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La Revista de la Pátria
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PARA
REFLEXÃO/ PARA LA REFLEXION
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O
impensável aconteceu
Lo
impensable sucedió
Boaventura de Sousa Santos
Sociólogo e professor catedrático da Faculdade de
Economia da Universidade de Coimbra
Portugal
http://www.cartamaior.com.br/templates/
colunaMostrar.cfm?coluna_id=3981&boletim_id=459&componente_id=8202
O Estado deixou de ser o problema para voltar a
ser a solução; cada país tem o direito de fazer
prevalecer o que entende ser o interesse nacional
contra os ditames da globalização; o mercado não
é, por si, racional e eficiente, apenas sabe racionalizar
a sua irracionalidade e ineficiência enquanto estas
não atingirem o nível de auto-destruição.
A palavra não aparece na mídia norteamericana,
mas é disso que se trata: nacionalização. Perante
as falências ocorridas, anunciadas ou iminentes
de importantes bancos de investimento, das duas
maiores sociedades hipotecárias do país e da maior
seguradora do mundo, o governo dos EUA decidiu assumir
o controle direto de uma parte importante do sistema
financeiro. A medida não é inédita pois o Governo
interveio em outros momentos de crise profunda:
em 1792 (no mandato do primeiro presidente do país),
em 1907 (neste caso, o papel central na resolução
da crise coube ao grande banco de então, J.P. Morgan,
hoje, Morgan Stanley, também em risco), em 1929
(a grande depressão que durou até à Segunda Guerra
Mundial: em 1933, 1000 norteamericanos por dia perdiam
as suas casas a favor dos bancos) e 1985 (a crise
das sociedades de poupança).
O que é novo na intervenção em curso é a sua magnitude
e o fato de ela ocorrer ao fim de trinta anos de
evangelização neoliberal conduzida com mão de ferro
a nível global pelos EUA e pelas instituições financeiras
por eles controladas, FMI e o Banco Mundial: mercados
livres e, porque livres, eficientes; privatizações;
desregulamentação; Estado fora da economia porque
inerentemente corrupto e ineficiente; eliminação
de restrições à acumulação de riqueza e à correspondente
produção de miséria social.
Foi com estas receitas que se "resolveram" as crises
financeiras da América Latina e da Ásia e que se
impuseram ajustamentos estruturais em dezenas de
países. Foi também com elas que milhões de pessoas
foram lançadas no desemprego, perderam as suas terras
ou os seus direitos laborais, tiveram de emigrar.
À luz disto, o impensável aconteceu: o Estado deixou
de ser o problema para voltar a ser a solução; cada
país tem o direito de fazer prevalecer o que entende
ser o interesse nacional contra os ditames da globalização;
o mercado não é, por si, racional e eficiente, apenas
sabe racionalizar a sua irracionalidade e ineficiência
enquanto estas não atingirem o nível de autodestruição;
o capital tem sempre o Estado à sua disposição e,
consoante os ciclos, ora por via da regulação ora
por via da desregulação. Esta não é a crise final
do capitalismo e, mesmo se fosse, talvez a esquerda
não soubesse o que fazer dela, tão generalizada
foi a sua conversão ao evangelho neoliberal.
Muito continuará como dantes: o espírito individualista,
egoísta e anti-social que anima o capitalismo; o
fato de que a fatura das crises é sempre paga por
quem nada contribuiu para elas, a esmagadora maioria
dos cidadãos, já que é com seu dinheiro que o Estado
intervém e muitos perdem o emprego, a casa e a pensão.
Mas muito mais mudará. Primeiro, o declínio dos
EUA como potência mundial atinge um novo patamar.
Este país acaba de ser vítima das armas de destruição
financeira massiça com que agrediu tantos países
nas últimas décadas e a decisão "soberana" de se
defender foi afinal induzida pela pressão dos seus
credores estrangeiros (sobretudo chineses) que ameaçaram
com uma fuga que seria devastadora para o actual
american way of life.
Segundo, o FMI e o Banco Mundial deixaram de ter
qualquer autoridade para impor as suas receitas,
pois sempre usaram como bitola uma economia que
se revela agora fantasma. A hipocrisia dos critérios
duplos (uns válidos para os países do Norte global
e outros válidos para os países do Sul global) está
exposta com uma crueza chocante. Daqui em diante,
a primazia do interesse nacional pode ditar, não
só proteção e regulação específicas, como também
taxas de juro subsidiadas para apoiar indústrias
em perigo (como as que o Congresso dos EUA acaba
de aprovar para o setor automóvel).
Não estamos perante uma desglobalização, mas estamos
certamente perante uma nova globalização pós-neoliberal
internamente muito mais diversificada. Emergem novos
regionalismos, já hoje presentes na África e na
Ásia mas sobretudo importantes na América Latina,
como o agora consolidado com a criação da União
das Nações Sul-Americanas e do Banco do Sul. Por
sua vez, a União Européia, o regionalismo mais avançado,
terá que mudar o curso neoliberal da atual Comissão
sob pena de ter o mesmo destino dos EUA.
Terceiro, as políticas de privatização da segurança
social ficam desacreditadas: é eticamente monstruoso
que seja possível acumular lucros fabulosos com
o dinheiro de milhões trabalhadores humildes e abandonar
estes à sua sorte quando a especulação dá errado.
Quarto, o Estado que regressa como solução é o mesmo
Estado que foi moral e institucionalmente destruído
pelo neoliberalismo, o qual tudo fez para que sua
profecia se cumprisse: transformar o Estado num
antro de corrupção.
Isto significa que se o Estado não for profundamente
reformado e democratizado em breve será, agora sim,
um problema sem solução. Quinto, as mudanças na
globalização hegemônica vão provocar mudanças na
globalização dos movimentos sociais que vão certamente
se refletir no Fórum Social Mundial: a nova centralidade
das lutas nacionais e regionais; as relações com
Estados e partidos progressistas e as lutas pela
refundação democrática do Estado; contradições entre
classes nacionais e transnacionais e as políticas
de alianças.
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El Estado dejó de ser el problema para volver a ser
la solución; cada país tiene el derecho de hacer prevalecer
aquello que entiende que es el interés nacional, en
contra de los dictámenes de la globalización; el mercado
no es, de por sí, racional y eficiente, solamente
sabe raciocinar su irracionalidad e ineficiencia cuando
estas no alcanzan el nivel de autodestrucción.
La palabra no aparece
en los medios de comunicación norteamericanos, pero
es de eso de que se trata: nacionalización. Frente
a las falencias ocurridas, anunciadas o inminentes,
de importantes bancos de inversión, de las dos mayores
sociedades hipotecarias del país y de la mayor aseguradora
del mundo, el gobierno de los Estados Unidos decidió
asumir el control directo de una parte importante
del sistema financiero.
La medida no es inédita, ya que el Gobierno intervino
en otros momentos de crisis profunda: en 1792 (durante
el mandato del primer presidente del país), en 1907
(en este caso, el papel central para resolver la crisis
le incumbió al gran banco de la época, J. P Morgan,
hoy Morgan Stanley, también en peligro), en 1929 (durante
la gran depresión que duró hasta la Segunda Guerra
Mundial), en 1933 (época en que, por día, 1000 norteamericanos
perdían sus casas de la mano de los bancos) y en 1985
(la crisis de las sociedades de ahorro y préstamo).
Lo que es nuevo en la presente intervención es su
magnitud y el hecho de que la misma ocurra al término
de treinta años de evangelización neoliberal conducida
con mano de hierro a nivel global por los Estados
Unidos y por las instituciones financieras que el
país controla, el FMI y el Banco Mundial: mercados
libres y, precisamente por ser libres, eficientes;
privatizaciones, desregulamentación; Estado fuera
de la economía por ser inherentemente corrupto e ineficiente;
eliminación de restricciones a la acumulación de riquezas
y a la consecuente producción de miseria social.
Fue con estas recetas que se "resolvieron" las crisis
financieras de América Latina y de Asia y que se impusieron
ajustes estructurales en decenas de países. Fue también
con estas recetas que millones de personas quedaron
desempleadas, perdieron sus tierras o sus derechos
laborales, precisaron emigrar.
A la luz de todo esto, lo impensable sucedió: el Estado
dejó de ser el problema para volver a ser la solución;
cada país tiene el derecho de hacer prevalecer aquello
que entiende que es el interés nacional, en contra
de los dictámenes de la globalización; el mercado
no es, de por sí, racional y eficiente, solamente
sabe raciocinar su irracionalidad e ineficiencia cuando
estas no alcanzan el nivel de autodestrucción; el
capital tiene siempre al Estado a su disposición,
ya sea por la vía de la regulación, ya por la de la
desregulación (según la fase). Esta no es la última
crisis del capitalismo y, aunque lo fuera, probablemente
la izquierda no sabría qué hacer con ella, dada su
conversión generalizada al evangelio neoliberal.
Muchas cosas continuarán como antes: el espíritu individualista,
egoísta, antisocial que anima al capitalismo; el hecho
de que la factura de las crisis la paguen siempre
aquellas personas que nada tuvieron que ver con su
surgimiento, es decir, la aplastante mayoría de ciudadanos
-ya que es con su dinero que el Estado interviene
y muchos pierden el empleo, la casa y la pensión.
Pero habrá muchas más cosas que sí cambiarán: Primero,
el declive de los Estados Unidos como potencia mundial
hará que este alcance un nuevo rango. El país acaba
de ser víctima de las armas de destrucción financiera
maciza con las que agredió a tantos países en las
últimas décadas, y la decisión "soberana" de defenderse
acabó siendo inducida por la presión de sus acreedores
extranjeros (sobre todo los chinos) que amenazaron
con una fuga que sería devastadora para el actual
american way of life.
Segundo, el FMI y el Banco Mundial dejaron de tener
cualquier autoridad para imponer sus recetas, pues
siempre usaron como eje una economía que ahora se
revela fantasma. La hipocresía de los criterios dobles
(válidos unos para los países del Norte global y válidos
otros para los países del Sur global) es expuesta
con una crudeza inquietante.
De ahora en adelante, la primacía del interés nacional
puede dictar no solo una protección y una regulación
específicas, sino también tasas de interés subsidiadas
para apoyar industrias en peligro (como las que el
Congreso de los Estados Unidos acaba de aprobar para
el sector automovilístico). No estamos frente a una
desglobalización, pero de hecho nos estamos enfrentando
a una nueva globalización post-neoliberal, internamente
mucho más diversificada. Emergen nuevos regionalismos,
ya presentes en África y en Asia, pero de especial
importancia en América Latina, como el que fue consolidado
ahora con la creación de la Unión de las Naciones
Sudamericanas y del Banco del Sur. A su vez, la Unión
Europea -el regionalismo más avanzado- tendrá que
cambiar el curso neoliberal de la actual Comisión,
bajo pena de sufrir el mismo destino que los Estados
Unidos.
Tercero, las políticas de privatización sobre la seguridad
social son desacreditadas: es éticamente monstruoso
que sea posible acumular lucros fabulosos con el dinero
de millones de trabajadores humildes para luego abandonarlos
a su suerte cada vez que la especulación no produce
los resultados deseados. Cuarto, el Estado que regresa
como solución es el mismo que fue moral e institucionalmente
destruido por el neoliberalismo, y el mismo que lo
intentó todo para que se cumpliera su profecía: transformar
al Estado en un antro de corrupción.
Esto significa que si el Estado no pasa por profundas
reformas y no se democratiza, en breve será (y está
vez, de verdad) un problema sin solución. Quinto,
los cambios en la globalización hegemónica van a provocar
cambios en la globalización de los movimientos sociales,
y esto, evidentemente, se verá reflejado en el Foro
Social Mundial: en la nueva centralidad de las luchas
nacionales y regionales; en las relaciones con Estados
y partidos progresistas y en las luchas por la refundación
democrática del Estado; en contradicciones entre clases
nacionales y trasnacionales y las políticas de alianzas.
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