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RELATÓRIO
ANUAL ONU 2004:
Diversidade cultural permite convivência para se desenvolver
Fragmentos do texto de
Maurício Hashizume
15/07/2004
Brasília
- Em tempos marcados pelo unilateralismo e pelo refluxo
de conquistas históricas no campo das relações internacionais,
a Organização das Nações Unidas (ONU) deu um grande
passo com a conclusão do Relatório Anual de Desenvolvimento
Humano 2004. Pela primeira vez, a ONU tratou a diversidade
cultural como uma questão de primeira grandeza, comparável
à educação, à saúde, à economia e até aos sistemas
democráticos das nações que a compõem.
"O desenvolvimento humano é o processo de alargamento
das escolhas à disposição das pessoas, para elas fazerem
e serem o que valorizam na vida. Os Relatórios de
Desenvolvimentos anteriores concentram-se na expansão
das oportunidades sociais, políticas e econômicas
para aumentar as escolhas. Exploraram os modos como
as políticas de crescimento equitativo, expansão de
oportunidades sociais e aprofundamento da democracia
podem melhorar essas opções para todos", afirma o
Relatório. Nenhuma delas, porém, garante a liberdade
cultural, definida no documento como "concessão às
pessoas de escolherem as suas identidades - e de viverem
a vida que valorizam - sem serem excluídas de outras
opções importantes para elas (como as de educação,
saúde e oportunidades de emprego)".
Organização das Nações
Unidas inova ao tratar da liberdade cultural como
uma questão de primeira grandeza - comparável
à educação, à saúde,
à economia e até ao fortalecimento da
democracia.

O Relatório ataca diretamente cinco mitos concernentes
à liberdade cultural:
1) não há uma necessidade inevitável de escolher
entre unidade de Estado e reconhecimento de diferenças
culturais;
2) há poucas provas empíricas de que as diferenças
culturais e os choques de valores sejam em si causa
de conflito violento;
3) a liberdade cultural é dinâmica, não significa
uma submissão cega à tradição e acompanha o progresso
da democracia e dos Direitos Humanos;
4) não há provas de uma relação clara entre a diversidade
cultural e o desenvolvimento;
5) o determinismo cultural (a idéia de que a cultura
de um grupo explica o desempenho econômico e o progresso
das instituições democráticas do mesmo) não tem sustentação
histórica.
Essa investida da ONU na vereda cultural vem enriquecer
e renovar o modelo fracassado de políticas de desenvolvimento
ditadas pelo organismo internacional na última década.
Desde 1990, um número recorde de países viu seu padrão
de vida simplesmente regredir. Ao longo dos anos 90,
o Índice de Desenvolvimento Humano (IDH), principal
indicador do Relatório, recuou em 20 países (13 deles
da África sub-saariana). O IDH é composto por três
tipos de variáveis: expectativa de vida (saúde), taxa
de alfabetização e número de matrículas (educação)
e Produto Interno Bruto (PIB) juntamente com o poder
de compra em dólares norte-americanos (renda).
O cidadão médio de 46 países (20 deles da África sub-saariana)
é mais pobre hoje do que há uma década. Mais pessoas
estão com mais fome que no começo dos anos 90 em nada
menos que 25 países. Na região da África sub-saariana
- com 45 países, em um território que vai do Senegal,
ao Norte, até a África do Sul -, o quadro para a erradicação
da fome, redução de pobreza e acesso aos serviços
de saneamento básico simplesmente não pode ser projetado
porque a situação vem piorando sistematicamente em
vez de melhorar.
Presente no Relatório, levantamento realizado pelo
Centro de Desenvolvimento Internacional da Universidade
de Maryland, nos EUA, identificou que uma em cada
sete pessoas no mundo é vítima de discriminação e
desvantagem por questões culturais. São 900 milhões
"excluídos culturais".
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