Revista

L
a Revista de la Pátria Grande


IDÉIAS EM REDE / IDEAS EN RED

O tempo do trabalho docente
Isabel Lelis
Brasil


Foto João Ripper
El magisterio necesita alcanzar el estatuto de una profesion plena apoyada en un cuerpo de conocimientos y habilidades comparables con otras ocupaciones. Pero no es posible establecer comparaciones con otras profesiones sin considerar algunos elementos definidores del oficio de profesor ni las particularidades de gênero, pensando principalmente en aquellas que se dedican a los primeros años de escolaridade. El trabajo de profesor se realiza en un lugar, la escuela, marcado por un tiempo y una cultura particulares, diferentes de los de los administradores. Estos tiempos y culturas precisan ser dimensionados y considerados al pensar en estrategias para mejorar la calidad de la enseñanza.


Muito se tem falado sobre o trabalho do(a) professor(a), seja pela mídia, seja pela literatura especializada. O que parece ser consenso é a necessidade do magistério se fortalecer do ponto de vista da sua identidade profissional, uma vez que esta categoria vem sendo submetida, há décadas, a um processo de descapitalização econômica e cultural, a condições de trabalho cada vez mais penosas.

Entre as muitas análises realizadas, destaca-se a necessidade do magistério alcançar o estatuto de uma profissão plena apoiada em um corpo consistente de conhecimentos e habilidades comparáveis a outras ocupações como a de médicos, engenheiros e advogados.

Como o ensino constitui uma “história sem fim”, uma atividade de natureza aberta (Hargreaves,1998), o desafio é o de pensar uma base de conhecimentos para o magistério ou padrões de exigência técnica a respeito dos quais haja um consenso, em que pese o caráter difuso do trabalho do(a) professor(a). Mas será que é possível estabelecer comparações com outras ocupações sem levar em conta alguns elementos definidores do ofício de professor(a)? E mais, será que o fato da categoria ser constituída majoritariamente por mulheres no caso das primeiras séries do ensino fundamental não confere ao trabalho uma especificidade em termos de atitudes e comportamentos? Parece que sim, pois para além dos saberes e competências que deve possuir o(a) professor(a) , o seu trabalho se realiza na instituição escolar, marcada por um tempo e por uma cultura sui generis se comparada a outras profissões.

DIMENSÕES DO TEMPO DO TRABALHO

Pensando o trabalho e a cultura dos(as) professores(as) em uma perspectiva pós-moderna, Hargreaves traz para o debate a imagem de que “o tempo não é apenas um constrangimento objetivo e opressivo: é também um horizonte, subjetivamente definido, de possibilidade e de limitação” (p.105). Para esse autor, quatro seriam as dimensões do tempo, no que se refere à aplicação ao trabalho dos professores: o tempo técnico racional, o micropolítico, o fenomenológico e o sócio-político.

Para o autor, o tempo técnico-racional é dominante nas formas de ação e interpretação administrativa e é organizado por princípios da racionalidade técnica. Trata-se de considerá-lo como uma variável objetiva, uma condição instrumental e organizacional de modo a garantir a implementação de políticas e mudanças educativas.

Mas a distribuição do tempo reflete também configurações dominantes de poder, status e prestígio no interior da escola e de sistemas de ensino. Tem um sentido político, sendo visível no âmbito do currículo e consequentemente do tempo atribuído às práticas na sala de aula desenvolvidas por cada professor(a). Esta dimensão ajuda também a compreender a hierarquia de poder e de prestígio da administração escolar, onde gestores dispõem de mais tempo fora da sala de aula do que os(as) professores(as).

Em que pese o fato do tempo possuir uma existência própria, exterior ao mundo do(a) professor(a), ele é “produto de definições e de tomadas de decisões subjetivas”(p.111). Isto significa que o tempo é um produto da ação do homem, tendo uma dimensão que varia de pessoa a pessoa. Nesta perspectiva, o sentido interior do tempo pode estar em dissonância com o tempo do relógio, sendo marcado por interesses, necessidades e projetos pessoais. É a dimensão fenomenológica do tempo que ajuda a explicar porque o tempo “voa” ou se “arrasta”, dependendo do tipo de atividade no qual estamos empenhados.

Finalmente, há ainda a dimensão sociopolítica do tempo, expressão do controle administrativo exercido sobre o(a) professor(a). Na verdade, esta dimensão é ilustrativa da divisão que separa a administração do ensino, o planejamento da execução, a concepção da implementação.

Foto João Ripper

QUADROS TEMPORAIS MONOCRÔNICOS E POLICRÔNICOS

Avançando sobre a análise do tempo como eixo estruturante do trabalho, construído e interpretado pelos(as) professores(as), Hargreaves (1998) traz para o debate dois quadros temporais, pensados pelo antropólogo Edward Hall, que atravessariam o campo das instituições sociais: o monocrônico e o policrônico.

Para Hall (1998), no âmbito de um tempo monocrônico, os agentes concentram-se em fazer uma coisa de cada vez, em uma progressão linear, através de estágios bem demarcados, existindo pouca sensibilidade para com as necessidades do momento, para com as particularidades do contexto. Neste tempo, a conclusão das tarefas, as atividades planejadas e os procedimentos predominam sobre o cultivo das relações entre as pessoas. Típico do mundo dos negócios, das profissões liberais, das burocracias, é um tempo difundido especialmente entre os homens.

Para o autor, os quadros temporais monocrônicos têm “a vantagem de assegurar que as tarefas sejam realizadas em grandes organizações nas quais a existência de muitas atividades separadas requer coordenação e integração” (p.115). O perigo é o de tornarem-se rígidas e perderem de vista os seus propósitos originais.

Já o tempo policrônico é identificado como aquele das organizações pequenas, da esfera da vida privada, da orientação para pessoas e relações, onde os agentes fazem várias coisas ao mesmo tempo, por processos de combinação, sendo típico do mundo feminino.

A ESCOLA, UM MUNDO POLICRÔNICO


Com o objetivo de pensar a cultura docente, Hargreaves vê o mundo das professoras das séries iniciais do ensino fundamental como tendo um caráter policrônico. Mundo complexo e denso, no qual as habilidades necessitam ser dirigidas para muitas coisas ao mesmo tempo. Nesse mundo, a sala de aula é caracterizada pelo imediatismo, por um tempo marcado por relações interpessoais intensas que são mantidas entre grande número de crianças, os alunos e a professora. Trata-se de um lugar menos pontuado pela campainha ou relógio do que o do ensino médio e, mesmo, o das quatro últimas séries do ensino fundamental. Nele, as atividades são desenvolvidas em função do momento, residindo menos no cumprimento de prazos e mais na conclusão com sucesso das tarefas. A cultura da sala de aula das séries iniciais – cultura essencialmente feminina – é dotada de uma sensibilidade ao imprevisto e se expressa pela prática do zelo, do cuidado exercido pela professora junto a seus alunos. Na verdade, são as professoras do ensino elementar aquelas que passam praticamente todo o tempo que lhes é atribuído na sala de aula, sendo todas as outras atividades periféricas ou complementares.

Embora o autor não se proponha a pensar o tempo do ensino médio e mesmo das quatro últimas séries do ensino fundamental, organizado em torno a uma hierarquização disciplinar, o que se verifica é que determinadas disciplinas que gozam de maior status são objeto de atribuições de tempo mais generosas em comparação com outras de status mais baixo. Esta situação sugere uma distribuição desigual de tempo de trabalho entre professores com repercussões sobre a sua identidade profissional.

Sem a pretensão de pensar o tempo de forma dual e, talvez, até esquemática, o que o antropólogo Hall nos provoca é a possibilidade de considerar a escola, enquanto locus de uma cultura interacionista, fundada em modos de solidariedade e sociabilidade, bem diversos de outras instituições sociais. Isto é, uma cultura que valorizando a realização e o cumprimento de tarefas, o faz respeitando o imprevisto, o contexto, sendo aberta à crítica e à inovação criteriosa.

Mas a perspectiva dos quadros temporais ajuda também a entender o desencontro entre o tempo dos administradores e o tempo dos(as) professores(as) Ela permite compreender como as reformas educacionais, no momento da implementação, têm gerado resistência entre professores(as) exatamente porque os gestores dos sistemas públicos têm historicamente ignorado o conteúdo e a forma do trabalho docente, que inclui saberes, experiências, subjetividades, histórias pessoais e coletivas fora do tempo da racionalidade técnica. Para os gestores, o tempo é mais objetivo, fixo e público, enquanto para os(as) professores(as), a tendência é a de um tempo com uma dimensão mais subjetiva , relativa e móvel.

A este respeito, Campbell identificou em pesquisa realizada em dez escolas, quatro tipos de tempo que eram utilizados pelos/as professores/as no âmbito de seu trabalho: “o tempo de grupo, para planejamento em colaboração com seus pares, vivido como um empenhamento moral voluntário; o tempo aos pedaços para consultas rápidas a outros(as) professores(as) durante o dia; o tempo pessoal passado fora da escola, para leituras e planejamento individual; o outro tempo de contato (ou tempo de preparação), concretizado na definição de horários para os(as) professores(as) cumprirem fora da sala de aula (apud Hargreaves, 1998).

Sua análise reforça a necessidade de se ampliar o tempo fora da sala de aula como condição e garantia de um clima de colaboração entre os professores(as) bem como estratégia de melhoria da qualidade de ensino.

Foto João Ripper

Pensar o trabalho docente a partir dos quadros temporais enseja que se construa uma história social do trabalho docente, enquanto arena feita de um conjunto de histórias que se interpenetram: história da construção do campo intelectual da educação e da profissão, história das lutas e estratégias dos professores(as) em relação ao Estado, história da construção da escola e do conhecimento que nela circula. Mas também história feita do modo como as professoras “agem, pensam, sentem, convivem ... dentro e fora do trabalho, na totalidade de seus espaços e tempos, de suas relações sociais” (Arroyo,2000,p.199). (NA)




ARROYO, M O ofício de mestre: imagens e auto-imagens. Petrópolis: Editora Vozes, 2000.

HARGREAVES, A Os professores em tempos de mudança.O trabalho e a cultura dos professores na idade pós- moderna Portugal: Editora McGraw-Hill de Portugal Ltda, 1998.



3o Fórum Mundial de Educação
Claudio Marques
Rio de Janeiro - Brasil


Criado em 2001 como um desdobramento do Fórum Social Mundial, o Fórum Mundial de Educação (FME) discute a construção de um modelo alternativo de educação, sustentando-se em dois pilares básicos: a construção de uma alternativa ao projeto neoliberal e o pluralismo de idéias, métodos e concepções. A terceira edição será realizada em Porto Alegre, de 28 a 31 de julho, com o tema A educação para um outro mundo possível: construindo uma plataforma de lutas.

As duas primeiras edições do FME tiveram como temas Educação no mundo globalizado e Educação e Transformação. Foram aprovadas duas Cartas em defesa da educação libertadora, popular e cidadã. Além disso, foi proposta a construção coletiva de uma Plataforma Mundial de Educação e a descentralização dos eventos em fóruns temáticos, regionais e nacionais. Hoje, o Fórum constitui-se num grande movimento mundial em defesa do direito à educação.

Comitês Nacionais e Fóruns temáticos regionais, como os da Colômbia, México, Paraguai e Argentina, estão se organizando desde o início de 2003. Encontros preparatórios, como os de Los Angeles, Toronto, Upsalla, Barcelona, Brescia, Belo Horizonte e Mumbai, foram realizados ou estão em andamento. Em São Paulo, realizou-se um Fórum Mundial da Educação Temático, de 1º a 4 de abril, com o tema: Educação cidadã para uma cidade educadora.

Mais de oito mil pessoas de 24 países já estão inscritas no 3º Fórum Mundial de Educação, entre eles educadores da República Democrática do Congo, Benin, Gana, Honduras, Mali, Bangladesh e Camarões. Também haverá participantes da Europa (França, Espanha, Portugal, Reino Unido, Bélgica e Germânia), da América do Sul (Argentina, Colômbia, Uruguai, Chile, Peru, Paraguai), América do Norte (Canadá, Estados Unidos, México) e América Central (Cuba). A expectativa é reunir 20 mil pessoas.

Foram definidos valores acessíveis para os professores das redes municipais e estaduais, bem como estudantes e educadores populares. Todos os participantes podem inscrever pôsteres em uma das duas modalidades: relato de experiência e pesquisa. A inscrição pode ser feita na página www.forummundialdeeducacao.com.br, que também disponibiliza a programação e outras informações sobre o evento.


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