|
O
que é ser família hoje?
Lucia
Helena Saavedra
Rio de janeiro - Brasil

Pensando
cómo era unos 50 ó 60 años atrás, parece que hoy la
familia típica se encuentra en extinción. Sin embargo,
no se terminó; la familia continúa existiendo, y debe
ser entendida como un concepto polisémico. Rico espacio
de aprendizaje, el primero de la vida del niño/niña,
en ella se comienzan a recibir las primeras informaciones
sobre el mundo, a realizar las experiencias iniciales,
a aprender a expresar emociones, estableciendo los
primeros vínculos afectivos que servirán de modelo
para las futuras relaciones que se construirán a lo
largo de la vida. Apesar de los innúmeros desafíos
que enfrenta la familia actual –los medios de comunicación,
la tecnología, la sociedad de consumo– debe constituirse
en un espacio pleno de afecto, armonía y respeto.
Há algum tempo atrás, num passado não muito
remoto, o vocábulo família suscitava representações
e imagens pouco discrepantes, as quais incluíam quase
sempre as figuras de filhos circundados por uma mãe
e um pai, todos coabitando sob um mesmo teto. A esse
espaço físico, recheado desse conjunto de pessoas,
dava-se o nome de lar. Algumas vezes, ainda
se juntavam a esse núcleo primário outros adultos,
como avós ou tios, que integravam a família mais extensa.
Pode-se dizer que assim era uma família típica de
uns 50 ou 60 anos atrás.
Falando-se desse modo, no tempo pretérito, pode parecer
que a família caiu em desuso ou que se encontra em
extinção. Mas, não. A família não acabou. Continua
a existir, embora hoje ela possa ser definida como
um conceito polissêmico, por abranger variações significativas.
Assim, atualmente encontram-se núcleos familiares
com as mais diferentes configurações, sendo aquela
de que já se falou apenas uma delas. Uma outra pode
ser constituída de uma mãe, que cria sozinha seus
filhos, ou mais raramente, de um pai que assume, igualmente
só, essa função. Pode ainda referir-se a um casal
recasado, vindo de experiências matrimoniais anteriores,
das quais trazem seus respectivos filhos, unidos agora
neste novo núcleo. Outras vezes até as crianças vivem
a experiência de "ter duas famílias", como é explicado
a elas, passando períodos alternados entre a casa
da mãe e do pai. É por isso que hoje ao substantivo
família vão-se adicionando adjetivos, antes desnecessários,
para caracterizar a que tipo de realidade se está
referindo. Daí, família tradicional, família monoparental
e assim por diante.
Mas, então, se existem tantas variantes daquilo que
antes se considerava simplesmente uma família,
qual seria o elemento comum capaz de garantir a realidades
tão distintas uma mesma definição?

As teorias sistêmicas, de modo geral, afirmam que
o que inaugura a família é a chegada do primeiro filho.
Antes disso, o que se tem é apenas o casal, ou a relação
de duas pessoas. Etimologicamente falando, criança
é o ser humano que está sendo criado, que está em
fase de criação. Então, é possível dizer que, quando
um ou mais adultos assumem a criação de uma criança
- com licença da redundância proposital - seja ela
sua filha biológica ou não, aí existe uma família.
Mas, gerar filhos não é apenas colocá-los no mundo.
O ato de gerar se inicia com a fecundação e se completa
a cada novo dia, na medida em que é possível ir tornando
esses filhos cada vez mais humanos, ou seja, cada
vez mais capazes de pensar, de sentir, de se relacionar
e de se perceberem assim, caminhando numa direção
que os distingue de outros seres vivos, não humanos
e irracionais. Parece razoável dizer que isso complementa
a fertilidade.
Para que se cumpra essa missão, ontem, hoje e sempre,
cabe à família desempenhar funções fundamentais, entre
as quais:
acolher os filhos, oferecendo-lhes condições
para que seu desenvolvimento - físico, intelectual,
emocional e moral - ocorra da melhor maneira possível;
transmitir-lhes segurança e tranqüilidade;
ajudá-los a construírem sua própria identidade e a
serem capazes de se relacionarem com outras pessoas,
a partir da convivência com os membros da própria
família;
transmitir-lhes os valores essenciais à sua vida e
os princípios inerentes ao convívio com seus semelhantes,
o que permitirá sua adaptação social.
E tudo isso, que antes parecia ser algo banal, simplesmente
inerente à vida, tornou-se muito complexo, justamente
pelo caráter plural do mundo de hoje. Cada família,
regida por suas próprias regras, por uma dinâmica
que a caracteriza e identifica, está em constante
confronto com outras realidades, cujos valores e modos
de expressão podem diferir bastante dos seus. Aquilo,
que é considerado certo para um grupo familiar, pode
não ser para outro

De certa maneira, essa interação pode ser algo muito
enriquecedor, por oferecer a possibilidade de conhecimento
de diferentes realidades; mas é, ao mesmo tempo, muito
ameaçador. Então, um dos grandes desafios da família
hoje é ser capaz de estabelecer suas próprias leis,
vivenciá-las e transmiti-las de modo tão verdadeiro,
seguro e coerente, que seja possível aos seus membros
manterem-se fiéis a esses valores, mesmo em confronto
com toda essa pluralidade do mundo exterior. E, que
ao mesmo tempo, a família não se feche em si mesma,
mas ao contrário, possa estar aberta ao relacionamento
com outras famílias, fazendo com elas um intercâmbio
de idéias e experiências.
Agora, mais do que nunca, torna-se essencial o diálogo
entre os diversos personagens dessa trama familiar,
pois quanto mais diversas e adversas são as condições
do mundo "lá de fora", tanto maior é a exigência de
se manter a comunicação entre os membros da família.
Para isso, os pais, como fundadores do núcleo familiar,
devem estar muito seguros de seus valores, dos princípios
que julgam serem essenciais à vida, para poderem transmiti-los
aos filhos, sabendo que serão alvos de críticas e
de questionamentos por parte deles. E é justamente
por meio do exercício dialógico entre pais e filhos
e destes entre si que os filhos vão ser capazes de
construir seus próprios valores, de desenvolver suas
idéias e aprender a defendê-las nos diversos ambientes
onde estiverem inseridos.
Portanto, pode-se dizer que a família é um rico espaço
de aprendizagem, o primeiro da vida da criança. É
aí que ela começa a receber as primeiras informações
sobre o mundo, a fazer suas experiências iniciais.
Mas é também nesse espaço de encontro que a criança
vai aprender a expressar suas emoções, estabelecendo
seus primeiros vínculos afetivos, os quais servirão
de modelo para os futuros relacionamentos que ela
há de construir pela vida afora.
É ainda no seio da família que os filhos poderão se
iniciar no exercício de uma competição saudável entre
irmãos, o que é fundamental nos dias de hoje. Numa
época em que, de modo geral, o individualismo e as
atitudes egoístas parecem ser a tônica das relações
interpessoais, mais importante se torna que os filhos
possam ter, dentro do lar, a oportunidade de experimentar
uma forma diferente de relacionamento, baseado no
companheirismo, na partilha, na capacidade de dividir
seus pertences, na co-operação. E tudo com a ajuda
dos pais, que podem funcionar como mediadores de todas
essas situações. Por exemplo, ao invés de dar a cada
filho uma bicicleta, melhor seria oferecer a eles
meios de compartilhá-la, por mais difícil que isso
possa parecer. A família é ainda o lugar privilegiado
para o desenvolvimento da sensibilidade, da capacidade
de escuta do outro.

Ao mesmo tempo, nessa dinâmica familiar, os pais também
têm muito a aprender. Eles são igualmente impelidos
a ampliarem seus relacionamentos no convívio com os
filhos, saindo de sua relação dual inicial, aprendendo
assim a compartir espaços, a partilhar vivências,
a expressar emoções. Portanto, tanto quanto para os
filhos, o ambiente familiar pode ser para eles um
espaço de crescimento, desde que estejam abertos a
essas experiências. Afinal, é na convivência com os
filhos que eles aprendem a ser pais.
Hoje, muito mais do que antes, por conta da quantidade
de conhecimentos a que os filhos têm acesso, os pais
são constantemente questionados, tanto com relação
a informações objetivas, quanto a questões éticas
e morais, a valores, a questões sociais. Essa parece
ser uma característica do mundo atual, pois é comum
que os filhos atinjam rapidamente um nível de desenvolvimento
igual ou até superior ao dos próprios pais, o que
pode dificultar o diálogo entre eles. Quando isso
ocorrer, os pais não devem se sentir ameaçados; é
importante que essas situações possam ser vivenciadas,
com humildade, como ricas oportunidades de trocas,
de complementariedade entre os diversos membros da
família.
Todas essas experiências, junto com a tomada de consciência
por parte das pessoas nelas envolvidas, acrescidas
do desenvolvimento de uma dose de sensibilidade pelas
questões relativas ao próximo podem ser a base de
um sentimento muito necessário nos dias de hoje: a
solidariedade. Sentimento que pode se concretizar
em forma de atitudes, de ações a se iniciarem dentro
da família, entre seus próprios componentes. Essa
solidariedade aprendida e vivenciada no grupo familiar
certamente terá repercussão em outros ambientes.
Um dos grandes problemas da vida contemporânea e que
representa uma grave ameaça ao relacionamento familiar
é o pouco tempo de convivência entre seus membros.
Por um lado, na primeira fase da vida, os pais precisam
estar fora do lar durante muitas horas seguidas, por
conta de compromissos pessoais e profissionais, o
que os leva a colocarem os filhos, desde muito cedo
em creches e depois em escolas, ou a deixá-los entregues
a outras pessoas, as quais recebem a incumbência de
educá-los. Por outra parte, quando os filhos crescem,
também passam a se ausentar de casa por longos períodos,
por motivo de estudo ou mesmo de lazer. Desse modo,
hoje em dia, o tempo de convívio entre as pessoas
está bastante reduzido, o que exige que a qualidade
do investimento nos relacionamentos - entre o casal
ou entre pais e filhos - possa superar a pequena quantidade
de tempo a eles dedicada. Além disso, parece extremamente
relevante que as pessoas e as escolas incumbidas de
educar as crianças sejam merecedoras da confiança
dos pais, para que a educação possa ser um processo
coerente.

Depois de tudo que foi exposto, é possível perguntar:
e o amor? Onde ficou aquele amor, em nome do qual
antigamente se dizia que eram gerados os filhos? Será
que ele se tornou dispensável nas relações atuais?
Não! Certamente o amor não ficou obsoleto! Ele continua
a ser o ingrediente principal que une as pessoas,
que as faz quererem estar juntas e a se proporem a
criar cada nova comunidade familiar. E esse amor cada
vez mais deve ser alimentado, para poder adubar os
relacionamentos. Só o amor verdadeiro é capaz de garantir
a confiança e a fidelidade, não só entre os cônjuges,
mas entre todos os membros da família.
E o que é esse amor verdadeiro? Não será uma mera
idealização, uma fantasia piegas de tempos passados?
Ainda hoje ele é real e necessário, podendo ser definido
como um forte sentimento de afeto entre as pessoas,
o qual deve ser construído dia a dia; que precisa
se expressar concretamente; que nunca chega a ser
perfeito, mas que deve buscar continuamente o aperfeiçoamento,
o crescimento.
Em síntese, ser família hoje é ter que competir
com inúmeros apelos da realidade atual, os quais,
embora sejam positivos em si mesmos, muitas vezes
interferem negativamente na dinâmica familiar. É o
que ocorre com a mídia, que invade os lares, ocupa
seus espaços de relacionamento sem pedir licença,
às vezes até impingindo valores contrários aos das
famílias. O mesmo pode ocorrer com toda a tecnologia
que deveria estar a serviço das pessoas, mas que freqüentemente
se impõe de tal forma, que rouba quase que completamente
o tempo de convivência entre elas. Quem nunca percebeu
o quanto a televisão ou o computador podem esvaziar
os relacionamentos de uma família? Mas, para que isso
não ocorra, tudo deve ser aproveitado como objeto
de reflexão crítica entre as pessoas. De nada adiantaria
proibir um determinado programa de TV, mas utilizá-lo
como tema de um animado debate pode ser muito enriquecedor.

Cumpre ressaltar ainda o caráter consumista do mundo
atual, marcado não só pela necessidade crescente de
gratificações múltiplas e imediatas, como também por
uma enorme agitação. Diante desse estado de coisas,
a família pode desempenhar um papel significativo,
funcionando como um "oásis", capaz de oferecer a tranqüilidade
necessária para o equilíbrio das pessoas, ajudando-as
a desenvolver a busca de um sentido mais profundo
e duradouro para suas vidas. Aqui se inclui a formação
religiosa, com suas crenças e práticas, naquelas famílias
que valorizem essa dimensão da fé.
Concluindo, pode-se dizer que constituir família
hoje ainda é uma realidade. Ser - e permanecer
- família hoje, um enorme desafio! O de se
conseguir criar em casa um ambiente agradável, atraente
e harmonioso, onde as relações sejam marcadas pelo
afeto e principalmente pelo respeito entre as pessoas,
pelo acolhimento das diferenças. Só assim se torna
possível manterem-se esses vínculos, fazendo com que
esse padrão de relacionamento sirva de modelo para
a vida fora do lar. E essa família assim constituída
pode representar para seus membros um espaço de referência,
ao qual sempre é possível retornar, para reabastecer
afetos e valores. (NA)
|