protestantes e católicos. Os livrespensadores, adeptos à Ilustração, viam-se discriminados e perseguidos por todos os fanatismos. E foram eles que mobilizaram a opinião pública contra os horrores da intolerância, proclamando o sagrado direito de discordar, de pensar diferente e de ser diferente.

O conceito de tolerância surge, então, como resposta contra a intolerância à diferença (seja étnica, religiosa, de gênero, de pensamento etc.). Para além de um jogo de palavras, a bandeira da tolerância é uma luta para negar a possibilidade de se negar a diferença. Sendo assim, é fundamental que ao tratarmos de tolerância, pensemos na natureza, nas causas e nas conseqüências da intolerância.

MENEZES (1997:45) afirma que "a intolerância não rejeita só as opiniões alheias, mas também sua existência, ou ao menos o que faz o que valha a pena viver: a dignidade e a liberdade da pessoa". A intolerância diante do diferente tem imposto, ao longo da história, uma quantidade de maus-tratos e massacres impiedosos a grupos que sustentam um estigma, um suposto sinal vergonhoso e socialmente rejeitado.

Cumpre destacar também o que MENEZES (1997:47) apresenta como ódio cego pela diferença, a ponto do intolerante "não ver no discriminado um ser humano concreto, mas algo abstrato, ou seja, o 'estigma', ou a diferença hipostasiada. Assim, é comum referir-se a ele unicamente por sua diferença: um negro, um índio, um velho, uma mulher". A diferença substancializada incomoda o intolerante ante qualquer nível de argumentação racional a favor da dignidade humana ou de nossa fraternidade enquanto espécie comum.


INTOLERÂNCIA: ÓDIO E VIOLÊNCIA CONTRA A DIFERENÇA

Seria o ódio ao diferente algo racionável e passível de argumentação? Seria possível apelar para algum sentimento de irmandade ou de amor fraterno para evitá-lo? Para ECO (2001:114), em geral, a intolerância é algo selvagem, sem nenhuma razão explícita ou doutrina que a sustente:

"A intolerância coloca-se antes de qualquer doutrina. Nesse sentido, a intolerância tem raízes ideológicas, manifesta-se entre os animais como territorialidade, baseia-se em relações emotivas muitas vezes superficiais - não suportamos os que são diferentes de nós porque têm a pele de cor diferente, porque falam uma língua que não compreendemos, porque comem rãs, cães, macacos, porcos, alho, ou porque se fazem tatuar."


Segundo Umberto Eco, os estudiosos ocupam-se com freqüência das doutrinas da diferença, mas não o suficiente da intolerância selvagem, pois esta foge de qualquer possibilidade de discussão e de crítica, pois não está colocada num nível racional, mas no nível visceral. A intolerância é, em geral, raivosa, descontrolada, inexplicável e impulsiva. "A intolerância mais perigosa é exatamente aquela que surge na ausência de qualquer doutrina, acionada por pulsões elementares" (ECO, 2001:116).

Se a intolerância é um fenômeno que se coloca num nível de irracionalidade como argumentar contra ela? Como difundir o amor fraterno em situações nas quais a razão se ausenta e o que impera é o ódio visceral contra o outro pelo simples fato de ser outro? Contra a intolerância assassina há que se impor o princípio da tolerância diante do diferente.


TOLERÂNCIA: ENTRE A URGÊNCIA E A NECESSIDADE

Entender e evitar os fenômenos intolerantes é algo urgente e necessário em nossos dias. Não é difícil perceber o quanto a intolerância contra a diferença - que se expressa claramente em forma de preconceito, discriminação e violência - tem se tornado recorrente em nossas sociedades. Assim, parece-me bastante evidente e justificável a urgência e a necessidade de se entender o conceito de tolerância como virtude e atitude moralmente exigíveis em nosso tempo, a fim de construir a paz e a convivência social.

Vejamos como, no contexto internacional e nacional, o preconceito e a discriminação se expressam violentamente contra as diferenças que nos constituem dignamente enquanto humanos.

No contexto internacional, iniciamos o século XXI marcados pelo terrorismo cruel e por guerras injustificáveis. Os atentados a Nova Iorque (2001), as guerras do Afeganistão (2002) e do Iraque (2003), os ataques terroristas aos trens de Madrid (2004) e aos ônibus de Londres (2005), demonstram como o clima tenso de "choque de civilizações" está orientado pelo desconhecimento total do outro, pela não aceitação de outras possibilidades de organizar a sociedade, a política, a religião etc.

No mundo, hoje, estão em curso dezenas de conflitos armados que direta ou indiretamente envolvem a intolerância contra a diversidade cultural. E para ficar nos exemplos mais recentes de nossos noticiários indico os conflitos envolvendo Israel e Palestina, como também os que envolvem a Rússia e a Geórgia.

Esta dimensão da conjuntura mundial - guerra, terrorismo, confronto de culturas, intolerância contra o diferente, medo generalizado - convida a uma reflexão sobre se um novo mundo é possível. Seria o sonho de um mundo irmanado, sem violências e em paz algo impossível de ser realizado? A fraternidade entre os seres humanos é apenas uma ilusão? Ora, o confronto, o conflito, a disputa, a guerra entre nações e grupos - e mesmo dentro de uma mesma nação ou grupo - sempre estiveram presentes na história da humanidade. No entanto, sempre cultivamos também um ideário de paz, concórdia e solidariedade entre os povos.

foto de João Ripper

O contexto brasileiro também não tem sido muito alentador no que se relaciona ao respeito à diferença. Exemplos de intolerância e violência pontuam o nosso cotidiano. Poderia lembrar acontecimentos da agenda jornalística dos últimos anos, tais como: o adestrador de cães assassinado a golpes de socos e pontapés por dezenove jovens em São Paulo porque passeava de mãos dadas com seu namorado numa praça pública; o dentista negro que foi "confundido" com um assaltante e assassinado a tiros pela polícia antes mesmo da possibilidade de responder a qualquer pergunta; a jovem que teve que ser retirada de um campus universitário com escolta policial, pois estudantes queriam linchá-la porque haviam descoberto que ela praticara sexo com dois rapazes ao mesmo tempo etc.

Estes exemplos nos fazem reconhecer o quão dolorosas têm sido, na sociedade brasileira, as temáticas do racismo contra o negro, da perseguição aos homossexuais, da violência contra as mulheres, do genocídio dos povos indígenas e da discriminação contra os nordestinos em cidades como Rio e São Paulo. O que dizer dos alarmantes índices de violência doméstica que indicam que a cada 15 segundos uma mulher é espancada no Brasil? Como explicar que a maior situação de risco de vida no Brasil hoje é a condição de ser homem negro entre 18 e 25 anos? Que justificativas dar aos espancamentos de homossexuais nas praias cariocas ou às situações vexatórias em shoppings paulistanos?

A simples observação do entorno social me leva a afirmar que há muito que entender sobre os fenômenos violentos e intolerantes em nossas sociedades hoje. Neste sentido, urge a busca de alternativas para a construção de uma sociedade mais comprometida com o valor da tolerância e o respeito às diferenças. Talvez esteja aí uma saída possível para um mundo mais solidário e menos violento. (NA)


AUGRAS, Monique. Tolerância: os paradoxos, in: TEIXEIRA, F. (org.) O diálogo inter-religioso como afirmação da vida, SP: Paulinas, 1997, p. 77-91.
ECO, Umberto. Cinco escritos morais, Rio de Janeiro: Record, 2001.
MENEZES, Paulo. Tolerância e religiões, in: TEIXEIRA, F. (org.) O diálogo inter-religioso como afirmação da vida, SP: Paulinas, 1997, p. 39-54..



EL PRIMADO DE LA PALABRA, DEL DIÁLOGO
Fabiola Luna Pineda
Perú


La violencia está unida indefectiblemente a la devaluación de la palabra. "La violencia es, por definición, la cancelación de la palabra o, mejor dicho, de las palabras, porque la violencia siempre se afana en la eliminación de lo plural, es decir, de aquello que, por definición, es propio del lenguaje. Ella significa la clausura de toda intención de diálogo o polémica para sustituirla por la muda voluntad de quien, en cierta circunstancia, posee la fuerza".

Los seres humanos se "encuentran" en la palabra y por la palabra; la intolerancia, que es una forma de violencia, es el estado que está fuera de la palabra porque impide la apertura hacia el otro. La intolerancia, desgraciadamente, le pone fin a la tarea de seguir el camino de la comprensión, tarea propiamente humana.

El empobrecimiento del lenguaje no puede sino llevar a "jaquear" la comunicación y los espacios de reconocimiento. La violencia cotidiana, la mudez de los espacios privados, se encuentran ante la necesidad de instaurar palabras sanadoras o creativas que sean corrientes de vida y vehículos de paz.

Al constatar la situación en que se encuentran el real ejercicio de los derechos humanos y su violación sistemática, vemos que no es fácil situarse ante la cuestión de la "paz". Pero no podemos obtener la paz excluyendo el conflicto. Esto sería idealizarla, hacerla no humana. Una de las cuestiones primordiales para alcanzar la cultura de paz es ejercer la creatividad para resolver los conflictos; la historia humana es, en gran manera, la historia del modo como se han resuelto los conflictos. Estas posibilidades que tienen los hombres y las mujeres, de transformar las realidades, están cimentadas en el diálogo: el dinamismo más importante para trabajar por una cultura de paz.

El "léxico de la degradación", o la "retórica del desprecio" son propios del racismo, de la discriminación, del desprecio por los más pobres, por aquellos que por su procedencia étnica o de género son considerados inferiores. Este léxico o esta retórica son los que preceden al asesinato, a la violación, a la tortura o a la golpiza. Esos "otros", a quienes se les ha negado las oportunidades y la vida misma, son inexistentes o prescindibles por obra y gracia de las palabras por las que vivimos y morimos.

¿Qué pasa con la voz de las víctimas de la violencia, que no las escuchamos? ¿O qué insensibilidad nos recorre que no oímos a los que sufren? Sin duda, esto es consecuencia de la banalización de la violencia y de que su presencia se transformara en "normal" y cotidiana. Es necesario discernir y señalar cuál es el disfraz que usa la mentira-violencia para esconder su "anormalidad" y la insoportable pesadez de su presencia. Es necesario cambiar un corazón de piedra por un corazón de carne.

La Palabra que se hizo "carne" unió lo que estaba separado por la violencia, a costa de su muerte; y a los que llamó les dio el poder de restaurar las palabras para que den, nuevamente, vida y salud, diciéndoles: ¡ánimo, yo soy la Verdad y he vencido!



Centro Amazónico de Antropología y Aplicación Practica
fabiolamoon@hotmail.com


NOVAMERICA
Rua Dezenove de Fevereiro, 160 - Botafogo
22280-030 -
Rio de Janeiro - RJ
Brasil
Tel. (fax): (55) (21) 2542-6244

e-mail: novamerica@novamerica.org.br
CENTRO NOVAMERICA DE EDUCAÇÃO POPULAR
Praça Santos Dumont, 14 - Centro
25880-000 -
Sapucaia - RJ
Brasil
Tel. (fax): (55) (24) 2271-2004
e-mail: centronovamerica@uol.com.br
2003/2010 Novamerica - www.novamerica.org.br - Todos os direitos resevados.