Revista

L
a Revista de la Pátria Grande


IDÉIAS EM REDE / IDEAS EN RED

O cinema das periferias apresenta novos olhares sobre o real
Miguel Pereira
Professor da PUC-Rio.
Rio de Janeiro - Brasil
serpa@puc-rio.br



foto: Alexandre Firmino
A partir de iniciativas originadas en comunidades o barrios populares, un nuevo cine surgió en el contexto brasileño contemporáneo, fundamentado en diferentes modelos estéticos y modos de producción que, a pesar de la difícil participación en los mecanismos de financiamiento y apoyo, está consiguiendo espacio bajo diversas formas de exposición. Estos grupos cumplen hoy un papel de cambio importante en las relaciones de sociabilidad en el ambiente existencial de los grupos comunitarios, generando una nueva realidad que está impulsando el proceso de enseñanza de cine, producción, distribución y exhibición, con foco en la formación de platea, además de la democratización del audiovisual que las nuevas tecnologías están propiciando.


No contexto do cinema brasileiro contemporâneo, não é possível mais ignorar um fenômeno de produção que está se impondo como uma realidade mercadológica nova. Não é o cinema de classe média, nem da "burguesia". Ele vive à margem do sistema. Mas, pouco a pouco, está buscando sua fatia no mercado institucional do audiovisual brasileiro. Ancorado em iniciativas originadas em comunidades ou bairros populares, esse cinema se fundamenta em diferentes agenciamentos estéticos e modos de produção. São formas que se estruturam num campo bastante móvel, pois flutuam de acordo com recursos instáveis e de acesso reduzido. A própria origem desses grupos dificulta a participação nos mecanismos de financiamento e apoio. No entanto, esse cinema persiste e vem conseguindo espaço em diversas janelas de exposição.

Sem querer ainda caracterizar ou categorizar as diferentes iniciativas que existem no país, tento, aqui, descrever algumas no âmbito do Rio de Janeiro. A primeira da qual tive conhecimento e se tornou uma experiência sistemática foi a da Central Única das Favelas, a CUFA, criada a partir do movimento musical do Hip Hop, liderado por MV Bill. Hoje é um complexo cultural, situado na Cidade de Deus, e com ramificações em outras comunidades e outros estados brasileiros. Ela surge pela iniciativa de grupos que se reuniram a partir da motivação musical e seguiram direções as mais diversas de acordo com o interesse espontâneo de cada um. Da música para o teatro, deste para os clips e para o cinema. Neste campo, antes mesmo da produção mais constante de filmes, organizaram- se cursos, mais ou menos sistemáticos de cinema.

Nesses primórdios, a CUFA tinha um escritório em Madureira e uma espécie de sala para os cursos e exibições de filmes. Por lá passaram cineasta como João Moreira Salles, Cacá Diegues, entre outros, e professores de cinema com Ivana Bentes, Andréa França, José Carlos Avellar e muitos mais. Não poderia chamar de oficinas a essas aulas sistemáticas, dadas aos sábados, em tempo integral e obedecendo a um currículo. Tinham como foco a linguagem do cinema e a sua historia. A produção propriamente dita tomava a forma de oficinas. Toda a parte técnica foi ministrada por profissionais do cinema. Mas, a CUFA também levou realizadores, como Eduardo Coutinho, para discutir com os grupos o ofício do documentarista. Várias turmas se diplomaram nessa forma de ensino e fizeram suas produções primeiras a partir do processo do conhecimento e da cultura cinematográfica. Portanto, sem querer qualificar os resultados, a CUFA criou um modelo que tem por base o estudo do cinema em diferentes dimensões, incluindo a reflexão histórica e teórica. Hoje a CUFA é uma instituição nacional e bastante premiada no Brasil e no exterior.

foto: Marcelo Casal Jr/ABR

SEMPRE EM MOVIMENTO

No Rio de Janeiro, são muitos os grupos de cinema que se originaram em comunidades periféricas. Só para citar alguns que já têm uma certa notoriedade: Nós do Morro, Nós do Cinema, Cinemaneiro, Afro Reggae, Observatório das Favelas, Japeri, entre tantos outros. É um fenômeno em crescimento. Uns se originaram a partir do teatro, como Nós do Morro, com o trabalho magnífico de Guti Fraga, outros no próprio cinema, como o Nós do Cinema, criado para o trabalho de preparação do elenco de "Cidade de Deus", realizado por Kátia Lund. Já o AfroReggae inicia com a música e hoje, junto com outros parceiros, se dedica também a produção de filmes. Nesse conjunto, tem um pouco de tudo. Alguns já se institucionalizaram, enquanto outros estão em busca do reconhecimento e da organização. De qualquer modo, têm uma expressiva e contínua produção cinematográfica. Já se realizaram dois encontros nacionais, o "Visões Periféricas", no Rio de Janeiro.

Presente em muitos estados brasileiros, está formando novos produtores populares para o audiovisual. È impossível uma estimativa confiável do número de profissionais oriundos desses núcleos, pois ainda não foi realizada nenhuma pesquisa nesse sentido. Hoje, cumprem um papel de mudança importante nas relações de sociabilidade no ambiente existencial dos grupos comunitários.

foto: Alexandre Firmino

Diante da diversidade existente de filmes, vou me fixar em algumas produções do Núcleo Cinemaneiro, com o qual aliás, tive maior interação nos primórdios do grupo. Já produziram mais de 40 filmes de curta e média-metragem, em diversas comunidades do Rio de Janeiro. Desse conjunto, destaco dois filmes, "Sinceridade", de Wavá Novais, e "Espinha de peixe", de Manaíra Carneiro, considerando que abordam temas de interesse amplo. O primeiro trata, na chave da ironia, de situações da vida cotidiana, encenadas como representação das relações diversas por que passa o seu personagem central ao longo de um dia. Por um efeito simples, a mudança de atitude dos interlocutores dá sentido ao título. Apesar da simplicidade narrativa, o filme tem uma dose de humor bastante criativa e torna o que poderia ser um elemento de saturação, algo mais criativo. Por outro lado, ao trazer para a cena principal a hipocrisia do comportamento corriqueiro, o filme também se coloca na proposta da mudança, isto é, acredita no seu discurso de que a sinceridade é sempre melhor do que a dissimulação. Sua estrutura é de uma série de esquetes que vão se sucedendo em situações prováveis e improváveis. Portanto, está mais próximo de uma colagem de situações do que de um enredo articulado. Esta narrativa se filia aos filmes de episódios e lhe cabe bem. Embora curtos, esse fragmentos, buscam uma certa redundância da comunicação e a sua reinteração afirma o mesmo discurso, em cenários diferentes. Utiliza, assim, uma estética próxima aos quadros de humor já bastante conhecidos da televisão, embora neste caso, seja o mesmo personagem que representa todas as situações. Não quero dizer que Wavá foi buscar ali a sua inspiração. Mas, essa estrutura narrativa tem o seu desenvolvimento a partir dessa forma fragmentada que acompanha o cinema desde a sua invenção. Atrações sucessivas, como se fosse quadros colados uns aos outros. A simplicidade da narração, no entanto, busca um certo estilo que distingue este filme dos programas televisivos. São alguns efeitos de imagem, certa interpretações naturalistas dos atores, uma certa verdade que a imagem traduz para o espectador, enfim, um tom realista da representação. Mas, sem dúvida alguma, o humor é o traço preponderante das situações encenadas.

foto: Alexandre Firmino

Não se trata aqui de um real chocante. Ao contrário, está mais próximo da roda de amigos e da descontração. Pode ser classificado com um filme que utiliza as estéticas do real, sem, entretanto, pesar sobre elas. O realismo está mais na representação e forma de encenar do que propriamente nos temas apresentados. Alguns são mais improváveis que outros e por isso se aproximam da caricatura, de certa forma estereotipada. Então, é a imagem que cola no real e não o real que cola na imagem. Esse agenciamento estético não pode ser confundido com ingenuidade ou primarismo de concepção. No fundo, há tom amargo na constatação de que as relações são atravessadas pela hipocrisia e descompromisso com o outro. Desse ponto de vista, o filme do Wavá apresenta um diferencial estético em relação aos programas de televisão e mesmo ao cinema de humor que, aliás, pouco se produz no Brasil. Não se trata de uma mudança estética assim tão acentuada, mas uma reapropriação de alguns de seus códigos sob um olhar que incorpora uma observação social cujo desejo é a mudança. Essa talvez seja a contribuição espontânea maior desse cinema construído a partir de oficinas ou cursos menos exigentes do ponto de vista acadêmico. É um novo olhar que nos implica.

Já "Espinha de peixe", de Manaíra Carneiro, narra o cotidiano de uma família de classe média baixa, onde a hipocrisia também está presente. Só que desta vez, ela se esconde na figura de um pai autoritário que abusa sexualmente da filha. Realizado também no mesmo procedimento estético do filme "Sinceridade", tem como estrutura narrativa uma outra estratégia. Seu estilo está baseado nas elipses de tempo e espaço. Essa forma de conceber está intimamente ligada às próprias dificuldades de lidar com o tema e a produção das imagens. Essa estratégia, aliás, é uma das mais eficientes do cinema. Cria a expectativa e o suspense. Aqui ela é usada também como forma de não visibilizar cenas que pudessem ser chocantes ou sensacionalistas. Esta me parece uma verdadeira intenção do filme. A cena do abuso sexual é sutil e apenas insinuada. Só mais adiante da narrativa é que se confirma através de um diálogo. O que está em jogo é exatamente um tratamento que procura evidenciar um discurso moralista e condenatório desse tipo de atitude. As elipses são assim coerentes com esse procedimento que não revela na imagem, mas apenas sugere. É claro que se pode também falar de dificuldades prováveis em relação à produção e mesmo aos atores. No entanto, parece-me bem evidente essa estratégia de condenar o fato, mas reter o medo como explicação da não denúncia do personagem. Significa dizer que o filme, de certo modo, é fiel à realidade. São situações complexas e doenças morais, sociais e culturais que se escondem por anos a fio. Ainda, recentemente, esse fenômeno ocorreu na Áustria. A coragem de abordá-lo, num filme realizado dentro de comunidades mais pobres, onde relatos dessa natureza são comuns, é também uma forma de fugir ao moralismo primário, mas fazer a denúncia e levar o espectador a pensar nesse lugar de desejo asfixiado por uma consciência social hipócrita. Neste sentido, o filme de Manaíra Carneiro se alinha aos mesmos procedimentos estéticos que nos levam a um lugar diferente. O real não é dissimulado. Aparece mais forte nas elipses narrativas e mostra um olhar condenatório, sem excessos.

foto: Marcelo Casal Jr/ABR

São dois filmes que demonstram ainda uma certa errância narrativa e técnica, mas que apresentam uma postura diferente da produção que domina do mercado atual brasileiro. Penso que devemos não apenas respeitar essa produção, mas contribuir para o seu aprimoramento tanto no sentido estético como mercadológico. A CUFA, Nós do Morro, Afro Reggae e outras produtoras estão buscando parcerias fora do sistema oficial. Não podemos, portanto, ignorar essa nova realidade que está impulsionando o processo de ensino de cinema, a produção, a distribuição, em DVD principalmente, e a exibição, com foco na formação de platéia, além da democratização do audiovisual que as novas tecnologias estão propiciando. (NA)

NOVAMERICA
Rua Dezenove de Fevereiro, 160 - Botafogo
22280-030 -
Rio de Janeiro - RJ
Brasil
Tel. (fax): (55) (21) 2542-6244

e-mail: novamerica@novamerica.org.br
CENTRO NOVAMERICA DE EDUCAÇÃO POPULAR
Praça Santos Dumont, 14 - Centro
25880-000 -
Sapucaia - RJ
Brasil
Tel. (fax): (55) (24) 2271-2004
e-mail: centronovamerica@uol.com.br
2003/2010 Novamerica - www.novamerica.org.br - Todos os direitos resevados.