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a Revista de la Pátria Grande


IDÉIAS EM REDE / IDEAS EN RED

E a família, como vai?
Abordagem teológica
Ana Maria Tepedino
Professora da PUC-Rio
Drª em Teologia pela PUC-Rio
Rio de janeiro – Brasil



Foto João Ripper
Como está presente en el Génesis 2, Dios creó al hombre y la mujer destinados el uno al otro. No creó el patriarcado; creó los dos sexos interrelacionados e interdependientes, existiendo en la relación. Es en este sentido que el hombre y la mujer son imagen de Dios. El amor que surge de su unión transborda en los hijos, bendición de la vocación del amor que es irradiado. El matrimonio entre un hombre y una mujer significa una Alianza, que representa la relación de Dios con la humanidad y la de Cristo con la Iglesia. Los documentos de la Iglesia afirman que la familia no sólo es formadora de personas – escuela del más rico humanismo –, es también educadora de fé, de los valores cristianos de solidaridad, generosidad y lucha por justicia.



INTRODUÇÃO

Hoje em dia só se ouve dizer que "as famílias vão mal". No entanto, a função que ela desempenha na sociedade continua sendo insubstituível. Crianças precisam ser geradas, cuidadas, acarinhadas, educadas, instruídas, para serem pessoas sadias no futuro. E olhando a situação das famílias hoje percebemos aspectos tanto positivos como negativos.

O papa João Paulo II assim se expressa diante desta realidade: "Por um lado existe uma consciência mais viva da liberdade pessoal e maior atenção à qualidade das relações interpessoais no matrimônio, à promoção da dignidade da mulher, à procriação responsável, à educação dos filhos; há, além disso, a consciência da necessidade de que se desenvolvam relações entre as famílias para uma ajuda recíproca espiritual e material, a descoberta da missão eclesial própria da família e da sua responsabilidade na construção de uma sociedade mais justa".[1] Por outro lado, contudo surgem sinais preocupantes de falta de alguns valores fundamentais: dificuldades concretas na transmissão de valores; graves ambigüidades acerca da relação de autoridade entre pais e filhos; desintegração familiar através de separações e divórcios com muita facilidade; violência doméstica, ênfase no individualismo, falta de atenção aos filhos. Na nossa realidade brasileira um grande número de famílias não têm meios básicos de sobrevivência: como alimento, trabalho, habitação, saúde. Como ser famílias neste contexto? Surgem, então, diferentes modelos de "famílias"!

As transformações técnicas, econômicas, e sociais provocadas pela Globalização que reduz a distância entre as diferentes nações produziram uma nova cultura, que influi nos hábitos e valores, costumes e comportamentos dos povos. Este fenômeno repercute na ética, na economia, na cultura e na religião.

Este quadro poderia ainda ter cores mais sombrias. No contexto deste artigo não poderei fazê-lo. Por isso, penso que o melhor seria refletir um pouco sobre os desígnios de Deus sobre o matrimônio e a família como nos são apresentados pela Bíblia.


TEOLOGIA DA CRIAÇÃO

Relendo hoje o relato da criação que aparece no livro de Gênesis 2, 18-24 somos informados que Yahweh criou Adam e viu que ele se sentia só, não se sentia feliz. E pensou que isto não era bom. A obra boa da criação não estava perfeita. Decidiu criar uma companheira que lhe "correspondesse"[2]. Os animais não suprem a solidão de Adam. O homem os nomeia e exerce domínio sobre eles, mas precisa da comunicação. Então, o Senhor Deus adormeceu o homem, e tirou-lhe "do lado" uma costela, com a qual formou a mulher. Isto quer significar que a mulher é da mesma natureza do homem, diferente, portanto, dos animais. O homem e a mulher são fagulhas do amor de Deus! A costela retirada do homem é símbolo de igualdade absoluta entre os seres, e da solidariedade entre eles. O texto não apresenta a subordinação da mulher, como foi muitas vezes interpretado, mas ao contrário, apresenta a igualdade fundamental, na qualidade de seres humanos, do homem e da mulher. Quando o homem acorda e vê a mulher explode em poesia, começa a falar, a se comunicar "essa sim é osso dos meus ossos e carne da minha carne! Se chamará Mulher "ISHA", porque do Homem "ISH" foi tirada" (Gn 2,23). Neste momento ao reconhecer a mulher, ele se reconhece como homem. Os dois se olham e se reconhecem! Aí está o apoio, a companheira que acaba com a solidão. Podem se olhar de frente, olhos nos olhos, face a face, rosto a rosto, viver o amor e a comunhão. Um recebe o seu ser do outro! Ou como descreveu poeticamente uma teóloga: "Uma saudade imensa os invade, vinda da noite dos tempos, e finalmente encontra descanso e sentido, como um rio que desce tortuoso até o abraço do mar"[3].

Foto João Ripper

O teólogo Paul Beauchamps afirma que o homem se humaniza diante da mulher, pois ao vê-la explode em palavra[4], em linguagem, em comunicação, em poesia. Só neste momento o texto o apresenta falando por si próprio. Até este momento o narrador dizia o que o homem estava realizando e se utilizava o termo genérico "Adam", que vem de "Adamah", terra, porque fora tirado do pó da terra. Somente depois da criação da mulher, ocorre o termo específico para homem "Ish".

O texto continua e afirma: os dois se tornam uma só carne (Gn 2, 24). Isto aponta para uma comunhão de vida, comunhão de pessoas distintas mas com igual dignidade. O texto relata que o homem deixa pai e mãe, ao contrário do que acontecia com a família patriarcal, pois era a mulher que deixava a casa paterna. Mas, Deus não criou o patriarcado, e sim o varão e a mulher, destinados um ao outro. O Ish se unirá à Ishah, o que explica a irresistível atração do homem pela mulher, inclusive na ruptura com a família patriarcal de origem (Gn 2,2)[5]. A força deste amor faz que o homem abandone a casa paterna, a segurança, a dependência da família, saia da "totalidade fechada"[6] e os dois deverão iniciar uma nova unidade, viver um novo tipo de relação, uma nova comunidade de vida e amor. Portanto, podemos afirmar que os dois sexos são inter-relacionados e interdependentes. Existem na relação. Neste sentido é que o homem e a mulher são imagem de Deus. Se afirmamos que a imagem de Deus é a relação, então esta é central para nós. Aí encontramos o Mistério Maior do qual somos fagulhas; aí encontramos a força unitiva na diferença. Este amor transborda através dos filhos "Crescei e multiplicai-vos" foi a benção que receberam. A família é conseqüência desta benção, desta vocação do amor a se irradiar.

A inferioridade permanente da mulher com relação ao homem própria da instituição do casamento patriarcal é rompida, no plano teológico, quando se reflete sobre o casal diante de Deus.


CHAMADOS AO AMOR

O Novo Testamento apresenta Deus como amor (cf 1 Jo4,8.16). Ao criar o homem e mulher à sua imagem e semelhança Deus chama-os à existência por amor e para amar[7]. A imagem de Deus impressa no ser humano é a imagem de Deus Trindade: Pai, Filho e Espírito Santo, comunhão de pessoas, comunhão de amor, da qual o ser humano é chamado a participar.

O matrimônio entre um homem e uma mulher significa uma Aliança, que simbolicamente representa a relação de Deus com a humanidade, e a de Cristo com a Igreja. Esta realidade humana é elevada a sacramento, e recebe a graça de Cristo para que a missão confiada a eles seja cumprida: ser sinais do amor de Deus no mundo em todas as atividades da vida cotidiana. Para conseguir isto, o amor tem que crescer através da vida interior (oração, espiritualidade). O amor entre os esposos deve ser continuamente cuidado, pois desta forma estaremos aprofundando o nosso amor a Deus. A vida do casal cristão não é um mar de rosas, ocorrem problemas, dores, sofrimentos, como para todas as pessoas. A diferença está na maneira de enfrentá-los, confiando em que a graça do sacramento do matrimonio os ajude nestes momentos difíceis.

Hoje está ocorrendo o seguinte: muitas vezes diante da primeira dificuldade que surge muitos casais se separam. Na verdade toda relação humana é muito difícil, uma relação íntima mais ainda. Um aspecto que hoje é escondido é este aspecto das crises, do sofrimento, dos problemas, da Cruz. E não existe família, não existe casamento onde esta realidade não esteja presente. É preciso ser forte, ir progressivamente construindo um amor mais profundo para poder enfrentar estes dias sem sol. Cada vez mais percebemos a necessidade do diálogo, da compreensão, da tolerância, da generosidade, do perdão. Trata-se de um aprendizagem feita no dia-a-dia. Começar de novo, virar páginas, acolher as diferenças, escutando e respeitando.


CONCLUSÃO INCONCLUSA

Poderíamos afirmar que muitas vezes "há uma pedra no meio do caminho". Temos que reconhecer que existe uma distância entre o ideal cristão e a vida concreta das pessoas. No entanto, temos a convicção de que embora a fé não nos tire dos problemas, crises e sofrimentos, ela nos ajuda a superá-los. Os documentos da Igreja afirmam que a família é não só formadora de pessoas, escola do mais rico humanismo; mas também educadora de fé, dos valores cristãos da solidariedade, da generosidade, da luta pela justiça. Ela é considerada também escola de comunhão e participação, e neste sentido pode ser fermento, colaborar efetivamente para a construção de uma nova sociedade. Mas esta fé necessita ser cultivada através da espiritualidade, da oração pessoal e comunitária.

O projeto de Deus para a família, projeto de amor e comunhão é fortalecido pela graça do sacramento do matrimonio que torna possível sua vivência no dia-a-dia. Grande ajuda constituem-se os movimentos familiares, as reuniões de casais para fazer face aos problemas que ocorrem na vida familiar, na educação dos filhos, nas crises de geração. Algumas vezes ocorrem a convivência de várias gerações numa mesma casa, o que desafia seus membros a uma convivência respeitosa e cuidadosa onde a sabedoria dos mais velhos seja reconhecida e harmonizada com os direitos dos mais novos.

Foto Rodolpho Oliva

As famílias que não ficam fechadas em seus próprios problemas, mas se abrem para a perspectiva social tem mais chance de descobrir um caminho que as ajuda a re-dimensionar as suas próprias dificuldades.

Tudo na vida é processo. Assim como a fé, também o amor precisa amadurecer. Cada dia temos que cuidá-lo, pois é uma plantinha frágil, que precisa de cuidados para que se solidifique e tenha condições de enfrentar as intempéries. Para podermos viver a fidelidade, a inter-ajuda mútua, a indissolubilidade temos que construí-la no cotidiano de nossas vidas, senão aquela linda promessa do dia do casamento cai no vazio. E que o Espírito de Amor nos ajude nesta caminhada pelas estradas da vida. (NA)


[1] Cf. JOÃO PAULO II, Exortação Apostólica Familiaris Consortio, n.6.
[2] Corresponder é uma palavra carregada de um sentido profundo. Cor-responder quer dizer responder com o coração, o que significa, responder com a pessoa inteira, não apenas com a razão, pois para o semita o coração era o centro de todas as faculdades humanas. Os lingüistas afirmam que cor-res-ponder significa por o coração nas coisas. Se dividimos em Co-responder significa responder junto, comunitariamente. Portanto, corresponder seria a mais profunda resposta que um ser humano poderia dar. Heidegger e Levinas também pensavam assim!
[3] M. SOAVE, A Palavra na vida, CEBI, 2001, 17.
[4] Cf. P. BEAUCHAMPS, L´un et l´autre Testament, t II:Accomplir les Ecritures Paris, du Seuil, 1990, p. 117.
[5] Cf. F. TABORDA, Matrimonio, Aliança, Reino, São Paulo, Loyola, 2001, p.52.
[6] Esta expressão é de Enrique Dussel em sua obra Ética da Libertação
[7] João Paulo II op. cit. p.11.

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